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Contos por contar

Contos por contar

20
Mar21

Apetece-me ir para o deserto!

Cristina Aveiro

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Estavam de regresso à escola depois de dois meses em casa por causa do maldito bicho que os tinha mantido fechados, afastado dos amigos, das pessoas e dos lugares de que gostavam.

Todos os meninos estavam felizes, cheios de energia, cheios de histórias para contar. Nas salas ficaram muito contentes por voltar a sentar-se nas suas mesas, por voltar a ocupar o seu lugar na sala de aula, por estarem ali com o professor e com todos junto deles e não no computador.

Na hora do recreio tinham toda a escola para eles porque os meninos crescidos não estavam lá. Pareciam mesmo “bandos de pardais à solta” como se cantava numa canção. Corriam, exploravam os sítios, jogavam à bola e caiam, escorregavam, parecia que tinham perdido o treino de andar a toda a velocidade como era seu costume.

As senhoras que os acompanhavam para tomar conta admiraram-se com estas dificuldades, parecia que estavam perros, destreinados, quase lhes lembravam os bichinhos que depois de um longo cativeiro tinham um andar hesitante e desajeitado, com menos equilíbrio e coordenação. Admiraram-se também com o que tinham crescido. Tal como antes, os meninos tinham voltado cheios de vontade de falar com as senhoras para contar as suas histórias, para perguntar tudo e mais alguma coisa, sobre o que ia acontecer, ou que tinha acontecido e muito mais coisas de que ninguém mais se lembraria de perguntar senão as crianças. As senhoras gostavam muito dos seus meninos, conheciam bem o bando, sabiam-lhes os nomes, os gostos, os que falavam muito e os que eram de poucas falas, os que gostavam de empurrar, arreliar, acarinhar, descobrir, … Sabiam-nos de cor, como também canta outra canção. Gostavam deles como eram, era bom haver traquinas e reguilas e calmos e sossegados, eles eram como uma orquestra, tocavam todos os sons, os calmos e os que inquietavam todos e nenhum som se podia dispensar, todos faziam falta. Os professores e as senhoras pareciam a maestrina que tocava a orquestra como num pequeno filme que aparecia por estes dias na televisão, umas vezes com movimentos tranquilos e outras num frenesim que quase parecia gritar.

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Um dos meninos, moreno, de cabelo ondulado negro e rebelde, costumava andar sempre por todo o lado em muito alta velocidade, até a falar era supersónico, nem para escutar conseguia parar, era sempre tudo a mil à hora. A sua velocidade era maior que a dos colegas e isso provocava muitas vezes “acidentes” e desentendimentos com miúdos e graúdos. Com a sua velocidade parecia impossível que reparasse nas pequenas coisas, mas seria assim?

Naquele dia de regresso o menino estava ainda com mais velocidade do que a habitual, mas isso não o impediu de reparar que uma das senhoras estava algo sombria. O menino fixou os seus olhos castanhos muito vivos nos olhos da senhora e chegou-se à conversa. Atrás da máscara e dos óculos da senhora ele viu que que os seus olhos não estavam a sorrir como era habitual. Começou por perguntar se estava boa, o que é que tinha, se estava doente, se tinha acontecido alguma coisa, … e foi saltando de pergunta em pergunta sem ficar satisfeito com as respostas.

A senhora estava  admirada por o menino ter parado as suas corridas e brincadeiras durante tanto tempo, estava surpreendida por o menino, na sua velocidade e turbulência, ter sentido o que lhe ia na alma e ela tanto queria guardar só para si.

Quando menino perguntou o que é que apetecia à senhora, ela respondeu calmamente: “Apetece-me ir para o deserto!” em jeito de suspiro. Pensava que ele ia ficar satisfeito com a resposta e que ia voltar às suas brincadeiras já com a curiosidade satisfeita. Mas o menino continuou com as perguntas, quis saber porque é que a senhora queria ir para o deserto, ao que ela respondeu que era para estar sozinha. O menino parou um pouco a pensar e pediu para ir buscar um papel para fazer um desenho. A senhora disse que sim, ficando cada vez mais admirada por ele preferir desenhar a estar nas correrias e brincadeiras. Quando voltou para junto dela começou a desenhar um deserto com catos e uma senhora. Quando ela lhe perguntou quem era, ele respondeu prontamente: - És tu!

O menino continuou a desenhar, desenhou-se a si também no deserto, a senhora perguntou porque é que ele também estava no deserto. O menino respondeu que era para estar com ela e assim ninguém estava sozinho.

A senhora estava comovida, mas para disfarçar perguntou se não havia mais nada no deserto e o menino desenhou um passarinho e continuou a desenhar. Desta vez desenhou um avião com duas pessoas lá dentro, muito parecidas com a senhora e o menino. A seguir desenhou pequenas setas a ligar as imagens deles no deserto às imagens deles no avião. A senhora estava deslumbrada com o que o pequeno ia fazendo e perguntou-lhe então o que era tudo aquilo, o avião, as pessoas no avião e as setas. Disse-lhe que já não estava a perceber o desenho porque queria ouvir o que o menino tinha para dizer.

O menino explicou com calma, as pessoas no avião “és tu e eu” e as setas querem dizer que deixámos o deserto e que vamos embora no avião. Finalizou dizendo: - Toma, o desenho é para ti! E largou a correr juntando-se de novo ao bando.

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Ao agarrar o desenho a senhora estava a sorrir e sentia um calor enorme no coração. Como é que aquele pequeno diabrete vira o que ela queria esconder, como é que ele estivera parado tanto tempo a escutar, a acompanhar e finalmente como desejara que juntos saíssem do lugar triste. Como é que ele era tão sábio? Claro que era! Ele era uma criança, um diabrete com asas de anjo.

 

16
Jan21

Bernardo vem para a cama!

Cristina Aveiro

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O Bernardo era um menino já crescido, que ia começar a aprender a ler e a escrever no fim daquelas férias de Verão. Era alegre, turbulento às vezes, mas era atento às pessoas, prestava atenção ao que sentiam.

Era Verão e tinham viajado durante horas para uma praia cheia de sol, com mar calmo onde iam ficar com os tios, as primas e a avó. Estavam todos numa casa grande perto da praia e todos os dias apanhavam um pequeno barco para irem para a praia. Os dias eram cheios de alegria, banhos no mar, brincadeiras com as primas e o irmão, mas também com os adultos porque nas férias todos tinham mais vontade de brincar. Naquela praia a areia tinham uma enorme quantidade de conchas, em especial de vieiras perfeitas de todos os tamanhos e de várias cores. Todos adoravam passear e apanhar as bonitas conchas.

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Num destes dias felizes de sol, mar e brincadeira o telefone do tio tocou e o Bernardo estava com ele. O Bernardo viu que o tio ficou triste e preocupado, com uma cara como ele nunca tinha visto. Então o tio explicou a todos que tinha acontecido uma coisa muito triste, a sua avó Antónia tinha morrido. O Bernardo sabia que a avó do tio já era muito velhinha, tinha mais de noventa anos, mas estava boa, não estava doente.

No dia seguinte o tio e a tia não estiveram na praia, viajaram para acompanhar a avó Antónia. Quando já muito tarde os tios regressaram à casa das férias, já a mãe do Bernardo estava lá em cima nos quartos a preparar-se para contar uma história às crianças antes de dormirem. O Gonçalo, assim que sentiu que os tios tinham chegado, desceu as escadas e veio juntar-se a eles na cozinha.

A mãe procurou-o e disse-lhe: Bernardo vem para a cama! Mas o Bernardo não foi e a mãe desceu para ver o que se passava.

O Bernardo sentou-se ao pé dos tios e perguntou com uma cara séria como tinham corrido as coisas com a avó Antónia. O tio respondeu que tinha corrido normalmente, que tinha sido feito o funeral e que agora a avó era uma estrelinha no céu. O menino ouviu com atenção e disse que não entendia uma coisa. Se no funeral o corpo é enterrado como consegue subir para o céu para ser uma estrela? O tio ficou um pouco perdido antes de responder e a avó do Bernardo disse, sabes só o nosso corpo é que fica sem vida, mas a nossa alma, o que nós sentimos, o que temos no coração, não desaparece. É a nossa alma que consegue subir até ao céu e assim fica lá como uma estrela a olhar por todos. O Bernardo escutou e ficou pensativo.

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A mãe do Bernardo chega à cozinha e diz-lhe de novo, Bernardo eu disse para vires para a cama… O menino respondeu calmamente que tinha que vir conversar com o tio para saber como ele estava. A mãe ficou enternecida com a atitude do seu menino e perguntou-lhe se agora já podia ir para a cama e o Bernardo disse que sim.

 

 

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