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Contos por contar

Contos por contar

21
Mar21

O Sapo

"Animais nossos amigos" - Afonso Lopes Vieira

Cristina Aveiro

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O Sapo

Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
    Para uma horta ou jardim,
  Para os tratar com amor.

       É o guarda das flores belas,
 da horta mais do pomar;
        e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...

    Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
   e fazem tristes as flores.

    Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
            a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.

       E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
     brilham no céu as estrelas,
 e ele ronda, a trabalhar...

       E ao pobre sapo, que é cheio
 de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
     e há quem o mate e persiga

        Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
          - «Então ele traz-nos guardadas,
   e depois pagam-lhe assim?»

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
   as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...

Afonso Lopes Vieira, in 'Animais Nossos Amigos'

 

É assim que eu sinto a poesia porque o meu jardim infantil chamava-se "Animais nossos Amigos", em Leiria, na terra do poeta que dedicou os versos de que mais gosto para crianças.

A cidade erigiu um espaço mágico onde brinquei e aprendia a amar os livros, até tinha uma biblioteca pequenina.

"Horácio Eliseu, em 1949, apresenta um projeto para um Jardim Infantil, com uma pequena Biblioteca das obras infantis de Lopes Vieira, ajardinado exteriormente com as figuras do livro de 1911, Animais Nossos Amigos, esculpidas em pedra, fundidas em bronze e desenhadas em painéis de azulejo por Anjos Teixeira Filho. O Mestre acrescenta os passarinhos31 e um painel azulejar com as abelhas. O projeto efetivou-se e, a 30 de abril de 1955, no mesmo dia em que se inaugurava a Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, fazia-se uma festa dedicada às crianças no Jardim Infantil Afonso Lopes Vieira. Nesta data estiveram presentes o Arquiteto Raul Lino e o Mestre Anjos Teixeira."

 

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Raul Lino

 

 

 

 

27
Fev21

O gafanhoto com dor de barriga

Cristina Aveiro

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Era uma vez um jovem gafanhoto que era muito traquinas e maroto e estava sempre a dar dores de cabeça à sua mãe.

A mãe gafanhota sentira desde sempre que aquele seu filho era diferente. Quando fizera a postura de cem ovos da sua última ninhada, ao enterrar a barriga na terra para depositar aquele ovo tinha sentido um friozinho estranho. Quando fechara aquele ninho fora especialmente difícil colocar o tampão que protege o ovo até parecia que o ovo não queria ficar fechado. Ao contrário dos irmãos, aquele seu filho não demorara os 100 dias habituais a passar de ovo para ninfa e depois para imago. Foi a primeira ninfa a sair da toca, era lindo, parecia já um gafanhoto adulto mas claro, ainda não tinha asas. A seguir, antes de nada trocara o seu exoesqueleto e passara a imago, um jovem gafanhoto já com asas e tudo. A mãe ao ver como ele era diferente até chegou a recear que do ovo saísse uma lagarta e quem sabe ele se transformasse depois em borboleta, mas tudo aconteceu como o previsto só que mais depressa do que os restantes.

Gafanhoto-Foto-Thanakorn Hongphan - Shutterstock-c

A mãe era muito orgulhosa de todos os seus filhotes, todos belos e elegantes. A mãe não se cansava de olhar para as suas cabeças coroadas por duas antenas curtas, o seu tronco de onde partia o primeiro par de pequenas patas viradas para a frente, da sua bela e longa barriginha saiam mais dois pares de patas viradas para trás. As patas que a mãe mais apreciava eram as maiores, as que ficavam mais atrás, eram enormes, elevavam-se bem acimas das asas, na primeira parte eram muito gordinhas e musculadas e abaixo do joelho passavam a ser fininhas e tinham uma espécie de pequenos espinhos que eram fundamentais para controlar o ar quando saltavam e planavam. Claro que os dois pares de asas sobrepostas, as de fora mais fortes e compactas e as que ficavam escondidas por baixo e só se viam quando eles saltavam e até parecia que estavam a voar com a sua transparência e delicadeza até lhe pareciam as asas de uma libelinha, ou aos seus olhos de mãe pareciam ainda mais bonitas.

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Aquele seu filho andava sempre a explorar novos lugares, a provar tudo quanto encontrava, a tentar conhecer outros gafanhotos, joaninhas, libelinhas e um sem número de outros insetos. O que mais preocupava a mãe é que ele também queria ficar amigo das aves e dos pássaros e por mais que a mãe lhe dissesse para se manter afastado de outros animais, mesmo até de gafanhotos ele não obedecia.

Naquele dia o jovem gafanhoto foi ter com a mãe e mal saltava, até os seus cinco olhos estavam tristes. Sim os cinco olhos, os dois gigantes dos lados da cabeça que funcionavam como um conjunto de centenas de pequenas câmaras e lhe permitiam ver quase em todas as direções e os três pequenos olhos na frente da cabeça que lhe permitiam distinguir o claro do escuro.

Quando chegou junto à mãe começou a dizer que estava cheiinho de  dores de barriga, eram fortes, enormes e ele quase não se conseguia mexer-se. Enquanto explicava o que se passava as suas dobrinhas da barriga estavam sempre a esticar e a encolher, pareciam um acordeão a tocar. A mãe ficou deveras preocupada! Perguntou o que é que ele tinha andado a comer. Perguntou se ele tinha ido para junto dos campos das pessoas e se tinha andado por lá a provar os legumes. Ele começou por dizer que não, mas à medida que a mãe ia perguntando e explicando que era muito importante dizer toda a verdade para o poder tratar. Ele lá foi dizendo que sim, que não tinha resistido àquelas belas alfaces e também às nabiças, mas que tinha sentido um sabor muito amargo e comera muito pouco. A mãe sabia bem o que tinha acontecido, o agricultor devia ter usado aqueles venenos para os insetos não comeram os seus legumes.

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Ficou muito, muito aflita. Deu logo ao pequeno gafanhoto uma erva muito amarga e oleosa que ele não queria comer porque dizia que sabia muito mal. A mãe disse que nem queira ouvir nada, era comer e calar. Nem um minuto depois de comer a erva horrível lá estava ele a vomitar por todos os lados, parecia um jacto de uma mangueira dos bombeiros. Saia uma gosma verde sem fim. Ele estava de rastos, agora estava na mesma com a dor de barriga anterior, aos soluços, enjoado como nunca tinha estado e com novas dores de barriga provocadas por ter estado a vomitar como um vulcão. A mãe explicou-lhe que ainda ia ficar pior antes de ficar melhor. Ele ficou aterrado. Como era possível ficar ainda pior? Oh, céus!

A mãe com muito jeitinho começou a dizer-lhe que ia ter de levar um supositório. O pequeno não sabia o que era. Então a mãe foi procurar uma baga escura de uma planta que ele não conhecia, era negra, arredondada pareceu-lhe uma espécie de pinhão preto. Assim que a mãe lhe explicou o que ia acontecer a seguir o pequeno gafanhoto entrou em pânico, tentava saltar e fugir dali, mas os seus saltos eram minúsculos. A mãe foi conversando, disse-lhe que não era nada do tamanho de um pinhão, que ele tinha que ficar sossegado para tudo ser mais fácil, mas nada. Ele esperneava, desviava-se, virava-se de barriga para cima e depois para baixo, torcia-se e retorcia-se de dores, de medo puro e com a energia que o medo empresta. Tudo no seu corpo lhe dizia para fugir para longe, ele sabia que a mãe não lhe ia fazer nada de mal, que queria trata-lo, mas isto? Que ideia aterradora, como é que aquilo podia ajudar? Por mais que a mãe explicasse o seu cérebro não escutava, os ouvidos apenas ouviam, mas o seu cérebro só gritava fogeeee.

Vieram reforços para resolver a situação, os seus super olhos captavam imagens de um rebanho de gafanhotos a rodeá-lo, a agarrar em todo o lado, pernas, cabeça, barriga, tudo! Por muito que quisesse escapar, pumba, aconteceu. A maléfica semente entrou e aquela sua barriga estava ainda mais enlouquecida. Parecia que tudo estava a saltar lá dentro e que se começava a formar uma onda gigantesca nas suas  entranhas. E a onda crescia, e doía, doía e parecia aproximar-se do fim do seu corpo. Não, não era possível, será que ele nem se ia poder afastar para resolver aquilo? Porque é que todos se estava a afastar rapidamente? Será que o estavam a abandonar? Ele não conseguia conter-se mais, ia começar a sair, nunca imaginou que a sua barriga estivesse tão cheia, parecia novamente que ele estava a deitar um jacto, a barriga continuava a encolher e a esticar-se como um acordeão e ele estava a esguichar para a frente e para trás, parecia quase uma fonte luminosa com dois repuxos. Ele não sabia quanto tempo aquilo ia durar, mas parecia que não ia ter fim.

Toda a família do gafanhoto estava bem perto a ver como ele reagia ao tratamento. Felizmente estava a resultar porque os terríveis venenos estavam a sair e todos estavam com esperança que ele ficasse bem.

Aos poucos o pequeno gafanhoto foi acalmando e começou a sentir-se melhor. A mãe tinha razão, tinha ficado bem pior antes de ficar melhor! A mãe também tinha razão quando lhe dizia para não ir para sítios perigosos e provar tudo o que lhe dava vontade.

O pequeno gafanhoto decidiu que ia passar a escutar e usar os conselhos da mãe, mas sabia que ia ser difícil. Será que ele vai conseguir, ou será que vai voltar a correr riscos desnecessários?

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20
Fev21

O Hotel de Insetos

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina que vivia na cidade, mas tinha um enorme terraço onde naquele ano a mãe tinha decidido fazer uma horta. Tinha sido uma diversão arranjar as enormes floreiras, encher com terra fértil e depois decidir e escolher as plantas que iam fazer crescer. A mãe escolheu alfaces, a menina tomates e brócolos, o irmãozinho quis morangos e a lista nunca mais acabava. Depois foi uma animação ir ao horto comprar as plantinhas frágeis e claro que acrescentaram algumas à lista, tal era a variedade e beleza daquelas plantinhas nos seus alvéolos geometricamente ordenados.

Regressaram a casa e o rebuliço continuou, plantar tudo com a mãe a orientar para que não ficassem demasiado juntas, nem demasiado afastadas, deixando espaço para poderem crescer. Por fim de regador em punho as crianças deram o aconchego final às pequenas plantinhas que ficaram instaladas na sua nova casa.

Quando tudo ficou pronto, as crianças ficaram um pouco perdidas, afinal agora a horta tinha de esperar para acontecerem coisas novas. Os meninos não eram nada bons a esperar, ficavam ansiosos, queriam fazer as coisas acontecer.

A mãe percebeu logo que os seus meninos estavam a precisar de um novo desafio. Meninos vamos fazer um hotel de insetos para a nossa horta. Os pequenos acharam divertido, até pensaram que a mãe estava a brincar. Os insetos ficam em hotéis? Então eles não têm um ninho? Andavam de terra em terra a passear e precisavam de ficar num hotel?

A mãe explicou que muitos insetos andavam de terra em terra sempre à procura de alimento e que ficavam um bocado perdidos nas cidades onde era muito difícil encontrar abrigo. A mãe explicou que por todo o Mundo havia pessoas nas cidades que estavam a construir hotéis para insetos para evitar que desaparecessem. Para o hotel que iam construir iam fazer “quartos” perfeitos para os insetos que queriam acolher porque para além de tudo iam ajudar a nova horta a ficar livre de insetos parasitas e iam fazer a polinização das flores.

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Então afinal quem vão ser os nossos hóspedes perguntou a menina em jeito de brincadeira. A mãe disse que eram abelhas solitárias e borboletas para fazer a polinização e as joaninhas e as crisopas que iam comer os insetos prejudiciais às plantas.

A menina perguntou como ia ser na entrada do hotel, a mãe disse que cada um chegava, escolhia o lugar que melhor lhe convinha e instalava-se.

Havia uma caixa oca com um raminho seco no interior e com duas fendas verticais que eram a entrada para as borboletas. Havia um tronco que tinha sido esburacado com muitos furos, onde cada um era um “quarto” para uma abelha solitária.

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Havia uma zona toda cheia com canas ocas bem arrumadinhas que eram os quartos das joaninhas. Finalmente, para as crisopas havia uma zona preenchida com rolos de cartão canelado bem enroladinhos, onde os espaços entre eles eram os quartos perfeitos. Para completar o hotel, todas as zonas acabavam por ser preenchidas com raminhos secos ou canas ocas.

As crianças ficaram muito entusiasmadas por irem construir o hotel. Foi uma aventura procurar os materiais, pedir ajuda ao pai para adaptar uma caixa de madeira e fazer uma espécie de telhado. Quando por fim ficou pronto tiveram de escolher um lugar na horta virado a Sul, elevado para os insetos o poderem avistar e próximo das plantas que iam ter flores.

No final todos estavam orgulhosos da horta e muito especialmente do hotel para insetos. Agora tinham de esperar pacientemente que as plantinhas crescessem e que os insetos viessem instalar-se.

E tu, gostavas de construir um hotel de insetos? 

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19
Jun20

A marta trepa que se farta

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma marta que não se penteava, não se calçava, não vestia vestidos nem usava chapéus. Era muito bonita, tinha uns olhos castanhos muito meigos que estavam sempre atentos a tudo o que se passava à sua volta. A marta adorava trepar às árvores, era rápida, não tinha nenhum medo, parecia que voava. Ia de árvore em árvore a toda a velocidade, era o que mais gostava de fazer.

Todos diziam sempre que tinha uma pele muito bonita, mas ela não achava que fosse nada de especial, era parecida com a da sua mãe e do seu pai. O que ela achava mais especial na sua pele era a mancha alaranjada que tinha na parte da frente do seu pescoço, quase parecia um cachecol, mas também todas as suas amigas tinham uma parecida.

A marta passava os dias a percorrer o pinhal e a floresta onde vivia, chegava a caminhar mais de vinte quilómetros num só dia. Nestes passeios tinha o cuidado de ir deixando umas gotinhas do seu perfume por onde ia passando para que todos soubessem que era por ali que tinha passado. Gostava também de procurar outros perfumes das suas amigas para ver por onde andavam a passear e para não pôr o seu perfume junto aos delas, senão ficava tudo misturado.

No verão aproveitava estes passeios para apanhar pequenos insectos e frutos do bosque, mas às vezes também apanhava pequenos ratos e esquilos. Gostava de procurar árvores esburacadas e espreitar para os buracos, muitas vezes entrava por eles dentro e dormia uma sesta.

Havia uma zona do bosque de que a marta gostava especialmente porque tinha pinheiros enormes, muito velhos e tinham também muitos carvalhos. Aqui o bosque era tão denso que debaixo das árvores nem chegava o sol. Era o seu lugar favorito no bosque. Mas no ano anterior tinha havido um fogo enorme que destruíra todas as árvores e tinha obrigado todos os animais a fugir do calor, das chamas, daquele som terrível de tudo a arder e a estalar furiosamente. Nem se queria lembrar! Fora o momento mais assustador da sua vida. Agora a marta já não ia a essa zona porque era tudo cinzento, sem vida, e faziam-na lembrar-se do fogo. Já começavam a aparecer umas ervinhas e até algumas flores, mas até voltar a haver árvores ia demorar muito, muito tempo.

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Por algum motivo que desconhecia tinham-lhe dito que era um mamífero, tal como tantos outros animais. Na verdade agora que pensava melhor tinham dito que era por se alimentar do leite da mãe quando era muito pequenina, sim era isso. Mas a marta não tinha gostado muito daquele nome. Tinham-lhe dito que todos os mamíferos tinham pelos, e isso era coisa que não faltava à marta, por isso devia mesmo ser um mamífero.

Um destes dias tinha-se aventurado até uma estrada que passava pelo meio do bosque e quando menos esperava apareceu um carro a toda a velocidade e por muito pouco não lhe tinha batido. Que medo! Fazia tanto barulho e ia tão depressa. Será que não a tinham visto? Afinal era adulta, tinha perto de meio metro quando se erguia nas patas traseiras…

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Ficou decidido, nunca mais ia para perto da estrada, era pena porque gostava daquela parte do bosque, mas era demasiado perigoso. Decidiu que ia avisar as suas amigas para não irem para aquelas paragens. A ela nunca lhe tinham falado nos carros, mas as martas tinham que os evitar. A mãe já lhe tinha falado sobre outros perigos, mas nunca daquele. Uma das coisas que a mãe sempre lhe tinha dito era para estar atenta às pegadas grandes das botas dos caçadores, por onde eles passavam o perigo aumentava. Avisara-a também das terríveis  armadilhas de ferro que eles deixavam na floresta para apanhar todo o tipo de animais, que se fossem pisadas se fechavam como uma boca de urso e já não se voltavam a abrir.

A mãe disse-lhe ainda que às vezes os caçadores faziam uma espécie de abrigos que pareciam mais confortáveis do que os buracos das árvores, mas que também se fechavam e era difícil escapar. Destes perigos a marta sabia fugir, mas da estrada e dos carros nunca tinha ouvido falar.

 A sua avó tinha-lhe dito que os caçadores eram terríveis e queriam apanhar as martas para usarem a sua pele para fazer casacos e os seus pelos sedosos para fazer pincéis delicados para pintar aguarelas. A marta quase nem conseguia acreditar, costumava dizer que para isso teriam de a apanhar. Não conseguia pensar que pudessem tirar uma vida para ficar com a pele, mas por outro lado sabia que a avó não lhe ia mentir. Uma coisa era certa tinha que se manter bem longe dos caçadores.

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Num dia de Inverno cheio de sol, a marta estava a deslizar de ramo em ramo pelas copas das árvores à procura de alguma comida, mas não encontrava nada e de tanto trepar acima e abaixo e saltar de ramo em ramo estava mesmo esfomeada. Ao longe viu numa clareira com sol um grupo de pessoas que estavam sentadas nas ervas numa manta a comer e a rir. De vez em quando o cão da família ladrava um pouco fazendo barulho e tentando mostrar que estava a ver a marta. A marta parou muito atenta a ver se o cão subia à árvore, mas ele continuava no chão a saltitar e a fazer barulho. As crianças da família começaram a prestar atenção ao cão e tentaram ver o que se passava.

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A marta continuava no cimo da árvore inquieta, mas curiosa. Aqueles não lhe pareciam os caçadores de que a mãe lhe falara, mas nunca se podia saber se eram ou não perigosos. Conseguia sentir o cheiro dos frutos que as crianças estavam a comer e a sua barriga ainda ficava com mais fome. O menino chegou junto ao cão e abraçou-o e perguntou-lhe para onde estava a olhar. Então o menino seguiu o olhar do cão e viu a marta e ficou todo contente. Disse logo à sua irmã:

- Marta, olha para o cimo da árvore, vês aquele bichinho peludo?

A menina olhava, olhava e finalmente conseguiu ver a marta, achou-a encantadora, fofinha e com um ar muito curioso. As crianças largaram os frutos que estavam a comer e foram a correr contar aos mais muito contentes e a perguntar que animal era aquele.marta bebe.jpg

Os pequenos frutos secos caíram mesmo junto ao pinheiro onde a marta estava e ela desceu velozmente tronco abaixo, apanhou um fruto e desatou a trepar novamente para o cimo da árvore. O pai viu o que tinha acontecido e disse às crianças para ficarem quietinhas e em silêncio na manta porque a marta devia descer de novo para ir buscar mais comida. E foi o que aconteceu. Entretanto o pai já tinha começado a filmar a marta na sua nova descida e estavam todos maravilhados a ver como o seu pelo era denso e sedoso, o corpo era magro e ágil parecia desenhado para vertiginosas corridas no cimo das árvores. Puderam ver de perto a bela mancha amarela no peito, o olhar vivo, as orelhas pequenas, as patinhas felpudas, estavam deslumbrados com a elegância e beleza da marta. Ficaram durante muito tempo a ver as viagens da marta a subir e descer o pinheiro para vir buscar mais frutos. Aos pouco a marta ficou mais tranquila e parecia que se tinha esquecido que eles estavam ali. Parou no chão tranquilamente, fez uns chiados e uns bufos, parecia que estava a falar. Depois levantou a sua cabeça e ficou em pé no chão, esticando-se muito bem, com os braços pendurados na frente do corpo rodou a cabeça para ver tudo à sua volta. Quase conseguia voltar a cabeça para trás sem voltar o corpo.

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Foi um momento mágico para toda a família ver de perto aquele animal elegante, curioso e que parecia tão macio que apetecia agarrar. Nunca se iam esquecer, estavam desejosos de contar aos amigos e mostrar o que tinham visto.

A marta depois de comer, ficou a observar aquelas pessoas que continuavam a não lhe parecer perigosas, manteve-se sempre ao longe para se sentir segura, era melhor manter as distâncias para evitar perigos. Estava cansada e bem-disposta por ter comido, desatou a correr para as árvores à procura de um abrigo para fazer uma soneca.

 

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A marta consegue fazer uns chiados e uns sussurros incríveis, queres ouvir? 

Não é fácil encontrar imagens de martas na sua vida. Vê como elas são gaciosas e rápidas.

 

 

 

 

 

 

 

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