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Contos por contar

Contos por contar

11
Dez21

Recordações do Pinheiro de Natal e do Presépio

Cristina Aveiro

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Quando chegava Dezembro e começava o Advento as crianças começavam a fazer planos para o presépio e para o pinheiro de Natal. Perguntavam quando é que iam ao pinhal escolher a árvore e apanhar o musgo para fazer o presépio e insistiam na esperança de apressar os pais. Os pais iam dizendo que ainda faltava muito tempo, mas as crianças estavam ansiosas por voltar a ver aqueles objetos mágicos que só estavam presentes naqueles poucos dias do ano.

Ir ao sótão buscar a caixa de cartão onde descansavam durante todo o ano as figuras do presépio, os enfeites, as fitas e luzes da árvore de Natal era um momento de imensa alegria. Tudo parecia novo e ainda mais bonito do que se lembravam. Aquela velha caixa encerrava pedacinhos da magia do Natal que se espalhavam e enchiam a casa assim que as crianças voltavam a ver o que estava lá dentro. Todos os anos pediam mais algumas figuras para o presépio e queriam ir ao mercado com os pais para verem o que havia de novo, talvez um pescador, um marceneiro, um anjo, ou mesmo outro pastor com ovelhinhas. Quando a mãe concordava em comprar mais uma e outra figura eles ficavam contentes, mas queriam sempre mais e ficava combinado: para o ano há mais, não podemos levar todas agora!

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Foto: Olhar Viana do Castelo

E finalmente chegava o dia de ir ao pinhal procurar um pinheiro jovem que tivesse nascido junto a outros e que não tivesse espaço para crescer bem. Procuravam também o que tivesse os ramos mais fartos e bem ordenados. A seguir iam com a enorme bacia procurar o musgo. À medida que iam andando pelo pinhal e pisavam a caruma e a terra fofa libertava-se um aroma puro a floresta, madeira e ervas silvestres que tornavam esta busca inesquecível. De repente viam um enorme arbusto de gisbardeira e pediam logo para apanhar uns belos ramos para pôr no presépio, ou para a jarra da sala.

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Mais à frente as cores de Natal voltavam a brilhar num enorme pilriteiro, repleto de bagas vermelhas a que as crianças chamavam peras do menino Jesus e as quais gostavam de comer. De novo queriam também levar para casa uns ramos deste arbusto para ajudar a trazer o ambiente natalício para casa. Quanto ao musgo era toda uma variedade, do mais envelhecido e compacto, ao mais viçoso e delicado, procurando variedade de cores e texturas. Quando a bacia ficava cheia, ainda queriam continuar a busca, parecia que não queriam que aquela tarefa feliz acabasse.

Em casa era uma azáfama a colocar o pinheiro num vaso, colocar pedras e areia para fazer peso. Começavam então a pendurar os bugalhos pintados de dourado, os sinos e as estrelas feitas de cartão grosso e embrulhadas nas pratas dos chocolates para brilharem festivamente. Penduravam também uns pequenos pais natais vestidos de vermelho em chocolate que eram uma verdadeira tentação, mas que não podiam comer senão a árvore ficava despida.

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Havia também umas grinaldas prateadas e douradas que as crianças adoravam. Costumavam também pôr bolinhas de algodão branco para parecer neve. Depois de tudo estar no seu lugar as crianças olhavam contentes para o seu pinheiro, mas ficavam sempre a pensar como o poderiam tornar perfeito como aqueles que apareciam nos postais, ou nos desenhos das histórias. Os pinheiros de Natal que enfeitavam eram sempre meio escangalhados com as braças muito espaçadas e erguidas ao céu, não tinham as braças simétricas a descer graciosamente como um véu como nas árvores de Natal perfeitas dos livros e da televisão. Sonhavam também com belas bolas de vidro vermelhas grandes e brilhantes e mesmo com luzes, mas isso eram sonhos. Afinal o pinheiro de Natal estava muito bonito e enchia a casa com o seu cheiro a resina e a chocolates.

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O presépio começava com o espalhar do musgo criando vales e montes, montando as pedras que encaixavam para formar a gruta do menino, traçando os caminhos com serradura, deixando correr os rios com as pratas dos chocolates guardadas ao longo do ano, pondo ramos e pinhas fechadas a fazer de árvores e florestas com neve, … e havia sempre novos planos e acrescentos. A alegria que era colocar as figuras, as casinhas, as pontes, a lavadeira, os pastores, o anjo e claro a magia dentro da gruta. Quantas vezes iriam ajeitar o menino, a Senhora e São José durante aqueles dias especiais em que a casa tinha o seu presépio. Nestas andanças havia sempre algumas figuras que não estariam no ano seguinte, mas a alegria de sentir e poder mexer no seu presépio era imensa e ficava para sempre.

As crianças cresceram, continuaram sempre a gostar de fazer o presépio e a árvore de Natal. Agora tinham árvores “perfeitas”, ideais para pendurar os enfeites, sem zonas peladas e vazias, mas estas árvores não tinham aquele cheiro a resina, a caruma verdinha como tinha a árvore de Natal da infância que afinal era imperfeitamente perfeita.

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10
Fev21

É uma laranja ou um limão?

#4 - Verde Escuro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era aquele dia tão especial, fazia anos que tinham dado o primeiro beijo.

Ela lembrava-se de cada detalhe do momento. Tinha acabado de escurecer e andavam às voltas pelo bairro de pequenas vivendas com jardim à frente, conversavam sem se cansar. Nesse último mês tinham dado muitos passeios, tinham ido aos jardins quase todos da cidade. Ela no início tinha medo de que se acabassem os temas de conversa mas, tinha entretanto percebido que isso não acontecia. Naquele dia sentia-se uma tensão no ar, mas era uma tensão boa. Ambos viram uma árvore ao longe na frente de uma das casas do bairro e ela disse que o fruto no chão era um limão, ele disse que era uma laranja e os dois aproximaram-se para ver o fruto ao mesmo tempo e aconteceu. Ele tinha a barba algo crescida e ela a pele muito delicada, a emoção do instante não deixou perceber o que estava a acontecer e no fim ela estava com os lábios em brasa. Um pouco embaraçada quando ele a olhou interrogativamente ela foi dizendo que a barba picava um pouco e tinha arranhado. Riram os dois e nem quiseram saber afinal qual era o fruto. Ficaram apenas com a pergunta que às vezes repetiam como um código só deles: É uma laranja ou um limão?

Ela estava algo desiludida porque ele parecia ter-se esquecido do dia, antes não tinha falado em planos para um jantar, ou uma escapadinha. No dia não tinha dito nada, nem deixado um recadinho, uma flor, enfim, alguma coisa. Ela estava triste, mas tinha escolhido fazer de conta que também não se tinha lembrado, sabia que dava muito mais importância a estas coisas do que ele. Ela gostava dos pequenos gestos que lembravam o que sentiam um pelo outro e sabia que para ele bastava vivê-lo nos momentos normais da vida do quotidiano.

Como de costume foi ter com ele ao fim do dia ao escritório, ele saiu com o seu fato e a mala do computador de todos os dias, nada de flores… Ficou admirada quando ele sugeriu que fossem ao jardim favorito dela. Era misterioso com as suas árvores centenárias, de troncos cheios de musgo verde escuro, quase parecia pertencer a um livro de contos infantis com fadas e duendes. Ele sugeriu que se sentassem num banco, pousou a mala do computador e tirou de lá uma robusta garrafa verde escura, dois flutes e uma cestinha em madeira cheia de morangos gordos e perfumados.

Ela ficou sem palavras. Ele tirou com carinho o cogumelo de cortiça e foi com sorrisos que ouviram o som festivo e encheram os copos. A vibração que ela sentiu no coração e nas entranhas não se pode descrever, o momento trouxe-lhe uma memória forte e boa do instante inicial de tudo o que partilhavam. Ele ficou feliz por ver a emoção dela. Sabia que estavam ligados por um fio longo, frágil mas muito luminoso e queria guardá-lo para sempre.

Texto no âmbito do #4 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Verde Escuro

 

Neste desafio participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

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