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Contos por contar

Contos por contar

24
Mar21

Hoje vamos à maré, quem quer vir?

#10 - Verde Claro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

1-Rochas do pedrogão.JPG

Era uma vez um bando de primos que adorava estar na praia com a tia Amélia, que não tinha filhos e vivia numa casa só para ela. Aquela praia aninhada no Pinhal de Leiria tinha poucas casas, era ventosa e o mar estava bravo a maior parte do tempo, mas a criançada adorava estar lá. Havia dias em que iam fazer passeios e explorar o pinhal e havia sempre jogos e coisas para fazer, coisas simples como apanhar pinhas a ver quem consegui ter mais, procurar o lugar mais escondido no meio dos medronheiros altos e densos, subir a colina onde estava o posto de vigia dos fogos e ver se os deixavam subir. Nunca se cansavam de inventar coisas para fazer e a tia escutava aquelas vontades todas de gente pequenina e ia combinando, aceitando e rejeitando projetos conseguindo que o bando aceitasse as escolhas finais que eram da tia. A tia era mais fácil de convencer a fazer coisas diferentes do que os pais deles. Havia coisas que só podiam fazer sendo muitos e mesmo as ideias que iam tendo para brincar e fazer eram mais e melhores por estarem naquele lugar e por estarem todos juntos. Quando planeavam o que queria fazer falavam muito, às vezes discutirem de forma acalorada qual era a melhor coisa que podiam fazer no dia seguinte, mas isso só tornava tudo mais divertido.

Um dia de manhã bem cedo a tia disse: - Hoje vamos à maré, quem quer vir?

A criançada ficou logo a dizer que sim com entusiasmo. Alguns não sabiam o que era ir à maré, mas queriam ir na mesma. Todos sabiam que havia a maré cheia e a maré vazia, no fundo o mar encolhia e esticava todos os dias sempre ao mesmo ritmo. Eles preferiam quando a maré estava vazia porque podiam aventurar-se um pouco mais na água. Na maré cheia, mesmo nos raros dias de bandeira verde, apenas podiam molhar os pés porque o mar ainda que manso era grande, com ondas suaves mas muito gordas e ficava fundo, não era para gente pequena.

Vamo-nos despachar a vestir e tomar o pequeno-almoço, depois, cada um agarra no seu balde de praia e leva-o consigo e a tia leva o resto das coisas. No caminho da praia foram para a zona das rochas que estavam descobertas porque a maré estava bem vazia. Estava tão vazia que até se conseguia passar até à outra praia mais a Sul. Os miúdos estavam encantados com o que iam vendo. A tia explicou que iam apanhar os mariscos das rochas, mostrou-lhes os burriés, lapas, os mexilhões, percebes e todos podiam procurar outras coisas que lhes parecessem boas para apanhar. A tia disse que depois daquela pescaria iam fazer um enorme petisco e comer o que apanhassem. Algumas crianças fixaram-se em apanhar os burriés ficando fascinadas com a quantidade de cores que tinham, desde preto, castanho, riscados de branco, … Outras tentavam apanhar os percebes, era uma tarefa mais difícil, os maiores percebes cresciam nas fendas entre duas rochas ou então nas zonas mais baixas, virados de “cabeça” para baixo. Um dos primos ia saltitando de rocha em rocha, apanhando um pouco de tudo o que encontrava.

1-percebes.JPG

Para apanhar as lapas era preciso a ajuda da tia porque tinham de usar uma navalha para as descolar da rocha. Afinal não é à toa que se diz “agarrado como uma lapa”.

Quando a maré começou a subir e todos já estavam a ficar cansados a tia disse que era hora de irem embora e assim foi. Antes de regressar a casa para guardar a pescaria sentaram-se na areia da praia com os seus baldes ao centro para todos verem as pescarias de cada um. Ficaram admirados com o cada um tinha apanhado. Mas havia um balde que deixou todos de boca aberta. Um dos pequenos tinha o balde cheio de alface do mar, linda no seu verde claro, viçoso e brilhante e ele estava muito orgulhoso.

algas-verdes-nas-rochas-na-beira-do-mar_3510-876.j

Os primos começaram a rir e a dizer que ele não tinha percebido nada! Aquilo não era pescaria nenhuma. O menino começou a ficar triste e foi dizendo que se ia haver um petisco com coisas do mar também devia haver uma salada e ele tinha apanhado a alface para a salada. Todos riram ainda mais. Então a tia disse para pararem de ser mauzinhos, aquela não era a alface normal das saladas a que estavam habituados, era alface do mar, comestível e um bom alimento. Sentiam que tinham feito uma bela pescaria e, se a tia dizia que a alface do mar também ia brilhar no petisco é porque era verdade.

Ao chegar a casa foi toda uma azáfama a limpar os mariscos, a aprender como se cozinhava cada um e até mais tarde a aprender como se comiam. Sim, comer burriés tem que ser aprendido, não se percebe logo como se vai tirar o bichinho da concha.

Chegou a vez de lavar muito bem a alface do mar e todos estavam curiosos sobre como a iam comer. A tia explicou que quando tinha visitado os Açores tinha aprendido muitas maneiras de cozinhar aquelas alfaces e naquele dia elas iam entrar em muitos pratos, na sopa, na salada que ia acompanhar o jantar, numa bela omelete, num molho para barrar as torradas e um pouco para a caldeirada. Se houvesse mais até podiam usar para fazer uma sobremesa, mas hoje ia mesmo ser só fruta para a sobremesa! 

E tu alguma vez foste à maré? Alguma vez provaste os legumes do mar, as algas?

 

Texto no âmbito do #10 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Verde Claro

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

22
Jan21

Mãe, a avó gosta de jogar!

Cristina Aveiro

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Num dia de muita chuva e vento, em que não se podia passear, nem ir à rua ao quintal ou à varanda, um menino estava em casa com a avó e estava aborrecido porque não podia ir onde queria. A avó olhou para o menino e disse-lhe:

- Hoje está um dia perfeito para jogar às cartas!

O menino perguntou:

- Que cartas? Daquelas que antigamente escreviam e vinham no correio?

A avó disse com doçura, não com as cartas de jogar, com um baralho. Sabes, há muito muito tempo na China inventaram o baralho de cartas e muitos jogos para jogar com elas, depois como era divertido e interessante, o jogo foi-se espalhando por todo o mundo e foi sendo modificado pelos diferentes povos. Os árabes juntaram às cartas chinesas as figuras que hoje conhecemos em todos os baralhos e mais tarde os franceses inventaram uns desenhos mais simples que passaram a ser usados em quase todo o mundo.

O menino ficou interessado e começou a fazer muitas perguntas. A avó disse que lhe ia contar tudo o que sabia sobre o baralho. Para começar chamava-se baralho porque para jogar tinham que se misturar todas as cartas para ficarem “baralhadas”, sem nenhuma ordem e assim poderem ser distribuídas ao acaso.

O menino disse logo que gostava do nome, estar baralhado não era agradável, mas às vezes baralhar era divertido, a avó sorriu contente com a vivacidade do seu menino.

A avó foi buscar o seu baralho favorito e começou a espalhar as cartas sobre a mesa. Perguntou ao menino o que lhe chamava mais a atenção. O menino disse que havia cartas vermelhas e cartas pretas. A avó disse que as cartas vermelhas representavam o dia e as pretas a noite, disse também que havia 52 cartas no baralho, uma por cada semana do ano.

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O menino interessado disse também que havia cartas com figuras de pessoas e outras só com desenhos. A avó disse que havia quatro grupos de cartas com o mesmo símbolo, com corações, trevos, azulejos e pontas de lança. Na verdade, a cada grupo chamava-se um naipe (antes era Naib, uma palavra árabe) e os nomes dos naipes eram copas, paus, ouros e espadas.

O menino disse espantado que não havia nenhumas espadas, nem paus, que os nomes eram estranhos. A avó explicou que, há muito tempo atrás, os desenhos eram mesmo de paus, espadas, copos e moedas de ouro, mas depois em França inventaram os desenhos mais simples que usamos hoje, mas continuamos a usar os nomes antigos por isso nada parece fazer sentido.

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A avó continuou a explicar, os quatro naipes representam as quatro estações do ano, e cada estação do ano tem treze semanas, como tal cada naipe tem treze cartas. Ouros representava a Primavera, paus o Verão, copas o Outono e espadas o Inverno.

Então o menino disse que afinal parecia que o baralho era um calendário, com as estações, as semanas, só faltavam os meses. A avó disse que havia uma carta para cada mês, eram as cartas com as figuras do rei, da rainha e do valete. O menino disse então que assim eram apenas três meses. A avó lembrou-o que havia quatro naipes diferentes, cada um com três figuras e assim fazia doze meses. Havia o mês do rei, da rainha e do valete em cada uma das estações.

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A avó disse ao menino que das cartas com os números apenas o às tem nome especial, o nome deriva da palavra em latim que significa um, porque esta é a carta número um.

O menino disse à avó que as cartas pareciam cheias de histórias, ele já começava a imaginar que as espadas e os paus eram cartas malvadas que apenas queriam lutar contra as cartas boas como as que tinham os corações. Já os ouros ele não sabia bem se eram boas ou más. Tinha gostado muito que houvesse reis e rainhas e cavaleiros parecia mesmo um reino antigo como os das histórias que lhe costumavam contar.

A avó disse que era muito fácil inventar histórias com as cartas. As pessoas inventaram e imaginaram jogos e mais jogos que se podiam fazer com as cartas.

Então o menino perguntou quando é que iam jogar e como é que se jogava. A avó disse que iam começar por um jogo simples, mas era preciso conhecer os números e entender quais eram maiores e quais eram menores. O menino disse muito contente que já sabia os números até vinte.

E lá começaram a jogar, baralharam as cartas, deram quatro a cada um e deixaram o resto num montinho bem arranjado com as costas viradas para cima. E depois foi aprender as regras, quem jogava primeiro, que tinha que se jogar uma carta do mesmo naipe, perceber qual era a carta mais forte e que fazia ganhar. Num instante o jogo tinha terminado e o menino queria saber quem tinha ganho e pronto houve que contar para ver quem tinha conseguido o melhor resultado. Tinha sido o menino! Estava aos pulos de contente, queria jogar mais e mais. Jogaram muitos jogos, uns ganhou a avó, outros o menino. Quando perdia o menino ficava um pouco triste, mas a avó dizia-lhe que ele tinha era que jogar mais para aprender todos os truques e dizia-lhe também que quando se joga é sempre assim, umas vezes ganha-se, outras vezes perde-se.

A avó explicou ao menino que gostava dos jogos do baralho porque podem jogar-se em quase todos os sítios, porque as cartas ocupam pouco espaço e são fáceis de levar, não precisam de eletricidade, podem ser jogadas por crescidos, por pequenos e podem fazer-se jogos com pessoas de várias idades. O menino escutou a avó com atenção e disse que se calhar era por serem assim que os jogos de cartas já eram jogados há tanto tempo mas ainda eram divertidos.

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Num instante o tempo passou, e como estava um dia chuvoso escureceu cedo. Quando os pais chegaram a casa ao fim do dia ele perguntou logo se tinham vindo mais cedo. Eles disseram que não, que era a hora habitual. O menino disse logo a correr:

- Mãe, a avó gosta de jogar!

 O menino começou logo a falar sobre as cartas e os jogos com a avó e a pedir para jogarem todos depois do jantar. Os pais disseram que sim, claro, mas perguntaram se o menino conseguia contar as cartas e se já conhecia todas e ele todo contente disse que sim. O menino explicou que não sabia que a avó gostava de jogar e que sabia tantas coisas sobre as cartas. O menino disse que gostava de outros jogos, mas estes de que a avó gostava também eram muito divertidos e assim podiam jogar juntos.

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Nessa noite depois de adormecer o menino sonhou com os reis e as rainhas, os paus, as espadas, os ouros que todos queriam e disputavam e com os valetes de bom coração que acalmavam todos e pediam que houvesse paz. Quando a mãe o foi ver ao quarto ele sorria com ar sonhador e ela lembrou-se do dia em que a sua mãe lhe tinha ensinado a jogar e a divertir-se com as cartas. Tinha sido um momento bom e ela estava feliz que a sua mãe também tivesse contagiado o seu filho com a magia do baralho.

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