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Contos por contar

Contos por contar

03
Mar21

O berço de todos

#7 - Azul Céu - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Foi há mais de cinquenta anos que a avó comprou aquele singelo berço com pés em vime e alcofa em entrançado de folhas de palmeira. Era um berço grande porque a avó tinha poucos recursos e queria que o seu bebé coubesse nele durante alguns meses. A alcofa também permitia transportar o bebé porque nessa altura não havia cadeirinhas especiais e carrinhos para passear o bebé. Carrinhos para passear até havia, com belas alcofas, mas essas a avó não podia comprar.

Com todo o cuidado e sabedoria de costureira vestiu aquela estrutura e aquela alcofa tornando-as dignas de um rei, criou um verdadeiro berço de ouro.

Começou por escolher um piquê de algodão com relevos arredondados em azul-celeste, assim estaria perfeito quer nascesse um menino ou uma menina. A alcofa tinha dois folhos longos rematados por um singelo bordado branco que acentuava a delicadeza e pureza que a alcofa transmitia. As pegas da alcofa foram revestidas com tiras de tecido da mesma cor e tudo parecia fazer parte daquele cantinho de céu azul. A forra à volta da caminha tinha um enchimento de esponja para tudo ser fofo e suave para o bebé, e de novo o azul recobria aquela macieza. No final o berço estava lindo, era requintado e singelo, confortável e diferente dos berços que a avó fazia para as pessoas abastadas que usavam tecidos luxuosos, mas também diferente dos singelos berços de madeira que eram mais habituais entre os vizinhos e familiares.

Berco-3.jpg

E nasceu a menina que estreou o berço, depois outra menina e ainda outra. Todas usaram o berço e foram-se afeiçoando a ele ao vê-lo ser usado pelas irmãs.

Passaram trinta anos desde que tinha sido feito e quando a primeira menina estava para ser mãe quis aquele berço para o seu bebé. Tudo foi arranjado e limpo, mas a roupa do berço estava como se tivesse sido acabada de fazer. E nasceu uma menina, e depois outra e as três irmãs e a avó deliciaram-se a vê-las no bercinho que todas sentiam como seu.

Anos mais tarde a irmã do meio voltou ao sótão da avó para ir buscar de novo o berço. E nasceu uma menina, e depois outra e as três irmãs, a avó e as netas deliciaram-se a vê-las no seu berço.

E o tempo nunca para e aquelas irmãs todas sonhavam ser mães e foi a vez de a menina mais nova ir buscar o berço. Tinha passado muito tempo desde que o berço tinha sido criado e desta vez todos ficaram a saber que vinham aí dois belos meninos de uma só vez. E foi tempo de a avó inventar um berço novo “irmão” do berço de todos. Jazendo jus à diferença entre os dois meninos, a avó comprou de novo tecido de algodão azul-celeste e usou bordado branco, mas este novo berço não ia ser igual ao antigo. A avó fez um berço que combinava na perfeição com o antigo mas que era um pouco diferente. Quando nasceram os dois meninos todos ficaram maravilhados com os belos bebés perfeitamente emoldurados pelos berços azul-celeste. A avó maravilhava-se com os seus meninos, as suas primeiras meninas e as suas queridas netas e pensava que o berço provavelmente não iria receber outro bebé nós próximos anos.

Quando veio a notícia de que vinha lá um irmãozinho para os gémeos a avó nem conseguia acreditar, quase rebentava de alegria.

Agora o berço é a casa do bebé que já nasceu nestes tempos estranhos e o berço de todos continua a embalar como se fosse um céu azul.

Quem será que ele vai acolher ainda?

 

Texto no âmbito do #7 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Azul Céu

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

01
Fev21

Pintando com palavras

O desafio de desenhar com palavras.. da Ana de Deus

Cristina Aveiro

Rosto por terminar-Desenhar com palavras.jpeg

Imagem de Ana de Deus

A jovem mãe na casa dos trinta anos tinha uma fresca pele levemente morena, um forte cabelo castanho com caracóis largos indomáveis que usava penteados para trás, num enrolado na nuca, entre um nó e um carrapito. O rosto oval, de contorno doce e meigo como o sorriso que habitualmente tinha. Lábios delicados e carnudos muito desenhados, ladeados por vincos de quem ri e sorri com vontade. As bochechas levantadas de tom levemente rosado eram a base de um olhar límpido de grandes olhos esverdeados e pestanudos. As ligeiras olheiras eram parte das marcas da maternidade recente, mas não retiravam beleza ao conjunto encimado por sobrancelhas grossas, muito bem arqueadas e com o mesmo ar indomável. algo rebelde, que também tinham os cabelos.

O seu pescoço elegante e bem definido completava aquela face de beleza natural, serena, cheia de vida, e ao mesmo tempo complexa e plena de distinção.

Esta menina mulher é a minha irmã mais nova, de quem fui um pouco mãe pois quase vinte anos nos separam. Sinto um enorme orgulho nos seus feitos e na sua beleza de mãe radiosa e mulher forte e generosa que impressiona os que partilham o seu caminho.

 

 

Texto no âmbito do Desafio "Desenhar com palavras" da Ana de Deus

 

28
Nov20

A menina que queria ser professora

Cristina Aveiro

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Há muito, muito tempo, uma menina pequena, calma e alegre vivia numa pequena aldeia onde todos eram pequenos agricultores e viviam com muita simplicidade. Todos os dias era preciso ir buscar a água à fonte para poderem lavar-se, cozinhar e mesmo dar aos animais.

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Eduardo Gageiro

Não havia eletricidade e usavam candeeiros que queimavam combustível para dar luz. A comida era feita à lareira com o calor da lenha que se queimava. A roupa era lavada no ribeiro ou junto a poços de onde se tirava a água, o único detergente era o sabão azul.

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                                          Artur Pastor

Desde muito cedo todos trabalhavam para a família ter o suficiente para viver. Havia incontáveis tarefas da agricultura que incluíam semear, regar, apanhar alimento para os animais, colher frutos, feijões, milho, batatas, …

img-8-small700.jpg                                                  Artur Pastor

Em casa também havia sempre muitos afazeres, desde cuidar dos animais, amassar e cozer a broa, fazer a sopa, passar a ferro com o ferro a carvão. À noite no verão costumavam juntar-se numa eira ou num pátio com vizinhos e amigos a contar histórias antigas, a cantar e quando havia alguém que savia tocar concertina ou realejo era uma festa. 

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Quando a menina fez sete anos começou a ir à escola, ia um grupo de meninos da aldeia até ao lugar onde havia a escola mais próxima. A primeira vez foi um adulto com eles para aprenderem bem o caminho, mas depois já iam sozinhos a pé durante mais de meia hora. Os meninos da aldeia tinham todos roupas parecidas, feitas de chita ou outros tecidos modestos e iam todos descalços porque não tinham sapatos. Na escola havia meninos que viviam mesmo junto à escola e que tinham roupas um pouco melhores e usavam sapatos, mas todos estavam lá para aprender e o resto não importava.

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A menina ficou fascinada com a sua professora, era bonita, tinha a pele muito clara, roupas claras e muitos limpas, como se fossem roupas de domingo. As mulheres que a menina conhecia vestiam roupas escuras, grosseiras, tinham a pele escurecida pelo sol e pareciam mais cansadas e impacientes. Ali começou uma aventura fascinante de descoberta das letras, dos números, das contas, da história do seu país. A menina não perdia uma palavra do que dizia a professora, tudo a deixava quase sem conseguir respirar para não deixar fugir alguma coisa importante. Aprendeu a ler correctamente muito depressa e às vezes a professora chamava-a, punha-a no seu colo para que todos a pudessem, ver melhor e pedia-lhe para ler para os outros alunos. Nestes momentos a menina sentia uma alegria como nunca tinha sentido antes.

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Quando regressava da escola ia logo fazer as tarefas que a mãe lhe tinha destinado e assim que podia ia ler os livros da escola porque lá em casa não havia mais livros. À noite depois de terem jantado quando a família ficava à volta da lareira antes de se irem deitar, a menina gostava de conversar sobre a escola e de ler alto para todos quando lhe deixavam. Apenas o pai sabia ler, a mãe não, mas sabia fazer contas sem nunca ter ido à escola.

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À medida que ia crescendo a menina era ensinada a fazer todas as coisas que as mulheres da aldeia deviam saber para poderem tomar conta de uma casa e cuidar das terras. A menina gostava de aprender também a fazer estas tarefas, mas na escola o que aprendia era surpreendente, falava-se de coisas que nunca tinha ouvido, visto ou imaginado.

Os anos passaram e a menina fez os quatro anos de escola e a sua adorada professora disse aos seus pais que a menina estava preparada para fazer o exame da quarta classe. Um dia lá foi a menina com as suas tranças bem apertadas, num fato de domingo, com sapatos e tudo a uma escola na cidade. Foi um dia inesquecível, houve algum receio, mas tudo correu bem e a menina teve uma nota brilhante. No final até houve tempo para ir ao parque infantil andar nos baloiços.

 

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No final desse dia, a professora disse aos pais da menina que ela tinha muito talento, era muito inteligente e que era muito importante que continuasse a estudar. Naquele tempo quase todos os alunos só estudavam até ao quarto ano. Havia escolas para continuar a estudar, mas só na cidade e não era possível ir e vir todos os dias a pé uma criança tão pequena.

Os pais ficaram a pensar no que a professora tinha dito, mas eles não tinham posses para dar os estudos à menina e também tinham muito medo de a deixar ir sozinha para a cidade para a casa de alguém para poder continuar a estudar. Na aldeia todos deixavam a escola no quarto ano, eles estavam contentes por haver escola para os seus filhos, porque eles nem sequer tinham ido à escola, pensavam que já seria o suficiente.

A menina ficou profundamente triste por no ano seguinte não voltar à escola, nunca tinha dito a ninguém mas o seu sonho era ser professora e ensinar meninos a ler, a escrever a contar e tudo mais. Era um sonho impossível, já lhe tinham dito que não ia poder continuar a estudar. A menina aceitou a decisão dos pais, mas continuou sempre a aproveitar todas as oportunidades para aprender, para ler tudo o que lhe vinha parar à mão, requisitava livros na biblioteca itinerante que era uma espécie de camionete cheia de livros que percorria as aldeias de tempos-a-tempos.

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Os pais queriam dar-lhe o melhor futuro possível, livrando-a da vida dura do campo. Um dia disseram à menina que ia aprender costura com a tia Mansa. Disseram à menina que era um trabalho mais limpo, mais mimoso e mais leve do que trabalhar no campo e que como ela aprendia bem ia com certeza gostar.

A menina foi aprender a costurar, gostava de costurar, a máquina de costura e o seu funcionamento tinham alguma magia, rapidamente aprendeu o essencial. Passou a ir para a casa das pessoas com a máquina Singer que recebeu de presente aos catorze anos. Fazia calças, camisas, saias, cuecas, soutiens, ceroulas, sacas, remendava, … Todas as roupas das pessoas eram feitas pelas costureiras ou pelo alfaiate, não havia roupas feitas nas lojas para vender. Ela tinha sempre muito trabalho. Quando estava a fazer trabalhos mais monótonos imaginava como seria se fosse professora, que coisas teria de aprender para saber ensinar.

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Gostava de fazer as roupas para as pessoas, era feliz a costurar mas o seu sonho nunca foi esquecido, quem sabe se ainda ia conseguir!

14
Nov20

A Maria Birras & Alegrias

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina pequenina de pele clara, carinha redonda, cabelo aos caracóis e uns olhos verde-acinzentados que só de olhar faziam mil perguntas. A menina chamava-se Maria e gostava muito de ver e entender tudo o que estava à sua volta. A sua mãe costumava dizer que a Maria estava sempre com as anteninhas no ar porque era muito atenta e queria saber as coisas, como se fazia, porque era assim, como se chamava isto e aquilo, como funcionava, … Os adultos ficavam encantados por poder falar de tantas coisas  para lhe responder às perguntas, muitas vezes ficavam algum tempo a pensar antes de lhe responderem.

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Chegou um tempo em que começaram a vir umas nuvens cheias de birras que pareciam chover em cima da Maria. Na hora do banho, quando a mãe lhe dizia que era para ir para a banheira, levantavam-se nuvens muito grandes e escuras. A menina desatava a chorar e dizia que não, não queria tomar banho, tomar banho era uma nojeira, não ia, … A mãe parecia que não ouvia, nem via a birra e com calma ia despindo a menina e dizendo que tinha que ser, que era preciso, que a água estava quentinha, que a Maria gostava de brincar com os brinquedos do banho,… mas a menina continuava na birra. Mesmo depois de entrar na água ainda continuava por mais um bocadinho. No banho parecia que a nuvem das birras tinha desaparecido, só voltava um bocadinho quando era para lavar a cabeça. Depois de estar toda lavadinha a mãe deixava-a ficar a brincar com o patinho amarelo, com o termómetro tartaruga, a râ nadadora e os brinquedos da praia que também tinham lugar nas brincadeiras da banheira.

Quando a água já estava a arrefecer a mãe dizia que o banho tinha acabado e era altura de sair, vinha novamente uma nuvem cheiinha de birras de tamanho gigante. Não, não queria sair do banho, queria ficar, não a água não estava a ficar fria, e claro era birra com choro, boca bem aberta e lágrimas a cair na água do banho.

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A mãe dizia-lhe então, mas tu nem querias vir para o banho, como é que agora não queres sair. A menina parecia nem ouvir, penso que não ouvia mesmo, é que as nuvens das birras fazem tanto barulho que ninguém se ouve quando elas estão por aí.

Com muita paciência, a toalha de banho especial com o capuz bordado com as baleias, muito mimo e creme no corpo para cuidar da pele delicada, a Maria lá ia acalmando. No fim de estar vestida era hora de ir jantar…

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Já se está mesmo a ver que as nuvens iam voltar. E voltavam mesmo, não queria ir para a mesa, não tinha fome, não gostava daquela comida, … Então o pai dizia-lhe que a ia ajudar e ao mesmo tempo lhe ia contar uma história e começava a fazer palhaçadas, então as nuvens começavam a desaparecer de novo. No fim do jantar às vezes o pai perguntava à mãe se podia ser um icecream e a menina dizia logo que sim.

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Os pais costumavam dizer alguns segredinhos entre eles em inglês, mas havia algumas palavras mágicas que a Maria já conhecia e icecream era uma delas.

Um pouco de brincadeira depois do jantar e lá chegava aquela hora de que a Maria nunca tinha gostado. A hora de ir para a cama! Claro que voltavam as nuvens, claro que não tinha sono, ainda queria brincar mais, não queria ir para a cama, só mais um bocadinho, … e pronto lá vinham os pingos da birra, lágrimas pela carinha abaixo.

Já na cama, ainda havia tempo para um  bocadinho de brincadeira com a irmã pequenina e voltava a alegria de novo.

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Quando o pai ou a mãe vinham até à sua cama, e se sentavam ou deitavam ao seu lado, lá chegava a hora de ler uma história. Muitas vezes a menina escolhia a mesma do dia anterior e ouvia-a dias seguidos e ficava feliz. A menina queria sempre mais histórias e muitas vezes a mãe dizia que estava cansada de ler e que ia contar uma história inventada. Qual é o animal da história hoje?- perguntava a mãe. A menina escolhia. Então a mãe começava,...

Era uma vez um coelhinho pequeno que não queria ficar na toca e queria ir com a mãe à horta. A mãe disse-lhe que não podia ser porque era longe e podia ser perigoso e por isso tinha de ficar. O coelhinho começou a bater com as patas no chão com força e começou a chiar fazendo muito barulho e uma grande … birra. E a história continuava.

A menina ouvia, ficava um pouco pensativa e dizia à mãe, eu já não quero fazer mais birras, mas às vezes não consigo. A mãe abraçava-a e dizia-lhe que ia conseguir, quanto mais crescia mais forte ia ser.

A menina dizia que nunca mais queria que a Maria Birras voltasse porque essa não era ela, ela era só a Maria.

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