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Contos por contar

Contos por contar

06
Mar21

O Pedro e a vela

Cristina Aveiro

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Era uma vez um menino chamado Pedro que vivia na Praia da Barra. Pedro não tinha irmãos, nem irmãs e gostava muito das suas duas primas. Estava sempre à espera das férias de Verão para estarem todos juntos durante mais tempo.

Naquele Verão os três primos foram para a escola de vela, era um sonho da tia do Pedro que quando era pequenina gostava de ter aprendido a velejar. Pedro e as primas iam de manhã bem cedo para as aulas, equipavam-se com os fatos de surfista pretos justos ao corpo para não terem frio, com os coletes salva-vidas vermelhos e lá iam pôr os pequenos barcos na ria. Os barcos eram optimist, pequenos barquinhos onde apenas cabia uma criança, pareciam quase umas banheiras grandes.

Todos os dias aprendiam coisas novas, era uma aventura fascinante conduzir o barco. Às vezes quando havia mais vento e o barco se inclinava muito fazia um pouco de medo, mas era um desafio controlar o barco e manobrar com rapidez. Aprenderam a virar o barco e depois a voltar a pô-lo de novo sobre a água. A prima mais nova não gostava nada de fazer estes exercícios, dizia sempre que não queria que o barco se virasse, por isso não tinha nenhuma vontade de o virar de propósito. O professor que os acompanhava explicava que tinham que aprender a virar de novo o barco porque ele podia virar-se e eles tinham de ser capazes de resolver o problema lá no meio da ria sem estar à espera de ajuda.

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Ao final do dia tinham que tirar os barcos da água, lavá-los e arrumá-los para o dia seguinte. Quando tudo acabava, às vezes ainda iam a mais um banho na ria. A seguir, tinham que ir comer, estavam sempre esfomeados e muito cansados, mas felizes.

Passou a primeira semana e como tinham gostado tanto, ficaram mais outra semana e cada vez iam mais longe, conseguiam aguentar vento mais forte e já eram capazes de participar nas regatas entre os alunos. Havia alunos que já faziam cursos há muito tempo e que conseguiam andar com mais velocidade e ser mais certeiros nas manobras com o barco, mas os três primos conseguiam fazer os percursos e todos diziam que eles tinham feito enormes progressos.

As férias acabaram e as primas foram embora, mas o Pedro queria aprender mais, gostava que o Verão e aulas de vela não acabassem. O bichinho da vela tinha entrado nos seus sonhos, ele gostava de andar de bicicleta, de jogar futebol, mas a vela tinha-lhe dado momentos muito especiais.

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Foi então que os seus pais lhe perguntaram se ele queria continuar durante todo o ano. O Pedro ficou muito contente e disse logo que sim. Nesse ano todos os fins-de-semana lá ia ele todo satisfeito para a ria. No Inverno era mais duro, fazia frio, o vento era mais forte, a ria estava muito mais agitada e as correntes eram muito fortes, o desfio era maior, mas estar ao leme do pequeno barco, dominar a vela e tentar ultrapassar os amigos da vela eram os melhores momentos da semana.

Voltou o Verão, e as primas regressaram para novo curso com o Pedro, e voltaram a ir os três, mas que diferença, o Pedro já parecia um professor, ia com os mais velhos, os que faziam vela o ano inteiro. Quando estavam os três era o Pedro que dava conselhos e ensinava técnicas para entrar melhor na doca, ou vencer a corrente mais facilmente. Quando o Pedro fez anos, teve uma surpresa que o encheu de orgulho, recebeu o seu primeiro barco e não cabia em si de contente, adorava-o. Se numa saída para a água fazia um pequeno risco, ou se uma peça se partia, ficava todo triste, aquele seu barquinho era o seu orgulho.

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Começou a ir a regatas a sério em várias cidades, a ir ver regatas com os barcos da ria e outras com barcos sofisticados.

O Pedro foi crescendo e depois já não cabia nos barcos pequenos. Foi o tempo de se despedir do seu barquinho adorado. Uma nova aventura começava, agora passou a andar num 420, um barco maior que era tripulado por duas pessoas, o Pedro e um grande amigo seu, que formavam uma equipa. Era um barco grande com três velas, com um mastro enorme que fazia parecer o casco minúsculo. Os desafios foram sendo cada vez maiores, foi a muitas regatas e continuava a adorar velejar, agora já ia para o mar aberto, para os grandes portos e cruzava com navios de carga enormes.

Pedro sonhava com barcos maiores, com equipas com muitas pessoas, sonhava mesmo pilotar barcos grandes a motor em viagens à volta do mundo,… Quem sabe, tudo pode acontecer quando queremos muito e nos esforçamos por conseguir. Nunca podemos saber até onde o sonho e a vela nos podem levar.

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28
Nov20

A menina que queria ser professora

Cristina Aveiro

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Há muito, muito tempo, uma menina pequena, calma e alegre vivia numa pequena aldeia onde todos eram pequenos agricultores e viviam com muita simplicidade. Todos os dias era preciso ir buscar a água à fonte para poderem lavar-se, cozinhar e mesmo dar aos animais.

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Eduardo Gageiro

Não havia eletricidade e usavam candeeiros que queimavam combustível para dar luz. A comida era feita à lareira com o calor da lenha que se queimava. A roupa era lavada no ribeiro ou junto a poços de onde se tirava a água, o único detergente era o sabão azul.

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                                          Artur Pastor

Desde muito cedo todos trabalhavam para a família ter o suficiente para viver. Havia incontáveis tarefas da agricultura que incluíam semear, regar, apanhar alimento para os animais, colher frutos, feijões, milho, batatas, …

img-8-small700.jpg                                                  Artur Pastor

Em casa também havia sempre muitos afazeres, desde cuidar dos animais, amassar e cozer a broa, fazer a sopa, passar a ferro com o ferro a carvão. À noite no verão costumavam juntar-se numa eira ou num pátio com vizinhos e amigos a contar histórias antigas, a cantar e quando havia alguém que savia tocar concertina ou realejo era uma festa. 

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Quando a menina fez sete anos começou a ir à escola, ia um grupo de meninos da aldeia até ao lugar onde havia a escola mais próxima. A primeira vez foi um adulto com eles para aprenderem bem o caminho, mas depois já iam sozinhos a pé durante mais de meia hora. Os meninos da aldeia tinham todos roupas parecidas, feitas de chita ou outros tecidos modestos e iam todos descalços porque não tinham sapatos. Na escola havia meninos que viviam mesmo junto à escola e que tinham roupas um pouco melhores e usavam sapatos, mas todos estavam lá para aprender e o resto não importava.

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A menina ficou fascinada com a sua professora, era bonita, tinha a pele muito clara, roupas claras e muitos limpas, como se fossem roupas de domingo. As mulheres que a menina conhecia vestiam roupas escuras, grosseiras, tinham a pele escurecida pelo sol e pareciam mais cansadas e impacientes. Ali começou uma aventura fascinante de descoberta das letras, dos números, das contas, da história do seu país. A menina não perdia uma palavra do que dizia a professora, tudo a deixava quase sem conseguir respirar para não deixar fugir alguma coisa importante. Aprendeu a ler correctamente muito depressa e às vezes a professora chamava-a, punha-a no seu colo para que todos a pudessem, ver melhor e pedia-lhe para ler para os outros alunos. Nestes momentos a menina sentia uma alegria como nunca tinha sentido antes.

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Quando regressava da escola ia logo fazer as tarefas que a mãe lhe tinha destinado e assim que podia ia ler os livros da escola porque lá em casa não havia mais livros. À noite depois de terem jantado quando a família ficava à volta da lareira antes de se irem deitar, a menina gostava de conversar sobre a escola e de ler alto para todos quando lhe deixavam. Apenas o pai sabia ler, a mãe não, mas sabia fazer contas sem nunca ter ido à escola.

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À medida que ia crescendo a menina era ensinada a fazer todas as coisas que as mulheres da aldeia deviam saber para poderem tomar conta de uma casa e cuidar das terras. A menina gostava de aprender também a fazer estas tarefas, mas na escola o que aprendia era surpreendente, falava-se de coisas que nunca tinha ouvido, visto ou imaginado.

Os anos passaram e a menina fez os quatro anos de escola e a sua adorada professora disse aos seus pais que a menina estava preparada para fazer o exame da quarta classe. Um dia lá foi a menina com as suas tranças bem apertadas, num fato de domingo, com sapatos e tudo a uma escola na cidade. Foi um dia inesquecível, houve algum receio, mas tudo correu bem e a menina teve uma nota brilhante. No final até houve tempo para ir ao parque infantil andar nos baloiços.

 

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No final desse dia, a professora disse aos pais da menina que ela tinha muito talento, era muito inteligente e que era muito importante que continuasse a estudar. Naquele tempo quase todos os alunos só estudavam até ao quarto ano. Havia escolas para continuar a estudar, mas só na cidade e não era possível ir e vir todos os dias a pé uma criança tão pequena.

Os pais ficaram a pensar no que a professora tinha dito, mas eles não tinham posses para dar os estudos à menina e também tinham muito medo de a deixar ir sozinha para a cidade para a casa de alguém para poder continuar a estudar. Na aldeia todos deixavam a escola no quarto ano, eles estavam contentes por haver escola para os seus filhos, porque eles nem sequer tinham ido à escola, pensavam que já seria o suficiente.

A menina ficou profundamente triste por no ano seguinte não voltar à escola, nunca tinha dito a ninguém mas o seu sonho era ser professora e ensinar meninos a ler, a escrever a contar e tudo mais. Era um sonho impossível, já lhe tinham dito que não ia poder continuar a estudar. A menina aceitou a decisão dos pais, mas continuou sempre a aproveitar todas as oportunidades para aprender, para ler tudo o que lhe vinha parar à mão, requisitava livros na biblioteca itinerante que era uma espécie de camionete cheia de livros que percorria as aldeias de tempos-a-tempos.

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Os pais queriam dar-lhe o melhor futuro possível, livrando-a da vida dura do campo. Um dia disseram à menina que ia aprender costura com a tia Mansa. Disseram à menina que era um trabalho mais limpo, mais mimoso e mais leve do que trabalhar no campo e que como ela aprendia bem ia com certeza gostar.

A menina foi aprender a costurar, gostava de costurar, a máquina de costura e o seu funcionamento tinham alguma magia, rapidamente aprendeu o essencial. Passou a ir para a casa das pessoas com a máquina Singer que recebeu de presente aos catorze anos. Fazia calças, camisas, saias, cuecas, soutiens, ceroulas, sacas, remendava, … Todas as roupas das pessoas eram feitas pelas costureiras ou pelo alfaiate, não havia roupas feitas nas lojas para vender. Ela tinha sempre muito trabalho. Quando estava a fazer trabalhos mais monótonos imaginava como seria se fosse professora, que coisas teria de aprender para saber ensinar.

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Gostava de fazer as roupas para as pessoas, era feliz a costurar mas o seu sonho nunca foi esquecido, quem sabe se ainda ia conseguir!

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