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Contos por contar

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21
Mai21

A menina de sua mãe

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 2

Cristina Aveiro

Menina com feixe.jpg

            Foto: Artur Pastor (?)

Na pequena casa térrea com chão de sobrado de madeira de pinho, pequenas janelas e grossas paredes caiadas, a cozinha e a lareira eram o coração da casa. A cozinha era tudo o que havia na casa para além dos dois exíguos quartos de dormir onde mal cabiam os leitos estreitos de ferro. As camas eram limpas e confortáveis com os seus colchões de camisas de milho secas, os velhos lençóis estreitos de algodão e as mantas grossas de trapo.

Viviam do que a terra dava graças ao trabalho de todos no amanho de umas quantas leiras onde cultivavam as hortas, o milho para a broa, algumas árvores de fruto, a vinha e a azeitona. Tinham uma capoeira de galinhas, meia dúzia de ovelhas e outras tantas cabras, engordavam dois bácaros por ano para terem alguma carne na salgadeira e assim iam governando a vida para que não faltasse a comida na mesa.

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Foto: Artur Pastor

Fosse Inverno ou Verão o lume estava sempre aceso e havia que não o deixar apagar porque os fósforos eram caros, 3 tostões a caixa e nem sempre havia. Quando o lume se apagava em casa ia-se a casa de uma vizinha pedir umas brasas ou um tição aceso para atear de novo.

O fogão da casa era a lareira com as panelas de ferro de três pés, os tachos e a sertã pousados nas trempes. As tenazes (tanazes como lhes chamavam) e o abanador estavam sempre por ali.

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Havia também a cafeteira de barro onde se fazia o “café” de cevada torrada e moída que ficava aconchegado ao lado dos troncos a arder. Chamavam-lhe “chicolateira” e era estimada com cuidado para não se quebrar. De manhã cedo depois do mata-bicho ficava ao lume a panela de três pernas com os feijões a cozer, aquecida por umas quantas cavacas durante horas. Mais perto da hora de comer juntariam as couves, os nabos, ou o que houvesse na horta com mais um naco de carne da salgadeira e estava “o comer” feito. Num dia mais especial lá ia um tacho para a trempe para guisar um frango, ou ia a sertã para a trempe para fritar um ovo ou umas rodelas de batatas em azeite. No Natal, o tacho também brilhava com as filhoses a fritar e um cheiro a comida mimosa que só por si já enchia a alma. Nesses dias felizes a mãe até lhes perguntava se queriam que fizesse um "galito" com a massa da filhós, e eles deliravam quando ficavam algo parecidas.

A vida da família ia correndo plena de trabalho e canseiras, mas com o suficiente para todos. Iam nascendo os filhos a cada dois anos e já eram cinco quando a tragédia levou o pai e ficou a viúva com o seu ranchinho para criar e as terras para amanhar e de lá tirar o sustento.

Da vila vinham casais com bebés pequenos procurar mocinhas na aldeia para ajudar na lida da casa e tomar conta dos filhos. A mãe lá ia recusando as ofertas destes trabalhos para a sua menina mais velha, queria-a junto de si e dos irmãos, na segurança da sua casa. As dificuldades foram ficando maiores e a mãe deixou-se convencer por um casal que lhe pareceu bondoso. Eram gente de posses, um médico e a sua esposa e queriam uma menina para ajudar na cozinha e a cuidar dos filhos. A mãe sabia o quanto a sua menina gostava de aprender a cozinhar, sabia que era essa a sua paixão, mas receava ainda assim.

Como a vila era próxima e os senhores tinham prometido que traziam a menina aos sábados e a levavam de novo aos domingos, a mãe deixou a sua menina ir como criada de servir para o palacete do casal. O que lhe custou, as lágrimas que chorou, mas tinha esperança de que a sua menina fosse estimada e a tratassem bem. Ia ser menos uma boca para sustentar e ainda lhe davam um pequeno salário pelo trabalho da filha. Pareciam ser pessoas justas pois não iam descontar os tecidos e custos de vestuário da menina ao salário.

E chegou o dia de domingo, e a menina partiu para a casa da vila. A pequena do alto dos seus 10 anos, de corpo muito franzino ia com a sua muda de roupa numa trouxa feita de pano rumo a uma nova vida. Os olhos brilhavam e deixavam cair lágrimas abundantes à medida que a sua casinha branca se deixava de avistar.

E foi uma revolução na sua vida, foi um nunca mais acabar de banho e lavagem com uma enorme quantidade de água aquecida e sabão com cheiro, cortar unhas, ajeitar cabelos, aprender a usar roupas que nunca tinha visto e andar sempre de sapatos. Na casa usava sempre a mesma roupa que as outras criadas e tinha de estar sempre mais reluzente do que a roupa de ir à missa aos domingos. Depois foram os modos de falar e de calar, de andar, de cuidar das coisas da casa, tudo foi mudado e posto ao modo do viver dos senhores do palacete. Nunca faltava a comida, mas a menina estranhava os sabores e custava-lhe muitas vezes comer do que havia. Sentia saudades da sopa da panela do lume apesar de nem gostar muito dela, mas estava mais habituada ao sabor.

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A cozinha do palacete não era o coração da casa, mas era o lugar favorito da menina. As paredes tinham azulejos brancos até ao teto, havia tachos, panelas, cafeteiras, formas de bolos, e todo o tipo de objetos que nunca tinha visto antes. Nas paredes havia louças coloridas penduradas em forma de folhas de couve, tomates, nabos, peixes tudo era colorido, limpo e cheio de luz. Havia armários cheios de louça fina para servir, bandejas, jarros de vidro para a água, xicaras delicadas como nunca tinha visto. Mas nada se comparava ao enorme, imponente e incrível fogão a lenha onde tudo era cozinhado. Não faziam o lume no chão nem usavam trempes ou panelas de três pernas! Até a lenha para o fogão era mimosa. Usavam lenha cortada em pedaços feitos ao tamanho da fornalha e vinham entregar também lenha miúda e pinhas para acender os troncos grossos. Não usavam feixes de vides, nem caruma, tudo era muito limpo e até a cinza era mais branquinha do que a que tiravam do borralho lá de casa.

À noite, na sua cama chorava, chorava muito baixinho, sentia a falta da mãe, dos irmãos e do seu viver simples e mais livre. A menina sabia que tinha de ser, que assim estava a ajudar a mãe e os irmãos e talvez com o tempo se acostumasse. Naquela primeira semana não aprendera nada sobre como cozinhavam, apenas se estava a habituar a todos aqueles novos preceitos de fazer as coisas. Queria que dissessem bem dela quando a levassem até à sua mãe.

Quando o sábado chegou e a levaram de volta a casa, a menina não conseguia parar de chorar de alegria, e a mãe e os irmãos não paravam de olhar para ela. Estava diferente no cabelo, nas mãos e nos pés, cheirava a sabão perfumado. Via-se que tinham cuidado bem dela, mas tinha os olhos tristes.

Ao borralho naquela noite foi um nunca mais acabar de contar como se tinha passado aquela semana, como era a vida no palacete, os objetos, a comida, as roupas, … Quando a menina começou a falar da cozinha e disse que afinal havia outro fogão, ficaram todos espantados. A menina contou que naquele fogão o lume ficava fechado numa fornalha e nem se via, as panelas punham-se em cima do fogão e aqueciam, tinha um depósito de lado com torneira por onde tiravam a água quente, até tinha um forno sem lume. A menina estava maravilhada com aquele fogão e aquela cozinha.

Passou o domingo e à tardinha a mãe perguntou-lhe se queria voltar para a vila, disse-lhe que sentiam muito a falta dela em casa e que se ela não quisesse ir, não ia. Tudo se havia de arranjar na mesma.

A menina ficou calada a pensar e disse à mãe para ela decidir.

 

 

Texto no âmbito do Tema 2 do Desafio dos Pássaros - 3.0 que nos dava como mote "Afinal havia outro ... Fogão.

Este texto é uma singela homenagem aos milhares de meninas dos meios rurais que tiveram de ir para a cidade trabalhar como criadas de servir, umas com apadrinhamento e carinho dos que as "criavam", outras com vidas dramáticas de exploração e abuso.

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