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Contos por contar

Contos por contar

07
Set21

Estou muito contente!

#4 - Uma pessoa amada - A minha mãe Desafio dos 30 dias de escrita

Cristina Aveiro

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Tenho que partilhar convosco a alegria que foi ter hoje na página principal do Sapo a referência ao texto que escrevi no âmbito do desafio 30 dias de escrita lançado pela Ana de Deus, e em que participam Ana de Deusbii yueJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioJosé da XãMaria Araújo  e eu.

Quero agradecer à Maria Araújo do Cantinho da Casa que viu e me disse que lá estava!

Um abraço para todos deste nosso Sapal.

 

 

 

06
Set21

Um ato de coragem

#3 - Desafio 30 dias de escrita da Ana de Deus

Cristina Aveiro

Joaquim Carreira-1.jpg

Aos 32 anos Joaquim Carreira acabava de se tornar vice-reitor do Colégio Pontifício Português de Roma e iria desempenhar esse cargo durante quase toda a Segunda Guerra Mundial. Era um homem apaixonado por voar, “ver a terra do alto” e por fotografia, seguia com sentido de missão as tarefas que a vida eclesiástica lhe iam atribuindo. Ao longo da Segunda Guerra, enquanto o Vaticano seguia uma política cautelosa, de uma difícil neutralidade, Joaquim Carreira, vice-reitor do colégio, tomava uma posição corajosa. De acordo com o que deixou nos relatórios “Concedi asilo e hospitalidade no colégio a pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas”. Acolheu muitos refugiados, professores, médicos, advogados, socialistas, pessoas que pertenciam ao exército italiano, mas que não concordavam com o sistema, políticos e civis, fascistas, antifascistas, judeus e não judeus, que estavam na lista de perseguidos. De acordo com testemunhas da época “Todos os que batiam à porta ele acolhia“, mesmo que não ficassem no colégio (como por exemplo as mulheres) encontrava soluções envolvendo outras instituições ou mesmo famílias nos arredores de Roma.

Uma das enormes dificuldades que enfrentou foi alimentar os que acolheu e deu a acolher, conduzindo o carro do colégio saía de Roma, furtando-se à vigilância dos soldados nazis e ia às aldeias vizinhas em busca dos alimentos. De acordo com o que relatou «Se não fosse o caminho percorrido pelos arredores de Roma a fim de adquirir mais barato o alimento para os habitantes do colégio, não sei o que seria. Conhecia moleiros, padeiros, leiteiros, agricultores e nessa altura tive de reforçar compras e fornecedores.».

Joaquim Carreira foi um dos inúmeros heróis que se colocaram em risco para salvar vidas durante a Segunda Guerra Mundial, nasceu no meu concelho em Souto de Cima.

 

 

Texto escrito no âmbito do desafio 30 dias de escrita lançado pela Ana de Deus, e em que participam Ana de Deusbii yueJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioJosé da Xã, e Maria Araújo .

 

 

06
Set21

Uma memória Feliz

#1 - Desafio 30 dias de escrita da Ana de Deus

Cristina Aveiro

Berlenga Vista da Estrade de Sao Pedro.jpg

Era assim todos os anos, esperava com impaciência a chegada da Primavera, do Verão e finalmente o primeiro dia de praia. Que excitação, toda a preparação do farnel para o piquenique a meio do dia no pinhal, a enorme mala térmica, a mesa e cadeiras de campismo, o chapéu de praia enorme com uma barraca montada em toda a volta para guardar do frio, do vento ou do Sol, dava para tudo o que viesse. Acordar bem cedo e logo havia que ver se estava bom ou mau tempo. O pior era quando no dia previsto o tempo estava mau e os adultos já queriam desistir do plano. Tudo eram especulações, não se podia saber como estava na praia e ainda ficava a uns vinte quilómetros e se estivesse mau era um desperdício de gasolina. Às vezes mesmo com tempo péssimo as crianças conseguiam convencer os pais que talvez na praia estivesse bom, e mesmo contra ventos e marés lá iam e até corria bem.

Este primeiro dia era magnífico, os banhos no mar, as brincadeiras na areia, as “longas” horas no piquenique, onde tudo o que as crianças queriam era voltar para a praia. E de novo na praia, mais banhos e jogos e brincadeiras.

Na viagem de regresso a casa no carro morno, a pele crestada pelo Sol, o corpo embalado pela água e aquele cansaço doce e único que só o primeiro dia de praia conseguia deixar no meu corpo. Esse cansaço do primeiro dia de praia é algo que só de o lembrar me faz sentir o corpo feliz!

 

 

 

 Texto escrito no âmbito do desafio 30 dias de escrita lançado pela Ana de Deus, e em que participam Ana de Deusbii yueJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioJosé da XãMaria Araújo  e eu.

 

 

04
Set21

Um lugar querido

#2 - Desafio 30 dias de escrita da Ana de Deus

Cristina Aveiro

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A minha praia é um lugar feliz. Assim que nos aproximamos atravessando o que era o maior pinhal de Portugal, o cheiro muda, primeiro o pinho e a mata e depois aroma de dunas misturado com mar e finalmente, assim que estamos defronte do mar chega aquele cheiro que não há em mais nenhum lugar que eu conheça. É maresia intensa, quase se sente na boca o sabor das entranhas do mar. Gosto de percebes porque têm o mesmo sabor que o cheiro da minha praia.

É um areal amplo, mas aconchegante, onde cabem todos, tem rochas, tem zonas de mar plano e de mar que afunda, zonas de mais gente e outras de encontro solitário entre nós o mar e a duna. E a areia, como é limpa, macia, de um doce tom amarelo muito claro bordada a pequenas pedras e conchinhas onde as ondas se desmancham sobre a areia. As casas da primeira linha são simples espartanas e estão muitas vezes desgrenhadas pelos efeitos das maresias intensas, não há pretensões ou luxo, simplesmente amor ao mar e à praia e gosto pela vida simples. Há prédios e a arquitetura bela na minha praia foi a que a Natureza produziu, tudo o resto … mas ainda assim a amplitude, a marginal, os barcos da arte Xávega, as gentes da praia, de todo o ano ou os de todos os anos, dão-lhe uma irresistibilidade que enfeitiça o coração de alguns que não passam sem ela.

Nos dias de céu limpo ao lusco-fusco conseguem-se ver os dois faróis que abraçam a minha praia, a Norte o da Serra da Boa Viagem e a Sul o farol do Penedo da Saudade, há ainda a luz do Sol acabado de despedir-se e aqueles dois amigos a acompanhar-nos na noite que vem.

Na minha praia os dias de bandeira verde são celebrados como festas anuais, a bandeira verde tem sempre a cor em todo o seu esplendor, enquanto a bandeira vermelha costuma ter um tom rosado à força de muito uso por dias sem fim. O mar e o tempo são dados a humores intensos com temporadas de nevoeiro cerrado e frio mesmo em pleno Verão, mas nem nessas alturas a minha praia perde o magnetismo.

O silêncio que costuma reinar mesmo no Verão e o som das ondas do mar no Inverno escutadas no ninho dos lençóis são uma música que acalma e envolve num conforto amigo que não encontro noutros lugares.

A minha praia pertence-me desde menina e eu pertenço-lhe e vai continuar a ser sempre assim!

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 Texto escrito no âmbito do desafio 30 dias de escrita lançado pela Ana de Deus, e em que participam Ana de Deusbii yueJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioJosé da XãMaria Araújo  e eu.

 

 

03
Set21

Os lápis de cor vão Contar obras de Arte

Cristina Aveiro

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Desenho da Matilde ou da Maria há alguns anos!

É com entusiasmo que vou embarcar no novo desafio arte e inspiração da Fátima Bento. O desafio consiste em todas as semanas nos inspirarmos num quadro a ser divulgado semanalmente no blog "Porque eu posso", e na semana seguinte iremos fazer um texto alusivo em prosa, poesia ou o que nos ocorrer.

Todos estão convidados a participar!

02
Set21

O que se passa com o avô?

Cristina Aveiro

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Todos os dias o menino ia passar algum tempo na casa dos avós, tinha sido sempre assim desde que ele se lembrava. Gostava daquele lanche especial que a avó lhe preparava, das surpresas que lhe fazia, como pipocas doces, ou aquele refresco que ele nunca tinha provado noutro lugar. Havia também o jardim, o quintal com a horta, as galinhas, os patos, aquela liberdade de explorar, cair, sujar-se, limpar-se na torneira do quintal, tudo aquilo era um ninho de liberdade que lhe parecia do tamanho do mundo.

A avó era a rainha suprema de todos aqueles domínios, sabia sobre as plantas, os animais domésticos e tantos outros que por ali apareciam. Os pássaros eram aos montes, mas nem sempre a avó ficava contente com eles, quando era o tempo dos dióspiros, das nêsperas, das nozes, enfim dos frutos apetitosos lá andava a avó a cobrir as árvores com rede fina, ou a pendurar coisas brilhantes ou que fizessem barulho nas árvores, senão os marotos dos pássaros comiam a maior parte da fruta, ou então debicavam e depois a fruta estragava-se. O menino admirava-se porque sabia que a avó gostava de pássaros e achava que não fazia mal eles comeram também os frutos. Conversavam muitas vezes sobre o assunto, mas nunca chegavam a acordo e a avó continuava com as suas engenhocas. O menino pensava que quando tivesse um quintal seu ia deixar os pássaros comerem tudo o que quisessem.

Já mais ao fim do dia, quase ao anoitecer chegava o avô e o menino corria para ir ter com ele. Adorava quando conseguia chegar ao avô antes de ele sair do carro. Assim passava um bom bocado com o avô a explicar-lhe tudo sobre o carro, ou a ajeitar a bicicleta do menino, ou a verem coisas na bancada de trabalho e ferramentas do avô. Outras vezes o menino já encontrava o avô na sala e então ficava ali à conversa. O menino queria saber sobre como funcionavam as máquinas, porque havia a chuva e o vento, como tinham construído os castelos, de onde tinham vindo os bichos-da-seda, … aos poucos o menino ia descobrindo e alargando o seu mundo de criança. O avô sabia sobre muitas coisas, mas às vezes ia ver a livros ou perguntava à avó para responder. Explicava com paciência, atento ao neto e nunca se esquecia do que tinham conversado noutros dias.

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O avô chegava cansado do trabalho e às vezes agitado, mas assim que o neto aprecia tudo isso desaparecia e era como se um novo dia tivesse acabado de começar.

Depois o menino regressava a casa com os pais cansado, com as roupas sujas e com uma esfoladela no braço ou na perna, mas o banho levava todos esses pormenores. E chegava então o jantar e a hora dos mimos dos pais.

O tempo foi passando, o menino ia crescendo e continuava a ir todos os dias a casa dos avós. O avô começou a chegar mais cedo do trabalho, vinha ainda mais cansado do que antes e explicaram ao menino que o avô ia deixar de ir trabalhar porque já tinha muitos anos e ia passar a ter mais tempo livre. O menino ficou radiante! Agora tinha sempre o avô e a avó ao final do dia só para ele. Iam passear, de carro ou a pé, conversavam, tratavam do quintal e do jardim, nunca paravam de fazer coisas e de inventar coisas para descobrir.

Um dia o menino reparou que o avô não se lembrava de onde tinham ido no dia anterior, noutro dia o avô disse que tinha de ir fazer uma coisa que já tinha feito, noutro perguntou-lhe a mesma coisa três vezes e parecia nunca se recordar de ter perguntado antes. Aos poucos estas coisas estranhas começaram a acontecer cada vez mais. O menino ficou perturbado, o avô não parecia o avô.

O menino conversou com os pais sobre o que o preocupava, e disse-lhes que parecia que o avô estava doente. Os pais explicaram que já andavam há algum tempo para terem uma conversa importante sobre o avô, mas que tinham decidido esperar até que o menino notasse alguma mudança no avô.

O menino ficou a saber que o avô ao envelhecer estava a ter problemas com a memória e mesmo com a vontade de fazer coisas e divertir-se. Explicaram que estava a ser tratado pelos médicos, mas que o que era mais importante era que os que mais amava o ajudassem a continuar a descobrir o mundo como tinha feito antes. O avô não precisava que lhe dissessem que já tinha perguntado antes, ou que se aborrecessem por ele não se lembrar do que tinha combinado, ou de onde tinha posto alguma coisa. Afinal quando o menino era pequenino também perguntava a mesma coisa muitas vezes, queria que lhe voltassem a contar a mesma história vezes sem fim e ninguém se aborrecera com isso. Agora era o avô que precisava desse carinho.

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Os pais disseram que era muito importante contar coisas novas ao avô, jogar jogos com ele, passear sem ser sempre pelo mesmo caminho, fazer coisas diferentes e que agora o menino já mais crescido podia ajudar muito o avô a continuar ativo e a manter-se a descobrir o mundo e a ser feliz.

O menino, que já era um rapaz sentiu-se importante nesta sua missão de cuidar e retribuir ao avô o enorme carinho que tinha recebido dele ao longo da vida. Agora trazia amigos para se juntarem a ele na casa dos avós e juntos traziam vida à casa, enchiam-na de gargalhadas, pediam ao avô para contar histórias antigas, ajudavam a avó a fazer os lanches, cuidavam do jardim e do quintal. Um dos amigos tocava guitarra e passou a haver cantorias, descobriram que o avô também sabia tocar, a avó sabia muitas cantigas de outros tempos que todos foram aprendendo. Havia um ambiente de festa que enchia de sol e calor aquela casa grisalha.

O avô continuou a ser cada vez mais diferente do que tinha sido, mas o menino continuou sempre a voltar, a conversar, a jogar, a tocar, enfim a cuidar com muito amor de quem com tanto amor o tinha ajudado a crescer.

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21
Ago21

A Vida

Cristina Aveiro

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A Vida irrompe nos lugares mais improváveis e não há nada que o possa impedir. Das profundezas escaldantes do oceano junto a nascentes termais submarinas aos desertos áridos onde a Vida parece impossível aos gelos eternos das calotes polares nada detém a Vida e ela impõe-se em todos os lugares desta nossa Terra Azul.

Entre duas pedrinhas da calçada, entre blocos de pedras de um monumento secular a Vida irrompe como se tivesse encontrado as condições ideais para que acontecesse. Chega com garra, lutando pelo seu espaço, por pouco que seja, com excesso ou falta de água, com calor ou frio extremo a Vida encontra os seus caminhos e persiste resiliente com o seu único objetivo de perpetuar-se, vingar, povoar a nossa Terra Azul.

A Vida da gente é diferente da Vida em geral porque somos o ser mais estranho da Terra. Dependemos da Vida de todos os outros seres vivos, mas vemo-nos como os mais importantes de todos, os únicos que importam. Acreditamos que as nossas capacidades singulares nos conferem direitos sobre tudo o que demais existe e acreditamos de uma forma tonta e infantil que somos os que melhor podem escolher o destino para todos os demais. A Terra Azul está a mostrar-nos que não temos escolhido bem e que não temos estimado e protegido a nossa casa. Há mais gente a perceber que não estamos a respeitar a Vida, a nossa e a dos demais que compartilham a Terra Azul connosco! A Vida encontra sempre os seus caminhos, tenho Fé que se encarregará de ir ensinando ao Homem a sua pequenez e insignificância e que haverá que mudar de Vida para a Vida continuar aqui na casa que nos foi dada e que todos temos de respeitar e proteger.

 

 

 

Este texto foi escrito para celebrar o aniversário do blog Raios de Sol e a publicação do livro "Terra Azul" da nossa Célia!

20
Ago21

O filho do moleiro

Cristina Aveiro

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Foto: Diogo Margarido

Era uma vez um menino que quase tinha nascido no moinho de vento que era do seu pai e que antes tinha sido do seu avô. Já o seu bisavô era moleiro, mas tinha apenas um moinho de madeira. A arte dos ventos e das mós, o sentir o grão e a delicadeza da farinha acabada de moer entre os dedos calejados e rudes eram o seu berço e a maior riqueza da família.

O moinho era uma enorme máquina complexa e engenhosa, onde as madeiras preciosas do Brasil e de outros lugares, as pedras enormes e especiais dos casais de mós, as cordas grossas e finas de sisal, o ferro e o pano das velas funcionavam numa harmonia como uma orquestra. O moinho tocava várias músicas, a vários ritmos, nunca havia silêncio no moinho a menos que não houvesse vento.

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Foto: Domingos Alvão

O avô continuava a ajudar o pai no moinho, mas já não conseguia levar as sacas pesadas de grão de trigo para o sobrado onde estava o engenho de cima. Também já não conseguia levantar as mós para serem picadas quando já estavam lisas de tanto moer, nem tão pouco conseguia ter força para rodar o sarilho que fazia mover o “telhado” do moinho com o mastro, velas e tudo para apanhar melhor o vento quando ele mudava de direção. O menino acompanhava o avô nas suas tarefas porque todos tinham de ajudar e havia sempre grão para escolher e farinha caída da mó para espoeirar com o peneiro redondo e tirar o farelo, estar atento ao sino do catavento para avisar se o vento tinha mudado de direção, …

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Aguarela sobre Papel: Raquel Roque Gameiro

O menino gostava quando o vento estava valente e fazia rodar as mós a toda a velocidade. Ele nem sabia se gostava mais do casal de mós de cima, junto ao “telhado” que moíam o trigo ou do casal de mós que ficavam por baixo, no piso do meio, e que moíam o milho. Lá no topo via as serras em volta, o mastro a rodar movendo a entrosga, uma enorme roda de madeira com uma espécie de dentes, que encaixavam com perfeição no engenho e passavam o movimento ao veio que movia todas as mós.

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No piso do meio não havia tanta maquinaria, era mais calmo, era ali que gostava de dormir sobre as tábuas e era também onde comiam.

Sentia-se feliz por fazer parte de uma família de moleiros, viviam todos ao sabor do vento e tinham brio na sua arte. Na feira de São Pedro juntavam-se os moleiros todos daquelas serras, iam bem arranjados nos melhores trajes com os seus longos barretes pretos de borla na ponta. Aproveitavam para comprar os búzios de barro em forma de cabaça, que colocavam nas cordas para “cantarem” consoante o vento que fazia. Era também o lugar para comprar cordas, plainas, puas, serras e serrotes e demais apetrechos que eram precisos para manter aquele navio à vela que nunca saia do lugar. Que fique claro que ninguém chamava navio à vela aos moinhos, mas era assim que o menino os imaginava desde que na escola lhe tinham falado dos navegadores e das velas latinas. Talvez fosse por isso que gostava quando havia pouco vento e os moleiros tinham que usar “a roupa toda”, ou seja tinham que desenrolar todo o pano das velas, aqueles enormes triângulos brancos bem enfunados a rodar faziam os moinhos ainda mais majestosos e belos.

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Foto: Artur Pastor

No moinho havia sempre gatos para afugentar os ratos, havia o Faísca que dava sinal assim que algum burro ou carroça se aproximavam e, claro, havia o preto e a ruça, os burros do moleiro que nunca se cansavam de carregar o grão ou a farinha por aqueles montes fora.

O avô nunca se cansava de contar ao menino como tinha sido difícil construir aquele moinho de pedra, como o seu bisavô se preocupara por o filho erguer uma obra tão custosa. Falava-lhe de como tinha sido difícil trazer as setenta carradas de pedra para construir a torre, as mós, todas as madeiras para o enorme mastro, para a entrosga, para as varas, … O menino escutava sempre e não se cansava, havia sempre algo que ainda não tinha escutado antes e ele adorava entender como tudo aquilo fora feito e funcionava.

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O pai do menino esperava que o filho lhe seguisse a arte do vento mas o menino tinha outros sonhos, queria navegar pelo mundo, andar com as velas e a força do vento pelo mar fora e ver o que nunca tinha visto. O pai ficou sem palavras, ele nunca tinha saído da sua terra, nem nunca tinha pensado ser outra coisa que não moleiro, afinal tinha nascido e crescido ligado ao moinho, nem sabia se conseguiria viver longe dele. O menino insistiu e não desistiu do seu sonho, partiu e tornou-se marinheiro.

A vida no mar encantava-o, conhecer outras paragens, outras gentes, outros cheiros, outros modos de viver. Nas terras onde ia prestava sempre atenção aos moinhos. Nunca tinha imaginado que houvesse tantos e tão diferentes. Nunca imaginara tão pouco que houvesse moinhos de vento que serviam para tirar água dos canais, para serrar madeiras, … Havia moinhos quase de todas as formas e cores, continuavam a fasciná-lo.

Gostava dos sons do navio, da madeira, das cordas, das velas e dos ventos. Ficou com a pele curtida do sol e do mar e as suas mãos agora já eram calejadas e grossas como as do seu pai. Passados muitos anos no mar voltou à sua terra natal, ao seu moinho. Nunca poderia ter imaginado como tudo estava diferente. Imaginava que tudo estaria como quando tinha partido. Esquecera-se que todos, tal como ele tinham envelhecido e que muitos já tinham partido para sempre. A maior parte dos moinhos estava ao abandono. Muitas pessoas tinham partido para as cidades e havia máquinas que moíam o trigo e o milho sem usar o vento. Aos poucos os moleiros envelhecidos tinham deixado a sua arte e muitos dos seus filhos tinham procurado outros trabalhos para poderem viver.

O filho do moleiro sentiu uma enorme dor no coração por ver aquelas máquinas fascinantes paradas e ao abandono. Viu moinhos que já tinham morrido pela força da chuva e do vento e por não terem quem cuidasse deles. Nunca tinha imaginado sentir este amor aos gigantes de braços erguidos ao céu. Tinha amor aos navios, às velas e à vida errante pelo mundo, mas não podia saber que o seu amor aos moinhos tinha o mesmo tamanho.

Estava numa encruzilhada da vida. Queria voltar ao mar e às velas errantes, mas também queria ficar e cuidar das velas ancoradas na serra. Enquanto pensava e repensava na vida deixava-se embalar pelos sons do moinho.

 

Para aprender mais sobre moinhos de vento:

Grupo Moinhos de Portugal

 

17
Ago21

O Ladrão de Sombras

Ainda o desafio da Fátima Bento - "Porque eu Posso!"

Cristina Aveiro

Desafio porque eu posso-O Ladrao de Sombras.jpg

Costumava ter receio de desafios e neste Sapal passei a apreciá-los e a ser grata por existirem. Em Março recebi o livro da foto, enviado pela Fátima Bento como comemoração dos 7 anos do Porque eu Posso. Adorei o desafio de refletir sobre o que posso fazer exatamente porque posso e ajudou-me a encontrar trilhos para desbravar e desafiar-me.

O livro que recebi mostra bem a delicadeza da Fátima na escolha que fez. Só na pausa de Verão pude ler "O Ladrão de Sombras". Tocou-me muito, recordou-me o que tantas vezes repetimos, que os filhos não são nossos, apenas nos são emprestados, mas encontrei uma forma de exprimir o que sinto sobre esta aventura suprema de ser mãe: os filhos não são nossos, mas nós somos dos filhos, para sempre e constantemente! 

É um livro muito abrangente no que diz respeito aos desafios que a Vida nos pode trazer. Gostei muito e estou grata à Fátima.

 

 

 

 

 

 

 

 

05
Ago21

O Camaleão da Praia

Cristina Aveiro

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Foto: Carla Eira

Era uma vez um jovem camaleão que tinha nascido há um ano nas dunas duma pequena ilha de areia entre o mar e a Ria Formosa. Estava feliz por finalmente ser adulto e poder exibir uma belíssima cor verde luminosa com um padrão de manchas e listas pretas que eram o seu orgulho, sentia-se confiante na sua beleza porque ainda há poucos dias se encontrara com um camaleão mais velho que ficara imediatamente amarelo, mostrando que não admitia outro macho adulto naquela zona. Tinha agora a certeza que ia encontrar uma linda “camaleõa” bem verdinha que iria querer começar uma nova família com ele. As “camaleõas” não tinham listas ou manchas pretas, tinham a pele de um verde muito luminoso, com algumas zonas um pouco mais claras e eram muito graciosas no seu andar vagaroso, elegante e tranquilo.

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Foto: Benny Trap

O camaleão enquanto crescera tivera de mudar de pele várias vezes porque a sua pele não esticava e à medida que crescia ia deixando a pele pequena e criando uma nova cada vez mais bonita.

Um dia estava ele bem agarrado a uma dittrichia viscosa, que é uma planta das dunas com florinhas amarelas pequeninas e que tem um cheiro forte, quando a avistou. Oh como ela era linda! Primeiro vira-a com um olho, depois virou-se e ficou a vê-la com os dois olhos. Que porte, que beleza, como desfilava sobre o muro caiado! Tudo nela era perfeito, os seus pezinhos com os três dedinhos para fora e os dois para dentro, as suas lindas mãozinhas com os dois dedos para fora e os três para dentro, as suas unhas jovens e delicadas… A forma elegante com elevava a cauda ao caminhar! Até a sua boca era perfeita, parecia estar a sorrir, mesmo estando fechada.

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Foto: Teresa Dias

Tratou de começar o longo caminho até ao muro caiado para que ela o visse, lutava contra o seu corpo vagaroso, como queria correr para chegar logo ao pé dela, mas ele não era uma lagartixa, nem um caranguejo para poder correr sempre que tivesse vontade. Diligentemente lá foi indo com o seu andar cadenciado em câmara lenta, foi avançando aos poucos até que ficou num pedaço de areia sem vegetação e ficou totalmente à vista, embora ainda estivesse muito afastado do muro. Ele tinha quase a certeza de que ela já apontara um olho na sua direção. Fica ainda com mais vontade de chegar depressa junto da bela “camaleõa”. Olhou à sua volta e ao olhar para o lado do mar, viu o caminho de tábuas onde as pessoas andam na praia junto às dunas. Decidiu arriscar e ir por ali até ao muro caiado. Era um caminho mais curto mas mais perigoso, ia estar mais exposto e tinha medo que as pessoas o pisassem, mas por ela tudo valia a pena, queria conhecê-la rapidamente.

Ia a meio do caminho de tábuas quando tudo aconteceu muito depressa. Um rapaz, cheio de sacos com mil coisas coloridas para brincar na praia, viu-o lá bem ao longe e desatou a correr. O rapaz tropeçou e espalhou as suas bugigangas pelo estrado e pela areia, mas levantou-se e continuou de novo a correr. O camaleão percebeu o que ia acontecer e bem tentou apressar-se mais e voltar às ervas da duna para se proteger, mas a lentidão dele e a rapidez do rapaz levaram ao inevitável encontro. Primeiro o rapaz observou-o com curiosidade e medo (ufa, ainda bem pensou o camaleão!). O rapaz começou a pensar que era um animal pré-histórico que ali aparecera como por magia! Aos poucos o rapaz começou a esticar a mão e tocou-lhe. O camaleão tentou mostrar-se mais assustador, mas o rapaz parecia ter perdido o medo e … agarrou-o e levou-o para mostrar aos pais e à irmã.

O camaleão estava aterrorizado, olhava para todos os lados, tentava não perder de vista a bela “camaleõa” do muro caiado, mas nem consegui focar os olhos em nada de tão depressa que iam. Estava cheio de medo, nunca andara não mão de ninguém, nunca andara àquela velocidade alucinante, ia cair, ia ser esmagado por aquela mão enorme!

Assim que o rapaz parou para o mostrar à família a irmã do rapaz desatou a gritar e a fugir sem parar. Parecia-lhe que um dos dinossauros de brincar do irmão tinha ganho vida, era pequeno, mas ainda assim muito assustador. Os pais do rapaz explicaram-lhe que era um camaleão jovem e que ele não o devia ter trazido. Disseram também que este animal e os restantes devem ser deixados a viver a sua vida, podemos ficar a vê-los, mas não os devemos perturbar. Disseram que só devemos ajudá-los quando eles correm perigo, como era na passadeira da praia, mas não devemos tocar-lhes, devemos usar um ramo de uma planta ou outro objeto e depois devemos devolvê-los à duna, sobre uma planta, de preferência em plantas com flores para terem muito alimento.

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Foto: Markus Luske

O rapaz ficou triste, ele não tinha querido fazer mal ao camaleão, estava apenas contente e fascinado! Foi então até ao local onde o apanhara e pousou-o delicadamente num pequeno arbusto da duna com flores amarelas, tal como lhe tinham dito, ali o camaleão iria poder comer os muitos insetos que pousavam nas flores e iria recuperar do susto rapidamente.

O pequeno camaleão agarrou-se firmemente com as patitas a um ramo, enrolou a sua cauda bem enroladinha à volta do ramo para não cair e ficar bem camuflado. Ia ter de descansar por umas horas. Ali sentia-se seguro como quando estava dentro do ovo na toca que a sua mãe escavara antes de ele nascer.

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Foto: Benny Trap

Precisava de retemperar as forças, não podia ainda dar-se ao luxo de ir continuar a tentar ser visto pela sua bela “camaleõa”. O camaleão só esperava que ela não se afastasse muito do muro caiado.

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