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Contos por contar

Contos por contar

01
Abr21

Mãe são para ti!

#11 - Vermelho - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Mary Stevenson Cassatt "Poppies in a field"

Era uma vez uma menina pequenina de rosto redondo, faces rosadas, pele clara e quase sempre com um sorriso doce nos lábios que se chamava Leonor. Tinha longos cabelos castanho muito claro, quase louro que terminavam em caracóis largos e que a faziam sentir-se uma princesa. Era muito doce a menina, gostava muito de brincar e gostava muito de cuidar do pequeno jardim que era só dela no meio do quintal da avó. No jardim da Leonor havia roseiras pequenas que davam rosas também pequeninas de várias cores, cor-de-rosa claro, escuro, branco, amarelas e cor de laranja, parecia um jardim de brincar por ser tudo em ponto pequeno. A Leonor adorava as suas rosas e embora tivesse muita vontade de oferecer flores à mãe e à avó não tinha coragem de apanhar as suas rosas porque eram pequeninas, eram poucas e se as apanhasse o seu jardim deixava de estar florido e bonito.

A menina sabia regar, tirar as ervas, cobrir a terra com carrascas de pinheiro para manter a humidade, era uma verdadeira jardineira. Gostava muito do seu pequeno regador com crivo que fazia uma chuva fininha sobre as roseiras. Adorava o seu carrinho de mão de metal verde que usava para ajudar a avó quando apanhavam laranjas ou nozes, quando arrancavam ervas que tinham de ser levadas para o canto do quintal e para tudo o que fosse preciso transportar. A menina sentia-se crescida ao fazer as tarefas no jardim.

O jardim da avó era muito grande e tinha sempre muitas, muitas flores e a Leonor gostava de  as colher para fazer os seus raminhos e oferecer. Apanhar flores para oferecer à mãe e à avó era irresistível para a Leonor, ela adorava flores e adorava a mãe e a avó. Foram muitas as vezes que a avó agradeceu, mas a seguir lhe disse com doçura que esta ou aquela flor ainda não estavam prontas para apanhar, ou que tinha apanhado com o pé muito curto e que não se conseguia pôr em água na jarra. A avó ficava enternecida com o gesto da menina, mas ficava um pouco triste porque tal como a Leonor gostava de ver as flores brilhar no seu jardim.

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Quando iam passear pelo campo ou pelo pinhal para respirar o ar puro, caminhar, correr, sentir a liberdade e a carícia do sol morno, a menina não conseguia parar de apanhar flores. Gostava dos malmequeres do campo, dos pampilhos, dos lírios do vale, dos lírios do campo, da flor-arlequim e tantas outras flores que nem a mãe sabia o nome. Depois de colher, arranjava-as num raminho, com uns rabos-de-gato pelo meio e mais umas verduras a compor e chegava perto da mãe, estendia o braço e dizia:

- Mãe, são para ti!

A mãe abraçava-a e agradecia e ia dizendo que as flores eram felizes no campo e que iam durar pouco tempo em casa numa jarra. Ainda assim, a menina ficava contente por ver o seu raminho na jarra pequena da janela da cozinha durante um ou dois dias, sentia que o cheiro e a beleza do campo estavam ali na sua casa.

Num desses passeios, no início da primavera a menina encontrou uma zona do campo cheia de papoilas vermelhas e achou-as maravilhosas, pareciam ter saído de um desenho, não resistiu e apanhou tantas quantas lhe cabiam nas suas mãos pequeninas e correu para as dar à mãe. Quando chegou perto da mãe e estendeu as papoilas disse com rapidez, sei que não é muito boa ideia apanhar as flores, mas eu acho-as tão bonitas que quero muito vê-las na tua jarra na nossa cozinha. A menina notou que a mãe quando recebeu as flores e lhe deu um miminho não disse nada sobre ter colhido as flores, mas pensou que era por ela ter dito que já sabia o que a mãe pensava.

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Quando começaram a regressar da caminhada a menina viu que as belas papoilas tinham começado a murchar e quando chegaram a casa estavam todas mirradas e parecia que tinham passado muitos dias depois de serem colhidas. A mãe colocou-as cuidadosamente na jarra e a menina ficou a ver o que acontecia muito esperançada que as flores voltassem a “arrebitar”. As papoilas continuaram murchas e a menina ficou triste e disse à mãe que as papoilas só podiam estar no campo, que não eram para ter em casa.

A mãe disse à Leonor que no próximo ano iam semear papoilas no jardim da menina e que então, ela as podia ter perto de casa e ver sempre enquanto estavam em flor.

A Leonor ficou radiante e pensou que a sua mãe sabia sempre tudo!

 

Texto no âmbito do #11 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Vermelho

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

 

 

28
Jan21

O Sapo Apaixonado, a Rã e a Cobra Verdinha

Cristina Aveiro

Sapo-Matilde Aveiro.jpgDesenho da Matilde Aveiro

Era uma vez um sapo lindo, lindo, muito jovem e que todos no jardim adoravam, em especial a sua mãe. A mãe sempre lhe dissera que ele era simpático, elegante, que tinha uma graciosidade invulgar, que parecia que tudo nele era perfeito. Nem todos o viam desta maneira, ele dava pequenos pulos pois era pesado e com as suas patas curtas e o seu corpo achatado e gorducho não conseguia dar saltos verdadeiros, quando andava era desajeitado mas todos gostavam dele na mesma, era boa companhia, quer na água quer em terra, nas margens do lago.

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O sapinho vivia num jardim muito grande com colinas, um longo riacho, um lago grande e um sem número de animais onde as pessoas gostavam passear. Havia libelinhas, patos, patinhos, relas, rãs, muitos pássaros e aves. Havia melros, pegas, pardais e nem sei quantos mais!

Quando uma criança se aproximava da margem do riacho do jardim, parecia que tinha começado uma prova de salto em comprimento, só se via as relas e as rãs a saltarem para a água e a desaparecerem no meio das ervinhas verdes redondas que cobriam as águas do riacho.

As crianças ficavam todas divertidas ao verem os saltos rápidos e altos que elas conseguiam fazer. Nestas corridas e saltos quem ganhava eram as relas porque as suas pernas enormes e o seu corpo pequeno e mais leve levavam-nas mais alto.

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O sapinho quando sentia passos a aproximarem-se procurava um sítio mais escondido entre os juncos e as ervas mais altas e ficava muito quieto à espera que se afastassem. Muitas vezes ficava ali no seu cantinho sossegado a ver os saltos das suas atléticas e esguias vizinhas e a escutar enquanto coaxavam. Ele gostava muito de as escutar, as relas pareciam patos a grasnar enquanto as rãs faziam sem parar.

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O sapinho achava as rãs lindas, com a sua pele tão lisa e brilhante, sempre molhadinha daquele verde com as manchinhas escuras pelo corpo. Adorava também aqueles olhinhos esbugalhados. A boca delas também o fascinava achava que até já tinha visto os dentinhos de cima de uma delas quando lançava a língua a um mosquito. Ele não sabia, mas até começava a pensar que estava a apaixonar-se.

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Começou a tentar aproximar-se e a fazer os seus cantos mágicos, mas elas não reparavam sequer. E ele continuava a fazer bréiii, bréiii mas elas nem reparavam.  As pernas delas eram longas, fortes e muito musculadas, com os seus pezinhos delicados com cinco longos dedos unidos por membranas que as faziam deslizar velozes na água como nenhum outro bicho do lago.

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Será que elas não olhavam para ele por ter a pele rugosa com aquelas bolinhas salientes, ou seria por ser um bocado gordo e não conseguir saltar, enfim dava pulos, mas era algo desajeitado.

Tentou mostrar-se melhor erguendo-se nas quatro patas, mas nem assim elas mostraram interesse. A caminhar ele tinha sempre uns passos pesados e algo desajeitados mas era forte e sabia que ia encontrar a sua apaixonada, talvez não fosse uma rã, ia continuar a procurar e tinha a certeza que ia encontrar alguém de quem gostasse.

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Num dia foi até ao estrado de madeira onde as pessoas costumavam passar e ficou lá em baixo no espaço escuro e fresco entre as tábuas e o chão. Olhou para cima e no espaço entre duas tábuas, bem direita e a esticar-se estava uma linda cobrinha verde, muito elegante e esguia. O sapinho ficou fascinado. Como ela era bonita. Começou a andar pelas tábuas em pequenos pulos, até se atreveu a ir para a parte de cima para a ver melhor. Parecia que não controlava o que fazia, queria ir até perto dela, queria beijá-la, talvez ela fosse o amor que andava à procura. A cobrinha olhou para ele, começou a aproximar-se e já estava até a esticar a boca pensando num belo petisco, mas quando olhou melhor desistiu logo. Era um sapo, não servia para comer, se o abocanhasse ao apertar ele deitava um veneno e ela podia até morrer, livra, o melhor era ir para outro sítio porque com sapos é que ela não queria nada.

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O sapinho ao ver a cobra verdinha a afastar-se ficou triste e decidiu voltar para junto do lago. Lá foi aos pulinhos, comendo um mosquito aqui, uma aranha acolá, enfim comida não lhe faltava.

Quando chegou perto do lago, já a noite ia alta e ele sentiu vontade de cantar as suas tristezas e lá começou a coaxar a sua música. Algum tempo depois sentiu movimento atras de si. Olhou e nem queria acreditar, era uma enorme e maravilhosa sapinha, bem corpulenta, com uns bracinhos curtos e gordinhos e uns olhos cheios de ternura. Assim que os olhares se cruzaram houve encantamento e desde esse dia nunca mais se separaram. Todos os anos faziam longas linhas com os seus ovinhos negros nas folhas das plantas mesmo junto da água. Todos os anos nasciam centenas de girinos que iam crescendo e depois se transformavam em minúsculos sapinhos que eram o seu orgulho.

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Quando olhava para a sua sapinha pensava sempre como tinha sido tonto ao pensar que estava apaixonado pela rã e depois pela cobra verdinha. Só depois de sentir o verdadeiro amor é que percebia como ela era bela, como estava encantada por ele e como tanto tinham em comum.

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