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Contos por contar

Contos por contar

22
Mai22

A porta aberta

Cristina Aveiro

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Foto:Welcome Beyond

Eram dezoito anos de alegria de viver e crescer no ninho que os seus pais tinham construído. Acabara de conseguir convencê-los a deixá-la ir trabalhar para a Cruz Vermelha onde queria ajudar pessoas, conseguir tornar o mundo um lugar melhor para os que precisam de ajuda. Eram dias felizes estes dos primeiros voos com as suas asas ainda que sob o olhar atento dos seus pais, qual ave juvenil em treino para largar asas para novos mundos.

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Nesta primavera tranquila irrompeu o vento tremendo do inimaginável. Um acidente de viação levou-lhe os seus pais de uma assentada. Ficou perdida na casa grande e vazia, o seu trabalho era mais ainda o que lhe dava propósito e força para avançar. E pouco tempo depois, a vida trouxe-lhe ao encontro três irmãos muito pequenos, um bebé, um menino de dois anos e uma menina de três que tal como ela tinham perdido os pais muito recentemente. Ela viu neles o sinal e o sentido para avançar e viver.

Aos dezoito anos, sozinha, com alguns meios, adotou os três irmãos que encheram a casa grande de vida e tornaram a sua vida mais completa e feliz. Houve desafios imensos, dificuldades de compreensão de muitos que lhe estavam próximos e de outros no lugar onde trabalhava e vivia. Ela nunca duvidou que passara a ser mãe para sempre, mas havia quem pensasse que sendo tão jovem não medira bem o passo que dera e quem sabe talvez fosse uma fase da sua vida em que iria apoiar aquelas crianças e que depois teria de desistir e “avançar com a vida” como se dizia.

O tempo passou e a sua beleza e energia de jovem atraiu os olhares e atenções de muitos, mas aquele mocetão alentejano de olhar doce que gostava de a procurar para conversar sempre que podia começou a ter um lugar muito especial na sua vida. O namoro avançava, os laços apertavam-se e começavam ambos a sonhar com um ninho comum.

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Eram tempos distantes, de outro século, o passado, e os sonhos de ambos tinham uma divergência profunda, os seus filhos. Ele não conseguia imaginar a vida com filhos que não eram dele, e ela não podia imaginar a vida sem os seus filhos, embora muito quisesse que juntos criassem o ninho comum.

Ela esclareceu de forma irredutível:

- A minha porta está aberta, tu podes sempre vir porque eu te quero, mas os meus filhos jamais podem ir para que tu venhas.

A porta permaneceu aberta, mas ele afastou-se e partiu. Os anos passaram as crianças iam crescendo, um dia, passados seis anos, voltaram a encontrar-se noutra cidade. Falaram e recomeçaram a encontrar-se, a conversar, a continuar o que tinha ficado interrompido e que nunca deixara de existir.

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Foto: Gerárd Castello-Lopes

O jovem alentejano de olhar doce tinha crescido, compreendido melhor as coisas importantes que temos na vida. Um dia voltou a pedir-lhe para ficarem juntos e construírem uma família, mas logo esclareceu que:

- Peço-te que me aceites como pai dos teus filhos, serão meus do fundo do coração e para sempre, e se nascerem mais filhos serão tão nossos como os que já temos.

Aquela jovem de imensa generosidade, de porta aberta e coração feliz aceitou o seu alentejano doce. Nasceu uma menina e ainda hoje vivem felizes na sólida e bela família de seis que juntos construíram.

 

 

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Foto: Gerárd Castello-Lopes

PS- Estou a contar-vos a história que tive a felicidade de escutar da Dona São, a partir da sua janela onde conversamos como faziam os namorados de outros tempos. Comovi-me, sorri, senti-me inspirada porque esta é uma história verdadeira de gente de hoje que continua as suas vidas no meio de nós, e senti que tinha de partilhar convosco.

17
Fev22

O nosso Xadrez

Desafio do Triptofano

Cristina Aveiro

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Tinham saído do ninho, trilhavam caminhos de autonomia e liberdade numa nova etapa das suas vidas. Iam atrás do sonho do saber aprendido na cidade grande, na escola dos que mais sabem e onde mais se aprende, na escola onde se fabricam doutores e engenheiros tal como eles queriam vir a ser. Eram os mágicos 20 anos onde tudo ainda vai ser e todos os sonhos cabem nas nossas mãos. E além da alegria dos pássaros à solta em voos de novos mundos e lugares houve aquela magia que une os olhares quando se cruzam e se procuram, houve o acompanhar novos grupos de amigos para que os olhares ainda mais se aproximassem e os momentos juntos fossem mais frequentes e mais prolongados.

E havia aquele café onde os estudantes daquela Coimbra dos amores se encontravam à noite em bandos ruidosos. Na sala do fundo tudo era mais tranquilo e havia jogos de tabuleiro, damas, xadrez, ... e ela que nunca quisera nada com o xadrez porque no seu ninho não era um jogo de casa, pediu que ele lhe ensinasse porque nunca tinha aprendido. E começaram a jogar todos os dias, as conversas não acabavam, envolvidas nas torres, bispos e peões. Ele sempre em vantagem do saber mais antigo, ela desafiada por querer sempre chegar mais além e não ficar atrás de ninguém.  Os amigos há muito tinham percebido o que andava envolvido naquelas peças e no elegante tabuleiro branco e negro. Eles demoraram um pouco mais a perceber que a magia daquele tabuleiro ia muito para além do jogo de xadrez. Com o tempo perceberam a magia que lhes tinha chegado no embalo do jogo nascido na Índia há tantos séculos atrás.

Quando nasceram rebentos daquele amor frutuoso voltou o jogo ao tabuleiro para que as pequenas aprendessem a magia daquelas peças dançantes no tabuleiro mágico.

Quando ficaram velhinhos, onde outros jogos de que tanto tinham gostado na vida, mas agora os corpos cansados nos 80 anos já não permitiam as aventuras de grandes caminhadas e descobertas mais físicas e o tabuleiro voltou a unir aquelas duas metades e o xadrez bailou entre aqueles dedos amantes.

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"No xadrez como na vida o Rei e o Peão vão para a caixa no fim do jogo!"

Provérbio Italiano

Descubram também os textos da Marta - o meu canto, do Bruno, da Ana D., da Ana de Deus e da Maria. Querem participar? Vejam aqui como!

 
25
Dez21

E foi Natal!

"Os nossos contos de Natal 2021"

Cristina Aveiro

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Naquele tempo viviam-se receios de um terrível micróbio que tinha mudado a forma de viver de todos em todo o mundo.

No estranho ano de 2020 todos tinham ficado fechados em casa durante largos períodos e quando chegou o Natal não foi possível juntar toda a família em casa dos avós. Tinha sido assim com todas as famílias e com todas as crianças. Durante todo o ano foram dizendo que com as vacinas, testes e outros medicamentos, no ano seguinte tudo ia voltar ao que fora antes. Mas 2021 continuou a ser um ano estranho, com muitas máscaras e cuidados, tempos de isolamento em casa devido a amigos, professores ou outras pessoas que tinham ficado doentes e para não espalhar a doença recolher em casa era a melhor forma de travar o micróbio.

Ainda assim durante o tempo quente houve menos doença, pode haver férias de praia e de mar, pode haver aniversários com toda a família junta, tudo parecia começar a ser um pouco como antes. Com a chegada do frio no final do outono e início do inverno tudo começou a ficar mais complicado, mas ainda assim os meninos continuaram a acreditar que o Natal ia ser com todos juntos como eles tanto gostavam.

Lá no alto, naquela casa alta, no oitavo andar de um prédio na cidade grande os dois irmãos estavam ansiosos pela chegada as férias de Natal.

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Durante as férias de Natal iam sempre passar uns dias a casa dos avós. Os avós viviam numa casa enorme, com salas, terraços, sótão, uma lareira com fogueira a sério, jardim e um quintal com árvores e animais. Aquela casa era um lugar onde os rapazes podiam viver com grande liberdade, podiam fazer barulho à vontade, trepar às árvores, construir casas com enormes caixotes de cartão no jardim, ir apanhar laranjas, tangerinas, limões, …

Gostavam de ir ao capoeiro das galinhas buscar os ovos ao ninho, claro que às vezes havia acidentes no transporte porque afinal os ovos não vinham naquelas embalagens do supermercado e eram muito frágeis, mas ninguém se zangava quando se partiam. Havia uma enorme quantidade de histórias em que quase todos já tinha tido os seus acidentes, deixado cair das mãos, do cestinho, ou então como uma vez a tia tinha feito quando era pequenina. Tinha muitos ovos e decidiu colocar no bolso do casaco e depois se esquecera, a seguir fora abrir a porta e encostara-se e todos os ovos que estavam no bolso se tinham partido dentro do bolso do casaco de tricot azul, tinha sido gemada por toda a roupa e cascas partidinhas no bolso durante bastante tempo apesar das lavagens sucessivas.

Os rapazes desejavam sempre não chovesse para poderem passar muito tempo no quintal e no jardim e andar de bicicleta à vontade nas ruas tranquilas perto da casa da avó.

Havia também a casa da tia e das primas que era bem perto e onde havia um sótão enorme cheio de brinquedos, um móvel enorme cheio de legos, jogos e um nunca mais acabar de coisas diferentes das que tinham na sua casa da cidade grande.

Aquela liberdade, os preparativos do Natal na casa da avó e claro a expectativa daquela confusão alegre da troca de prendas deixavam-nos ansiosos por ir.

Na última semana de aulas, tal como já tinha acontecido várias vezes naquele ano, um dos colegas da escola ficou infetado com o maldito Covid e novamente tiveram de ficar em isolamento em casa, sim, isso mesmo, ficar sem poder sair de casa durante muitos dias.

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Os rapazes ficaram muito tristes, mesmo desolados porque assim, tal como no estranho ano de 2020 todos iam ter de ficar em casa no Natal e não iam poder estar com as tias, os tios e as primas. Nunca tinham imaginado que fosse acontecer de novo, mas tinha acontecido.

Nos primeiros dias em casa até se divertiram bastante, continuavam a ter aulas e trabalhos de casa, mas sobrava muito mais tempo porque não tinham que andar nas enormes filas de transito da cidade do mês do Natal. Passavam mais tempo a brincar, a ler, a conversar com o pai e com a mãe, a brincar com a gata, … Estavam a ter dias muito tranquilos, mas quanto mais se aproximava o dia 24 mas difícil era lembrar que não iam para casa dos avós e que não iam passar o Natal com "toda a gente" como eles costumavam dizer.

No dia 24, depois de terem jantado ouviram tocar a campainha e ficaram todos admirados. A mãe foi abrir a porta devagarinho, mas não estava lá ninguém. Os rapazes e a gata também vieram logo ver o quem era e viram logo o enorme saco de serapilheira muito cheio e um monte de envelopes coloridos em cima do saco. Pareciam postais de Natal.

Foi uma alegria levar tudo para dentro de casa, começar e ler os postais e o que estava dentro do saco.

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Mal tinham levado tudo para junto da árvore de Natal e do presépio quando o telefone tocou. O pai atendeu e disse que tinham de vestir os casacos grossos e ir todos para a varanda.

Lá foram todos e começaram a olhar para baixo tal como o pai tinha dito.

Que surpresa!

Estavam lá todos, os avós, os tios e as tias, os primos e as primas e foi pura magia de Natal vê-los e ouvi-los a cantar: Feliz Natal, Feliz Natal, que seja um bom Natal para toodos nóós!

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Este texto foi criado desafio "Os nossos contos de Natal 2021" lançado pela  Imsilva do Pessoas e Coisas da Vida e em que participam muitos bloguers deste maravilhoso sapal.

08
Set21

Parabéns meu Amor!

Cristina Aveiro

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Há 21 anos era sexta-feira e estava um dia quente e solarengo de Setembro, tu não tinhas pressa de vir ver o mundo, mas precisavam de te fazer sair do banho doce em que o meu corpo se tinha tornado. Eras tão frágil e estavas tão marcada pela viagem de chegada. A tua tranquilidade, doçura e paz eram incríveis num recém-nascido. Eu nem acreditava como adormecias só com um carinho entre as sobrancelhas e descansavas serena e tranquila.

A minha menina doce já é mulher, é uma mulher corajosa e lutadora. Acredita nos seus sonhos e procura alcançá-los com muita garra e determinação, mas nunca se esquece de quem está à sua volta. É empática, sorri, tem sempre uma palavra, tempo e compreensão para os que a rodeiam. É estimada e consegue aquecer os corações das gentes mais frias das terras de sua majestade, levas-lhes o sol dos afetos mediterrânicos e recebes também o calor das gentes desta terra que te acolheu há já três anos.

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Quanto cresceste por aí, quando foste ainda nem 18 anos tinhas...

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Este é o quarto aniversário em que não te posso abraçar com os braços, mas abraço-te com todo o meu ser minha Matilde.

16
Jul21

O piano e a baleia

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma ilha onde nasciam os pianos mais perfeitos e belos do mundo. Os pianos eram feitos com madeira de abeto, estrutura e cordas de metal e milhares de peças que funcionavam harmoniosamente entre si com a precisão de uma orquestra.

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Um dia chegou à ilha das cerejeiras em flor, onde nasciam os pianos, um pedido para que nascesse um piano de cauda especial, com as melhores madeiras e criado pelos melhores artesãos da ilha. E foi assim que na ilha das cerejeiras em flor nasceu o belíssimo piano de cauda a que chamaram Sakura. Era magnífico, os seus sons, a sua música, encantavam todos os que a escutavam, parecia mágico.

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Do outro lado do mundo, numa pequena ilha verde, todos esperavam ansiosamente a chegada do piano. A vinda do piano de cauda para a ilha era um sonho antigo, que tinha sido muito difícil de alcançar. Tudo começara com um rapaz pequeno que estudava piano com uma professora idosa no seu pequeno piano antigo. Dizia-se que ela tinha sido uma pianista famosa que viera viver na pequena ilha verde para poder sentir a sua paz e para estar sempre a ver o mar. O menino aprendia tudo velozmente, treinava e estudava sem nunca se cansar. A professora cedo percebeu o talento enorme que o menino tinha e nunca se cansava de o ensinar, de o desafiar, enfim de o conduzir para ir sempre mais longe na sua música.

Na pequena ilha verde todos foram ficando a saber do talento do menino e iam em grupos para o jardim da pequena casa branca escutar o menino e a sua música. Cada vez havia mais pessoas a ir sentir o encanto da música e o jardim foi ficando pequeno para todos. Começaram então a sonhar com uma grande sala com paredes de vidro viradas para o mar e com um piano de cauda como os das melhores salas de concertos do mundo. Se bem sonharam, melhor fizeram e juntando esforços ao longo de anos conseguiram pedir para que nascesse Sakura na ilha onde nasciam os pianos.

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Finalmente tudo estava preparado na ilha verde e a longa viagem de Sakura, pelo oceano já começara. Os dias passavam devagar na ilha verde, onde as vacas vagarosamente pastavam livres e felizes nos campos a ver o mar, onde os ilhéus percorriam as estradas sempre contornadas de hortênsias azuis com uma calma e tranquilidade especial que existia em muito poucos lugares do mundo.

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A bordo do navio, Sakura, o belo piano de cauda, sentia angústia por ter deixado a ilha onde tinha nascido e sentia desconforto com o frio e a humidade do ar. Quando o navio balançava ficava mais tranquilo e até conseguia sentir alguma música naquele ondular. Ao fim de muitos, muitos dias no mar, Sakura começou a ver ao longe o que lhe parecia ser umas ilhas. Havia também outros barcos, mas o que lhe prendeu toda a sua atenção foi um som forte, único, era uma canção, mas não era cantada por pessoas. O som era grave e forte, parecia triste e fazia-o sentir um friozinho na barriga, parecia que o estavam a chamar.

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Tentou perceber de onde vinha aquele som mágico e percebeu que vinha do mar. Ao longe, ao lado do navio ele viu de onde vinha o som. Oh! Como era bela! Era cinzenta, quase preta, enorme, erguia-se sobre as águas e voltava a cair no mar deixando apenas à vista a sua belíssima e singular cauda. Ele nunca vira tanta beleza, abaixo da enorme boca sorridente ela tinha o que pareciam ser teclas que se afastavam quando a boca estava cheia de água. Ouviu os marinheiros dizerem que era uma baleia. Nunca tinha visto nada tão belo, como gostaria de ter alguém que o tocasse e juntasse a sua música à maravilhosa canção da baleia. Será que ela algum dia iria escutar a sua música? Será que ela poderia sequer prestar-lhe atenção?

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No céu uma andorinha preta e branca que voava por aquelas paragens sentiu a emoção que a canção da baleia despertava no enorme piano de cauda que viajava no barco. A andorinha até conseguia sentir a música que o piano deixar sair das suas entranhas para acompanhar a melodiosa canção da baleia. Havia no ar tanta música que a andorinha deu por si a acompanhar com o seu canto aqueles dois seres enormes, vestidos de negro, com enormes sorrisos e cheios de música por dentro. Só a andorinha é que pôde ver aquele encontro mágico entre a enorme baleia e o imponente piano de cauda que acabava de chegar ao porto da ilha.

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Com a chegada ao porto, foi um nunca mais acabar de manobras e transportes até que finalmente colocaram o majestoso piano de cauda na sala de concertos virado para o mar. Chegou então o momento que todos pacientemente tinham aguardado, o menino sentou-se ao piano e começou a tocar. A magia das mãos do menino nas teclas do piano e a perfeição e imponência dos sons do Sakura foram avassaladoras, a música encheu a sala, abriram as janelas viradas para o mar e jorrou música como se fosse a lava de um imparável vulcão. Tudo parou na ilha, não havia qualquer outro som que não o do piano e ao longe, muito longe podia escutar-se o som da baleia que cantava com toda a alma parecendo chamar Sakura para junto de si.

Desde esse dia e durante muitos anos sempre que o piano de cauda da ilha verde era tocado via-se a baleia bater a sua cauda no mar e escutava-se o seu canto grave e profundo.

No mar cada vez mais baleias, golfinhos e todo o tipo de criaturas marinhas iam vindo até à baía próxima da sala de concertos onde Sakura, o magnifico piano de cauda apaixonado era tocado. As pessoas vinham de todas as paragens para sentir a música e ver as mais variadas criaturas do mar concentradas na baía enquanto durava a música. No meio de todos brilhava sempre a baleia que ele tinha visto quando tinha chegado à ilha verde e pela qual era profundamente apaixonado, era ela que fazia o canto mais admirável e apaixonado e que no dueto único com o seu amado atraia os seres humanos e os seres marinhos.

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10
Abr21

A Princesa, o rei Rato e a Cigana

Cristina Aveiro

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Fotografia RTP

Era uma vez uma Princesa muito alta e magra, com uns olhos azuis muito pequenos e cabelos loiros longos com caracóis muito apertadinhos. A Princesa queria ser sempre a melhor em tudo, achava que sabia mais do que todos e não suportava que a contrariassem. A Princesa adorava passear no seu imponente cavalo branco que a fazia sentir-se ainda mais ufana da sua beleza e aumentava a sua altivez. A floresta do monte da Lua era um dos seus lugares preferidos, com as árvores centenárias, retorcidas e tão cerradas que de dia parecia quase noite tal era a densidade da floresta. Havia também enormes rochedos cobertos de musgo escuro erguidos aos céus que pareciam ter caído do cesto de um enorme gigante que andasse a fazer um muro no seu quintal.  Na floresta eram vulgares os mantos de neblina fechada que não deixavam ver nada senão a névoa branca e impediam as gentes de andarem. Num dia a Princesa galopava no seu passeio pela floresta quando o manto de neblina a apanhou e ela teve de parar e passar a andar lentamente a pé com o cavalo à rédea.

Andou, andou até que cansada se encostou ao abrigo de umas pedras com o cavalo e adormeceu.

Quando amanheceu, acordou com o barulho do som de cavalos de uma carruagem e depois com gritos de homens a lutar, um grande alarido e novamente cavalos a galope a fugir. A Princesa decidiu ir cautelosamente até ao lugar de onde vinham os barulhos. Esperou escondida a ver se não havia ninguém, viu a carruagem, mas os cavalos e os homens não estavam lá. Pensando que na carruagem podia haver comida foi até lá, abriu a porta e quase morreu de susto quando viu que no chão estava deitado como morto um enorme rato com ar majestático. O animal começou a abrir um olho, e depois outro e quando viu que era uma princesa e não os malfeitores que o tinham atacado e à sua comitiva levantou-se de um salto.

Apresentou-se de imediato à Princesa informando que era o rei Rato.  

O rei Rato era muito magro e tinha o rosto escuro e ressequido. Sobressaiam os seus olhos minúsculos muito escuros e encovados, bem como o seu nariz grande e adunco e os lábios tão finos que tornavam a boca quase numa linha no rosto. O rei Rato andava sempre vestido com um fraque preto, muito orgulhoso do seu porte direito e da sua elegância e majestade. O rei Rato sempre se tivera em grande conta, quer da sua graça e beleza, quer da sua suprema inteligência e sabedoria. Estivera sempre muito certo de que era irresistível e que conseguia sempre tudo o que queria. Ao rei Rato nunca lhe ocorrera que alguém pudesse pensar de outra forma. O rei era totalmente cego e surdo em relação aos que o rodeavam, nunca se preocupava com mais ninguém que não fosse ele próprio.

A Princesa olhou demoradamente para o rei Rato e pensou que não era companhia que escolhesse se houvesse outra, mas ia ter que ser, com ele tinha mais hipóteses de conseguir sair da floresta e regressar a casa. Conversaram um pouco e decidiram que iam rumo ao Norte, olhando com atenção para os troncos das árvores e vendo o lado onde o musgo era mais forte e verde. Tentaram conversar para ir passando o tempo, mas cada um só se interessava por o que dizia e não tinham vontade de se escutarem um ao outro, cada um tinha a certeza que estava certo e não escutava a opinião do outro. Felizmente ambos achavam que ir para Norte era boa ideia, senão teriam ido cada um para seu lado.

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Fotografia Net

Foram andando em silêncio, ou num diálogo de surdos debitando as suas vaidades e maravilhas pessoais sem que o outro prestasse atenção. Caminharam durante todo o dia e ao final do dia, quando começava a cair a noite viram um clarão de fogueira lá ao longe e ficaram os dois encantados. Se havia fogo havia gente, se havia gente havia comida e quem sabe um lugar para dormir. Quando chegaram perto foram com cuidado ver que lugar era aquele e quem lá estava. Podiam ser malfeitores ou inimigos. Ficaram admirados quando viram uma enorme tenda com uma fogueira alta no terreiro à frente.  De pé olhando a fogueira estava uma extraordinária mulher Cigana.

A Cigana era diferente de todas as outras, não tinha a pele morena, nem o cabelo ou os olhos escuros. Era alta, entroncada, com corpo de guerreiro viking, tinha enormes olhos azuis e uma farta cabeleira ruiva. Não podia dizer-se que era bela, mas era certamente vistosa, parecia que gostava de fazer questão de se fazer notada. As suas roupas eram muito coloridas e rebrilhava no ouro que usava ao pescoço e nos brincos. Estava a cantar alto com a sua voz nasalada e áspera.  Eles não sabiam, mas a Cigana estranha gostava de dizer a todos o que pensava e erguia a sua voz acima da dos demais para se fazer ouvir, adorava escutar-se e pensava que todos sentiam o mesmo.

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Fotografia Net

Passado algum tempo, a Princesa e o rei Rato decidiram avançar e ir ter com a Cigana esperando que ela os acolhesse. Quando os viu a Cigana gritou-lhes perguntando de onde é que tinham vindo e o que é que queriam dali. A Princesa e o rei Rato lá explicaram com calma o que tinha acontecido e a Cigana foi dizendo que se fosse com ela teria conseguido regressar a casa mesmo com a névoa, que teria mandado todos os bandidos embora e por aí fora. Estavam ali três seres tão diferentes e tão parecidos, será que se conseguiriam entender?!

A Cigana tratou de lhes dar comida e abrigo naquela noite e acompanhou-os no dia seguinte para os ajudar a regressar às suas vidas. Durante a viagem, a floresta e os seus encantos mágicos começaram a aproximar a Cigana e o rei Rato, que aos poucos começaram a falar, e depois a rir e ao fim de dois dias parecia que se conheciam desde sempre e que gostavam das mesmas coisas.

Chegados ao fim da floresta, acompanharam a princesa ao seu castelo e o rei Rato e a Cigana seguiram para o palácio do rei Rato. Como a viagem tinha sido muito longa e o rei Rato não se queria separar da Cigana pediu-lhe que ficasse ali a descansar alguns dias. A Cigana começou por ficar uns tempos numa enorme tenda que o rei Rato mandou erguer nos jardins porque a Cigana se recusava a dormir no palácio. A corte do rei achava tudo aquilo muito estranho porque agora o rei parecia só querer saber das vontades da sua amada Cigana e eles nem conseguiam entender os seus usos e costumes e muito menos as suas roupas e joias.

Ao fim de algum tempo o rei Rato encheu-se de coragem e ajoelhou-se em frente à Cigana, pegou-lhe na mão e pediu-lhe que fosse a sua rainha e ficasse com ele para sempre.

A Cigana aceitou o pedido do rei Rato, celebraram um casamento que durou mais de duas semanas, a princesa foi a madrinha e viveram felizes para sempre na sua tenda no jardim do palácio.

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Fotografia Net

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Abr21

Mãe são para ti!

#11 - Vermelho - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Mary Stevenson Cassatt "Poppies in a field"

Era uma vez uma menina pequenina de rosto redondo, faces rosadas, pele clara e quase sempre com um sorriso doce nos lábios que se chamava Leonor. Tinha longos cabelos castanho muito claro, quase louro que terminavam em caracóis largos e que a faziam sentir-se uma princesa. Era muito doce a menina, gostava muito de brincar e gostava muito de cuidar do pequeno jardim que era só dela no meio do quintal da avó. No jardim da Leonor havia roseiras pequenas que davam rosas também pequeninas de várias cores, cor-de-rosa claro, escuro, branco, amarelas e cor de laranja, parecia um jardim de brincar por ser tudo em ponto pequeno. A Leonor adorava as suas rosas e embora tivesse muita vontade de oferecer flores à mãe e à avó não tinha coragem de apanhar as suas rosas porque eram pequeninas, eram poucas e se as apanhasse o seu jardim deixava de estar florido e bonito.

A menina sabia regar, tirar as ervas, cobrir a terra com carrascas de pinheiro para manter a humidade, era uma verdadeira jardineira. Gostava muito do seu pequeno regador com crivo que fazia uma chuva fininha sobre as roseiras. Adorava o seu carrinho de mão de metal verde que usava para ajudar a avó quando apanhavam laranjas ou nozes, quando arrancavam ervas que tinham de ser levadas para o canto do quintal e para tudo o que fosse preciso transportar. A menina sentia-se crescida ao fazer as tarefas no jardim.

O jardim da avó era muito grande e tinha sempre muitas, muitas flores e a Leonor gostava de  as colher para fazer os seus raminhos e oferecer. Apanhar flores para oferecer à mãe e à avó era irresistível para a Leonor, ela adorava flores e adorava a mãe e a avó. Foram muitas as vezes que a avó agradeceu, mas a seguir lhe disse com doçura que esta ou aquela flor ainda não estavam prontas para apanhar, ou que tinha apanhado com o pé muito curto e que não se conseguia pôr em água na jarra. A avó ficava enternecida com o gesto da menina, mas ficava um pouco triste porque tal como a Leonor gostava de ver as flores brilhar no seu jardim.

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Quando iam passear pelo campo ou pelo pinhal para respirar o ar puro, caminhar, correr, sentir a liberdade e a carícia do sol morno, a menina não conseguia parar de apanhar flores. Gostava dos malmequeres do campo, dos pampilhos, dos lírios do vale, dos lírios do campo, da flor-arlequim e tantas outras flores que nem a mãe sabia o nome. Depois de colher, arranjava-as num raminho, com uns rabos-de-gato pelo meio e mais umas verduras a compor e chegava perto da mãe, estendia o braço e dizia:

- Mãe, são para ti!

A mãe abraçava-a e agradecia e ia dizendo que as flores eram felizes no campo e que iam durar pouco tempo em casa numa jarra. Ainda assim, a menina ficava contente por ver o seu raminho na jarra pequena da janela da cozinha durante um ou dois dias, sentia que o cheiro e a beleza do campo estavam ali na sua casa.

Num desses passeios, no início da primavera a menina encontrou uma zona do campo cheia de papoilas vermelhas e achou-as maravilhosas, pareciam ter saído de um desenho, não resistiu e apanhou tantas quantas lhe cabiam nas suas mãos pequeninas e correu para as dar à mãe. Quando chegou perto da mãe e estendeu as papoilas disse com rapidez, sei que não é muito boa ideia apanhar as flores, mas eu acho-as tão bonitas que quero muito vê-las na tua jarra na nossa cozinha. A menina notou que a mãe quando recebeu as flores e lhe deu um miminho não disse nada sobre ter colhido as flores, mas pensou que era por ela ter dito que já sabia o que a mãe pensava.

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Quando começaram a regressar da caminhada a menina viu que as belas papoilas tinham começado a murchar e quando chegaram a casa estavam todas mirradas e parecia que tinham passado muitos dias depois de serem colhidas. A mãe colocou-as cuidadosamente na jarra e a menina ficou a ver o que acontecia muito esperançada que as flores voltassem a “arrebitar”. As papoilas continuaram murchas e a menina ficou triste e disse à mãe que as papoilas só podiam estar no campo, que não eram para ter em casa.

A mãe disse à Leonor que no próximo ano iam semear papoilas no jardim da menina e que então, ela as podia ter perto de casa e ver sempre enquanto estavam em flor.

A Leonor ficou radiante e pensou que a sua mãe sabia sempre tudo!

 

Texto no âmbito do #11 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Vermelho

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

 

 

28
Mar21

O teu olhar

Cristina Aveiro

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Há 24 anos era sexta-feira Santa

Chegaste depois da espera habitual

Sentia que já te conhecia

No tempo da espera comecei a aprender-te

Mal podia esperar para levantar o resto do véu

Mal podia esperar para te comtemplar completa

E quando te vi pela primeira vez

Quando nos olhamos nos olhos

Quando senti o teu olhar de azul profundo

Atento, demorado, só meu

O mundo parou, não houve tempo

Naquele momento estava todo o tempo

Naquele momento não havia tempo

Aquele momento ficou para sempre

Guardei tudo

O teu olhar, o teu cheiro, o teu rosto

O teu corpo, todo o teu ser

Nesse momento passei definitivamente a

Estar incompleta no meu corpo

Mas nesse momento passei a ser maior

Nesse momento tudo mudou para sempre.

21
Mar21

O Sapo

"Animais nossos amigos" - Afonso Lopes Vieira

Cristina Aveiro

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O Sapo

Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
    Para uma horta ou jardim,
  Para os tratar com amor.

       É o guarda das flores belas,
 da horta mais do pomar;
        e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...

    Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
   e fazem tristes as flores.

    Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
            a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.

       E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
     brilham no céu as estrelas,
 e ele ronda, a trabalhar...

       E ao pobre sapo, que é cheio
 de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
     e há quem o mate e persiga

        Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
          - «Então ele traz-nos guardadas,
   e depois pagam-lhe assim?»

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
   as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...

Afonso Lopes Vieira, in 'Animais Nossos Amigos'

 

É assim que eu sinto a poesia porque o meu jardim infantil chamava-se "Animais nossos Amigos", em Leiria, na terra do poeta que dedicou os versos de que mais gosto para crianças.

A cidade erigiu um espaço mágico onde brinquei e aprendia a amar os livros, até tinha uma biblioteca pequenina.

"Horácio Eliseu, em 1949, apresenta um projeto para um Jardim Infantil, com uma pequena Biblioteca das obras infantis de Lopes Vieira, ajardinado exteriormente com as figuras do livro de 1911, Animais Nossos Amigos, esculpidas em pedra, fundidas em bronze e desenhadas em painéis de azulejo por Anjos Teixeira Filho. O Mestre acrescenta os passarinhos31 e um painel azulejar com as abelhas. O projeto efetivou-se e, a 30 de abril de 1955, no mesmo dia em que se inaugurava a Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, fazia-se uma festa dedicada às crianças no Jardim Infantil Afonso Lopes Vieira. Nesta data estiveram presentes o Arquiteto Raul Lino e o Mestre Anjos Teixeira."

 

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Raul Lino

 

 

 

 

20
Mar21

Apetece-me ir para o deserto!

Cristina Aveiro

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Estavam de regresso à escola depois de dois meses em casa por causa do maldito bicho que os tinha mantido fechados, afastado dos amigos, das pessoas e dos lugares de que gostavam.

Todos os meninos estavam felizes, cheios de energia, cheios de histórias para contar. Nas salas ficaram muito contentes por voltar a sentar-se nas suas mesas, por voltar a ocupar o seu lugar na sala de aula, por estarem ali com o professor e com todos junto deles e não no computador.

Na hora do recreio tinham toda a escola para eles porque os meninos crescidos não estavam lá. Pareciam mesmo “bandos de pardais à solta” como se cantava numa canção. Corriam, exploravam os sítios, jogavam à bola e caiam, escorregavam, parecia que tinham perdido o treino de andar a toda a velocidade como era seu costume.

As senhoras que os acompanhavam para tomar conta admiraram-se com estas dificuldades, parecia que estavam perros, destreinados, quase lhes lembravam os bichinhos que depois de um longo cativeiro tinham um andar hesitante e desajeitado, com menos equilíbrio e coordenação. Admiraram-se também com o que tinham crescido. Tal como antes, os meninos tinham voltado cheios de vontade de falar com as senhoras para contar as suas histórias, para perguntar tudo e mais alguma coisa, sobre o que ia acontecer, ou que tinha acontecido e muito mais coisas de que ninguém mais se lembraria de perguntar senão as crianças. As senhoras gostavam muito dos seus meninos, conheciam bem o bando, sabiam-lhes os nomes, os gostos, os que falavam muito e os que eram de poucas falas, os que gostavam de empurrar, arreliar, acarinhar, descobrir, … Sabiam-nos de cor, como também canta outra canção. Gostavam deles como eram, era bom haver traquinas e reguilas e calmos e sossegados, eles eram como uma orquestra, tocavam todos os sons, os calmos e os que inquietavam todos e nenhum som se podia dispensar, todos faziam falta. Os professores e as senhoras pareciam a maestrina que tocava a orquestra como num pequeno filme que aparecia por estes dias na televisão, umas vezes com movimentos tranquilos e outras num frenesim que quase parecia gritar.

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Um dos meninos, moreno, de cabelo ondulado negro e rebelde, costumava andar sempre por todo o lado em muito alta velocidade, até a falar era supersónico, nem para escutar conseguia parar, era sempre tudo a mil à hora. A sua velocidade era maior que a dos colegas e isso provocava muitas vezes “acidentes” e desentendimentos com miúdos e graúdos. Com a sua velocidade parecia impossível que reparasse nas pequenas coisas, mas seria assim?

Naquele dia de regresso o menino estava ainda com mais velocidade do que a habitual, mas isso não o impediu de reparar que uma das senhoras estava algo sombria. O menino fixou os seus olhos castanhos muito vivos nos olhos da senhora e chegou-se à conversa. Atrás da máscara e dos óculos da senhora ele viu que que os seus olhos não estavam a sorrir como era habitual. Começou por perguntar se estava boa, o que é que tinha, se estava doente, se tinha acontecido alguma coisa, … e foi saltando de pergunta em pergunta sem ficar satisfeito com as respostas.

A senhora estava  admirada por o menino ter parado as suas corridas e brincadeiras durante tanto tempo, estava surpreendida por o menino, na sua velocidade e turbulência, ter sentido o que lhe ia na alma e ela tanto queria guardar só para si.

Quando menino perguntou o que é que apetecia à senhora, ela respondeu calmamente: “Apetece-me ir para o deserto!” em jeito de suspiro. Pensava que ele ia ficar satisfeito com a resposta e que ia voltar às suas brincadeiras já com a curiosidade satisfeita. Mas o menino continuou com as perguntas, quis saber porque é que a senhora queria ir para o deserto, ao que ela respondeu que era para estar sozinha. O menino parou um pouco a pensar e pediu para ir buscar um papel para fazer um desenho. A senhora disse que sim, ficando cada vez mais admirada por ele preferir desenhar a estar nas correrias e brincadeiras. Quando voltou para junto dela começou a desenhar um deserto com catos e uma senhora. Quando ela lhe perguntou quem era, ele respondeu prontamente: - És tu!

O menino continuou a desenhar, desenhou-se a si também no deserto, a senhora perguntou porque é que ele também estava no deserto. O menino respondeu que era para estar com ela e assim ninguém estava sozinho.

A senhora estava comovida, mas para disfarçar perguntou se não havia mais nada no deserto e o menino desenhou um passarinho e continuou a desenhar. Desta vez desenhou um avião com duas pessoas lá dentro, muito parecidas com a senhora e o menino. A seguir desenhou pequenas setas a ligar as imagens deles no deserto às imagens deles no avião. A senhora estava deslumbrada com o que o pequeno ia fazendo e perguntou-lhe então o que era tudo aquilo, o avião, as pessoas no avião e as setas. Disse-lhe que já não estava a perceber o desenho porque queria ouvir o que o menino tinha para dizer.

O menino explicou com calma, as pessoas no avião “és tu e eu” e as setas querem dizer que deixámos o deserto e que vamos embora no avião. Finalizou dizendo: - Toma, o desenho é para ti! E largou a correr juntando-se de novo ao bando.

Quero ir para o deserto.jpg

Ao agarrar o desenho a senhora estava a sorrir e sentia um calor enorme no coração. Como é que aquele pequeno diabrete vira o que ela queria esconder, como é que ele estivera parado tanto tempo a escutar, a acompanhar e finalmente como desejara que juntos saíssem do lugar triste. Como é que ele era tão sábio? Claro que era! Ele era uma criança, um diabrete com asas de anjo.

 

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