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Contos por contar

Contos por contar

22
Abr22

Os meninos do Pinhal do Rei

Cristina Aveiro

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O Pilado era uma pequena aldeia de lavradores pobres encravada a meio do lado de onde nasce o sol no enorme retângulo reticulado que era a Mata Nacional, o Pinhal do Rei, ou como se diz agora o Pinhal de Leiria. Lá bem ao longe, em linha reta ao longo do Aceiro G, percorrendo 17 talhões chegava-se ao mar. O Pinhal do Rei era um belo retângulo encostado ao mar, que o separava das terras de cultivo magras e pouco férteis nas suas franjas. Tudo naquele lugar recordava o trabalho imenso, ao longo de dezenas de gerações, para conter as areias das dunas no seu constante caminhar para terra. Tantas coisas tinham sido feitas, as cercas móveis junto ao mar, o plantio e constante cuidado e estudo do majestoso pinhal, o esforço para drenar lagoas e pântanos com a abertura de longas valas profundas, a criação de aceiros (caminhos perpendiculares ao mar, com dez metros de largura, identificados por letras de A a T, de Norte para Sul) e arrifes (caminhos paralelos ao mar, com cinco metros de largura, identificados por números, entre 0 e 22, de Este para Oeste) criando um reticulado de perfeita ordem e organização da floresta, com trezentos e quarenta e dois talhões numerados. A grelha de caminhos fora criada para se circular na floresta, para semear, cuidar, cortar e transportar a madeira, prevenir e ajudar a controlar os fogos que sempre iam aparecendo.

A Mata era o sustento de todos os que viviam à sua volta. Os terrenos que circundavam o pinhal eram arenosos, fracos e estéreis, só os adubos naturais extraídos do pinhal permitiam que as terras fossem produtivas. Das matas vinham os fetos e a caruma seca, ou melhor ainda o rapão e o piorno que se encontrava nos lugares mais húmidos e sombrios, uma crusta balofa sobre a terra, com os resíduos caiam das árvores e iam apodrecendo. Era também com os fetos e caruma, enfim com o mato, que eram feitas as camas dos animais, vacas e porcos, e que depois mais tarde iriam também ser usados como estrume preparação das sementeiras.

As vacas e bois com os seus carros eram a força de trabalho para os “carreiros”, lavradores pobres, que conduziam a madeira para junto de determinadas casas dos guardas do pinhal. As carradas eram revistadas pelos guardas, eram rachadas e por ano mais de doze mil carradas seguiam para a fábrica dos vidros.

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As moças novas e algumas mulheres também encontravam trabalho na Mata, era a elas que cabia a recolha das pinhas, a secagem nas enormes eiras e depois a recolha e tratamento do “penisco”, a preciosa semente do pinheiro, para fazer nascer as novas árvores nos talhões onde tinham sido feitos os abates.

A riqueza do Pinhal do Rei sempre fora cobiçada e para a proteger, havia uma enorme vala (com um metro e meio de largura e dois de profundidade) que circundava todo o pinhal, com apenas quatro passagens onde as entradas e saídas eram controladas por guardas, a passagem da Cova do Lobo, no aceiro “I” era a mais próxima da aldeia do Pilado.

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A meados do século XIX começou a produzir-se carvão com a lenha do pinhal, a carbonização era feita dentro do pinhal, apenas nos meses frios. Mais tarde, passou a ser feita pelas gentes dos lugares da orla do pinhal, em Água Formosa, Carvide e, principalmente, no Pilado, onde chegou a haver sessenta fornos. Era uma vida de grande labuta e de algum risco, a necessidade de recolher a lenha obrigava a entrar na Mata num dos pontos de controlo da guarda, onde era feita a revista aos carros de bois à entrada e à saída, como numa fronteira. Eram as mulheres e as crianças que faziam as recolhas na Mata. Ora eram as carradas de caruma e mato bem altas que traziam para as suas casas, eram sempre revistadas na saída do pinhal pelos guardas de serviço que faziam atravessar a carrada por varas enormes com espetos na ponta para se certificarem que não iam lenha escondida no meio do mato, ora eram carradas de lenhos secos que depois eram usados no fabrico do carvão.

Os lenhos secos podiam ser derrubados dos pinheiros, mas nunca por nunca podiam derrubar lenhos verdes e muito menos cortar ou derrubar pinheiros. Tudo era difícil naquela jornada pois os lenhos que davam o melhor carvão eram os verdes e a necessidade aguçava o engenho para os poder trazer. As crianças aprendiam desde cedo que se alguém viesse junto delas, nomeadamente os guardas-florestais, nunca podiam falar de lenha verde como sendo sua ou de sua mãe pois sabiam que a posse dessa lenha acarretava problemas imensos, desde multas ao impedimento de ir à mata recolher os bens de que tanto precisavam para subsistir.

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Dos dias de maior preocupação era quando iam recolher a lenha para o carvão e tinham de construir uma carga no carro dos bois com toda a arte de empilhamento, em que faziam uma parede a toda a volta com lenha seca e no meio da carrada vinha a preciosa lenha verde para ser usada no fabrico do carvão. No fim de encher o meio da carrada havia que a cobrir com lenha seca e passar com a maior tranquilidade possível no ponto de controlo onde o guarda inspecionava a carrada. Só depois de chegar a casa todos respiravam de alívio!

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Chegados a casa e descarregado o carro havia que começar a fazer o “forno do carvão”. Tudo começava numa pequena cova onde eram colocados dois longos barrotes, deixando um canal para o ar, cobria-se com uma camada de caruma e a lenha trazida da Mata era empilhada até à altura de um metro. Depois cobria-se tudo com mais caruma ou mato e, finalmente, com areia. A seguir lançava-se o fogo por uma das entradas do canal debaixo da pilha, e, de imediato, tapava-se deixando o outro lado aberto para respiro do forno enquanto ia ardendo. A lenha ardia devagar, asfixiada pela falta de oxigénio e queimava durante 4 dias. Nesses dias a vigilância do forno nunca parava, o forno não se podia apagar, e tinham de cobrir as fendas que aparecessem, senão o ar entrava e toda a lenha ardia como em fogo aberto, desaparecendo todo o carvão. Quando acabava a combustão retirava-se a areia, recolhia-se e ensacava-se o carvão. Uma parte era usado em casa e o restante era vendido nas povoações mais próximas sendo uma fonte de rendimento importante para a família.

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Nas idas à Mata com a mãe, e o carro de bois, os dois irmãos pequenos encarregavam-se de ir trazendo até junto do carro as braças que a mãe ia derrubando com uma enorme vara com gancho na ponta. Numa das idas e vindas até ao carro, os pequenos avistaram um dos guardas-florestais a aproximar-se e ficaram tomados de um enorme medo, desde logo pela figura imponente e algo assustadora e também porque sabiam que tudo podia correr mal. Eles bem sabiam que tinham trazido braças secas e também lenha verde. Havia dois montes separados junto ao carro para depois cuidadosamente ser construída a carga com todos os preceitos, de modo que a lenha verde ficasse bem escondida. O guarda aproximava-se e já não havia forma de desaparecerem ou se esconderem sem que as coisas ficassem ainda piores, assim os dois petizes ficaram bem juntos e aguardaram. O guarda cumprimentou-os e perguntou com voz grossa de quem era aquela lenha. Os miúdos responderam com firmeza que não era deles. Então o guarda perguntou, e a corda que está junto da lenha? As crianças, talvez com receio de que lhes fosse retirada a corda (bem precioso naqueles tempos) disseram confiantes, a corda é nossa. O guarda perguntou-lhes então com quem estavam, ao que responderam que estavam com a mãe, e interrogados sobre onde se encontrava, desataram a correr ao seu encontro aflitos.

O guarda ao chegar junto da mãe com ar sério disse-lhe:

- Muito bem! Trazes os teus filhos muito bem-ensinados.

 As crianças nem sabiam se deviam respirar de alívio ou ficar com mais receio ainda. O guarda continuou, com que então, a lenha não é vossa, mas a corda pertence-vos…

A mãe estava estranhamente tranquila, as crianças percebiam que o guarda sabia que a lenha era deles, mas… parecia não acontecer nada. Para maior surpresa das crianças, a mãe comentou com o guarda que estava quase na hora de comer, ao que o guarda lhe disse que ia comer com os colegas a um dos lugares mais junto ao mar.

Assim que o guarda virou costas, a cara da mãe abriu-se num enorme sorriso e disse aos meninos que tinham que aproveitar, nem era preciso estar a compor a carrada com lenha seca ao redor, porque os guardas não iam estar no posto de controlo durante o almoço e assim podiam levar quanta lenha quisessem. As crianças ajudaram e juntos levaram para casa uma enorme e valiosa carga.

Em casa, uma vez completadas as tarefas e já ao lume do borralho da cozinha os pequenos perguntaram à mãe como é que tudo tinha corrido tão bem. Porque é que o guarda não os tinha multado. Porque é que o guarda tinha dito que ia estar a comer com os outros guardas.

Então a mãe, exausta e feliz, explicou-lhes que também havia guardas que compreendiam as dificuldades que as famílias passavam, e talvez nem concordassem com as regras que tinham que aplicar, que também eles tinham famílias para alimentar e tinham as suas dificuldades. Ainda sem tudo compreenderem as crianças continuaram a perguntar, então mãe quer dizer que há guardas com coração e que conseguem esquecer um pouco todas aquelas regras duras e que há outros que não as conseguem esquecer…

A mãe puxou os dois para dentro do seu regaço e respondeu apenas com um sorriso doce.

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Foto de J.M. Gonçalves

O Pinhal do Rei sempre foi para mim um lugar mágico. Recentemente encontrei uma menina que na sua infância ajudava a mãe a fazer carvão e o Pinhal trouxe-me mais uma surpresa que desconhecia.

As imagens e a técnica de fazer o carvão usada no Pilado estão descritas em "Lemos, Paula, Vidas de Carvão – As Carvoeiras do Pinhal do Rei, Leiria: Imagens & Letras, 2012".

As restantes imagens pertencem ao Blog sobre o Pinhal do Rei de J.M.Gonçalves que recomendo para quem gosta de saber mais e onde recolhi informação para este conto. Este blog é um verdadeiro museu do Pinhal do Rei e que muito bom seria se esse museu existisse com Centro Interpretativo do Pinhal. Esta Mata é/foi uma obra prima de silvicultura e tem o saber acumulado de gerações.

31
Dez21

Avó, o Pai Natal já se foi embora?

Os nossos contos de Natal 2021

Cristina Aveiro

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Era véspera de Ano Novo e a Margarida brincava alegre na casa da avó Miló. A pequena Margarida adorava estar em casa da avó.  Lá ela era a única criança da casa, havia o Bolinhas que era um gatinho pequenino que tinha chegado há pouco tempo e a acompanhava nas brincadeiras.

A menina passava o tempo a brincar tranquilamente com os novos brinquedos que tinha recebido de presente no Natal. Naquela tarde solarenga, junto à varanda da sala, a menina parou de brincar e foi até junto da avó Miló e perguntou com muita curiosidade:

- Avó, o Pai Natal já se foi embora?

A avó Miló parou o que estava a fazer e olhou para a menina com atenção e sorriu. Calmamente pensou no que seria uma boa resposta, não querendo desfazer sonhos e alegrias.

Minha querida é claro que o Pai Natal ainda não se foi embora, apesar de já ter entregue os presentes às crianças há ainda muitas coisas que ele quer ver como estão a acontecer. Quer perceber se as crianças gostaram dos presentes que receberam, quer ter a certeza de que todas as crianças receberam alguns brinquedos, quer saber se todos fizeram a reciclagem das embalagens e dos embrulhos, …

Antes que a avó Miló pudesse continuar a pequena Margarida perguntou muito despachada:

- O Pai Natal quer saber da reciclagem? Ele já é muito velhinho e quando ele era pequeno de certeza que não se preocupavam com isso!

A avó sorridente e orgulhosa da sua pequenina foi-lhe dizendo que embora o Pai Natal seja velhinho ele continua a aprender coisas como todas as pessoas e também ele está preocupado com a reciclagem e agora já escolhe brinquedos que sejam mais resistentes, feitos em materiais amigos do planeta Terra. O Pai Natal também tinha decidido que não valia a pena dar a cada criança muitos, muitos brinquedos, bastavam poucos, mas que fossem importantes e de que as crianças gostassem muito.

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Nessa altura a avó levantou-se, foi a um armário envidraçado da sala e retirou um brinquedo de madeira. Mostrou o brinquedo à menina e explicou-lhe que aquele brinquedo tinha sido da sua mãe e que ela o adorava. Era um brinquedo feito em madeira, muito resistente e que se movia sem usar pilhas ou baterias, apenas baseado em coisas simples e que podemos sempre usar.

A menina segurou o brinquedo, mas insistiu de novo sobre o Pai Natal:

- Avó achas que conseguimos ver o Pai Natal agora, mesmo depois de ele já não estar sentado onde o costumávamos ver antes do Natal?

A avó disse à menina que pensava que sim. Pensava que agora ele não estava a usar as suas roupas vermelhas e usava roupas parecidas com as das pessoas. Quando fossem passear iam estar muito atentas e olhar para os senhores mais velhinhos, sorrir-lhes porque só assim podiam ver no olhar deles se eles seriam ou não o Pai Natal.

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A avó disse ainda que sempre que olhassem com carinho e sorrissem para um senhor mais velhinho ele ia sentir um calor no coração e isso ia-o fazer feliz. Mesmo que o senhor não fosse o Pai Natal, o Pai Natal ia saber daquele sorriso  e ia ficar muito contente.

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Foto: Marco Santos

 

Este texto foi criado desafio "Os nossos contos de Natal 2021" lançado pela  Imsilva do Pessoas e Coisas da Vida e em que participam muitos bloguers deste maravilhoso sapal.

25
Dez21

E foi Natal!

"Os nossos contos de Natal 2021"

Cristina Aveiro

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Naquele tempo viviam-se receios de um terrível micróbio que tinha mudado a forma de viver de todos em todo o mundo.

No estranho ano de 2020 todos tinham ficado fechados em casa durante largos períodos e quando chegou o Natal não foi possível juntar toda a família em casa dos avós. Tinha sido assim com todas as famílias e com todas as crianças. Durante todo o ano foram dizendo que com as vacinas, testes e outros medicamentos, no ano seguinte tudo ia voltar ao que fora antes. Mas 2021 continuou a ser um ano estranho, com muitas máscaras e cuidados, tempos de isolamento em casa devido a amigos, professores ou outras pessoas que tinham ficado doentes e para não espalhar a doença recolher em casa era a melhor forma de travar o micróbio.

Ainda assim durante o tempo quente houve menos doença, pode haver férias de praia e de mar, pode haver aniversários com toda a família junta, tudo parecia começar a ser um pouco como antes. Com a chegada do frio no final do outono e início do inverno tudo começou a ficar mais complicado, mas ainda assim os meninos continuaram a acreditar que o Natal ia ser com todos juntos como eles tanto gostavam.

Lá no alto, naquela casa alta, no oitavo andar de um prédio na cidade grande os dois irmãos estavam ansiosos pela chegada as férias de Natal.

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Durante as férias de Natal iam sempre passar uns dias a casa dos avós. Os avós viviam numa casa enorme, com salas, terraços, sótão, uma lareira com fogueira a sério, jardim e um quintal com árvores e animais. Aquela casa era um lugar onde os rapazes podiam viver com grande liberdade, podiam fazer barulho à vontade, trepar às árvores, construir casas com enormes caixotes de cartão no jardim, ir apanhar laranjas, tangerinas, limões, …

Gostavam de ir ao capoeiro das galinhas buscar os ovos ao ninho, claro que às vezes havia acidentes no transporte porque afinal os ovos não vinham naquelas embalagens do supermercado e eram muito frágeis, mas ninguém se zangava quando se partiam. Havia uma enorme quantidade de histórias em que quase todos já tinha tido os seus acidentes, deixado cair das mãos, do cestinho, ou então como uma vez a tia tinha feito quando era pequenina. Tinha muitos ovos e decidiu colocar no bolso do casaco e depois se esquecera, a seguir fora abrir a porta e encostara-se e todos os ovos que estavam no bolso se tinham partido dentro do bolso do casaco de tricot azul, tinha sido gemada por toda a roupa e cascas partidinhas no bolso durante bastante tempo apesar das lavagens sucessivas.

Os rapazes desejavam sempre não chovesse para poderem passar muito tempo no quintal e no jardim e andar de bicicleta à vontade nas ruas tranquilas perto da casa da avó.

Havia também a casa da tia e das primas que era bem perto e onde havia um sótão enorme cheio de brinquedos, um móvel enorme cheio de legos, jogos e um nunca mais acabar de coisas diferentes das que tinham na sua casa da cidade grande.

Aquela liberdade, os preparativos do Natal na casa da avó e claro a expectativa daquela confusão alegre da troca de prendas deixavam-nos ansiosos por ir.

Na última semana de aulas, tal como já tinha acontecido várias vezes naquele ano, um dos colegas da escola ficou infetado com o maldito Covid e novamente tiveram de ficar em isolamento em casa, sim, isso mesmo, ficar sem poder sair de casa durante muitos dias.

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Os rapazes ficaram muito tristes, mesmo desolados porque assim, tal como no estranho ano de 2020 todos iam ter de ficar em casa no Natal e não iam poder estar com as tias, os tios e as primas. Nunca tinham imaginado que fosse acontecer de novo, mas tinha acontecido.

Nos primeiros dias em casa até se divertiram bastante, continuavam a ter aulas e trabalhos de casa, mas sobrava muito mais tempo porque não tinham que andar nas enormes filas de transito da cidade do mês do Natal. Passavam mais tempo a brincar, a ler, a conversar com o pai e com a mãe, a brincar com a gata, … Estavam a ter dias muito tranquilos, mas quanto mais se aproximava o dia 24 mas difícil era lembrar que não iam para casa dos avós e que não iam passar o Natal com "toda a gente" como eles costumavam dizer.

No dia 24, depois de terem jantado ouviram tocar a campainha e ficaram todos admirados. A mãe foi abrir a porta devagarinho, mas não estava lá ninguém. Os rapazes e a gata também vieram logo ver o quem era e viram logo o enorme saco de serapilheira muito cheio e um monte de envelopes coloridos em cima do saco. Pareciam postais de Natal.

Foi uma alegria levar tudo para dentro de casa, começar e ler os postais e o que estava dentro do saco.

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Mal tinham levado tudo para junto da árvore de Natal e do presépio quando o telefone tocou. O pai atendeu e disse que tinham de vestir os casacos grossos e ir todos para a varanda.

Lá foram todos e começaram a olhar para baixo tal como o pai tinha dito.

Que surpresa!

Estavam lá todos, os avós, os tios e as tias, os primos e as primas e foi pura magia de Natal vê-los e ouvi-los a cantar: Feliz Natal, Feliz Natal, que seja um bom Natal para toodos nóós!

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Este texto foi criado desafio "Os nossos contos de Natal 2021" lançado pela  Imsilva do Pessoas e Coisas da Vida e em que participam muitos bloguers deste maravilhoso sapal.

11
Dez21

Recordações do Pinheiro de Natal e do Presépio

Cristina Aveiro

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Quando chegava Dezembro e começava o Advento as crianças começavam a fazer planos para o presépio e para o pinheiro de Natal. Perguntavam quando é que iam ao pinhal escolher a árvore e apanhar o musgo para fazer o presépio e insistiam na esperança de apressar os pais. Os pais iam dizendo que ainda faltava muito tempo, mas as crianças estavam ansiosas por voltar a ver aqueles objetos mágicos que só estavam presentes naqueles poucos dias do ano.

Ir ao sótão buscar a caixa de cartão onde descansavam durante todo o ano as figuras do presépio, os enfeites, as fitas e luzes da árvore de Natal era um momento de imensa alegria. Tudo parecia novo e ainda mais bonito do que se lembravam. Aquela velha caixa encerrava pedacinhos da magia do Natal que se espalhavam e enchiam a casa assim que as crianças voltavam a ver o que estava lá dentro. Todos os anos pediam mais algumas figuras para o presépio e queriam ir ao mercado com os pais para verem o que havia de novo, talvez um pescador, um marceneiro, um anjo, ou mesmo outro pastor com ovelhinhas. Quando a mãe concordava em comprar mais uma e outra figura eles ficavam contentes, mas queriam sempre mais e ficava combinado: para o ano há mais, não podemos levar todas agora!

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Foto: Olhar Viana do Castelo

E finalmente chegava o dia de ir ao pinhal procurar um pinheiro jovem que tivesse nascido junto a outros e que não tivesse espaço para crescer bem. Procuravam também o que tivesse os ramos mais fartos e bem ordenados. A seguir iam com a enorme bacia procurar o musgo. À medida que iam andando pelo pinhal e pisavam a caruma e a terra fofa libertava-se um aroma puro a floresta, madeira e ervas silvestres que tornavam esta busca inesquecível. De repente viam um enorme arbusto de gisbardeira e pediam logo para apanhar uns belos ramos para pôr no presépio, ou para a jarra da sala.

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Mais à frente as cores de Natal voltavam a brilhar num enorme pilriteiro, repleto de bagas vermelhas a que as crianças chamavam peras do menino Jesus e as quais gostavam de comer. De novo queriam também levar para casa uns ramos deste arbusto para ajudar a trazer o ambiente natalício para casa. Quanto ao musgo era toda uma variedade, do mais envelhecido e compacto, ao mais viçoso e delicado, procurando variedade de cores e texturas. Quando a bacia ficava cheia, ainda queriam continuar a busca, parecia que não queriam que aquela tarefa feliz acabasse.

Em casa era uma azáfama a colocar o pinheiro num vaso, colocar pedras e areia para fazer peso. Começavam então a pendurar os bugalhos pintados de dourado, os sinos e as estrelas feitas de cartão grosso e embrulhadas nas pratas dos chocolates para brilharem festivamente. Penduravam também uns pequenos pais natais vestidos de vermelho em chocolate que eram uma verdadeira tentação, mas que não podiam comer senão a árvore ficava despida.

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Havia também umas grinaldas prateadas e douradas que as crianças adoravam. Costumavam também pôr bolinhas de algodão branco para parecer neve. Depois de tudo estar no seu lugar as crianças olhavam contentes para o seu pinheiro, mas ficavam sempre a pensar como o poderiam tornar perfeito como aqueles que apareciam nos postais, ou nos desenhos das histórias. Os pinheiros de Natal que enfeitavam eram sempre meio escangalhados com as braças muito espaçadas e erguidas ao céu, não tinham as braças simétricas a descer graciosamente como um véu como nas árvores de Natal perfeitas dos livros e da televisão. Sonhavam também com belas bolas de vidro vermelhas grandes e brilhantes e mesmo com luzes, mas isso eram sonhos. Afinal o pinheiro de Natal estava muito bonito e enchia a casa com o seu cheiro a resina e a chocolates.

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O presépio começava com o espalhar do musgo criando vales e montes, montando as pedras que encaixavam para formar a gruta do menino, traçando os caminhos com serradura, deixando correr os rios com as pratas dos chocolates guardadas ao longo do ano, pondo ramos e pinhas fechadas a fazer de árvores e florestas com neve, … e havia sempre novos planos e acrescentos. A alegria que era colocar as figuras, as casinhas, as pontes, a lavadeira, os pastores, o anjo e claro a magia dentro da gruta. Quantas vezes iriam ajeitar o menino, a Senhora e São José durante aqueles dias especiais em que a casa tinha o seu presépio. Nestas andanças havia sempre algumas figuras que não estariam no ano seguinte, mas a alegria de sentir e poder mexer no seu presépio era imensa e ficava para sempre.

As crianças cresceram, continuaram sempre a gostar de fazer o presépio e a árvore de Natal. Agora tinham árvores “perfeitas”, ideais para pendurar os enfeites, sem zonas peladas e vazias, mas estas árvores não tinham aquele cheiro a resina, a caruma verdinha como tinha a árvore de Natal da infância que afinal era imperfeitamente perfeita.

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04
Jun21

A menina descalça

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 3

Cristina Aveiro

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Foto: Artur Pastor

Andava sempre descalça, como as restantes crianças da aldeia. Os seus pequenos pés estavam habituados à dureza do chão, ao calor e ao frio e pareciam nem sentir as pedras do caminho. Apenas quando ia à cidade reparava que havia pessoas que usavam tamancos ou sapatos e botas nos pés. Havia também a professora e o senhor padre que nunca tinham os pés descalços.

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Foto: Artur Pastor

Um dia a sua madrinha disse-lhe que lhe ia mandar fazer uns tamancos com a pele do porco que iam ter na matança. A pequena ficou contente com a ideia de ter umas tamancas, mas o que mais a entusiasmou foi a festa da matança. Era sempre um dia especial em que havia carne fresca para todos, em que faziam as morcelas e as chouriças. Era uma festa com a família e os vizinhos, até se comprava pão branco em vez da broa que coziam sempre. Quanto às tamancas, talvez fosse bom, afinal via muitas mulheres na cidade a usá-las.

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Foto: Artur Pastor

Veio o dia em que teve de ir ao sapateiro para tirar as medidas para fazerem as ditas tamancas e depois mais tarde a madrinha chamou-a lá a casa para lhe entregar o presente. A menina chegou e ficou encantada com as tamancas novas. Eram de madeira clara com tachas reluzentes e a pele do porco também era clara e limpa. Eram mesmo bonitas! A madrinha disse-lhe para ir lavar os pés à bica da represa junto à casa para não as calçar com os pés sujos. A menina assim fez e depois calçou-as com todo o cuidado. Não sabia o que devia esperar porque nunca tinha calçado nada e sentiu logo os seus pés aprisionados em algo duro, muito duro. A madrinha perguntou-lhe se gostava e se estava contente. A menina disse que sim, que gostava muito. Estava convencida que devia ser por não estar habituada e com o tempo ia ficar melhor com as lindas tamancas.

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Saiu de casa da tia e ao caminhar para casa parecia que o chão do caminho tinha pedras como nunca, sentia todos os altos e baixos e tudo isso lhe magoava os pés por baixo. Na parte de cima a pele grossa do porco roçava-lhe a pele delicada que ia desaparecendo à medida que caminhava. Ainda não tinha chegado à fonte que ficava a meio do caminho e já tinha duas enormes feridas a sangrar no peito de cada pé. Os seus pés parecia que andavam aos soluços de forma desconchavada dentro das tamancas e não havia maneira de andarem em ritmo certo. A dor que sentia na planta e no peito dos pés tornavam o caminhar cada vez mais difícil, mas a menina não se atrevia a descalçar-se como tanto lhe apetecia. O que iriam dizer as gentes da aldeia, pensariam que não tinha gostado do valioso presente da madrinha. Ela não queria dar esse desgosto à madrinha e lá foi caminhando a custo até que chegou a casa.

Assim que entrou descalçou-se e disse para as tamancas:

- Não aguento mais convosco!

Ao mesmo tempo que o dizia atirou com elas para longe. A mãe e o pai que já estavam ao borralho nos bancos corridos da lareira grande ficaram admirados com a atitude da menina que não era dada a explosões. Perguntaram o que se passava, porque tinha mandado as tamancas e porque não aguentava com elas. A menina mostrou os seus pés ensanguentados e feridos e disse o quanto lhe doíam os pés e que nunca mais queria usar tal coisa. Nunca as pedras do chão a tinham magoado tanto, nem mesmo quando dava uma topada nalgum seixo mais levantado que não tivesse visto. Estava dito, não as queria mais.

Os pais tiveram pena da sua menina, ela que estava tão contente por ir ter as tamancas agora não se estava a dar com elas!

Então o pai disse-lhe que a madrinha não lhe tinha dado uns tamancos, deviam ser era umas salgadeiras como as de pôr a carne do porco porque afinal lhe tinham posto a carne à vista… A menina bem sabia que o pai estava a brincar com ela para que não levasse o assunto tão a sério, mas não achou graça nenhuma, continuava zangada com as tamancas. Então o pai voltou à carga e disse-lhe que se os seus sapatos lhe tivessem feito aquele serviço aos pés que os mandava para o lume e nunca mais os queria ver.

Ainda o pai não tinha acabado de dizer já a menina fazia voar as tamancas para o lume. O pai nunca imaginara que a menina fosse passar aos atos e muito menos com aquela rapidez. De um salto pegou na tenaz e salvou as tamancas do lume, afinal eram novas e tinham sido caras.

A menina disse para fazerem o que quisessem com elas, mas que aos seus pés nunca mais voltariam.

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Foto: Artur Pastor

Texto no âmbito do Tema 3 do Desafio dos Pássaros - 3.0 que nos dava como mote "Não aguento mais contigo! - afirmou enquanto o atirava para longe.

Este texto vive no Portugal descalço dos anos 50, onde nalgumas cidades foram criadas multas para os que lá circulassem sem calçado. Como se fosse uma questão de escolha e não de uma pobreza extrema. Queria esconder-se essa pobreza aos olhos de alguns citadinos talvez. 

 

 

07
Abr21

Vamos fazer bolo de chocolate!

#12 - Castanho Escuro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina magra, pequena, de cara redonda e cabelo aos caracóis de um tom castanho dourado. A menina adorava fazer coisas em especial na cozinha, onde podia escolher as folhas do agrião para a sopa, descascar batatas (que ficavam às vezes ainda com um pouco de pele, mas não fazia mal, a mãe ajudava), cortar cogumelos, partir ovos, … Desde muito cedo que fazer aquelas coisas com a mãe era uma espécie de brincadeira com materiais diferentes. Quando a deixaram pela primeira vez usar a máquina para espremer as laranjas ficou radiante, todos disseram que o sumo estava mesmo bom e que devia ser por causa da cozinheira. Desde esse dia, se era para fazer sumo de laranja, era a menina que o fazia.

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Era véspera do aniversário do pai e a menina e a mãe estavam a pensar que bolo iam fazer. A menina disse:

- Vamos fazer bolo de chocolate!

E a mãe perguntou qual, afinal faziam vários bolos de chocolate e a menina disse aquele que só tem a casca e depois lá dentro é molho. A mãe sorriu e concordou porque era o bolo favorito do pai.

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Começou então o ritual de fazer bolos, a mesa branca da cozinha ia-se enchendo com o livro das receitas da mãe, a forma redonda com a mola que deixava sair o fundo, a balança de plástico branco que aguentava todos os trambolhões que ia dando e depois os ingredientes. A mãe lia a receita, a menina ainda não sabia ler mas escutava com muita atenção e no fim sabia o que era preciso e ia buscar ao armário: o açúcar, a tablete do chocolate especial dos bolos e a farinha. Os ovos e a manteiga a mãe tirava do frigorifico porque a menina não chegava lá.

 

Para fazer o bolo a mãe queria sempre que se untasse a forma e a menina gostava de o fazer. Quando a mãe lhe trouxe uma forma igual à grande, com mola e tudo, mas tão pequena que até parecia de brincar a menina ficou radiante. Vamos fazer dois bolos com a mesma massa, o grande e o pequenino como tu, o que achas? Perguntou a mãe. A menina ficou tão contente que nem conseguia falar, abanou a cabeça a concordar e sorria feliz como um pássaro.

Untadas as formas, foi pesar o açúcar, partir os ovos e pôr na batedeira e esperar até o ponteiro grande do relógio da cozinha chegar até onde a mãe disse. A menina estava sempre “com as anteninhas no ar” como a mãe lhe dizia e no momento certo avisou a mãe que era para terminar de bater. Enquanto esperavam partiram o chocolate e aqueceram com muito cuidado porque ele não gostava de calores rápidos. E que bom mexer o chocolate derretido até ficar suave no seu castanho brilhante, aquele cheiro quente e delicioso ia ficar gravado na memória da menina para sempre. Tinha sempre que meter o dedinho para provar o chocolate, a massa enquanto estava amarelo claro e depois de ficar castanha quando se juntava o chocolate derretido. As cozinheiras têm de provar o que vão cozinhando, senão pode não ficar bom! A menina já tinha dito à mãe que não sabia se gostava mais do bolo antes ou depois de ir ao forno.

O momento de verter a massa nas formas era sempre emocionante, será que ia caber, será que ia sobrar um bocadinho? Oh, como era delicioso rapar a taça do bolo e ficar toda lambuzada de castanho!

No forno voltava a brincadeira de tomar conta do ponteiro grande do relógio da cozinha e avisar a mãe quando chegava ao lugar que a mãe tinha dito. Aquele cheirinho a bolo a cozer, humm era mágico, fazia crescer água na boca como se fosse uma fonte.

E pronto lá estavam os dois bolos bonitos, frágeis porque lá dentro estava tudo mole, só foram para os seus pratos depois de terem arrefecido.

Como estavam bonitos!

A menina cresceu e ainda gosta muito de bolo de chocolate. Continua a fazer este bolo em momentos especiais!

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Texto no âmbito do #12 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Castanho Escuro

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Este é em princípio o último texto do desafio mas sempre que tiver vontade de pintar palavras com um determinado lápis vou voltar a este desafio que me trouxe muitas alegrias neste 2.º confinamento. Sinto que somos o Grupo dos Lápis de Cor para sempre e pronto!

 

03
Abr21

Os três coelhinhos castanhos e os ovos da Páscoa

Os coelhos da Aunt B's Sweets & Treats foram a minha inspiração. Agradeço as fotografias dos

Cristina Aveiro

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Foto de Aunt B's Sweets & Treats

 

Era uma vez três coelhinhos que eram irmãos, viviam num enorme quintal que tinha uma horta, um jardim e uma casa lá bem ao fundo onde não se atreviam a chegar perto. Os três irmãos eram muito bonitos, de um tom castanho brilhante, com um belo pompom branco no rabiosque, grandes olhos castanhos e do que mais se orgulhavam era do cor-de-rosa das suas orelhas e do seu narizito.

A mãe tinha-lhes recomendado que ficassem pela zona junto ao bosque onde crescia boa erva e que nem pensassem em ir para a horta, para o jardim e muito menos que se aventurassem até à casa.

Aos poucos foram andando pela erva verdinha e nem notaram quando estavam mesmo ao lado da horta! Eles nunca tinham visto nada parecido, havia favas, couves, cenouras, alfaces, era um interminável festim de cores e aromas a que não conseguiam resistir.

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Fotos de Aunt B's Sweets & Treats

No dia seguinte aventuraram-se um pouco mais e foram logo para a horta, aos poucos começaram a aproximar-se da casa. Havia um grande grupo de crianças a brincar no jardim, umas levavam cestos e procuravam alguma coisa em todos os cantos, outros estavam a fazer uma corrida rolando ovos na relva e mandando-os para a frente com enormes colheres de pau.

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By The White House from Washington-DC

No telheiro da casa uma senhora ajudava as crianças a esvaziar ovos e a pintá-los de cores suaves, pareciam de flores. Iam levando os ovos aos meninos que estava à volta de uma árvore e pendurava os ovos coloridos e enfeitados, parecia mesmo uma árvore de Natal.

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Os três coelhinhos iam-se sempre aproximando um pouco mais, escondidos nos arbustos, cada vez estavam mais curiosos com toda aquela azáfama. Chegaram mais pessoas ao telheiro e houve abraços, beijos e risos, faziam muito barulho, mas parecia que estava tudo bem. As crianças começaram a ver o que havia nos cestos que tinham trazido e os três coelhinhos conseguiram esgueirar-se para uma das pontas do telheiro para verem tudo aquilo. Viram ovos castanhos de vários tamanhos que as crianças comiam com prazer. As crianças disseram muito alto: - Amêndoas! quando viram um cesto onde havia uma espécie de ovos pequeninos de muitas cores, alguns eram cor-de-rosa, azul-claro, branco, uns estavam embrulhados em prata brilhante de muitas cores, outros pareciam despenteados, aos biquinhos castanhos, havia uns brancos que pareciam ter agarrado pérolas de orvalho brancas e eram lindos.

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Drageias de Licor Confeitaria Arcádia      Amêndoa Coberta de Torre de Moncorvo-CM     Amêndoa francesa

Numa cestinha de vime claro, envoltos em pano branquinho estavam uns bolos acastanhados brilhantes com um ovo cor de mel no cimo. As crianças vieram junto da cestinha, disseram que cheirava tão bem e perguntaram se podiam ver os folares. Os três coelhinhos não sabiam o que era, mas se eram folares deviam vir das flores por isso eram bons de certeza.

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Foto de Manuela Cruz (https://tertuliadesabores.blogs.sapo.pt)

Com tanta curiosidade os coelhos foram-se esquecendo de se esconder e um dos meninos viu-os e foi ter com eles!

Os coelhos ficaram com tanto medo que nem conseguiram fugir! O menino agarrou-os com muito cuidado, porque viu que eram ainda pequenos como ele, e levou-os para mostrar às outras crianças e à sua mãe. Estavam todos encantados com a beleza deles, o seu castanho luzidio, os pompons branquinhos, as orelhas e o narizito cor-de-rosa, eram mesmo muito bonitos, nunca tinham visto nenhuns assim. O menino perguntou se seriam estes os coelhos da Páscoa e a mãe disse que não sabia. O menino ficou pensativo e disse à mãe que gostava de ficar com eles. A mãe disse que como eram pequenos a mãe deles ia certamente ficar preocupada sem saber onde estariam.

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O menino voltou para o jardim e levou os coelhos até à horta e disse-lhes:

- Gostava muito que ficassem comigo, mas sei que o melhor para vocês é voltarem para a natureza para junto da vossa mãe. Voltem com cuidado para a vossa casa!

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Foto de Aunt B's Sweets & Treats

 

20
Mar21

Apetece-me ir para o deserto!

Cristina Aveiro

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Estavam de regresso à escola depois de dois meses em casa por causa do maldito bicho que os tinha mantido fechados, afastado dos amigos, das pessoas e dos lugares de que gostavam.

Todos os meninos estavam felizes, cheios de energia, cheios de histórias para contar. Nas salas ficaram muito contentes por voltar a sentar-se nas suas mesas, por voltar a ocupar o seu lugar na sala de aula, por estarem ali com o professor e com todos junto deles e não no computador.

Na hora do recreio tinham toda a escola para eles porque os meninos crescidos não estavam lá. Pareciam mesmo “bandos de pardais à solta” como se cantava numa canção. Corriam, exploravam os sítios, jogavam à bola e caiam, escorregavam, parecia que tinham perdido o treino de andar a toda a velocidade como era seu costume.

As senhoras que os acompanhavam para tomar conta admiraram-se com estas dificuldades, parecia que estavam perros, destreinados, quase lhes lembravam os bichinhos que depois de um longo cativeiro tinham um andar hesitante e desajeitado, com menos equilíbrio e coordenação. Admiraram-se também com o que tinham crescido. Tal como antes, os meninos tinham voltado cheios de vontade de falar com as senhoras para contar as suas histórias, para perguntar tudo e mais alguma coisa, sobre o que ia acontecer, ou que tinha acontecido e muito mais coisas de que ninguém mais se lembraria de perguntar senão as crianças. As senhoras gostavam muito dos seus meninos, conheciam bem o bando, sabiam-lhes os nomes, os gostos, os que falavam muito e os que eram de poucas falas, os que gostavam de empurrar, arreliar, acarinhar, descobrir, … Sabiam-nos de cor, como também canta outra canção. Gostavam deles como eram, era bom haver traquinas e reguilas e calmos e sossegados, eles eram como uma orquestra, tocavam todos os sons, os calmos e os que inquietavam todos e nenhum som se podia dispensar, todos faziam falta. Os professores e as senhoras pareciam a maestrina que tocava a orquestra como num pequeno filme que aparecia por estes dias na televisão, umas vezes com movimentos tranquilos e outras num frenesim que quase parecia gritar.

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Um dos meninos, moreno, de cabelo ondulado negro e rebelde, costumava andar sempre por todo o lado em muito alta velocidade, até a falar era supersónico, nem para escutar conseguia parar, era sempre tudo a mil à hora. A sua velocidade era maior que a dos colegas e isso provocava muitas vezes “acidentes” e desentendimentos com miúdos e graúdos. Com a sua velocidade parecia impossível que reparasse nas pequenas coisas, mas seria assim?

Naquele dia de regresso o menino estava ainda com mais velocidade do que a habitual, mas isso não o impediu de reparar que uma das senhoras estava algo sombria. O menino fixou os seus olhos castanhos muito vivos nos olhos da senhora e chegou-se à conversa. Atrás da máscara e dos óculos da senhora ele viu que que os seus olhos não estavam a sorrir como era habitual. Começou por perguntar se estava boa, o que é que tinha, se estava doente, se tinha acontecido alguma coisa, … e foi saltando de pergunta em pergunta sem ficar satisfeito com as respostas.

A senhora estava  admirada por o menino ter parado as suas corridas e brincadeiras durante tanto tempo, estava surpreendida por o menino, na sua velocidade e turbulência, ter sentido o que lhe ia na alma e ela tanto queria guardar só para si.

Quando menino perguntou o que é que apetecia à senhora, ela respondeu calmamente: “Apetece-me ir para o deserto!” em jeito de suspiro. Pensava que ele ia ficar satisfeito com a resposta e que ia voltar às suas brincadeiras já com a curiosidade satisfeita. Mas o menino continuou com as perguntas, quis saber porque é que a senhora queria ir para o deserto, ao que ela respondeu que era para estar sozinha. O menino parou um pouco a pensar e pediu para ir buscar um papel para fazer um desenho. A senhora disse que sim, ficando cada vez mais admirada por ele preferir desenhar a estar nas correrias e brincadeiras. Quando voltou para junto dela começou a desenhar um deserto com catos e uma senhora. Quando ela lhe perguntou quem era, ele respondeu prontamente: - És tu!

O menino continuou a desenhar, desenhou-se a si também no deserto, a senhora perguntou porque é que ele também estava no deserto. O menino respondeu que era para estar com ela e assim ninguém estava sozinho.

A senhora estava comovida, mas para disfarçar perguntou se não havia mais nada no deserto e o menino desenhou um passarinho e continuou a desenhar. Desta vez desenhou um avião com duas pessoas lá dentro, muito parecidas com a senhora e o menino. A seguir desenhou pequenas setas a ligar as imagens deles no deserto às imagens deles no avião. A senhora estava deslumbrada com o que o pequeno ia fazendo e perguntou-lhe então o que era tudo aquilo, o avião, as pessoas no avião e as setas. Disse-lhe que já não estava a perceber o desenho porque queria ouvir o que o menino tinha para dizer.

O menino explicou com calma, as pessoas no avião “és tu e eu” e as setas querem dizer que deixámos o deserto e que vamos embora no avião. Finalizou dizendo: - Toma, o desenho é para ti! E largou a correr juntando-se de novo ao bando.

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Ao agarrar o desenho a senhora estava a sorrir e sentia um calor enorme no coração. Como é que aquele pequeno diabrete vira o que ela queria esconder, como é que ele estivera parado tanto tempo a escutar, a acompanhar e finalmente como desejara que juntos saíssem do lugar triste. Como é que ele era tão sábio? Claro que era! Ele era uma criança, um diabrete com asas de anjo.

 

20
Fev21

O Hotel de Insetos

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina que vivia na cidade, mas tinha um enorme terraço onde naquele ano a mãe tinha decidido fazer uma horta. Tinha sido uma diversão arranjar as enormes floreiras, encher com terra fértil e depois decidir e escolher as plantas que iam fazer crescer. A mãe escolheu alfaces, a menina tomates e brócolos, o irmãozinho quis morangos e a lista nunca mais acabava. Depois foi uma animação ir ao horto comprar as plantinhas frágeis e claro que acrescentaram algumas à lista, tal era a variedade e beleza daquelas plantinhas nos seus alvéolos geometricamente ordenados.

Regressaram a casa e o rebuliço continuou, plantar tudo com a mãe a orientar para que não ficassem demasiado juntas, nem demasiado afastadas, deixando espaço para poderem crescer. Por fim de regador em punho as crianças deram o aconchego final às pequenas plantinhas que ficaram instaladas na sua nova casa.

Quando tudo ficou pronto, as crianças ficaram um pouco perdidas, afinal agora a horta tinha de esperar para acontecerem coisas novas. Os meninos não eram nada bons a esperar, ficavam ansiosos, queriam fazer as coisas acontecer.

A mãe percebeu logo que os seus meninos estavam a precisar de um novo desafio. Meninos vamos fazer um hotel de insetos para a nossa horta. Os pequenos acharam divertido, até pensaram que a mãe estava a brincar. Os insetos ficam em hotéis? Então eles não têm um ninho? Andavam de terra em terra a passear e precisavam de ficar num hotel?

A mãe explicou que muitos insetos andavam de terra em terra sempre à procura de alimento e que ficavam um bocado perdidos nas cidades onde era muito difícil encontrar abrigo. A mãe explicou que por todo o Mundo havia pessoas nas cidades que estavam a construir hotéis para insetos para evitar que desaparecessem. Para o hotel que iam construir iam fazer “quartos” perfeitos para os insetos que queriam acolher porque para além de tudo iam ajudar a nova horta a ficar livre de insetos parasitas e iam fazer a polinização das flores.

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Então afinal quem vão ser os nossos hóspedes perguntou a menina em jeito de brincadeira. A mãe disse que eram abelhas solitárias e borboletas para fazer a polinização e as joaninhas e as crisopas que iam comer os insetos prejudiciais às plantas.

A menina perguntou como ia ser na entrada do hotel, a mãe disse que cada um chegava, escolhia o lugar que melhor lhe convinha e instalava-se.

Havia uma caixa oca com um raminho seco no interior e com duas fendas verticais que eram a entrada para as borboletas. Havia um tronco que tinha sido esburacado com muitos furos, onde cada um era um “quarto” para uma abelha solitária.

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Havia uma zona toda cheia com canas ocas bem arrumadinhas que eram os quartos das joaninhas. Finalmente, para as crisopas havia uma zona preenchida com rolos de cartão canelado bem enroladinhos, onde os espaços entre eles eram os quartos perfeitos. Para completar o hotel, todas as zonas acabavam por ser preenchidas com raminhos secos ou canas ocas.

As crianças ficaram muito entusiasmadas por irem construir o hotel. Foi uma aventura procurar os materiais, pedir ajuda ao pai para adaptar uma caixa de madeira e fazer uma espécie de telhado. Quando por fim ficou pronto tiveram de escolher um lugar na horta virado a Sul, elevado para os insetos o poderem avistar e próximo das plantas que iam ter flores.

No final todos estavam orgulhosos da horta e muito especialmente do hotel para insetos. Agora tinham de esperar pacientemente que as plantinhas crescessem e que os insetos viessem instalar-se.

E tu, gostavas de construir um hotel de insetos? 

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06
Dez20

A Mafalda tem caracóis na cabeça

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina pequenina chamada Mafalda que tinha a cabeça cheia de caracóis, louros, muito apertadinhos e impossíveis de domar. A Mafalda era alegre, cheia de energia, gostava de dizer coisas engraçadas, de dar grandes abraços apertados, de dar uma sonora gargalhada. Todos gostavam muita da Mafalda e achavam que ela era muito bonita e amiga.

A Mafalda não gostava mesmo nada do seu cabelo, os seus caracóis até lhe tiravam um pouco da sua alegria. Nunca ia perceber porque chamavam caracóis às formas do cabelo. Ela detestava caracóis e caracoletas, achava-os nojentos com a sua baba verde que até deixava rasto por onde passavam. Quando lhe falavam dos seus cabelos aos caracóis ela imaginava a sua cabeça lisinha sem nenhum cabelo e totalmente coberta de caracóis e caracoletas a arrastarem-se e a deixarem-na cheia de baba, ou ranho de caracol. Um perfeito nojo.

Mafalda sonhava com os cabelos lisos das suas amigas e tentava esticar o seu cabelo, prende-lo em rabichos, rabos-de-cavalo enfim tentava de tudo mas o cabelo parecia sempre que estava aprisionado e depois do elástico explodia numa bola de caracóis em vez de cair sossegado como um rabo-de-cavalo. Os seus rabichos pareciam pon-pons, não eram nada como deviam ser.

A Mafalda também não gostava das sardas da sua pele, em especial na cara. De nada valiam os elogios dos adultos aos seus belos olhos verdes e à beleza da sua carinha arredondada, para ela só havia os cabelos e as sardas de que não gostava.

A menina cresceu, mas continuou a lutar com os seus cabelos sempre com esperança de eles se cansarem e ficarem lisos. Deixou-os crescer, aplicou cremes e produtos variados, esticou com o secador, usou mil maneiras, mas os seus caracóis continuavam lá, impossíveis de moldar ou domar. As suas amigas muitas vezes lhe diziam que gostavam de ter um cabelo como o dela porque era bonito e invulgar. Mas a Mafalda continuava a não gostar, ela queria mil vezes um cabelo vulgar como o de toda a gente e continuava a tentar obrigar o cabelo a parecer liso, mas continuava a não conseguir.

Quando já era crescida, mesmo adulta começou a perceber que o seu cabelo um pouco rebelde e cheio de força era até parecido com ela. Também ela não se deixava aprisionar por ideias em que não acreditava, ou por modas que passavam. Um dia deixou o seu cabelo à solta, permitindo-lhe que fizesse todos os caracóis que quisesse, que ficasse com o volume que lhe apetecesse, nem que a cabeça dela ficasse a parecer o planeta Terra.

Qual não foi a surpresa da Mafalda quando ao ver-se ao espelho, pela primeira vez gostou da moldura que os seus caracóis faziam ao seu rosto. E afinal os cabelos ruivos com caracóis até combinavam com as sardas que tinha no rosto e davam-lhe um ar alegre e cheio de energia. Parecia que afinal o que combinava com a sua personalidade eram mesmo os caracóis bem enroladinhos e as sardas com ar irreverente e bem disposto. Queria isto dizer que todo aquele esforço de tornar lisos os cabelos fora apenas um desperdício, os caracóis aprisionados não ficavam tão bonitos e não correspondiam ao que a Mafalda era.

Depois desse dia a Mafalda nunca mais prendeu os seus caracóis. Ela sabia que muitas vezes queremos tudo diferente do que temos e nem pensamos se o que temos é o que nos fica melhor. Quando alguém lhe dizia como eram bonitos os seus cabelos e que gostava era de ter também caracóis, a Mafalda dizia:

- Os teus cabelos são os que te ficam melhor, são os que combinam com a tua cara e com a pessoa que tu és.

E tu gostas dos teus cabelos? Eles combinam contigo?

 

Vitória, vitória, acabou-se a história.

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