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Contos por contar

Contos por contar

20
Fev22

No reino encantado dos Sapos Verdes

Cristina Aveiro

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Há muito muito tempo, agora mesmo e para sempre havia um reino diferente de todos os outros, um reino encantado, o Reino dos Sapos Verdes. Todos os habitantes do reino tinham chegado de outros lugares e reinos.

As portas do reino estavam sempre abertas para todos, os que chegavam e iam ficando, para os que iam de visita apreciar as criações e construções dos habitantes do reino.

Naquele reino distante e ao mesmo tempo visível da nossa janela, mesmo ali ao lado, os sapos eram todos diferentes, grandes, enormes, pequenos, verdes muito verdes, castanhos, amarelos, era um verdadeiro arco-íris. Havia sapos sempre a transbordar de energia, quais formiguinhas laboriosas que estavam sempre a criar e a desafiar os seus vizinhos para se lançarem em aventuras sem fim, navegarem por mares nunca antes navegados, irem a lugares onde nunca tinham ido, dentro e fora do reino, dentro e fora deles mesmo.

Havia sapos mais tranquilos, quase preguiçosos mas que com o canto e incentivo dos outros habitantes do reino ganhavam energia renovada e desabrochavam em criações magnificas que todos admiravam.

Naquele reino cada sapo era rei e podia usar  a coroa que desejasse, ou então outro qualquer adereço que melhor lhe assentasse consoante o seu sentir do momento ou a sua identidade mais permanente.

O poder de reinar levava os sapos a sentir uma liberdade enorme para criar, partilhar, desafiar, desabafar, ... enfim para encontrar mundos que tantas vezes nem sabiam que tinham dentro de si. A coragem de partilhar as suas descobertas ia aparecendo à medida que caminhavam e que o tempo ia correndo. À medida que iam partilhando e mostrando as suas criações recebiam a atenção dos outros sapos do reino e sentiam alegrias novas nunca antes sentidas. Umas vezes aplausos, outras encorajamento e consolo, e outras silêncios que também existem e têm a sua função. Com o tempo, e com a atenção recebida iam percebendo a importância que tinha para si e davam também a sua atenção aos restantes e retribuíam o que iam recebendo, chamavam abraços a este modo especial de viver no reino.

Podem pensar que um lugar assim não existe, não é real.

Posso garantir que este lugar existe, pode ser difícil de encontrar, mas existe. Para encontrar este lugar é preciso procurar dentro e fora de nós de coração aberto e agarrando aquele pedaço de coragem que é preciso para sair do lugar onde sempre estivemos.

  

 

 

21
Mar21

O Sapo

"Animais nossos amigos" - Afonso Lopes Vieira

Cristina Aveiro

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O Sapo

Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
    Para uma horta ou jardim,
  Para os tratar com amor.

       É o guarda das flores belas,
 da horta mais do pomar;
        e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...

    Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
   e fazem tristes as flores.

    Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
            a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.

       E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
     brilham no céu as estrelas,
 e ele ronda, a trabalhar...

       E ao pobre sapo, que é cheio
 de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
     e há quem o mate e persiga

        Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
          - «Então ele traz-nos guardadas,
   e depois pagam-lhe assim?»

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
   as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...

Afonso Lopes Vieira, in 'Animais Nossos Amigos'

 

É assim que eu sinto a poesia porque o meu jardim infantil chamava-se "Animais nossos Amigos", em Leiria, na terra do poeta que dedicou os versos de que mais gosto para crianças.

A cidade erigiu um espaço mágico onde brinquei e aprendia a amar os livros, até tinha uma biblioteca pequenina.

"Horácio Eliseu, em 1949, apresenta um projeto para um Jardim Infantil, com uma pequena Biblioteca das obras infantis de Lopes Vieira, ajardinado exteriormente com as figuras do livro de 1911, Animais Nossos Amigos, esculpidas em pedra, fundidas em bronze e desenhadas em painéis de azulejo por Anjos Teixeira Filho. O Mestre acrescenta os passarinhos31 e um painel azulejar com as abelhas. O projeto efetivou-se e, a 30 de abril de 1955, no mesmo dia em que se inaugurava a Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, fazia-se uma festa dedicada às crianças no Jardim Infantil Afonso Lopes Vieira. Nesta data estiveram presentes o Arquiteto Raul Lino e o Mestre Anjos Teixeira."

 

Jardim animais nossos amigos.jpg

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Raul Lino

 

 

 

 

28
Jan21

O Sapo Apaixonado, a Rã e a Cobra Verdinha

Cristina Aveiro

Sapo-Matilde Aveiro.jpgDesenho da Matilde Aveiro

Era uma vez um sapo lindo, lindo, muito jovem e que todos no jardim adoravam, em especial a sua mãe. A mãe sempre lhe dissera que ele era simpático, elegante, que tinha uma graciosidade invulgar, que parecia que tudo nele era perfeito. Nem todos o viam desta maneira, ele dava pequenos pulos pois era pesado e com as suas patas curtas e o seu corpo achatado e gorducho não conseguia dar saltos verdadeiros, quando andava era desajeitado mas todos gostavam dele na mesma, era boa companhia, quer na água quer em terra, nas margens do lago.

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O sapinho vivia num jardim muito grande com colinas, um longo riacho, um lago grande e um sem número de animais onde as pessoas gostavam passear. Havia libelinhas, patos, patinhos, relas, rãs, muitos pássaros e aves. Havia melros, pegas, pardais e nem sei quantos mais!

Quando uma criança se aproximava da margem do riacho do jardim, parecia que tinha começado uma prova de salto em comprimento, só se via as relas e as rãs a saltarem para a água e a desaparecerem no meio das ervinhas verdes redondas que cobriam as águas do riacho.

As crianças ficavam todas divertidas ao verem os saltos rápidos e altos que elas conseguiam fazer. Nestas corridas e saltos quem ganhava eram as relas porque as suas pernas enormes e o seu corpo pequeno e mais leve levavam-nas mais alto.

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O sapinho quando sentia passos a aproximarem-se procurava um sítio mais escondido entre os juncos e as ervas mais altas e ficava muito quieto à espera que se afastassem. Muitas vezes ficava ali no seu cantinho sossegado a ver os saltos das suas atléticas e esguias vizinhas e a escutar enquanto coaxavam. Ele gostava muito de as escutar, as relas pareciam patos a grasnar enquanto as rãs faziam sem parar.

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O sapinho achava as rãs lindas, com a sua pele tão lisa e brilhante, sempre molhadinha daquele verde com as manchinhas escuras pelo corpo. Adorava também aqueles olhinhos esbugalhados. A boca delas também o fascinava achava que até já tinha visto os dentinhos de cima de uma delas quando lançava a língua a um mosquito. Ele não sabia, mas até começava a pensar que estava a apaixonar-se.

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Começou a tentar aproximar-se e a fazer os seus cantos mágicos, mas elas não reparavam sequer. E ele continuava a fazer bréiii, bréiii mas elas nem reparavam.  As pernas delas eram longas, fortes e muito musculadas, com os seus pezinhos delicados com cinco longos dedos unidos por membranas que as faziam deslizar velozes na água como nenhum outro bicho do lago.

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Será que elas não olhavam para ele por ter a pele rugosa com aquelas bolinhas salientes, ou seria por ser um bocado gordo e não conseguir saltar, enfim dava pulos, mas era algo desajeitado.

Tentou mostrar-se melhor erguendo-se nas quatro patas, mas nem assim elas mostraram interesse. A caminhar ele tinha sempre uns passos pesados e algo desajeitados mas era forte e sabia que ia encontrar a sua apaixonada, talvez não fosse uma rã, ia continuar a procurar e tinha a certeza que ia encontrar alguém de quem gostasse.

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Num dia foi até ao estrado de madeira onde as pessoas costumavam passar e ficou lá em baixo no espaço escuro e fresco entre as tábuas e o chão. Olhou para cima e no espaço entre duas tábuas, bem direita e a esticar-se estava uma linda cobrinha verde, muito elegante e esguia. O sapinho ficou fascinado. Como ela era bonita. Começou a andar pelas tábuas em pequenos pulos, até se atreveu a ir para a parte de cima para a ver melhor. Parecia que não controlava o que fazia, queria ir até perto dela, queria beijá-la, talvez ela fosse o amor que andava à procura. A cobrinha olhou para ele, começou a aproximar-se e já estava até a esticar a boca pensando num belo petisco, mas quando olhou melhor desistiu logo. Era um sapo, não servia para comer, se o abocanhasse ao apertar ele deitava um veneno e ela podia até morrer, livra, o melhor era ir para outro sítio porque com sapos é que ela não queria nada.

Cobra Verdinha.jpg

O sapinho ao ver a cobra verdinha a afastar-se ficou triste e decidiu voltar para junto do lago. Lá foi aos pulinhos, comendo um mosquito aqui, uma aranha acolá, enfim comida não lhe faltava.

Quando chegou perto do lago, já a noite ia alta e ele sentiu vontade de cantar as suas tristezas e lá começou a coaxar a sua música. Algum tempo depois sentiu movimento atras de si. Olhou e nem queria acreditar, era uma enorme e maravilhosa sapinha, bem corpulenta, com uns bracinhos curtos e gordinhos e uns olhos cheios de ternura. Assim que os olhares se cruzaram houve encantamento e desde esse dia nunca mais se separaram. Todos os anos faziam longas linhas com os seus ovinhos negros nas folhas das plantas mesmo junto da água. Todos os anos nasciam centenas de girinos que iam crescendo e depois se transformavam em minúsculos sapinhos que eram o seu orgulho.

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Quando olhava para a sua sapinha pensava sempre como tinha sido tonto ao pensar que estava apaixonado pela rã e depois pela cobra verdinha. Só depois de sentir o verdadeiro amor é que percebia como ela era bela, como estava encantada por ele e como tanto tinham em comum.

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