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Contos por contar

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06
Fev21

A festa dos burros

Cristina Aveiro

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Há muito tempo, num quente mês de Agosto, estava a família de veraneio na Praia de Paredes de Vitória. Paredes de Vitória era um lugar singular, meia dúzia de casas baixas de um só andar, três ruas, um vale arenoso percorrido por um vivo ribeiro sempre cheio de água com um caudal forte no seu leito estreito e verdejante, mesmo nos meses de Verão.

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O vale era todo cultivado, cheio de hortas, todos os cantinhos de terra cultivados com esmero. Aquele lugar pequeno era cheio de magia. A praia era extensa, plana e parecia estar guardada por dois gigantes. A Norte havia um rochedo imponente, castanho, altivo a que chamavam castelo. À filha mais velha da família aquele rochedo parecia-lhe a esfinge dos livros de História, era enorme. A Sul erguia-se um morro orgulhoso, com cor de barro vermelho com laivos suaves de um tom esbranquiçado, da mesma altura do castelo. A meio da praia corria o ribeiro que se espraiava e fazia as delícias da criançada, em especial nos dias de mar bravo.

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Nas manhãs, todo o vale ficava coberto por um espesso manto de neblina que deixava tudo refrescado, como que borrifado com zeloso cuidado. Pelo vale acima subia o fumo da única padaria do lugar, que enchia todo o vale com o cheiro doce do pão cozido e da lenha de pinho queimada. As meninas desciam pelo carreiro do vale até à padaria para comprar o pão da manhã e depois regressavam à casa por cima de uma das várias azenhas que havia bem ao fundo do vale mais perto da nascente.

Os dias de praia corriam doces, alguns eram passados dentro da barraca de lona que alugavam ao banheiro a que todos chamavam Boguinhas. Esses eram os dias de neblina, que mesmo assim eram divertidos com infindáveis jogos de cartas, jogos com pedrinhas ou conchinhas, o jogo dos três cantinhos desenhado na areia, nesses dias o tempo parecia gigante, quase sem fim.

Um dia os pais avisaram as meninas que ia haver uma romaria muito importante à capelinha de Nossa Senhora da Vitória. As meninas não sabiam o que era uma romaria e os pais explicaram que era uma festa e que neste caso era muito diferente das que já tinham visto. No dia 15 de Agosto vinha um longo cortejo de Pataias com muitas pessoas, transportadas em carroças de burros que vinham todas enfeitadas com flores e ramagens e mesmo os burros vinham com as cabeças enfeitadas com flores do campo.

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As meninas ficaram cheias de curiosidade, não imaginavam uma procissão com burros e ainda mais enfeitados. Elas costumavam ver às vezes as mulheres que vinham em carroças de burro cheias de roupa para a lavarem no ribeiro, e secar nas margens, desaparecendo ao final do dia, de regresso a Pataias, de acordo com o que lhes tinham dito.

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Agora ficaram a imaginar como seria tudo aquilo enfeitado. O pai das meninas levou-as até ao paredão para conhecerem o Zé Ilhóca, um ancião que sabia incontáveis histórias sobre aquela terra. Ele começou por dizer que aquele lugar que era agora tão pequeno, já tinha sido um importante porto de mar, o maior daquelas costas. Era de tal forma importante que D. Dinis tinha concedido Carta de Foral no ano de 1282. As pequenas nem conseguiam desviar o olhar do rosto bronzeado, cheio de rugas fundas sempre com a boina pousada na cabeça um pouco descaída para trás. Com o passar dos séculos, o mar tinha mudado tudo o que ali havia, a invasão da areia fora aos poucos matando o porto. Das 17 caravelas e do forte para defesa do porto nada restava, e até a paróquia de Paredes tinha sido mudada para Pataias, corria o ano de 1536. Desde essa data as gentes de Pataias passaram a fazer a romagem a Nossa Senhora da Vitória, padroeira de Paredes.

Quando chegou o dia, bem cedo estavam junto à ermida de Nossa Senhora da Vitória e começaram a ver lá ao longe na estrada, rasgada no meio do imenso pinhal do rei, as primeiras carroças enfeitadas. Numa delas vinha o Anjo a cantar as loas, havia também um Juiz e uma Juíza e todos estavam vestidos de modo especial, festivo e respeitoso, alegre, mas devoto.

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Ao chegarem à ermida os romeiros celebraram em animada refeição, havia música e dança. As carroças, os burros e as gentes todos descansavam e refaziam-se da longa caminhada. No final da tarde celebraram a missa, fizeram a procissão com a Senhora da Vitória e regressaram então a Pataias.

As meninas desceram do morro da ermida e continuaram a falar sem parar de tudo o que tinham visto. Sentiam-se contentes, cansadas, mas cheias de imagens coloridas e sons alegres que estavam já a formar uma memória que elas não sabiam, mas que iria durar para sempre.

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A festa dos burros continua a realizar-se no dia 15 de Agosto mantendo a tradição secular.

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