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Contos por contar

Contos por contar

16
Jul21

O piano e a baleia

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma ilha onde nasciam os pianos mais perfeitos e belos do mundo. Os pianos eram feitos com madeira de abeto, estrutura e cordas de metal e milhares de peças que funcionavam harmoniosamente entre si com a precisão de uma orquestra.

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Um dia chegou à ilha das cerejeiras em flor, onde nasciam os pianos, um pedido para que nascesse um piano de cauda especial, com as melhores madeiras e criado pelos melhores artesãos da ilha. E foi assim que na ilha das cerejeiras em flor nasceu o belíssimo piano de cauda a que chamaram Sakura. Era magnífico, os seus sons, a sua música, encantavam todos os que a escutavam, parecia mágico.

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Do outro lado do mundo, numa pequena ilha verde, todos esperavam ansiosamente a chegada do piano. A vinda do piano de cauda para a ilha era um sonho antigo, que tinha sido muito difícil de alcançar. Tudo começara com um rapaz pequeno que estudava piano com uma professora idosa no seu pequeno piano antigo. Dizia-se que ela tinha sido uma pianista famosa que viera viver na pequena ilha verde para poder sentir a sua paz e para estar sempre a ver o mar. O menino aprendia tudo velozmente, treinava e estudava sem nunca se cansar. A professora cedo percebeu o talento enorme que o menino tinha e nunca se cansava de o ensinar, de o desafiar, enfim de o conduzir para ir sempre mais longe na sua música.

Na pequena ilha verde todos foram ficando a saber do talento do menino e iam em grupos para o jardim da pequena casa branca escutar o menino e a sua música. Cada vez havia mais pessoas a ir sentir o encanto da música e o jardim foi ficando pequeno para todos. Começaram então a sonhar com uma grande sala com paredes de vidro viradas para o mar e com um piano de cauda como os das melhores salas de concertos do mundo. Se bem sonharam, melhor fizeram e juntando esforços ao longo de anos conseguiram pedir para que nascesse Sakura na ilha onde nasciam os pianos.

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Finalmente tudo estava preparado na ilha verde e a longa viagem de Sakura, pelo oceano já começara. Os dias passavam devagar na ilha verde, onde as vacas vagarosamente pastavam livres e felizes nos campos a ver o mar, onde os ilhéus percorriam as estradas sempre contornadas de hortênsias azuis com uma calma e tranquilidade especial que existia em muito poucos lugares do mundo.

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A bordo do navio, Sakura, o belo piano de cauda, sentia angústia por ter deixado a ilha onde tinha nascido e sentia desconforto com o frio e a humidade do ar. Quando o navio balançava ficava mais tranquilo e até conseguia sentir alguma música naquele ondular. Ao fim de muitos, muitos dias no mar, Sakura começou a ver ao longe o que lhe parecia ser umas ilhas. Havia também outros barcos, mas o que lhe prendeu toda a sua atenção foi um som forte, único, era uma canção, mas não era cantada por pessoas. O som era grave e forte, parecia triste e fazia-o sentir um friozinho na barriga, parecia que o estavam a chamar.

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Tentou perceber de onde vinha aquele som mágico e percebeu que vinha do mar. Ao longe, ao lado do navio ele viu de onde vinha o som. Oh! Como era bela! Era cinzenta, quase preta, enorme, erguia-se sobre as águas e voltava a cair no mar deixando apenas à vista a sua belíssima e singular cauda. Ele nunca vira tanta beleza, abaixo da enorme boca sorridente ela tinha o que pareciam ser teclas que se afastavam quando a boca estava cheia de água. Ouviu os marinheiros dizerem que era uma baleia. Nunca tinha visto nada tão belo, como gostaria de ter alguém que o tocasse e juntasse a sua música à maravilhosa canção da baleia. Será que ela algum dia iria escutar a sua música? Será que ela poderia sequer prestar-lhe atenção?

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No céu uma andorinha preta e branca que voava por aquelas paragens sentiu a emoção que a canção da baleia despertava no enorme piano de cauda que viajava no barco. A andorinha até conseguia sentir a música que o piano deixar sair das suas entranhas para acompanhar a melodiosa canção da baleia. Havia no ar tanta música que a andorinha deu por si a acompanhar com o seu canto aqueles dois seres enormes, vestidos de negro, com enormes sorrisos e cheios de música por dentro. Só a andorinha é que pôde ver aquele encontro mágico entre a enorme baleia e o imponente piano de cauda que acabava de chegar ao porto da ilha.

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Com a chegada ao porto, foi um nunca mais acabar de manobras e transportes até que finalmente colocaram o majestoso piano de cauda na sala de concertos virado para o mar. Chegou então o momento que todos pacientemente tinham aguardado, o menino sentou-se ao piano e começou a tocar. A magia das mãos do menino nas teclas do piano e a perfeição e imponência dos sons do Sakura foram avassaladoras, a música encheu a sala, abriram as janelas viradas para o mar e jorrou música como se fosse a lava de um imparável vulcão. Tudo parou na ilha, não havia qualquer outro som que não o do piano e ao longe, muito longe podia escutar-se o som da baleia que cantava com toda a alma parecendo chamar Sakura para junto de si.

Desde esse dia e durante muitos anos sempre que o piano de cauda da ilha verde era tocado via-se a baleia bater a sua cauda no mar e escutava-se o seu canto grave e profundo.

No mar cada vez mais baleias, golfinhos e todo o tipo de criaturas marinhas iam vindo até à baía próxima da sala de concertos onde Sakura, o magnifico piano de cauda apaixonado era tocado. As pessoas vinham de todas as paragens para sentir a música e ver as mais variadas criaturas do mar concentradas na baía enquanto durava a música. No meio de todos brilhava sempre a baleia que ele tinha visto quando tinha chegado à ilha verde e pela qual era profundamente apaixonado, era ela que fazia o canto mais admirável e apaixonado e que no dueto único com o seu amado atraia os seres humanos e os seres marinhos.

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10
Jul21

O menino que vivia no retângulo

Cristina Aveiro

 

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Era uma vez um menino que vivia num pequeno país que tinha a forma de um retângulo. Não se pense que era um país de matemáticos ou dado ao estudo sobre geometria, apenas aconteceu que com o tempo foi ficando com a forma de retângulo e os seus habitantes tinham muito orgulho na sua forma tão perfeita. Os habitantes do país tinham também muito orgulho por terem dois lados do retângulo virados para o mar. Havia o mar do lado pequeno e o mar do lado grande.

O menino vivia juntinho ao mar do lado pequeno. Nesse lado, mais a Sul, era raro fazer frio e no verão o calor apertava, mesmo à noite reinava a brisa morna e doce que parecia abraçar as pessoas. O menino tinha nascido naquele lado, e tinha ali crescido, toda a sua família vivera sempre naquele pequeno lado sul do retângulo. Os pais, os tios, primos e avós viviam do mar e do que a terra vermelha e fértil dava. Havia naquelas paragens figueiras, amendoeiras, alfarrobeiras, laranjeiras com laranjas doces como o mel e muitas hortas mais delicadas junto aos rios do barrocal.

O mar era o que mais atraia o menino. Gostava de ir com os tios nos seus barcos à pesca durante a noite com toda aquela agitação, algum friozinho na barriga que o mar sempre trazia e aquele cheiro especial que se vivia no barco.

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Adorava ir com os mariscadores para a ria que havia entre a terra e o mar, cheia de pequenas ilhas que pareciam canteiros num jardim feito de água pachorrenta. Aquele lugar era tão belo que até chamavam Formosa à Ria. O menino ia apanhar ameijoas, conquilhas, berbigões, lingueirões e outras delícias que trazia quando voltava para casa com o seu quinhão. Quando a mãe ia buscar a velha frigideira larga e desenhava a linha fina com o azeite, decorava com os cubinhos de alhos branco entre as linhas e levava ao lume forte começava a magia dos aromas. Depois era escutar aquele som inconfundível das cascas a baterem no metal e do azeite quente a resmungar por ser arrefecido e as conchinhas pouco a pouco a fazer aquele blac quando abriam. Nesta altura já a mãe tinha deitado carinhosamente uns pés de coentros do quintal para colorir e perfumar aquela verdadeira obra de arte que tocava todos os sentidos. Tudo eram perfumes inebriantes, desde o lavar das conhas que cheiravam a mar, ao doce cheiro morno do azeite a embalar os cubos do alho, à fusão de aromas perfeita quando chegavam as conchas e os coentros à frigideira sábia.

O menino vivia uma vida simples cheia de sol, mar e terra quente e vermelha. Na escola aprendia sobre o mundo, onde lhe afiançavam que havia países que não eram retângulos e que não se conhecia outro com uma geometria tão perfeita como o seu. Não pensem que o menino sonhava visitar e conhecer esses países de formas irregulares de outras geografias. O grande sonho do menino era conhecer todo o mar do lado grande do retângulo. Ia falando do seu sonho a todos e um dia levaram-no até a um lugar que ficava a meio do lado do mar do lado grande.

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O menino ficou fascinado e ao mesmo tempo perturbado. Aquele mar reinava sobre a terra, tinha um cheiro tão forte a maresia que parecia que o seu mar nem tinha cheiro. Aquele cheiro a maresia quase lhe trazia à boca o sabor do mar. As ondas deste mar não eram doces e vagarosas como as que conhecia. As ondas do mar do lado grande eram altas, cheias de espuma branca e impunham a sua voz bem alto dominando os sons da praia. Aquele mar não tinha o azul do seu, era de um azul mais cinzento, mais turvo e revolto e fazia a areia andar num desassossego veloz de trás para a frente e da frente para trás.

No regresso a casa o menino tinha a cabeça cheia com tantas coisas novas que tinha visto, estava muito feliz. Pensava como é que os dois mares podiam ser tão diferentes, o mar do lado grande nos seus modos mais bruscos e com toda a sua força lembrava-lhe um homem enorme, quase temível, mas ao mesmo tempo belo e fascinante. O seu mar, com a beleza da cor e da tranquilidade, os modos suaves e a graciosidade lembravam-lhe uma mulher carinhosa e tranquila quase tão doce como a sua mãe. O menino decidiu que quando fosse grande ia fazer uma lei em que o mar do lado pequeno passaria a ser “a mar” e que o mar do lado grande se continuaria a chamar “o mar”.

Quando em casa falou destas ideias sobre os dois mares um dos seus tios disse-lhe que havia países em que o mar era sempre tratado como “a mar” porque o mar é fonte de vida tal como todas as mães. O menino ficou feliz porque havia noutros lugares quem pensasse como ele. Desde esse dia o menino passou a olhar para o seu mar do lado pequeno e a pensar nele como “a mar”.

 

 

 

 

 

04
Jul21

A menina dos brincos-de-princesa

Cristina Aveiro

 

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Era uma vez uma menina pequenina que adorava brincar às princesas e de se vestir com roupas brilhantes e coloridas e passear pelo seu reino com as amigas num mundo de brincadeiras sem fim. No seu reino não havia tempo e todos podiam fazer o que queriam enquanto quisessem, sem ter de ir para aqui e para ali, fazer isto e mais aquilo.

O reino da menina era o reino de brincar, de fazer o que se gosta até cansar e só então ir fazer outra coisa. Era um reino tranquilo, com gargalhadas, enganos e trapalhadas, onde se podia mais tarde tudo esclarecer e voltar a resolver porque nunca havia pressa. A princesa e as amigas enganavam-se muitas vezes a fazer as coisas que queriam, mas depois voltavam com calma a tentar, e tentar até conseguir alcançar o que tinham desejado e sonhado.

Um dia as meninas princesas do reino disseram aos reis que queriam muito ir passar tempo no campo, deixar o seu palácio e ir para o campo, para o jardim, para a floresta explorar, ver, cheirar e sentir o mundo mais verdadeiro e vivo do que o que se vivia no palácio.

Os reis pensaram e conversaram e finalmente lá decidiram que no sábado à tarde as princesas iam poder visitar os domínios da rainha-mãe, que era afinal a avó da princesa.

Oh, como ficaram felizes as princesas! Que mil planos fizeram! Como iam correr pelos campos de papoilas, perder-se no jardim das camélias, procurar os pássaros azuis que voavam sobre o rio bordejado de canas e velhas árvores preguiçosas. Um dos sonhos das princesas era encontrar um ninho e ver os ovos ou os passarinhos pequenos. A princesa conhecia um rapaz que vivia numa aldeia junto aos domínios da rainha-mãe que sabia tudo sobre pássaros, coelhos, ervas e segredos da floresta. Se ele estivesse por lá no sábado à tarde tinha a certeza de que iam ver coisas novas que nunca tinham visto e era isso que as princesas mais queriam.

E finalmente chegou o sábado à tarde e lá foram as princesas, a rainha-mãe estava radiante com a visita, tinha preparado um banquete com bolos, morangos, cerejas, bolachas de mel e todas as delícias que se podiam encontrar nos seus domínios. Foi um não acabar de conversas e gargalhadas até que as princesas pediram permissão para irem até ao seu reino de brincar. A rainha-mãe concedeu que se ausentassem e sugeriu que fossem até ao jardim e procurassem os brincos-de-princesa para ver quais os que ficavam melhor a cada uma. Disse ainda que as cerejas também davam belos brincos de princesa, e que podiam também experimentar.

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As princesas foram até ao jardim e estavam contentes porque adoravam enfeitar-se com brincos, colares e mesmo coroas. No jardim começaram a procurar os brincos, mas não encontraram nada. Havia flores, arbustos, árvores, mas não encontraram brincos. Começaram então a fazer coroas com flores para enfeitarem as suas cabeças reais e adoraram o cheirinho doce que as coroas libertavam. Depois treparam à cerejeira e apanharam cerejas enormes e bem vermelhas que deixavam a boca toda pintada. Começaram então a experimentar usar as cerejas aos pares penduradas nas orelhas como brincos e sentiram-se mais belas do que com quaisquer outros brincos que já tinham usado. Estavam a divertir-se imenso, mas ainda não tinham encontrado os brincos de que a rainha-mãe falara.

Estavam as princesas a procurar os brincos quando chegou o rapaz da aldeia ao jardim. A rainha-mãe tinha-o convidado para vir para o reino de brincar. O rapaz riu-se e disse que o difícil era escolher quais os brincos que ficavam melhor a cada princesa, encontrá-los era a coisa mais fácil do mundo, afinal elas estavam rodeadas por eles. A princesas nem estavam a acreditar, como podiam estar rodeadas de brincos e nem os ver?!

O rapaz disse, com a sabedoria de quem vive na natureza, que podemos olhar e não ver, para ver é preciso saber e conhecer. As princesas estavam cada vez mais intrigadas e ele começou a mostrar-lhes os brincos-de-princesa brancos, os rosa-claro, rosa-escuro, lilás, violeta, grandes, pequenos, singelos, dobrados, enfim uma variedade enorme que havia no jardim da rainha-mãe.

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As princesas começaram a experimentar nas suas orelhinhas pequenas e estavam encantadas, não era fácil escolher os que mais gostavam. Depois de encontrarem os brincos certos para cada uma, colocaram as suas coroas de flores e foram mostrar à rainha-mãe as suas joias belas e preciosas. O rapaz estava divertido com toda aquele entusiasmo das princesas pelos brincos e coroas, enfim, coisas de meninas! Ele estava era cheio de vontade de ir ver como estava o ninho que tinha encontrado na pereira junto ao riacho e tinha esperança que elas também quisessem ir ver.

Quando o rapaz disse que queria ir atá ao riacho ver um ninho, as princesas disseram logo que queriam ir, deixaram para trás as suas joias e lá foram todos juntos a correr pelos campos fora.

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Assim que se aproximaram da pereira, ele disse que não podiam fazer barulho, que tinham que esperar e ver se os pais do ninho não estavam lá. Se estivessem podiam ficar assustados e abandonar o ninho e isso não podia acontecer. As princesas e o rapaz ficaram escondidos atrás de umas ervas altas a observar o sítio que ele lhes mostrava ao longe, onde estava o ninho. Primeiro elas olhavam, mas não viam nada, depois com as explicações dele e com mais atenção lá viram o ninho castanho, bem redondinho encaixado numa bifurcação de ramos. Esperaram bastante até terem a certeza de que não estavam lá os pais e foram até lá ver. As princesas ficaram espantadas com a perfeição da cama redonda, acolchoada com palhinhas finas e delicadas e com os lindos ovos pequeninos azuis sarapintados. O rapaz disse que eram ovos de melro e que tinham de ir embora porque os pais podiam regressar ao ninho.

Ficaram ainda a ver ao longe, escondidos, até que o melro voltou para o ninho e se aninhou lá tão bem que quase não se via.

O sol estava a começar a esconder-se e tiveram de regressar a casa da rainha-mãe. Os reis chegaram para levar as meninas de volta ao palácio na cidade. Na viagem de regresso as meninas, todas engalanadas com as suas coroas de flores e com os seus brincos-de-princesa foram dizendo aos reis que quando crescessem não queriam viver no palácio, queriam ir viver para o campo porque lá o reino sem tempo era mais real e mais perfeito e tudo era mais verdadeiro e livre.

Os reis trocaram olhares e sorriram, eles compreendiam bem o que a sua bela princesa dizia. No futuro tinham que voltar todos e passar mais tempo no campo onde todos viviam mais genuinamente.

 

 

Hoje muitas crianças não têm tempo para gastar a brincar como bem lhes apetecer, sem atividades e mil tarefas, falta-lhes tempo de exploração livre do mundo, em especial da natureza. Este reino sem tempo, ou reino de brincar é um reino onde as temos de deixar ir mais vezes, sujarem-se, molharem-se, cheirarem as ervas, magoarem-se às vezes, ... Isso é que é ser criança de verdade!

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