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Contos por contar

Contos por contar

08
Abr21

Carta a uma Amiga

Desafio das Cartas do Correio

Cristina Aveiro

COIMBRA-DA-TORRE-UC-1024x768.jpg

Foto de Madomistours

 

Querida Paula,

 

Que saudades eu tenho de ti. Os quatro anos que vivemos juntas em Coimbra nos nossos vinte anos foram inesquecíveis. O desafio de viver fora da asa dos pais, a liberdade de explorar uma nova cidade, a alegria de trilhar um caminho novo a aprender, as certezas de quem tem 20 anos. Fomos tão próximas, aquela euforia dos namoricos que se foram transformando em namoros. A casa da D. Estrela, tão frágil e idosa quanto surda e carinhosa. Lembras-te de ela nos dizer meninas parece que anda por aí passarinho novo! E nós intrigadas como é que ela teria descoberto! Só quem tem 20 anos é que não sabe que quando há passarinho novo tudo brilha de outra forma e é fácil adivinhar a quem observa. Fomos felizes naquela casa da D. Estrela, lembro-me frequentemente dela. Cada uma de nós a namorar com o seu Jorge e mais tarde a casar com eles.

Não consigo compreender porque te afastaste de nós depois de te separares do Jorge com quem te casaste. Eu e o meu Jorge continuamos juntos e continuamos a gostar muito de ti. Como fomos os três inseparáveis nesses quatro anos. Sabes que tentei muitas vezes voltar ao teu contacto, mas nunca consegui. Talvez nos vejas como parte de uma fase da tua vida que queres esquecer. Ainda assim nós podíamos viver contigo novos momentos, criar novas memórias boas. Quando as pessoas se separam não é preciso dividirem os amigos que eram de ambos. Nós temos coração grande, onde cabem o ex-teu Jorge e tu, mas se tu me desses a hipótese de escolher entre os dois, eu escolhia-te a ti. Tu apagaste-nos do teu mundo sem sequer nos dar uma hipótese de contacto.

Quero muito que tudo te corra bem e desejo-te felicidades como sempre desejei. Tenho muita pena de não saber nada de ti e de me sentir morta para ti quando estou viva e bem viva e cheia de abraços para te dar.

Abraço-te em pensamento e dou-te os beijos que eu quiser porque a isso não consegues fugir.

Da tua sempre Amiga,

 

Cristina

 

Muito eu gostaria de enviar esta carta, mas não sei o endereço!

Texto no âmbito do desafio das cartas de correio lançado pela Célia no seu ...Raios de Sol .

05
Ago20

O Cisne dos Pés Pretos

Cristina Aveiro

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Era uma vez um cisne branco lindíssimo, com penas tão brancas e suaves que pareciam ser feitas de luz. Era alto, elegante, com um longo pescoço ondulante, flexível e gracioso. Quando nadava os seus movimentos pareciam fazer parte de uma dança clássica, mas quando caminhava sobre a relva tinha passadas lentas e firmes mas bamboleava-se para um lado e para o outro. A culpa era das suas enormes patas triangulares com as membranas entre os dedos. O contraste entre as penas e as pernas e os pés não podia ser maior porque as pernas e os pés eram admiravelmente pretos e destacavam-se muito da brancura das suas penas.

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A beleza do cisne enquadrava-se na perfeição no sítio onde vivia, um sítio encantado, mesmo mágico. O cisne dos pés pretos e a sua companheira viviam num campo enorme cheio de relva sempre verdinha e cuidada o ano inteiro. No campo havia enormes árvores centenárias com troncos muito grossos e contorcidos, havia alfarrobeiras, oliveiras, figueiras, nespereiras, … enfim uma enorme variedade das árvores do Sul. O campo tinha também inúmeras flores de todas as cores e era povoado por cheiros mornos e doces do rosmaninho, do alecrim, das folhas de figueira e também de relva fresca, muitas vezes acabada de cortar.

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O campo tinha também vários pequenos lagos que o cisne partilhava com várias famílias de patos pardos que eram bons companheiros. O andar desengonçado e desajeitado, as penas e o bico pardos tornavam ainda mais visível o porte real e majestático do cisne dos pés pretos.

O campo do cisne dos pés pretos de tão perfeito parece que é irreal, mas … existe. É na Quinta de Benamor, uma quinta centenária onde nasceu um campo de … golfe.

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O cisne dos pés pretos observa os jogadores de roupas multicolores sem perturbar a sua vida, fica a olhar para os estranhos ovos brancos redondos que os jogadores seguem pelo campo fora, dando-lhes pancadas com toda a força que eles até voam no ar. O cisne dos pés pretos não compreende o que eles fazem mas não se incomoda com os jogadores. Os jogadores são silenciosos, tal como os carrinhos em que andam e estão sempre mais interessados nos seus estranhos ovos do que na vida do cisne. O único barulho que os jogadores fazem é quando batem com toda a força nos ovos e eles voam até junto das bandeiras brancas.

Havia, contudo, uma jogadora que olhava para o cisne dos pés pretos com atenção e carinho. Dia após dia vinha ao campo, ia-se aproximando do cisne e ele não se afastava. Um dia ela trouxe umas sementes na mão estendida e ficou ali à espera a ver o que acontecia. O cisne dos pés pretos foi andando muito devagarinho, passo após passo até chegar perto da senhora mas sempre um pouco receoso. Mantendo a máxima distância, esticou o seu longo pescoço o mais que pode e comeu. Era delicioso, a erva que comia no campo era boa mas aquelas sementes eram irresistíveis.

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Assim começou um novo ritual dos dias do cisne dos pés pretos, a senhora chegava com as suas sementes e o cisne ia ter com ela para as comer todo feliz. Passou o Outono, o Inverno e o cisne dos pés pretos já nem passava sem aquele momento especial do dia. Um dia a meio da Primavera a senhora não apareceu. No dia seguinte também, e passou a ser sempre assim.

Alguém disse que a senhora tinha voltado para a Suécia para passar lá o Verão, mas claro que isso o cisne dos pés pretos não podia saber nem entender.

Os dias continuaram a passar felizes para o cisne, passeando no campo junto aos jogadores, nadando nos lagos e bailando com a sua companheira. O tempo começou a arrefecer e num dia igual ao anterior o cisne dos pés pretos viu chegar junto ao arco das heras… a senhora das sementes. O cisne dos pés pretos foi a correr até à senhora, os jogadores no campo voltaram-se admirados com a rapidez do cisne e não percebiam o que se estava a passar.

IMG_0138.JPG

Quando o cisne chegou junto à senhora e ela lhe voltou a estender a mão com sementes ele comeu com alegria.

O cisne dos pés pretos ficou muito feliz com o regresso da senhora e ficou a pensar:

- Será que ela volta amanhã ?

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