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Contos por contar

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28
Jan21

O Sapo Apaixonado, a Rã e a Cobra Verdinha

Cristina Aveiro

Sapo-Matilde Aveiro.jpgDesenho da Matilde Aveiro

Era uma vez um sapo lindo, lindo, muito jovem e que todos no jardim adoravam, em especial a sua mãe. A mãe sempre lhe dissera que ele era simpático, elegante, que tinha uma graciosidade invulgar, que parecia que tudo nele era perfeito. Nem todos o viam desta maneira, ele dava pequenos pulos pois era pesado e com as suas patas curtas e o seu corpo achatado e gorducho não conseguia dar saltos verdadeiros, quando andava era desajeitado mas todos gostavam dele na mesma, era boa companhia, quer na água quer em terra, nas margens do lago.

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O sapinho vivia num jardim muito grande com colinas, um longo riacho, um lago grande e um sem número de animais onde as pessoas gostavam passear. Havia libelinhas, patos, patinhos, relas, rãs, muitos pássaros e aves. Havia melros, pegas, pardais e nem sei quantos mais!

Quando uma criança se aproximava da margem do riacho do jardim, parecia que tinha começado uma prova de salto em comprimento, só se via as relas e as rãs a saltarem para a água e a desaparecerem no meio das ervinhas verdes redondas que cobriam as águas do riacho.

As crianças ficavam todas divertidas ao verem os saltos rápidos e altos que elas conseguiam fazer. Nestas corridas e saltos quem ganhava eram as relas porque as suas pernas enormes e o seu corpo pequeno e mais leve levavam-nas mais alto.

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O sapinho quando sentia passos a aproximarem-se procurava um sítio mais escondido entre os juncos e as ervas mais altas e ficava muito quieto à espera que se afastassem. Muitas vezes ficava ali no seu cantinho sossegado a ver os saltos das suas atléticas e esguias vizinhas e a escutar enquanto coaxavam. Ele gostava muito de as escutar, as relas pareciam patos a grasnar enquanto as rãs faziam sem parar.

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O sapinho achava as rãs lindas, com a sua pele tão lisa e brilhante, sempre molhadinha daquele verde com as manchinhas escuras pelo corpo. Adorava também aqueles olhinhos esbugalhados. A boca delas também o fascinava achava que até já tinha visto os dentinhos de cima de uma delas quando lançava a língua a um mosquito. Ele não sabia, mas até começava a pensar que estava a apaixonar-se.

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Começou a tentar aproximar-se e a fazer os seus cantos mágicos, mas elas não reparavam sequer. E ele continuava a fazer bréiii, bréiii mas elas nem reparavam.  As pernas delas eram longas, fortes e muito musculadas, com os seus pezinhos delicados com cinco longos dedos unidos por membranas que as faziam deslizar velozes na água como nenhum outro bicho do lago.

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Será que elas não olhavam para ele por ter a pele rugosa com aquelas bolinhas salientes, ou seria por ser um bocado gordo e não conseguir saltar, enfim dava pulos, mas era algo desajeitado.

Tentou mostrar-se melhor erguendo-se nas quatro patas, mas nem assim elas mostraram interesse. A caminhar ele tinha sempre uns passos pesados e algo desajeitados mas era forte e sabia que ia encontrar a sua apaixonada, talvez não fosse uma rã, ia continuar a procurar e tinha a certeza que ia encontrar alguém de quem gostasse.

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Num dia foi até ao estrado de madeira onde as pessoas costumavam passar e ficou lá em baixo no espaço escuro e fresco entre as tábuas e o chão. Olhou para cima e no espaço entre duas tábuas, bem direita e a esticar-se estava uma linda cobrinha verde, muito elegante e esguia. O sapinho ficou fascinado. Como ela era bonita. Começou a andar pelas tábuas em pequenos pulos, até se atreveu a ir para a parte de cima para a ver melhor. Parecia que não controlava o que fazia, queria ir até perto dela, queria beijá-la, talvez ela fosse o amor que andava à procura. A cobrinha olhou para ele, começou a aproximar-se e já estava até a esticar a boca pensando num belo petisco, mas quando olhou melhor desistiu logo. Era um sapo, não servia para comer, se o abocanhasse ao apertar ele deitava um veneno e ela podia até morrer, livra, o melhor era ir para outro sítio porque com sapos é que ela não queria nada.

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O sapinho ao ver a cobra verdinha a afastar-se ficou triste e decidiu voltar para junto do lago. Lá foi aos pulinhos, comendo um mosquito aqui, uma aranha acolá, enfim comida não lhe faltava.

Quando chegou perto do lago, já a noite ia alta e ele sentiu vontade de cantar as suas tristezas e lá começou a coaxar a sua música. Algum tempo depois sentiu movimento atras de si. Olhou e nem queria acreditar, era uma enorme e maravilhosa sapinha, bem corpulenta, com uns bracinhos curtos e gordinhos e uns olhos cheios de ternura. Assim que os olhares se cruzaram houve encantamento e desde esse dia nunca mais se separaram. Todos os anos faziam longas linhas com os seus ovinhos negros nas folhas das plantas mesmo junto da água. Todos os anos nasciam centenas de girinos que iam crescendo e depois se transformavam em minúsculos sapinhos que eram o seu orgulho.

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Quando olhava para a sua sapinha pensava sempre como tinha sido tonto ao pensar que estava apaixonado pela rã e depois pela cobra verdinha. Só depois de sentir o verdadeiro amor é que percebia como ela era bela, como estava encantada por ele e como tanto tinham em comum.

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