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Contos por contar

Contos por contar

08
Set21

Parabéns meu Amor!

Cristina Aveiro

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Há 21 anos era sexta-feira e estava um dia quente e solarengo de Setembro, tu não tinhas pressa de vir ver o mundo, mas precisavam de te fazer sair do banho doce em que o meu corpo se tinha tornado. Eras tão frágil e estavas tão marcada pela viagem de chegada. A tua tranquilidade, doçura e paz eram incríveis num recém-nascido. Eu nem acreditava como adormecias só com um carinho entre as sobrancelhas e descansavas serena e tranquila.

A minha menina doce já é mulher, é uma mulher corajosa e lutadora. Acredita nos seus sonhos e procura alcançá-los com muita garra e determinação, mas nunca se esquece de quem está à sua volta. É empática, sorri, tem sempre uma palavra, tempo e compreensão para os que a rodeiam. É estimada e consegue aquecer os corações das gentes mais frias das terras de sua majestade, levas-lhes o sol dos afetos mediterrânicos e recebes também o calor das gentes desta terra que te acolheu há já três anos.

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Quanto cresceste por aí, quando foste ainda nem 18 anos tinhas...

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Este é o quarto aniversário em que não te posso abraçar com os braços, mas abraço-te com todo o meu ser minha Matilde.

16
Jul21

O piano e a baleia

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma ilha onde nasciam os pianos mais perfeitos e belos do mundo. Os pianos eram feitos com madeira de abeto, estrutura e cordas de metal e milhares de peças que funcionavam harmoniosamente entre si com a precisão de uma orquestra.

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Um dia chegou à ilha das cerejeiras em flor, onde nasciam os pianos, um pedido para que nascesse um piano de cauda especial, com as melhores madeiras e criado pelos melhores artesãos da ilha. E foi assim que na ilha das cerejeiras em flor nasceu o belíssimo piano de cauda a que chamaram Sakura. Era magnífico, os seus sons, a sua música, encantavam todos os que a escutavam, parecia mágico.

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Do outro lado do mundo, numa pequena ilha verde, todos esperavam ansiosamente a chegada do piano. A vinda do piano de cauda para a ilha era um sonho antigo, que tinha sido muito difícil de alcançar. Tudo começara com um rapaz pequeno que estudava piano com uma professora idosa no seu pequeno piano antigo. Dizia-se que ela tinha sido uma pianista famosa que viera viver na pequena ilha verde para poder sentir a sua paz e para estar sempre a ver o mar. O menino aprendia tudo velozmente, treinava e estudava sem nunca se cansar. A professora cedo percebeu o talento enorme que o menino tinha e nunca se cansava de o ensinar, de o desafiar, enfim de o conduzir para ir sempre mais longe na sua música.

Na pequena ilha verde todos foram ficando a saber do talento do menino e iam em grupos para o jardim da pequena casa branca escutar o menino e a sua música. Cada vez havia mais pessoas a ir sentir o encanto da música e o jardim foi ficando pequeno para todos. Começaram então a sonhar com uma grande sala com paredes de vidro viradas para o mar e com um piano de cauda como os das melhores salas de concertos do mundo. Se bem sonharam, melhor fizeram e juntando esforços ao longo de anos conseguiram pedir para que nascesse Sakura na ilha onde nasciam os pianos.

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Finalmente tudo estava preparado na ilha verde e a longa viagem de Sakura, pelo oceano já começara. Os dias passavam devagar na ilha verde, onde as vacas vagarosamente pastavam livres e felizes nos campos a ver o mar, onde os ilhéus percorriam as estradas sempre contornadas de hortênsias azuis com uma calma e tranquilidade especial que existia em muito poucos lugares do mundo.

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A bordo do navio, Sakura, o belo piano de cauda, sentia angústia por ter deixado a ilha onde tinha nascido e sentia desconforto com o frio e a humidade do ar. Quando o navio balançava ficava mais tranquilo e até conseguia sentir alguma música naquele ondular. Ao fim de muitos, muitos dias no mar, Sakura começou a ver ao longe o que lhe parecia ser umas ilhas. Havia também outros barcos, mas o que lhe prendeu toda a sua atenção foi um som forte, único, era uma canção, mas não era cantada por pessoas. O som era grave e forte, parecia triste e fazia-o sentir um friozinho na barriga, parecia que o estavam a chamar.

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Tentou perceber de onde vinha aquele som mágico e percebeu que vinha do mar. Ao longe, ao lado do navio ele viu de onde vinha o som. Oh! Como era bela! Era cinzenta, quase preta, enorme, erguia-se sobre as águas e voltava a cair no mar deixando apenas à vista a sua belíssima e singular cauda. Ele nunca vira tanta beleza, abaixo da enorme boca sorridente ela tinha o que pareciam ser teclas que se afastavam quando a boca estava cheia de água. Ouviu os marinheiros dizerem que era uma baleia. Nunca tinha visto nada tão belo, como gostaria de ter alguém que o tocasse e juntasse a sua música à maravilhosa canção da baleia. Será que ela algum dia iria escutar a sua música? Será que ela poderia sequer prestar-lhe atenção?

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No céu uma andorinha preta e branca que voava por aquelas paragens sentiu a emoção que a canção da baleia despertava no enorme piano de cauda que viajava no barco. A andorinha até conseguia sentir a música que o piano deixar sair das suas entranhas para acompanhar a melodiosa canção da baleia. Havia no ar tanta música que a andorinha deu por si a acompanhar com o seu canto aqueles dois seres enormes, vestidos de negro, com enormes sorrisos e cheios de música por dentro. Só a andorinha é que pôde ver aquele encontro mágico entre a enorme baleia e o imponente piano de cauda que acabava de chegar ao porto da ilha.

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Com a chegada ao porto, foi um nunca mais acabar de manobras e transportes até que finalmente colocaram o majestoso piano de cauda na sala de concertos virado para o mar. Chegou então o momento que todos pacientemente tinham aguardado, o menino sentou-se ao piano e começou a tocar. A magia das mãos do menino nas teclas do piano e a perfeição e imponência dos sons do Sakura foram avassaladoras, a música encheu a sala, abriram as janelas viradas para o mar e jorrou música como se fosse a lava de um imparável vulcão. Tudo parou na ilha, não havia qualquer outro som que não o do piano e ao longe, muito longe podia escutar-se o som da baleia que cantava com toda a alma parecendo chamar Sakura para junto de si.

Desde esse dia e durante muitos anos sempre que o piano de cauda da ilha verde era tocado via-se a baleia bater a sua cauda no mar e escutava-se o seu canto grave e profundo.

No mar cada vez mais baleias, golfinhos e todo o tipo de criaturas marinhas iam vindo até à baía próxima da sala de concertos onde Sakura, o magnifico piano de cauda apaixonado era tocado. As pessoas vinham de todas as paragens para sentir a música e ver as mais variadas criaturas do mar concentradas na baía enquanto durava a música. No meio de todos brilhava sempre a baleia que ele tinha visto quando tinha chegado à ilha verde e pela qual era profundamente apaixonado, era ela que fazia o canto mais admirável e apaixonado e que no dueto único com o seu amado atraia os seres humanos e os seres marinhos.

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10
Abr21

A Princesa, o rei Rato e a Cigana

Cristina Aveiro

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Fotografia RTP

Era uma vez uma Princesa muito alta e magra, com uns olhos azuis muito pequenos e cabelos loiros longos com caracóis muito apertadinhos. A Princesa queria ser sempre a melhor em tudo, achava que sabia mais do que todos e não suportava que a contrariassem. A Princesa adorava passear no seu imponente cavalo branco que a fazia sentir-se ainda mais ufana da sua beleza e aumentava a sua altivez. A floresta do monte da Lua era um dos seus lugares preferidos, com as árvores centenárias, retorcidas e tão cerradas que de dia parecia quase noite tal era a densidade da floresta. Havia também enormes rochedos cobertos de musgo escuro erguidos aos céus que pareciam ter caído do cesto de um enorme gigante que andasse a fazer um muro no seu quintal.  Na floresta eram vulgares os mantos de neblina fechada que não deixavam ver nada senão a névoa branca e impediam as gentes de andarem. Num dia a Princesa galopava no seu passeio pela floresta quando o manto de neblina a apanhou e ela teve de parar e passar a andar lentamente a pé com o cavalo à rédea.

Andou, andou até que cansada se encostou ao abrigo de umas pedras com o cavalo e adormeceu.

Quando amanheceu, acordou com o barulho do som de cavalos de uma carruagem e depois com gritos de homens a lutar, um grande alarido e novamente cavalos a galope a fugir. A Princesa decidiu ir cautelosamente até ao lugar de onde vinham os barulhos. Esperou escondida a ver se não havia ninguém, viu a carruagem, mas os cavalos e os homens não estavam lá. Pensando que na carruagem podia haver comida foi até lá, abriu a porta e quase morreu de susto quando viu que no chão estava deitado como morto um enorme rato com ar majestático. O animal começou a abrir um olho, e depois outro e quando viu que era uma princesa e não os malfeitores que o tinham atacado e à sua comitiva levantou-se de um salto.

Apresentou-se de imediato à Princesa informando que era o rei Rato.  

O rei Rato era muito magro e tinha o rosto escuro e ressequido. Sobressaiam os seus olhos minúsculos muito escuros e encovados, bem como o seu nariz grande e adunco e os lábios tão finos que tornavam a boca quase numa linha no rosto. O rei Rato andava sempre vestido com um fraque preto, muito orgulhoso do seu porte direito e da sua elegância e majestade. O rei Rato sempre se tivera em grande conta, quer da sua graça e beleza, quer da sua suprema inteligência e sabedoria. Estivera sempre muito certo de que era irresistível e que conseguia sempre tudo o que queria. Ao rei Rato nunca lhe ocorrera que alguém pudesse pensar de outra forma. O rei era totalmente cego e surdo em relação aos que o rodeavam, nunca se preocupava com mais ninguém que não fosse ele próprio.

A Princesa olhou demoradamente para o rei Rato e pensou que não era companhia que escolhesse se houvesse outra, mas ia ter que ser, com ele tinha mais hipóteses de conseguir sair da floresta e regressar a casa. Conversaram um pouco e decidiram que iam rumo ao Norte, olhando com atenção para os troncos das árvores e vendo o lado onde o musgo era mais forte e verde. Tentaram conversar para ir passando o tempo, mas cada um só se interessava por o que dizia e não tinham vontade de se escutarem um ao outro, cada um tinha a certeza que estava certo e não escutava a opinião do outro. Felizmente ambos achavam que ir para Norte era boa ideia, senão teriam ido cada um para seu lado.

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Fotografia Net

Foram andando em silêncio, ou num diálogo de surdos debitando as suas vaidades e maravilhas pessoais sem que o outro prestasse atenção. Caminharam durante todo o dia e ao final do dia, quando começava a cair a noite viram um clarão de fogueira lá ao longe e ficaram os dois encantados. Se havia fogo havia gente, se havia gente havia comida e quem sabe um lugar para dormir. Quando chegaram perto foram com cuidado ver que lugar era aquele e quem lá estava. Podiam ser malfeitores ou inimigos. Ficaram admirados quando viram uma enorme tenda com uma fogueira alta no terreiro à frente.  De pé olhando a fogueira estava uma extraordinária mulher Cigana.

A Cigana era diferente de todas as outras, não tinha a pele morena, nem o cabelo ou os olhos escuros. Era alta, entroncada, com corpo de guerreiro viking, tinha enormes olhos azuis e uma farta cabeleira ruiva. Não podia dizer-se que era bela, mas era certamente vistosa, parecia que gostava de fazer questão de se fazer notada. As suas roupas eram muito coloridas e rebrilhava no ouro que usava ao pescoço e nos brincos. Estava a cantar alto com a sua voz nasalada e áspera.  Eles não sabiam, mas a Cigana estranha gostava de dizer a todos o que pensava e erguia a sua voz acima da dos demais para se fazer ouvir, adorava escutar-se e pensava que todos sentiam o mesmo.

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Fotografia Net

Passado algum tempo, a Princesa e o rei Rato decidiram avançar e ir ter com a Cigana esperando que ela os acolhesse. Quando os viu a Cigana gritou-lhes perguntando de onde é que tinham vindo e o que é que queriam dali. A Princesa e o rei Rato lá explicaram com calma o que tinha acontecido e a Cigana foi dizendo que se fosse com ela teria conseguido regressar a casa mesmo com a névoa, que teria mandado todos os bandidos embora e por aí fora. Estavam ali três seres tão diferentes e tão parecidos, será que se conseguiriam entender?!

A Cigana tratou de lhes dar comida e abrigo naquela noite e acompanhou-os no dia seguinte para os ajudar a regressar às suas vidas. Durante a viagem, a floresta e os seus encantos mágicos começaram a aproximar a Cigana e o rei Rato, que aos poucos começaram a falar, e depois a rir e ao fim de dois dias parecia que se conheciam desde sempre e que gostavam das mesmas coisas.

Chegados ao fim da floresta, acompanharam a princesa ao seu castelo e o rei Rato e a Cigana seguiram para o palácio do rei Rato. Como a viagem tinha sido muito longa e o rei Rato não se queria separar da Cigana pediu-lhe que ficasse ali a descansar alguns dias. A Cigana começou por ficar uns tempos numa enorme tenda que o rei Rato mandou erguer nos jardins porque a Cigana se recusava a dormir no palácio. A corte do rei achava tudo aquilo muito estranho porque agora o rei parecia só querer saber das vontades da sua amada Cigana e eles nem conseguiam entender os seus usos e costumes e muito menos as suas roupas e joias.

Ao fim de algum tempo o rei Rato encheu-se de coragem e ajoelhou-se em frente à Cigana, pegou-lhe na mão e pediu-lhe que fosse a sua rainha e ficasse com ele para sempre.

A Cigana aceitou o pedido do rei Rato, celebraram um casamento que durou mais de duas semanas, a princesa foi a madrinha e viveram felizes para sempre na sua tenda no jardim do palácio.

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Fotografia Net

01
Abr21

Mãe são para ti!

#11 - Vermelho - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Mary Stevenson Cassatt "Poppies in a field"

Era uma vez uma menina pequenina de rosto redondo, faces rosadas, pele clara e quase sempre com um sorriso doce nos lábios que se chamava Leonor. Tinha longos cabelos castanho muito claro, quase louro que terminavam em caracóis largos e que a faziam sentir-se uma princesa. Era muito doce a menina, gostava muito de brincar e gostava muito de cuidar do pequeno jardim que era só dela no meio do quintal da avó. No jardim da Leonor havia roseiras pequenas que davam rosas também pequeninas de várias cores, cor-de-rosa claro, escuro, branco, amarelas e cor de laranja, parecia um jardim de brincar por ser tudo em ponto pequeno. A Leonor adorava as suas rosas e embora tivesse muita vontade de oferecer flores à mãe e à avó não tinha coragem de apanhar as suas rosas porque eram pequeninas, eram poucas e se as apanhasse o seu jardim deixava de estar florido e bonito.

A menina sabia regar, tirar as ervas, cobrir a terra com carrascas de pinheiro para manter a humidade, era uma verdadeira jardineira. Gostava muito do seu pequeno regador com crivo que fazia uma chuva fininha sobre as roseiras. Adorava o seu carrinho de mão de metal verde que usava para ajudar a avó quando apanhavam laranjas ou nozes, quando arrancavam ervas que tinham de ser levadas para o canto do quintal e para tudo o que fosse preciso transportar. A menina sentia-se crescida ao fazer as tarefas no jardim.

O jardim da avó era muito grande e tinha sempre muitas, muitas flores e a Leonor gostava de  as colher para fazer os seus raminhos e oferecer. Apanhar flores para oferecer à mãe e à avó era irresistível para a Leonor, ela adorava flores e adorava a mãe e a avó. Foram muitas as vezes que a avó agradeceu, mas a seguir lhe disse com doçura que esta ou aquela flor ainda não estavam prontas para apanhar, ou que tinha apanhado com o pé muito curto e que não se conseguia pôr em água na jarra. A avó ficava enternecida com o gesto da menina, mas ficava um pouco triste porque tal como a Leonor gostava de ver as flores brilhar no seu jardim.

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Quando iam passear pelo campo ou pelo pinhal para respirar o ar puro, caminhar, correr, sentir a liberdade e a carícia do sol morno, a menina não conseguia parar de apanhar flores. Gostava dos malmequeres do campo, dos pampilhos, dos lírios do vale, dos lírios do campo, da flor-arlequim e tantas outras flores que nem a mãe sabia o nome. Depois de colher, arranjava-as num raminho, com uns rabos-de-gato pelo meio e mais umas verduras a compor e chegava perto da mãe, estendia o braço e dizia:

- Mãe, são para ti!

A mãe abraçava-a e agradecia e ia dizendo que as flores eram felizes no campo e que iam durar pouco tempo em casa numa jarra. Ainda assim, a menina ficava contente por ver o seu raminho na jarra pequena da janela da cozinha durante um ou dois dias, sentia que o cheiro e a beleza do campo estavam ali na sua casa.

Num desses passeios, no início da primavera a menina encontrou uma zona do campo cheia de papoilas vermelhas e achou-as maravilhosas, pareciam ter saído de um desenho, não resistiu e apanhou tantas quantas lhe cabiam nas suas mãos pequeninas e correu para as dar à mãe. Quando chegou perto da mãe e estendeu as papoilas disse com rapidez, sei que não é muito boa ideia apanhar as flores, mas eu acho-as tão bonitas que quero muito vê-las na tua jarra na nossa cozinha. A menina notou que a mãe quando recebeu as flores e lhe deu um miminho não disse nada sobre ter colhido as flores, mas pensou que era por ela ter dito que já sabia o que a mãe pensava.

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Quando começaram a regressar da caminhada a menina viu que as belas papoilas tinham começado a murchar e quando chegaram a casa estavam todas mirradas e parecia que tinham passado muitos dias depois de serem colhidas. A mãe colocou-as cuidadosamente na jarra e a menina ficou a ver o que acontecia muito esperançada que as flores voltassem a “arrebitar”. As papoilas continuaram murchas e a menina ficou triste e disse à mãe que as papoilas só podiam estar no campo, que não eram para ter em casa.

A mãe disse à Leonor que no próximo ano iam semear papoilas no jardim da menina e que então, ela as podia ter perto de casa e ver sempre enquanto estavam em flor.

A Leonor ficou radiante e pensou que a sua mãe sabia sempre tudo!

 

Texto no âmbito do #11 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Vermelho

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

 

 

28
Mar21

O teu olhar

Cristina Aveiro

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Há 24 anos era sexta-feira Santa

Chegaste depois da espera habitual

Sentia que já te conhecia

No tempo da espera comecei a aprender-te

Mal podia esperar para levantar o resto do véu

Mal podia esperar para te comtemplar completa

E quando te vi pela primeira vez

Quando nos olhamos nos olhos

Quando senti o teu olhar de azul profundo

Atento, demorado, só meu

O mundo parou, não houve tempo

Naquele momento estava todo o tempo

Naquele momento não havia tempo

Aquele momento ficou para sempre

Guardei tudo

O teu olhar, o teu cheiro, o teu rosto

O teu corpo, todo o teu ser

Nesse momento passei definitivamente a

Estar incompleta no meu corpo

Mas nesse momento passei a ser maior

Nesse momento tudo mudou para sempre.

21
Mar21

O Sapo

"Animais nossos amigos" - Afonso Lopes Vieira

Cristina Aveiro

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O Sapo

Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
    Para uma horta ou jardim,
  Para os tratar com amor.

       É o guarda das flores belas,
 da horta mais do pomar;
        e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...

    Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
   e fazem tristes as flores.

    Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
            a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.

       E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
     brilham no céu as estrelas,
 e ele ronda, a trabalhar...

       E ao pobre sapo, que é cheio
 de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
     e há quem o mate e persiga

        Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
          - «Então ele traz-nos guardadas,
   e depois pagam-lhe assim?»

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
   as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...

Afonso Lopes Vieira, in 'Animais Nossos Amigos'

 

É assim que eu sinto a poesia porque o meu jardim infantil chamava-se "Animais nossos Amigos", em Leiria, na terra do poeta que dedicou os versos de que mais gosto para crianças.

A cidade erigiu um espaço mágico onde brinquei e aprendia a amar os livros, até tinha uma biblioteca pequenina.

"Horácio Eliseu, em 1949, apresenta um projeto para um Jardim Infantil, com uma pequena Biblioteca das obras infantis de Lopes Vieira, ajardinado exteriormente com as figuras do livro de 1911, Animais Nossos Amigos, esculpidas em pedra, fundidas em bronze e desenhadas em painéis de azulejo por Anjos Teixeira Filho. O Mestre acrescenta os passarinhos31 e um painel azulejar com as abelhas. O projeto efetivou-se e, a 30 de abril de 1955, no mesmo dia em que se inaugurava a Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, fazia-se uma festa dedicada às crianças no Jardim Infantil Afonso Lopes Vieira. Nesta data estiveram presentes o Arquiteto Raul Lino e o Mestre Anjos Teixeira."

 

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Raul Lino

 

 

 

 

20
Mar21

Apetece-me ir para o deserto!

Cristina Aveiro

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Estavam de regresso à escola depois de dois meses em casa por causa do maldito bicho que os tinha mantido fechados, afastado dos amigos, das pessoas e dos lugares de que gostavam.

Todos os meninos estavam felizes, cheios de energia, cheios de histórias para contar. Nas salas ficaram muito contentes por voltar a sentar-se nas suas mesas, por voltar a ocupar o seu lugar na sala de aula, por estarem ali com o professor e com todos junto deles e não no computador.

Na hora do recreio tinham toda a escola para eles porque os meninos crescidos não estavam lá. Pareciam mesmo “bandos de pardais à solta” como se cantava numa canção. Corriam, exploravam os sítios, jogavam à bola e caiam, escorregavam, parecia que tinham perdido o treino de andar a toda a velocidade como era seu costume.

As senhoras que os acompanhavam para tomar conta admiraram-se com estas dificuldades, parecia que estavam perros, destreinados, quase lhes lembravam os bichinhos que depois de um longo cativeiro tinham um andar hesitante e desajeitado, com menos equilíbrio e coordenação. Admiraram-se também com o que tinham crescido. Tal como antes, os meninos tinham voltado cheios de vontade de falar com as senhoras para contar as suas histórias, para perguntar tudo e mais alguma coisa, sobre o que ia acontecer, ou que tinha acontecido e muito mais coisas de que ninguém mais se lembraria de perguntar senão as crianças. As senhoras gostavam muito dos seus meninos, conheciam bem o bando, sabiam-lhes os nomes, os gostos, os que falavam muito e os que eram de poucas falas, os que gostavam de empurrar, arreliar, acarinhar, descobrir, … Sabiam-nos de cor, como também canta outra canção. Gostavam deles como eram, era bom haver traquinas e reguilas e calmos e sossegados, eles eram como uma orquestra, tocavam todos os sons, os calmos e os que inquietavam todos e nenhum som se podia dispensar, todos faziam falta. Os professores e as senhoras pareciam a maestrina que tocava a orquestra como num pequeno filme que aparecia por estes dias na televisão, umas vezes com movimentos tranquilos e outras num frenesim que quase parecia gritar.

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Um dos meninos, moreno, de cabelo ondulado negro e rebelde, costumava andar sempre por todo o lado em muito alta velocidade, até a falar era supersónico, nem para escutar conseguia parar, era sempre tudo a mil à hora. A sua velocidade era maior que a dos colegas e isso provocava muitas vezes “acidentes” e desentendimentos com miúdos e graúdos. Com a sua velocidade parecia impossível que reparasse nas pequenas coisas, mas seria assim?

Naquele dia de regresso o menino estava ainda com mais velocidade do que a habitual, mas isso não o impediu de reparar que uma das senhoras estava algo sombria. O menino fixou os seus olhos castanhos muito vivos nos olhos da senhora e chegou-se à conversa. Atrás da máscara e dos óculos da senhora ele viu que que os seus olhos não estavam a sorrir como era habitual. Começou por perguntar se estava boa, o que é que tinha, se estava doente, se tinha acontecido alguma coisa, … e foi saltando de pergunta em pergunta sem ficar satisfeito com as respostas.

A senhora estava  admirada por o menino ter parado as suas corridas e brincadeiras durante tanto tempo, estava surpreendida por o menino, na sua velocidade e turbulência, ter sentido o que lhe ia na alma e ela tanto queria guardar só para si.

Quando menino perguntou o que é que apetecia à senhora, ela respondeu calmamente: “Apetece-me ir para o deserto!” em jeito de suspiro. Pensava que ele ia ficar satisfeito com a resposta e que ia voltar às suas brincadeiras já com a curiosidade satisfeita. Mas o menino continuou com as perguntas, quis saber porque é que a senhora queria ir para o deserto, ao que ela respondeu que era para estar sozinha. O menino parou um pouco a pensar e pediu para ir buscar um papel para fazer um desenho. A senhora disse que sim, ficando cada vez mais admirada por ele preferir desenhar a estar nas correrias e brincadeiras. Quando voltou para junto dela começou a desenhar um deserto com catos e uma senhora. Quando ela lhe perguntou quem era, ele respondeu prontamente: - És tu!

O menino continuou a desenhar, desenhou-se a si também no deserto, a senhora perguntou porque é que ele também estava no deserto. O menino respondeu que era para estar com ela e assim ninguém estava sozinho.

A senhora estava comovida, mas para disfarçar perguntou se não havia mais nada no deserto e o menino desenhou um passarinho e continuou a desenhar. Desta vez desenhou um avião com duas pessoas lá dentro, muito parecidas com a senhora e o menino. A seguir desenhou pequenas setas a ligar as imagens deles no deserto às imagens deles no avião. A senhora estava deslumbrada com o que o pequeno ia fazendo e perguntou-lhe então o que era tudo aquilo, o avião, as pessoas no avião e as setas. Disse-lhe que já não estava a perceber o desenho porque queria ouvir o que o menino tinha para dizer.

O menino explicou com calma, as pessoas no avião “és tu e eu” e as setas querem dizer que deixámos o deserto e que vamos embora no avião. Finalizou dizendo: - Toma, o desenho é para ti! E largou a correr juntando-se de novo ao bando.

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Ao agarrar o desenho a senhora estava a sorrir e sentia um calor enorme no coração. Como é que aquele pequeno diabrete vira o que ela queria esconder, como é que ele estivera parado tanto tempo a escutar, a acompanhar e finalmente como desejara que juntos saíssem do lugar triste. Como é que ele era tão sábio? Claro que era! Ele era uma criança, um diabrete com asas de anjo.

 

10
Fev21

É uma laranja ou um limão?

#4 - Verde Escuro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era aquele dia tão especial, fazia anos que tinham dado o primeiro beijo.

Ela lembrava-se de cada detalhe do momento. Tinha acabado de escurecer e andavam às voltas pelo bairro de pequenas vivendas com jardim à frente, conversavam sem se cansar. Nesse último mês tinham dado muitos passeios, tinham ido aos jardins quase todos da cidade. Ela no início tinha medo de que se acabassem os temas de conversa mas, tinha entretanto percebido que isso não acontecia. Naquele dia sentia-se uma tensão no ar, mas era uma tensão boa. Ambos viram uma árvore ao longe na frente de uma das casas do bairro e ela disse que o fruto no chão era um limão, ele disse que era uma laranja e os dois aproximaram-se para ver o fruto ao mesmo tempo e aconteceu. Ele tinha a barba algo crescida e ela a pele muito delicada, a emoção do instante não deixou perceber o que estava a acontecer e no fim ela estava com os lábios em brasa. Um pouco embaraçada quando ele a olhou interrogativamente ela foi dizendo que a barba picava um pouco e tinha arranhado. Riram os dois e nem quiseram saber afinal qual era o fruto. Ficaram apenas com a pergunta que às vezes repetiam como um código só deles: É uma laranja ou um limão?

Ela estava algo desiludida porque ele parecia ter-se esquecido do dia, antes não tinha falado em planos para um jantar, ou uma escapadinha. No dia não tinha dito nada, nem deixado um recadinho, uma flor, enfim, alguma coisa. Ela estava triste, mas tinha escolhido fazer de conta que também não se tinha lembrado, sabia que dava muito mais importância a estas coisas do que ele. Ela gostava dos pequenos gestos que lembravam o que sentiam um pelo outro e sabia que para ele bastava vivê-lo nos momentos normais da vida do quotidiano.

Como de costume foi ter com ele ao fim do dia ao escritório, ele saiu com o seu fato e a mala do computador de todos os dias, nada de flores… Ficou admirada quando ele sugeriu que fossem ao jardim favorito dela. Era misterioso com as suas árvores centenárias, de troncos cheios de musgo verde escuro, quase parecia pertencer a um livro de contos infantis com fadas e duendes. Ele sugeriu que se sentassem num banco, pousou a mala do computador e tirou de lá uma robusta garrafa verde escura, dois flutes e uma cestinha em madeira cheia de morangos gordos e perfumados.

Ela ficou sem palavras. Ele tirou com carinho o cogumelo de cortiça e foi com sorrisos que ouviram o som festivo e encheram os copos. A vibração que ela sentiu no coração e nas entranhas não se pode descrever, o momento trouxe-lhe uma memória forte e boa do instante inicial de tudo o que partilhavam. Ele ficou feliz por ver a emoção dela. Sabia que estavam ligados por um fio longo, frágil mas muito luminoso e queria guardá-lo para sempre.

Texto no âmbito do #4 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Verde Escuro

 

Neste desafio participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

28
Jan21

O Sapo Apaixonado, a Rã e a Cobra Verdinha

Cristina Aveiro

Sapo-Matilde Aveiro.jpgDesenho da Matilde Aveiro

Era uma vez um sapo lindo, lindo, muito jovem e que todos no jardim adoravam, em especial a sua mãe. A mãe sempre lhe dissera que ele era simpático, elegante, que tinha uma graciosidade invulgar, que parecia que tudo nele era perfeito. Nem todos o viam desta maneira, ele dava pequenos pulos pois era pesado e com as suas patas curtas e o seu corpo achatado e gorducho não conseguia dar saltos verdadeiros, quando andava era desajeitado mas todos gostavam dele na mesma, era boa companhia, quer na água quer em terra, nas margens do lago.

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O sapinho vivia num jardim muito grande com colinas, um longo riacho, um lago grande e um sem número de animais onde as pessoas gostavam passear. Havia libelinhas, patos, patinhos, relas, rãs, muitos pássaros e aves. Havia melros, pegas, pardais e nem sei quantos mais!

Quando uma criança se aproximava da margem do riacho do jardim, parecia que tinha começado uma prova de salto em comprimento, só se via as relas e as rãs a saltarem para a água e a desaparecerem no meio das ervinhas verdes redondas que cobriam as águas do riacho.

As crianças ficavam todas divertidas ao verem os saltos rápidos e altos que elas conseguiam fazer. Nestas corridas e saltos quem ganhava eram as relas porque as suas pernas enormes e o seu corpo pequeno e mais leve levavam-nas mais alto.

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O sapinho quando sentia passos a aproximarem-se procurava um sítio mais escondido entre os juncos e as ervas mais altas e ficava muito quieto à espera que se afastassem. Muitas vezes ficava ali no seu cantinho sossegado a ver os saltos das suas atléticas e esguias vizinhas e a escutar enquanto coaxavam. Ele gostava muito de as escutar, as relas pareciam patos a grasnar enquanto as rãs faziam sem parar.

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O sapinho achava as rãs lindas, com a sua pele tão lisa e brilhante, sempre molhadinha daquele verde com as manchinhas escuras pelo corpo. Adorava também aqueles olhinhos esbugalhados. A boca delas também o fascinava achava que até já tinha visto os dentinhos de cima de uma delas quando lançava a língua a um mosquito. Ele não sabia, mas até começava a pensar que estava a apaixonar-se.

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Começou a tentar aproximar-se e a fazer os seus cantos mágicos, mas elas não reparavam sequer. E ele continuava a fazer bréiii, bréiii mas elas nem reparavam.  As pernas delas eram longas, fortes e muito musculadas, com os seus pezinhos delicados com cinco longos dedos unidos por membranas que as faziam deslizar velozes na água como nenhum outro bicho do lago.

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Será que elas não olhavam para ele por ter a pele rugosa com aquelas bolinhas salientes, ou seria por ser um bocado gordo e não conseguir saltar, enfim dava pulos, mas era algo desajeitado.

Tentou mostrar-se melhor erguendo-se nas quatro patas, mas nem assim elas mostraram interesse. A caminhar ele tinha sempre uns passos pesados e algo desajeitados mas era forte e sabia que ia encontrar a sua apaixonada, talvez não fosse uma rã, ia continuar a procurar e tinha a certeza que ia encontrar alguém de quem gostasse.

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Num dia foi até ao estrado de madeira onde as pessoas costumavam passar e ficou lá em baixo no espaço escuro e fresco entre as tábuas e o chão. Olhou para cima e no espaço entre duas tábuas, bem direita e a esticar-se estava uma linda cobrinha verde, muito elegante e esguia. O sapinho ficou fascinado. Como ela era bonita. Começou a andar pelas tábuas em pequenos pulos, até se atreveu a ir para a parte de cima para a ver melhor. Parecia que não controlava o que fazia, queria ir até perto dela, queria beijá-la, talvez ela fosse o amor que andava à procura. A cobrinha olhou para ele, começou a aproximar-se e já estava até a esticar a boca pensando num belo petisco, mas quando olhou melhor desistiu logo. Era um sapo, não servia para comer, se o abocanhasse ao apertar ele deitava um veneno e ela podia até morrer, livra, o melhor era ir para outro sítio porque com sapos é que ela não queria nada.

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O sapinho ao ver a cobra verdinha a afastar-se ficou triste e decidiu voltar para junto do lago. Lá foi aos pulinhos, comendo um mosquito aqui, uma aranha acolá, enfim comida não lhe faltava.

Quando chegou perto do lago, já a noite ia alta e ele sentiu vontade de cantar as suas tristezas e lá começou a coaxar a sua música. Algum tempo depois sentiu movimento atras de si. Olhou e nem queria acreditar, era uma enorme e maravilhosa sapinha, bem corpulenta, com uns bracinhos curtos e gordinhos e uns olhos cheios de ternura. Assim que os olhares se cruzaram houve encantamento e desde esse dia nunca mais se separaram. Todos os anos faziam longas linhas com os seus ovinhos negros nas folhas das plantas mesmo junto da água. Todos os anos nasciam centenas de girinos que iam crescendo e depois se transformavam em minúsculos sapinhos que eram o seu orgulho.

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Quando olhava para a sua sapinha pensava sempre como tinha sido tonto ao pensar que estava apaixonado pela rã e depois pela cobra verdinha. Só depois de sentir o verdadeiro amor é que percebia como ela era bela, como estava encantada por ele e como tanto tinham em comum.

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05
Jan21

O estranho ano de 2020

Cristina Aveiro

E se daqui a 50 anos um menino de hoje contasse aos netos esta história. Hoje, 31 de Dezembro de 2020 é assim que imagino esse momento!

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Há muito, muito tempo, corria o longínquo ano de 2020 quando um maléfico e terrível pom-pom vermelho 1000 vezes mais pequeno que um fio de cabelo fez o que nunca nada tinha conseguido… Conseguiu parar quase todas as pessoas e fechou-as nas suas casas durante semanas para se protegerem. Uniu aos poucos o mundo inteiro para o vencer. 

O terrível pon-pon entrava nos corpos e multiplicava-se loucamente, muitas pessoas ficavam doentes, algumas nem conseguiam respirar sozinhas, médicos e enfermeiros usavam máquinas para empurrar o ar para os pulmões.

No início, não se percebia como o pon-pon entrava nos corpos, nem como se espalhava tão rapidamente entre as pessoas, que sem saberem como, nem porquê, ficavam doentes. Enquanto não se compreendia como tudo isto acontecia, a única coisa que evitava a doença era ficar em casa. Milhões e milhões de pessoas em todo o mundo ficaram em casa, tudo parou, aviões, navios, comboios, carros, ... Todas as cidades, grandes e pequenas, pareciam cidades fantasma, de ruas sem vivalma. 

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As pessoas deixaram de ir a todos os lados, restaurantes, hotéis,  espetáculos, lojas sem ser de comida, e de repente muitas pessoas ficaram sem trabalho, muitas não podiam ir para as fábricas trabalhar. Sem trabalho as pessoas deixavam de ter dinheiro para viver, mais um problema muito grave para além do medo de ficar doente.

Muitas pessoas entenderam o quanto dependiam das outras, precisavam de quem fazia os trabalhos, mas quem fazia os trabalhos também precisava de quem os comprava. Muitas vezes as pessoas viviam a sua vida mecanicamente, sem sentir esta necessidade que todos temos de sentir e ter os que estão à nossa volta, para nos servir, e para que os possamos servir também.

Quando todos estavam em casa para se proteger, havia quem fosse trabalhar apesar do medo que sentia. Quem trazia a comida, a água, e eletricidade para as casas, e todos os que cuidavam de pessoas tinham que continuar a ir. Os que trabalhavam nos hospitais, os bombeiros, os voluntários eram aplaudidos em todo o mundo com palmas às janelas para agradecer tudo o que estavam a fazer.  Antes as crianças sonhavam ser famosas, super-heróis, craques dos desportos, mas agora todos reconheciam que os heróis verdadeiros trabalhavam na saúde e determinavam os destinos da humanidade. Em tempos muito antigos, os donos do saber da saúde eram venerados como seres supremos, e a terrível peste tinha recordado os seus verdadeiros poderes. Muitas vezes exaustos, isolados da família, sem o repouso necessário, mas sem nunca desistir da sua missão, porque salvar vidas não tem preço, é um valor supremo. 

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Aquele ano de 2020 parecia ter vindo do fim do mundo, havia muitas e muitas pessoas doentes, nos hospitais muitas vezes não havia lugar para cuidar de tantas pessoas, os mais velhinhos ficavam mais doentes e muitos não conseguiam resistir ao maléfico pon-pon.

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Aos poucos, juntando saberes e partilhando experiências de médicos e cientistas de todo o mundo, começou a perceber-se que o pom-pom voava pelo ar sempre que alguém espirrava ou falava, saindo aos milhões nos pequenos perdigotos que saem da nossa boca e do nosso nariz. Claro que as mãos, que passam a vida a tocar na cara, no nariz e na boca, também levavam e traziam o pon-pon para todo o lado, portas, mesas, cadeiras, enfim tudo o que fosse tocado.  Depois foi um nunca mais acabar de lavar as mãos, não tocar em ninguém, usar máscaras, desinfetar tudo e mais alguma coisa. Vimo-nos como peças de um dominó, que quando uma cai todas as outras podem cair. Precisamos de nos proteger e de proteger os outros. Proteger os outros é proteger-nos a nós. Esta demoníaca praga tinha-nos obrigado a entender o que todos sabiam, mas que tantas vezes não faziam. Agora tinha mesmo que ser, sempre e a toda a hora. Esta verdade tinha que ficar gravada na nossa forma de viver para sempre.

Neste mundo, com muito menos pessoas a circular, menos carros, com as fábricas paradas, começou a acontecer uma coisa estranha, em muitas cidades o ar e a água antes poluídos, começaram a ficar mais puros e límpidos. Animais que há muito tempo se tinham afastado das cidades regressaram, pássaros, golfinhos, animais da floresta aproximavam-se das povoações. A Terra parecia estar aliviada de tantas agressões do homem e estava a celebrar a vida. As pessoas viam fascinadas o regresso dos animais às cidades e sentiam alegria por ver o ar mais puro e a água mais limpa. Tinham que respeitar e escutar mais o planeta e fazer as coisas de novas formas para que a Terra pudesse ser um lugar melhor para todos os seres vivos.

No tempo em que as pessoas ficaram em casa, passaram a ter tempo para fazer coisas que nunca faziam porque costumavam andar sempre a correr de um lado para o outro, a espalhar o tempo aos bocadinhos e a ficar sem tempo nenhum. Em casa fizeram pão, comidas caseiras especiais, cozinharam juntos, brincaram com as crianças horas sem fim, leram e releram livros e mais livros, pintaram, fizeram coisas que nunca tinham feito e tudo isso foi muito bom. Aprenderam o quanto era bom estarem juntos, poderem fazer coisas juntos, em vez de comprarem e terem coisas e mais coisas. Aprenderam o que custa não poder estar com os avós, os amigos e tantas pessoas que também tinham que estar nas suas casas. Podiam falar nos computadores e telefones, mas nada é como um abraço apertado, beijos e carinhos, dar as mãos, … A presença e proximidade física, que antes era normal agora percebíamos que era algo muito valioso e insubstituível. Mostrar o amor que sentimos com gestos doces é essencial à vida das pessoas. Nunca mais podiam voltar a esquecer o que é a maravilha dos abraços e beijos, das visitas e conversas, de ter tempo para estar com as pessoas importantes e fazer coisas simples e boas. 

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As pessoas passaram a dar valor a poder sair de casa, ir à rua, sentir o ar na cara, ver as árvores e os rios de perto, ver e sentir o mar, sentir os cheiros da natureza e da cidade. Era estranho, muito estranho sentir-se preso na sua casa. Sentiram a falta das conversas, corridas e brincadeiras nas ruas e nos parques, viram como estas coisas eram muito valiosas e como antes não tinham entendido esse valor.

Em menos de um ano cientistas do mundo inteiro conseguiram inventar e fabricar vacinas. Que conquista fantástica! Demorava anos, ou décadas a produzir uma nova vacina. Conseguiram melhorar os tratamentos das pessoas doentes, conseguiram aconselhar quem organiza os países. Ajudar a decidir se as pessoas podiam sair e ir às escolas e aos trabalhos, ou se tinham ficar em casa. Países tão diferentes, unidos, a partilhar conhecimento científico e tecnológico para o objetivo de todos. 

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No último dia do ano, muitos diziam que aquele ano era para esquecer! Que viesse o novo ano, 2021! Mas seria mesmo que podiamos esquecer 2020?  Não, não se podia esquecer aquele esforço da humanidade na luta contra o pon-pon vermelho. Não se podia esquecer os feitos e as perdas deste ano. 2020 tinha mostrado que os valores essenciais da humanidade têm que ser sempre lembrados e vividos todos os dias.

Era preciso não voltar a esquecer que as Pessoas e a Natureza são o mais importante e 2020 tinha dado tempo para todos poderem pensar nisso!

 

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