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Contos por contar

Contos por contar

04
Jun21

A menina descalça

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 3

Cristina Aveiro

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Foto: Artur Pastor

Andava sempre descalça, como as restantes crianças da aldeia. Os seus pequenos pés estavam habituados à dureza do chão, ao calor e ao frio e pareciam nem sentir as pedras do caminho. Apenas quando ia à cidade reparava que havia pessoas que usavam tamancos ou sapatos e botas nos pés. Havia também a professora e o senhor padre que nunca tinham os pés descalços.

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Foto: Artur Pastor

Um dia a sua madrinha disse-lhe que lhe ia mandar fazer uns tamancos com a pele do porco que iam ter na matança. A pequena ficou contente com a ideia de ter umas tamancas, mas o que mais a entusiasmou foi a festa da matança. Era sempre um dia especial em que havia carne fresca para todos, em que faziam as morcelas e as chouriças. Era uma festa com a família e os vizinhos, até se comprava pão branco em vez da broa que coziam sempre. Quanto às tamancas, talvez fosse bom, afinal via muitas mulheres na cidade a usá-las.

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Foto: Artur Pastor

Veio o dia em que teve de ir ao sapateiro para tirar as medidas para fazerem as ditas tamancas e depois mais tarde a madrinha chamou-a lá a casa para lhe entregar o presente. A menina chegou e ficou encantada com as tamancas novas. Eram de madeira clara com tachas reluzentes e a pele do porco também era clara e limpa. Eram mesmo bonitas! A madrinha disse-lhe para ir lavar os pés à bica da represa junto à casa para não as calçar com os pés sujos. A menina assim fez e depois calçou-as com todo o cuidado. Não sabia o que devia esperar porque nunca tinha calçado nada e sentiu logo os seus pés aprisionados em algo duro, muito duro. A madrinha perguntou-lhe se gostava e se estava contente. A menina disse que sim, que gostava muito. Estava convencida que devia ser por não estar habituada e com o tempo ia ficar melhor com as lindas tamancas.

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Saiu de casa da tia e ao caminhar para casa parecia que o chão do caminho tinha pedras como nunca, sentia todos os altos e baixos e tudo isso lhe magoava os pés por baixo. Na parte de cima a pele grossa do porco roçava-lhe a pele delicada que ia desaparecendo à medida que caminhava. Ainda não tinha chegado à fonte que ficava a meio do caminho e já tinha duas enormes feridas a sangrar no peito de cada pé. Os seus pés parecia que andavam aos soluços de forma desconchavada dentro das tamancas e não havia maneira de andarem em ritmo certo. A dor que sentia na planta e no peito dos pés tornavam o caminhar cada vez mais difícil, mas a menina não se atrevia a descalçar-se como tanto lhe apetecia. O que iriam dizer as gentes da aldeia, pensariam que não tinha gostado do valioso presente da madrinha. Ela não queria dar esse desgosto à madrinha e lá foi caminhando a custo até que chegou a casa.

Assim que entrou descalçou-se e disse para as tamancas:

- Não aguento mais convosco!

Ao mesmo tempo que o dizia atirou com elas para longe. A mãe e o pai que já estavam ao borralho nos bancos corridos da lareira grande ficaram admirados com a atitude da menina que não era dada a explosões. Perguntaram o que se passava, porque tinha mandado as tamancas e porque não aguentava com elas. A menina mostrou os seus pés ensanguentados e feridos e disse o quanto lhe doíam os pés e que nunca mais queria usar tal coisa. Nunca as pedras do chão a tinham magoado tanto, nem mesmo quando dava uma topada nalgum seixo mais levantado que não tivesse visto. Estava dito, não as queria mais.

Os pais tiveram pena da sua menina, ela que estava tão contente por ir ter as tamancas agora não se estava a dar com elas!

Então o pai disse-lhe que a madrinha não lhe tinha dado uns tamancos, deviam ser era umas salgadeiras como as de pôr a carne do porco porque afinal lhe tinham posto a carne à vista… A menina bem sabia que o pai estava a brincar com ela para que não levasse o assunto tão a sério, mas não achou graça nenhuma, continuava zangada com as tamancas. Então o pai voltou à carga e disse-lhe que se os seus sapatos lhe tivessem feito aquele serviço aos pés que os mandava para o lume e nunca mais os queria ver.

Ainda o pai não tinha acabado de dizer já a menina fazia voar as tamancas para o lume. O pai nunca imaginara que a menina fosse passar aos atos e muito menos com aquela rapidez. De um salto pegou na tenaz e salvou as tamancas do lume, afinal eram novas e tinham sido caras.

A menina disse para fazerem o que quisessem com elas, mas que aos seus pés nunca mais voltariam.

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Foto: Artur Pastor

Texto no âmbito do Tema 3 do Desafio dos Pássaros - 3.0 que nos dava como mote "Não aguento mais contigo! - afirmou enquanto o atirava para longe.

Este texto vive no Portugal descalço dos anos 50, onde nalgumas cidades foram criadas multas para os que lá circulassem sem calçado. Como se fosse uma questão de escolha e não de uma pobreza extrema. Queria esconder-se essa pobreza aos olhos de alguns citadinos talvez. 

 

 

07
Abr21

Vamos fazer bolo de chocolate!

#12 - Castanho Escuro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina magra, pequena, de cara redonda e cabelo aos caracóis de um tom castanho dourado. A menina adorava fazer coisas em especial na cozinha, onde podia escolher as folhas do agrião para a sopa, descascar batatas (que ficavam às vezes ainda com um pouco de pele, mas não fazia mal, a mãe ajudava), cortar cogumelos, partir ovos, … Desde muito cedo que fazer aquelas coisas com a mãe era uma espécie de brincadeira com materiais diferentes. Quando a deixaram pela primeira vez usar a máquina para espremer as laranjas ficou radiante, todos disseram que o sumo estava mesmo bom e que devia ser por causa da cozinheira. Desde esse dia, se era para fazer sumo de laranja, era a menina que o fazia.

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Era véspera do aniversário do pai e a menina e a mãe estavam a pensar que bolo iam fazer. A menina disse:

- Vamos fazer bolo de chocolate!

E a mãe perguntou qual, afinal faziam vários bolos de chocolate e a menina disse aquele que só tem a casca e depois lá dentro é molho. A mãe sorriu e concordou porque era o bolo favorito do pai.

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Começou então o ritual de fazer bolos, a mesa branca da cozinha ia-se enchendo com o livro das receitas da mãe, a forma redonda com a mola que deixava sair o fundo, a balança de plástico branco que aguentava todos os trambolhões que ia dando e depois os ingredientes. A mãe lia a receita, a menina ainda não sabia ler mas escutava com muita atenção e no fim sabia o que era preciso e ia buscar ao armário: o açúcar, a tablete do chocolate especial dos bolos e a farinha. Os ovos e a manteiga a mãe tirava do frigorifico porque a menina não chegava lá.

 

Para fazer o bolo a mãe queria sempre que se untasse a forma e a menina gostava de o fazer. Quando a mãe lhe trouxe uma forma igual à grande, com mola e tudo, mas tão pequena que até parecia de brincar a menina ficou radiante. Vamos fazer dois bolos com a mesma massa, o grande e o pequenino como tu, o que achas? Perguntou a mãe. A menina ficou tão contente que nem conseguia falar, abanou a cabeça a concordar e sorria feliz como um pássaro.

Untadas as formas, foi pesar o açúcar, partir os ovos e pôr na batedeira e esperar até o ponteiro grande do relógio da cozinha chegar até onde a mãe disse. A menina estava sempre “com as anteninhas no ar” como a mãe lhe dizia e no momento certo avisou a mãe que era para terminar de bater. Enquanto esperavam partiram o chocolate e aqueceram com muito cuidado porque ele não gostava de calores rápidos. E que bom mexer o chocolate derretido até ficar suave no seu castanho brilhante, aquele cheiro quente e delicioso ia ficar gravado na memória da menina para sempre. Tinha sempre que meter o dedinho para provar o chocolate, a massa enquanto estava amarelo claro e depois de ficar castanha quando se juntava o chocolate derretido. As cozinheiras têm de provar o que vão cozinhando, senão pode não ficar bom! A menina já tinha dito à mãe que não sabia se gostava mais do bolo antes ou depois de ir ao forno.

O momento de verter a massa nas formas era sempre emocionante, será que ia caber, será que ia sobrar um bocadinho? Oh, como era delicioso rapar a taça do bolo e ficar toda lambuzada de castanho!

No forno voltava a brincadeira de tomar conta do ponteiro grande do relógio da cozinha e avisar a mãe quando chegava ao lugar que a mãe tinha dito. Aquele cheirinho a bolo a cozer, humm era mágico, fazia crescer água na boca como se fosse uma fonte.

E pronto lá estavam os dois bolos bonitos, frágeis porque lá dentro estava tudo mole, só foram para os seus pratos depois de terem arrefecido.

Como estavam bonitos!

A menina cresceu e ainda gosta muito de bolo de chocolate. Continua a fazer este bolo em momentos especiais!

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Texto no âmbito do #12 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Castanho Escuro

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Este é em princípio o último texto do desafio mas sempre que tiver vontade de pintar palavras com um determinado lápis vou voltar a este desafio que me trouxe muitas alegrias neste 2.º confinamento. Sinto que somos o Grupo dos Lápis de Cor para sempre e pronto!

 

03
Abr21

Os três coelhinhos castanhos e os ovos da Páscoa

Os coelhos da Aunt B's Sweets & Treats foram a minha inspiração. Agradeço as fotografias dos

Cristina Aveiro

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Foto de Aunt B's Sweets & Treats

 

Era uma vez três coelhinhos que eram irmãos, viviam num enorme quintal que tinha uma horta, um jardim e uma casa lá bem ao fundo onde não se atreviam a chegar perto. Os três irmãos eram muito bonitos, de um tom castanho brilhante, com um belo pompom branco no rabiosque, grandes olhos castanhos e do que mais se orgulhavam era do cor-de-rosa das suas orelhas e do seu narizito.

A mãe tinha-lhes recomendado que ficassem pela zona junto ao bosque onde crescia boa erva e que nem pensassem em ir para a horta, para o jardim e muito menos que se aventurassem até à casa.

Aos poucos foram andando pela erva verdinha e nem notaram quando estavam mesmo ao lado da horta! Eles nunca tinham visto nada parecido, havia favas, couves, cenouras, alfaces, era um interminável festim de cores e aromas a que não conseguiam resistir.

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Fotos de Aunt B's Sweets & Treats

No dia seguinte aventuraram-se um pouco mais e foram logo para a horta, aos poucos começaram a aproximar-se da casa. Havia um grande grupo de crianças a brincar no jardim, umas levavam cestos e procuravam alguma coisa em todos os cantos, outros estavam a fazer uma corrida rolando ovos na relva e mandando-os para a frente com enormes colheres de pau.

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By The White House from Washington-DC

No telheiro da casa uma senhora ajudava as crianças a esvaziar ovos e a pintá-los de cores suaves, pareciam de flores. Iam levando os ovos aos meninos que estava à volta de uma árvore e pendurava os ovos coloridos e enfeitados, parecia mesmo uma árvore de Natal.

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Os três coelhinhos iam-se sempre aproximando um pouco mais, escondidos nos arbustos, cada vez estavam mais curiosos com toda aquela azáfama. Chegaram mais pessoas ao telheiro e houve abraços, beijos e risos, faziam muito barulho, mas parecia que estava tudo bem. As crianças começaram a ver o que havia nos cestos que tinham trazido e os três coelhinhos conseguiram esgueirar-se para uma das pontas do telheiro para verem tudo aquilo. Viram ovos castanhos de vários tamanhos que as crianças comiam com prazer. As crianças disseram muito alto: - Amêndoas! quando viram um cesto onde havia uma espécie de ovos pequeninos de muitas cores, alguns eram cor-de-rosa, azul-claro, branco, uns estavam embrulhados em prata brilhante de muitas cores, outros pareciam despenteados, aos biquinhos castanhos, havia uns brancos que pareciam ter agarrado pérolas de orvalho brancas e eram lindos.

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Drageias de Licor Confeitaria Arcádia      Amêndoa Coberta de Torre de Moncorvo-CM     Amêndoa francesa

Numa cestinha de vime claro, envoltos em pano branquinho estavam uns bolos acastanhados brilhantes com um ovo cor de mel no cimo. As crianças vieram junto da cestinha, disseram que cheirava tão bem e perguntaram se podiam ver os folares. Os três coelhinhos não sabiam o que era, mas se eram folares deviam vir das flores por isso eram bons de certeza.

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Foto de Manuela Cruz (https://tertuliadesabores.blogs.sapo.pt)

Com tanta curiosidade os coelhos foram-se esquecendo de se esconder e um dos meninos viu-os e foi ter com eles!

Os coelhos ficaram com tanto medo que nem conseguiram fugir! O menino agarrou-os com muito cuidado, porque viu que eram ainda pequenos como ele, e levou-os para mostrar às outras crianças e à sua mãe. Estavam todos encantados com a beleza deles, o seu castanho luzidio, os pompons branquinhos, as orelhas e o narizito cor-de-rosa, eram mesmo muito bonitos, nunca tinham visto nenhuns assim. O menino perguntou se seriam estes os coelhos da Páscoa e a mãe disse que não sabia. O menino ficou pensativo e disse à mãe que gostava de ficar com eles. A mãe disse que como eram pequenos a mãe deles ia certamente ficar preocupada sem saber onde estariam.

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O menino voltou para o jardim e levou os coelhos até à horta e disse-lhes:

- Gostava muito que ficassem comigo, mas sei que o melhor para vocês é voltarem para a natureza para junto da vossa mãe. Voltem com cuidado para a vossa casa!

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Foto de Aunt B's Sweets & Treats

 

20
Mar21

Apetece-me ir para o deserto!

Cristina Aveiro

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Estavam de regresso à escola depois de dois meses em casa por causa do maldito bicho que os tinha mantido fechados, afastado dos amigos, das pessoas e dos lugares de que gostavam.

Todos os meninos estavam felizes, cheios de energia, cheios de histórias para contar. Nas salas ficaram muito contentes por voltar a sentar-se nas suas mesas, por voltar a ocupar o seu lugar na sala de aula, por estarem ali com o professor e com todos junto deles e não no computador.

Na hora do recreio tinham toda a escola para eles porque os meninos crescidos não estavam lá. Pareciam mesmo “bandos de pardais à solta” como se cantava numa canção. Corriam, exploravam os sítios, jogavam à bola e caiam, escorregavam, parecia que tinham perdido o treino de andar a toda a velocidade como era seu costume.

As senhoras que os acompanhavam para tomar conta admiraram-se com estas dificuldades, parecia que estavam perros, destreinados, quase lhes lembravam os bichinhos que depois de um longo cativeiro tinham um andar hesitante e desajeitado, com menos equilíbrio e coordenação. Admiraram-se também com o que tinham crescido. Tal como antes, os meninos tinham voltado cheios de vontade de falar com as senhoras para contar as suas histórias, para perguntar tudo e mais alguma coisa, sobre o que ia acontecer, ou que tinha acontecido e muito mais coisas de que ninguém mais se lembraria de perguntar senão as crianças. As senhoras gostavam muito dos seus meninos, conheciam bem o bando, sabiam-lhes os nomes, os gostos, os que falavam muito e os que eram de poucas falas, os que gostavam de empurrar, arreliar, acarinhar, descobrir, … Sabiam-nos de cor, como também canta outra canção. Gostavam deles como eram, era bom haver traquinas e reguilas e calmos e sossegados, eles eram como uma orquestra, tocavam todos os sons, os calmos e os que inquietavam todos e nenhum som se podia dispensar, todos faziam falta. Os professores e as senhoras pareciam a maestrina que tocava a orquestra como num pequeno filme que aparecia por estes dias na televisão, umas vezes com movimentos tranquilos e outras num frenesim que quase parecia gritar.

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Um dos meninos, moreno, de cabelo ondulado negro e rebelde, costumava andar sempre por todo o lado em muito alta velocidade, até a falar era supersónico, nem para escutar conseguia parar, era sempre tudo a mil à hora. A sua velocidade era maior que a dos colegas e isso provocava muitas vezes “acidentes” e desentendimentos com miúdos e graúdos. Com a sua velocidade parecia impossível que reparasse nas pequenas coisas, mas seria assim?

Naquele dia de regresso o menino estava ainda com mais velocidade do que a habitual, mas isso não o impediu de reparar que uma das senhoras estava algo sombria. O menino fixou os seus olhos castanhos muito vivos nos olhos da senhora e chegou-se à conversa. Atrás da máscara e dos óculos da senhora ele viu que que os seus olhos não estavam a sorrir como era habitual. Começou por perguntar se estava boa, o que é que tinha, se estava doente, se tinha acontecido alguma coisa, … e foi saltando de pergunta em pergunta sem ficar satisfeito com as respostas.

A senhora estava  admirada por o menino ter parado as suas corridas e brincadeiras durante tanto tempo, estava surpreendida por o menino, na sua velocidade e turbulência, ter sentido o que lhe ia na alma e ela tanto queria guardar só para si.

Quando menino perguntou o que é que apetecia à senhora, ela respondeu calmamente: “Apetece-me ir para o deserto!” em jeito de suspiro. Pensava que ele ia ficar satisfeito com a resposta e que ia voltar às suas brincadeiras já com a curiosidade satisfeita. Mas o menino continuou com as perguntas, quis saber porque é que a senhora queria ir para o deserto, ao que ela respondeu que era para estar sozinha. O menino parou um pouco a pensar e pediu para ir buscar um papel para fazer um desenho. A senhora disse que sim, ficando cada vez mais admirada por ele preferir desenhar a estar nas correrias e brincadeiras. Quando voltou para junto dela começou a desenhar um deserto com catos e uma senhora. Quando ela lhe perguntou quem era, ele respondeu prontamente: - És tu!

O menino continuou a desenhar, desenhou-se a si também no deserto, a senhora perguntou porque é que ele também estava no deserto. O menino respondeu que era para estar com ela e assim ninguém estava sozinho.

A senhora estava comovida, mas para disfarçar perguntou se não havia mais nada no deserto e o menino desenhou um passarinho e continuou a desenhar. Desta vez desenhou um avião com duas pessoas lá dentro, muito parecidas com a senhora e o menino. A seguir desenhou pequenas setas a ligar as imagens deles no deserto às imagens deles no avião. A senhora estava deslumbrada com o que o pequeno ia fazendo e perguntou-lhe então o que era tudo aquilo, o avião, as pessoas no avião e as setas. Disse-lhe que já não estava a perceber o desenho porque queria ouvir o que o menino tinha para dizer.

O menino explicou com calma, as pessoas no avião “és tu e eu” e as setas querem dizer que deixámos o deserto e que vamos embora no avião. Finalizou dizendo: - Toma, o desenho é para ti! E largou a correr juntando-se de novo ao bando.

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Ao agarrar o desenho a senhora estava a sorrir e sentia um calor enorme no coração. Como é que aquele pequeno diabrete vira o que ela queria esconder, como é que ele estivera parado tanto tempo a escutar, a acompanhar e finalmente como desejara que juntos saíssem do lugar triste. Como é que ele era tão sábio? Claro que era! Ele era uma criança, um diabrete com asas de anjo.

 

20
Fev21

O Hotel de Insetos

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina que vivia na cidade, mas tinha um enorme terraço onde naquele ano a mãe tinha decidido fazer uma horta. Tinha sido uma diversão arranjar as enormes floreiras, encher com terra fértil e depois decidir e escolher as plantas que iam fazer crescer. A mãe escolheu alfaces, a menina tomates e brócolos, o irmãozinho quis morangos e a lista nunca mais acabava. Depois foi uma animação ir ao horto comprar as plantinhas frágeis e claro que acrescentaram algumas à lista, tal era a variedade e beleza daquelas plantinhas nos seus alvéolos geometricamente ordenados.

Regressaram a casa e o rebuliço continuou, plantar tudo com a mãe a orientar para que não ficassem demasiado juntas, nem demasiado afastadas, deixando espaço para poderem crescer. Por fim de regador em punho as crianças deram o aconchego final às pequenas plantinhas que ficaram instaladas na sua nova casa.

Quando tudo ficou pronto, as crianças ficaram um pouco perdidas, afinal agora a horta tinha de esperar para acontecerem coisas novas. Os meninos não eram nada bons a esperar, ficavam ansiosos, queriam fazer as coisas acontecer.

A mãe percebeu logo que os seus meninos estavam a precisar de um novo desafio. Meninos vamos fazer um hotel de insetos para a nossa horta. Os pequenos acharam divertido, até pensaram que a mãe estava a brincar. Os insetos ficam em hotéis? Então eles não têm um ninho? Andavam de terra em terra a passear e precisavam de ficar num hotel?

A mãe explicou que muitos insetos andavam de terra em terra sempre à procura de alimento e que ficavam um bocado perdidos nas cidades onde era muito difícil encontrar abrigo. A mãe explicou que por todo o Mundo havia pessoas nas cidades que estavam a construir hotéis para insetos para evitar que desaparecessem. Para o hotel que iam construir iam fazer “quartos” perfeitos para os insetos que queriam acolher porque para além de tudo iam ajudar a nova horta a ficar livre de insetos parasitas e iam fazer a polinização das flores.

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Então afinal quem vão ser os nossos hóspedes perguntou a menina em jeito de brincadeira. A mãe disse que eram abelhas solitárias e borboletas para fazer a polinização e as joaninhas e as crisopas que iam comer os insetos prejudiciais às plantas.

A menina perguntou como ia ser na entrada do hotel, a mãe disse que cada um chegava, escolhia o lugar que melhor lhe convinha e instalava-se.

Havia uma caixa oca com um raminho seco no interior e com duas fendas verticais que eram a entrada para as borboletas. Havia um tronco que tinha sido esburacado com muitos furos, onde cada um era um “quarto” para uma abelha solitária.

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Havia uma zona toda cheia com canas ocas bem arrumadinhas que eram os quartos das joaninhas. Finalmente, para as crisopas havia uma zona preenchida com rolos de cartão canelado bem enroladinhos, onde os espaços entre eles eram os quartos perfeitos. Para completar o hotel, todas as zonas acabavam por ser preenchidas com raminhos secos ou canas ocas.

As crianças ficaram muito entusiasmadas por irem construir o hotel. Foi uma aventura procurar os materiais, pedir ajuda ao pai para adaptar uma caixa de madeira e fazer uma espécie de telhado. Quando por fim ficou pronto tiveram de escolher um lugar na horta virado a Sul, elevado para os insetos o poderem avistar e próximo das plantas que iam ter flores.

No final todos estavam orgulhosos da horta e muito especialmente do hotel para insetos. Agora tinham de esperar pacientemente que as plantinhas crescessem e que os insetos viessem instalar-se.

E tu, gostavas de construir um hotel de insetos? 

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06
Dez20

A Mafalda tem caracóis na cabeça

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina pequenina chamada Mafalda que tinha a cabeça cheia de caracóis, louros, muito apertadinhos e impossíveis de domar. A Mafalda era alegre, cheia de energia, gostava de dizer coisas engraçadas, de dar grandes abraços apertados, de dar uma sonora gargalhada. Todos gostavam muita da Mafalda e achavam que ela era muito bonita e amiga.

A Mafalda não gostava mesmo nada do seu cabelo, os seus caracóis até lhe tiravam um pouco da sua alegria. Nunca ia perceber porque chamavam caracóis às formas do cabelo. Ela detestava caracóis e caracoletas, achava-os nojentos com a sua baba verde que até deixava rasto por onde passavam. Quando lhe falavam dos seus cabelos aos caracóis ela imaginava a sua cabeça lisinha sem nenhum cabelo e totalmente coberta de caracóis e caracoletas a arrastarem-se e a deixarem-na cheia de baba, ou ranho de caracol. Um perfeito nojo.

Mafalda sonhava com os cabelos lisos das suas amigas e tentava esticar o seu cabelo, prende-lo em rabichos, rabos-de-cavalo enfim tentava de tudo mas o cabelo parecia sempre que estava aprisionado e depois do elástico explodia numa bola de caracóis em vez de cair sossegado como um rabo-de-cavalo. Os seus rabichos pareciam pon-pons, não eram nada como deviam ser.

A Mafalda também não gostava das sardas da sua pele, em especial na cara. De nada valiam os elogios dos adultos aos seus belos olhos verdes e à beleza da sua carinha arredondada, para ela só havia os cabelos e as sardas de que não gostava.

A menina cresceu, mas continuou a lutar com os seus cabelos sempre com esperança de eles se cansarem e ficarem lisos. Deixou-os crescer, aplicou cremes e produtos variados, esticou com o secador, usou mil maneiras, mas os seus caracóis continuavam lá, impossíveis de moldar ou domar. As suas amigas muitas vezes lhe diziam que gostavam de ter um cabelo como o dela porque era bonito e invulgar. Mas a Mafalda continuava a não gostar, ela queria mil vezes um cabelo vulgar como o de toda a gente e continuava a tentar obrigar o cabelo a parecer liso, mas continuava a não conseguir.

Quando já era crescida, mesmo adulta começou a perceber que o seu cabelo um pouco rebelde e cheio de força era até parecido com ela. Também ela não se deixava aprisionar por ideias em que não acreditava, ou por modas que passavam. Um dia deixou o seu cabelo à solta, permitindo-lhe que fizesse todos os caracóis que quisesse, que ficasse com o volume que lhe apetecesse, nem que a cabeça dela ficasse a parecer o planeta Terra.

Qual não foi a surpresa da Mafalda quando ao ver-se ao espelho, pela primeira vez gostou da moldura que os seus caracóis faziam ao seu rosto. E afinal os cabelos ruivos com caracóis até combinavam com as sardas que tinha no rosto e davam-lhe um ar alegre e cheio de energia. Parecia que afinal o que combinava com a sua personalidade eram mesmo os caracóis bem enroladinhos e as sardas com ar irreverente e bem disposto. Queria isto dizer que todo aquele esforço de tornar lisos os cabelos fora apenas um desperdício, os caracóis aprisionados não ficavam tão bonitos e não correspondiam ao que a Mafalda era.

Depois desse dia a Mafalda nunca mais prendeu os seus caracóis. Ela sabia que muitas vezes queremos tudo diferente do que temos e nem pensamos se o que temos é o que nos fica melhor. Quando alguém lhe dizia como eram bonitos os seus cabelos e que gostava era de ter também caracóis, a Mafalda dizia:

- Os teus cabelos são os que te ficam melhor, são os que combinam com a tua cara e com a pessoa que tu és.

E tu gostas dos teus cabelos? Eles combinam contigo?

 

Vitória, vitória, acabou-se a história.

14
Nov20

A Maria Birras & Alegrias

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina pequenina de pele clara, carinha redonda, cabelo aos caracóis e uns olhos verde-acinzentados que só de olhar faziam mil perguntas. A menina chamava-se Maria e gostava muito de ver e entender tudo o que estava à sua volta. A sua mãe costumava dizer que a Maria estava sempre com as anteninhas no ar porque era muito atenta e queria saber as coisas, como se fazia, porque era assim, como se chamava isto e aquilo, como funcionava, … Os adultos ficavam encantados por poder falar de tantas coisas  para lhe responder às perguntas, muitas vezes ficavam algum tempo a pensar antes de lhe responderem.

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Chegou um tempo em que começaram a vir umas nuvens cheias de birras que pareciam chover em cima da Maria. Na hora do banho, quando a mãe lhe dizia que era para ir para a banheira, levantavam-se nuvens muito grandes e escuras. A menina desatava a chorar e dizia que não, não queria tomar banho, tomar banho era uma nojeira, não ia, … A mãe parecia que não ouvia, nem via a birra e com calma ia despindo a menina e dizendo que tinha que ser, que era preciso, que a água estava quentinha, que a Maria gostava de brincar com os brinquedos do banho,… mas a menina continuava na birra. Mesmo depois de entrar na água ainda continuava por mais um bocadinho. No banho parecia que a nuvem das birras tinha desaparecido, só voltava um bocadinho quando era para lavar a cabeça. Depois de estar toda lavadinha a mãe deixava-a ficar a brincar com o patinho amarelo, com o termómetro tartaruga, a râ nadadora e os brinquedos da praia que também tinham lugar nas brincadeiras da banheira.

Quando a água já estava a arrefecer a mãe dizia que o banho tinha acabado e era altura de sair, vinha novamente uma nuvem cheiinha de birras de tamanho gigante. Não, não queria sair do banho, queria ficar, não a água não estava a ficar fria, e claro era birra com choro, boca bem aberta e lágrimas a cair na água do banho.

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A mãe dizia-lhe então, mas tu nem querias vir para o banho, como é que agora não queres sair. A menina parecia nem ouvir, penso que não ouvia mesmo, é que as nuvens das birras fazem tanto barulho que ninguém se ouve quando elas estão por aí.

Com muita paciência, a toalha de banho especial com o capuz bordado com as baleias, muito mimo e creme no corpo para cuidar da pele delicada, a Maria lá ia acalmando. No fim de estar vestida era hora de ir jantar…

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Já se está mesmo a ver que as nuvens iam voltar. E voltavam mesmo, não queria ir para a mesa, não tinha fome, não gostava daquela comida, … Então o pai dizia-lhe que a ia ajudar e ao mesmo tempo lhe ia contar uma história e começava a fazer palhaçadas, então as nuvens começavam a desaparecer de novo. No fim do jantar às vezes o pai perguntava à mãe se podia ser um icecream e a menina dizia logo que sim.

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Os pais costumavam dizer alguns segredinhos entre eles em inglês, mas havia algumas palavras mágicas que a Maria já conhecia e icecream era uma delas.

Um pouco de brincadeira depois do jantar e lá chegava aquela hora de que a Maria nunca tinha gostado. A hora de ir para a cama! Claro que voltavam as nuvens, claro que não tinha sono, ainda queria brincar mais, não queria ir para a cama, só mais um bocadinho, … e pronto lá vinham os pingos da birra, lágrimas pela carinha abaixo.

Já na cama, ainda havia tempo para um  bocadinho de brincadeira com a irmã pequenina e voltava a alegria de novo.

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Quando o pai ou a mãe vinham até à sua cama, e se sentavam ou deitavam ao seu lado, lá chegava a hora de ler uma história. Muitas vezes a menina escolhia a mesma do dia anterior e ouvia-a dias seguidos e ficava feliz. A menina queria sempre mais histórias e muitas vezes a mãe dizia que estava cansada de ler e que ia contar uma história inventada. Qual é o animal da história hoje?- perguntava a mãe. A menina escolhia. Então a mãe começava,...

Era uma vez um coelhinho pequeno que não queria ficar na toca e queria ir com a mãe à horta. A mãe disse-lhe que não podia ser porque era longe e podia ser perigoso e por isso tinha de ficar. O coelhinho começou a bater com as patas no chão com força e começou a chiar fazendo muito barulho e uma grande … birra. E a história continuava.

A menina ouvia, ficava um pouco pensativa e dizia à mãe, eu já não quero fazer mais birras, mas às vezes não consigo. A mãe abraçava-a e dizia-lhe que ia conseguir, quanto mais crescia mais forte ia ser.

A menina dizia que nunca mais queria que a Maria Birras voltasse porque essa não era ela, ela era só a Maria.

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26
Jun20

Os meus novos amigos!

Cristina Aveiro

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Quando a vida esteve em pausa, com todos fechados, eu não sabia mais o que fazer, como me ocupar. Já nem ler, nem ver televisão, cozinhar até à inconsciência, ... eram ocupações elegíveis. Alguém em boa hora me pediu para colaborar num projeto de Eco-Contos para serem lidos e apresentados em vídeo. Foi um desafio que eu abracei entusiasticamente, e que pode avançar porque ao contrário do costume eu tinha tempo.

Gosto dos meus novos amigos: a lontra Lola, a aranha Baganha, o pririlampo perdido, a marta trepa que se farta, a raposa corajosa, a cegonha baralhada, ... e acredito que mais virão.

Escrever estes contos tem sido uma viagem rápida até a um mundo sonhado, mais perfeito, com a companhia das crianças que imagino a ouvir os Contos por Contar! Se calhar as crianças ainda não vieram, mas eu já estou feliz em antecipação.

 

 

 

 

 

 

 

 

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