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Contos por contar

Contos por contar

28
Mar21

O teu olhar

Cristina Aveiro

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Há 24 anos era sexta-feira Santa

Chegaste depois da espera habitual

Sentia que já te conhecia

No tempo da espera comecei a aprender-te

Mal podia esperar para levantar o resto do véu

Mal podia esperar para te comtemplar completa

E quando te vi pela primeira vez

Quando nos olhamos nos olhos

Quando senti o teu olhar de azul profundo

Atento, demorado, só meu

O mundo parou, não houve tempo

Naquele momento estava todo o tempo

Naquele momento não havia tempo

Aquele momento ficou para sempre

Guardei tudo

O teu olhar, o teu cheiro, o teu rosto

O teu corpo, todo o teu ser

Nesse momento passei definitivamente a

Estar incompleta no meu corpo

Mas nesse momento passei a ser maior

Nesse momento tudo mudou para sempre.

27
Mar21

Vamos ajudar

Cristina Aveiro

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Era uma vez um menino que era traquinas, sempre pronto para a brincadeira, corridas e que adorava aprender sobre tudo o que estava à sua volta. Tanto gostava de saber algumas coisas que os professores ensinavam, como gostava de saber como as outras senhoras da escola faziam os seus trabalhos, como a cozinheira tratava de fazer a comida para toda a gente na escola, ou como o senhor que consertava tudo o que não funcionava arranjava as coisas. O menino também gostava de aprender com os outros rapazes lá da escola. Interessavam-no as coisas que os mais velhos faziam, em especial os que faziam coisas diferentes e de que os adultos não gostavam. Bem cedo aprendeu a subir para o telhado do pavilhão com os mais velhos, que se esgueiravam trepando a caleira controlando quem estava a tomar conta do recreio, ou fazendo e dizendo disparates na aula para que o pusessem de castigo fora da sala e assim pudesse andar a explorar todos os cantos do enorme jardim e campos da escola sem o incomodarem.

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Tinham ficado fascinado quando um dos seus amigos crescidos tinha sido mandado de castigo para a biblioteca fazer um trabalho e fazendo de conta que estava a procurar livros, tinha passado todo o tempo a trocar os livros de lugar nas prateleiras religiosamente ordenadas com os seus número e códigos. No final o seu amigo tinha ido embora como se nada tivesse acontecido. Claro que a bibliotecária quando viu a revolução e caos que por ali havia ficou totalmente transtornada, parece até que teve um chilique e teve de ser socorrida. O menino admirava a coragem e imaginação do amigo, mas nunca seria capaz de fazer uma coisa assim, ele gostava de arriscar e até às vezes arreliar um pouco, mas não gostava de magoar as pessoas e quando fazia asneiras, desobedecia ou arreliava os adultos, assumia sempre o que tinha feito, abria a sua cara morena num sorriso largo e prontamente pedia desculpa e tinha uma atitude respeitosa. Muitas vezes quando conversavam com ele e lhe pediam que não fizesse aquelas coisas e prometesse não repetir, ele com um olhar meio triste dizia que não podia prometer porque não ia conseguir cumprir.

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Desde muito cedo o menino se habituara a ter de cuidar de muitas coisas suas e do casebre imundo onde viviam e a que chamavam casa. A sua família era diferente da dos seus amigos, sabia que tinha um pai, mas nunca o tinha visto. Vivia com a mãe e com dois cães que guardavam a entrada do pátio da casa miserável. A mãe tinha muitas dificuldades de todo o tipo, não tinha um trabalho certo, ia trabalhando aqui e ali, cultivava algumas coisas num terreno ali perto, tinham meia dúzia de galinhas e pouco mais acontecia. Nunca corria muito bem o que a mãe fazia, parecia que estava sempre na Lua, esquecia-se de regar, ou de ir para o trabalho que tinha dito que ia fazer, não reparava que a casa estava suja e não a limpava ou arrumava e tudo isto tornava a vida do menino difícil. Como viviam numa aldeia e todos se conheciam, havia sempre alguém que ia ajudando, com comida, com roupas para o menino, com uma mobília que tornasse a casa menos desconfortável e até gostariam de fazer mais, como limpar ou organizar melhor as coisas, mas a mãe do menino não autorizava porque aos olhos dela as coisas estavam como deviam estar. As pessoas da aldeia também continuavam sempre a oferecer à mãe pequenos trabalhos para ela poder ir fazer e ganhar o suficiente para viver. Sabiam que muitas vezes a mãe não conseguia fazer um trabalho como devia ser, mas preferiam pagar-lhe pelo que ela conseguia fazer do que simplesmente dar-lhe dinheiro para ajudar.

Como o menino era muito, mas muito inteligente, pronto para participar em projetos práticos e tinha aquela atitude natural de cavalheiro de sorriso do coração todos o conheciam e gostavam muito dele. Na escola conheciam as dificuldades da sua família e tentaram sempre dar-lhe o que lhe pudesse faltar no seu berço, desde coisas a afetos, conversas, conselhos e um enorme carinho. O menino sentia-se feliz e acompanhado na aldeia como na escola.

Um dia os professores estavam a organizar uma campanha de recolha de alimentos para ajudar famílias com mais necessidades e pediram a todos os alunos que pudessem para trazer de casa um alimento que não se estragasse para a recolha. Nas aulas conversaram sobre as dificuldades de algumas famílias e tinham decidido: - Vamos ajudar! Os meninos levaram até um papel para casa para darem aos pais e falarem sobre o assunto.

O menino guardou o papel para si pois a sua mãe não sabia ler e ele nem tão pouco ia falar com ela sobre a campanha. Tratou de ir ao seu mealheiro onde guardava as moedas que lhe davam quando ajudava a fazer algum pequeno trabalho aos seus vizinhos e foi à mercearia da aldeia comprar um pacote de farinha. No dia seguinte levou-o para a escola e entregou à professora. Tinha sido o único menino a trazer o alimento e notou que a professora tinha ficado estranha quando ele lhe tinha entregado a farinha. O menino perguntou então, preocupado, se não era para trazer já e a professora sossegou-o e disse que sim que ele tinha feito muito bem e que agradecia.

Logo a seguir a professora disse que tinha que ir buscar giz e saiu rapidamente da sala. Assim que os alunos já não a podiam ver as lágrimas teimosas desceram pela cara abaixo. Como é que podia ser tão verdade o que sempre tinha ouvido “quem menos tem é quem mais dá a quem precisa”.

 

 

24
Mar21

Hoje vamos à maré, quem quer vir?

#10 - Verde Claro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez um bando de primos que adorava estar na praia com a tia Amélia, que não tinha filhos e vivia numa casa só para ela. Aquela praia aninhada no Pinhal de Leiria tinha poucas casas, era ventosa e o mar estava bravo a maior parte do tempo, mas a criançada adorava estar lá. Havia dias em que iam fazer passeios e explorar o pinhal e havia sempre jogos e coisas para fazer, coisas simples como apanhar pinhas a ver quem consegui ter mais, procurar o lugar mais escondido no meio dos medronheiros altos e densos, subir a colina onde estava o posto de vigia dos fogos e ver se os deixavam subir. Nunca se cansavam de inventar coisas para fazer e a tia escutava aquelas vontades todas de gente pequenina e ia combinando, aceitando e rejeitando projetos conseguindo que o bando aceitasse as escolhas finais que eram da tia. A tia era mais fácil de convencer a fazer coisas diferentes do que os pais deles. Havia coisas que só podiam fazer sendo muitos e mesmo as ideias que iam tendo para brincar e fazer eram mais e melhores por estarem naquele lugar e por estarem todos juntos. Quando planeavam o que queria fazer falavam muito, às vezes discutirem de forma acalorada qual era a melhor coisa que podiam fazer no dia seguinte, mas isso só tornava tudo mais divertido.

Um dia de manhã bem cedo a tia disse: - Hoje vamos à maré, quem quer vir?

A criançada ficou logo a dizer que sim com entusiasmo. Alguns não sabiam o que era ir à maré, mas queriam ir na mesma. Todos sabiam que havia a maré cheia e a maré vazia, no fundo o mar encolhia e esticava todos os dias sempre ao mesmo ritmo. Eles preferiam quando a maré estava vazia porque podiam aventurar-se um pouco mais na água. Na maré cheia, mesmo nos raros dias de bandeira verde, apenas podiam molhar os pés porque o mar ainda que manso era grande, com ondas suaves mas muito gordas e ficava fundo, não era para gente pequena.

Vamo-nos despachar a vestir e tomar o pequeno-almoço, depois, cada um agarra no seu balde de praia e leva-o consigo e a tia leva o resto das coisas. No caminho da praia foram para a zona das rochas que estavam descobertas porque a maré estava bem vazia. Estava tão vazia que até se conseguia passar até à outra praia mais a Sul. Os miúdos estavam encantados com o que iam vendo. A tia explicou que iam apanhar os mariscos das rochas, mostrou-lhes os burriés, lapas, os mexilhões, percebes e todos podiam procurar outras coisas que lhes parecessem boas para apanhar. A tia disse que depois daquela pescaria iam fazer um enorme petisco e comer o que apanhassem. Algumas crianças fixaram-se em apanhar os burriés ficando fascinadas com a quantidade de cores que tinham, desde preto, castanho, riscados de branco, … Outras tentavam apanhar os percebes, era uma tarefa mais difícil, os maiores percebes cresciam nas fendas entre duas rochas ou então nas zonas mais baixas, virados de “cabeça” para baixo. Um dos primos ia saltitando de rocha em rocha, apanhando um pouco de tudo o que encontrava.

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Para apanhar as lapas era preciso a ajuda da tia porque tinham de usar uma navalha para as descolar da rocha. Afinal não é à toa que se diz “agarrado como uma lapa”.

Quando a maré começou a subir e todos já estavam a ficar cansados a tia disse que era hora de irem embora e assim foi. Antes de regressar a casa para guardar a pescaria sentaram-se na areia da praia com os seus baldes ao centro para todos verem as pescarias de cada um. Ficaram admirados com o cada um tinha apanhado. Mas havia um balde que deixou todos de boca aberta. Um dos pequenos tinha o balde cheio de alface do mar, linda no seu verde claro, viçoso e brilhante e ele estava muito orgulhoso.

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Os primos começaram a rir e a dizer que ele não tinha percebido nada! Aquilo não era pescaria nenhuma. O menino começou a ficar triste e foi dizendo que se ia haver um petisco com coisas do mar também devia haver uma salada e ele tinha apanhado a alface para a salada. Todos riram ainda mais. Então a tia disse para pararem de ser mauzinhos, aquela não era a alface normal das saladas a que estavam habituados, era alface do mar, comestível e um bom alimento. Sentiam que tinham feito uma bela pescaria e, se a tia dizia que a alface do mar também ia brilhar no petisco é porque era verdade.

Ao chegar a casa foi toda uma azáfama a limpar os mariscos, a aprender como se cozinhava cada um e até mais tarde a aprender como se comiam. Sim, comer burriés tem que ser aprendido, não se percebe logo como se vai tirar o bichinho da concha.

Chegou a vez de lavar muito bem a alface do mar e todos estavam curiosos sobre como a iam comer. A tia explicou que quando tinha visitado os Açores tinha aprendido muitas maneiras de cozinhar aquelas alfaces e naquele dia elas iam entrar em muitos pratos, na sopa, na salada que ia acompanhar o jantar, numa bela omelete, num molho para barrar as torradas e um pouco para a caldeirada. Se houvesse mais até podiam usar para fazer uma sobremesa, mas hoje ia mesmo ser só fruta para a sobremesa! 

E tu alguma vez foste à maré? Alguma vez provaste os legumes do mar, as algas?

 

Texto no âmbito do #10 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Verde Claro

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

21
Mar21

O Sapo

"Animais nossos amigos" - Afonso Lopes Vieira

Cristina Aveiro

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O Sapo

Não há jardineiro assim,
Não há hortelão melhor
    Para uma horta ou jardim,
  Para os tratar com amor.

       É o guarda das flores belas,
 da horta mais do pomar;
        e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar...

    Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
   e fazem tristes as flores.

    Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
            a quem as traz tão guardadas
com o seu cuidado leal.

       E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
     brilham no céu as estrelas,
 e ele ronda, a trabalhar...

       E ao pobre sapo, que é cheio
 de amor pela terra amiga,
dizem-lhe que é feio
     e há quem o mate e persiga

        Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
          - «Então ele traz-nos guardadas,
   e depois pagam-lhe assim?»

E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
   as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo...

Afonso Lopes Vieira, in 'Animais Nossos Amigos'

 

É assim que eu sinto a poesia porque o meu jardim infantil chamava-se "Animais nossos Amigos", em Leiria, na terra do poeta que dedicou os versos de que mais gosto para crianças.

A cidade erigiu um espaço mágico onde brinquei e aprendia a amar os livros, até tinha uma biblioteca pequenina.

"Horácio Eliseu, em 1949, apresenta um projeto para um Jardim Infantil, com uma pequena Biblioteca das obras infantis de Lopes Vieira, ajardinado exteriormente com as figuras do livro de 1911, Animais Nossos Amigos, esculpidas em pedra, fundidas em bronze e desenhadas em painéis de azulejo por Anjos Teixeira Filho. O Mestre acrescenta os passarinhos31 e um painel azulejar com as abelhas. O projeto efetivou-se e, a 30 de abril de 1955, no mesmo dia em que se inaugurava a Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, fazia-se uma festa dedicada às crianças no Jardim Infantil Afonso Lopes Vieira. Nesta data estiveram presentes o Arquiteto Raul Lino e o Mestre Anjos Teixeira."

 

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Raul Lino

 

 

 

 

20
Mar21

Apetece-me ir para o deserto!

Cristina Aveiro

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Estavam de regresso à escola depois de dois meses em casa por causa do maldito bicho que os tinha mantido fechados, afastado dos amigos, das pessoas e dos lugares de que gostavam.

Todos os meninos estavam felizes, cheios de energia, cheios de histórias para contar. Nas salas ficaram muito contentes por voltar a sentar-se nas suas mesas, por voltar a ocupar o seu lugar na sala de aula, por estarem ali com o professor e com todos junto deles e não no computador.

Na hora do recreio tinham toda a escola para eles porque os meninos crescidos não estavam lá. Pareciam mesmo “bandos de pardais à solta” como se cantava numa canção. Corriam, exploravam os sítios, jogavam à bola e caiam, escorregavam, parecia que tinham perdido o treino de andar a toda a velocidade como era seu costume.

As senhoras que os acompanhavam para tomar conta admiraram-se com estas dificuldades, parecia que estavam perros, destreinados, quase lhes lembravam os bichinhos que depois de um longo cativeiro tinham um andar hesitante e desajeitado, com menos equilíbrio e coordenação. Admiraram-se também com o que tinham crescido. Tal como antes, os meninos tinham voltado cheios de vontade de falar com as senhoras para contar as suas histórias, para perguntar tudo e mais alguma coisa, sobre o que ia acontecer, ou que tinha acontecido e muito mais coisas de que ninguém mais se lembraria de perguntar senão as crianças. As senhoras gostavam muito dos seus meninos, conheciam bem o bando, sabiam-lhes os nomes, os gostos, os que falavam muito e os que eram de poucas falas, os que gostavam de empurrar, arreliar, acarinhar, descobrir, … Sabiam-nos de cor, como também canta outra canção. Gostavam deles como eram, era bom haver traquinas e reguilas e calmos e sossegados, eles eram como uma orquestra, tocavam todos os sons, os calmos e os que inquietavam todos e nenhum som se podia dispensar, todos faziam falta. Os professores e as senhoras pareciam a maestrina que tocava a orquestra como num pequeno filme que aparecia por estes dias na televisão, umas vezes com movimentos tranquilos e outras num frenesim que quase parecia gritar.

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Um dos meninos, moreno, de cabelo ondulado negro e rebelde, costumava andar sempre por todo o lado em muito alta velocidade, até a falar era supersónico, nem para escutar conseguia parar, era sempre tudo a mil à hora. A sua velocidade era maior que a dos colegas e isso provocava muitas vezes “acidentes” e desentendimentos com miúdos e graúdos. Com a sua velocidade parecia impossível que reparasse nas pequenas coisas, mas seria assim?

Naquele dia de regresso o menino estava ainda com mais velocidade do que a habitual, mas isso não o impediu de reparar que uma das senhoras estava algo sombria. O menino fixou os seus olhos castanhos muito vivos nos olhos da senhora e chegou-se à conversa. Atrás da máscara e dos óculos da senhora ele viu que que os seus olhos não estavam a sorrir como era habitual. Começou por perguntar se estava boa, o que é que tinha, se estava doente, se tinha acontecido alguma coisa, … e foi saltando de pergunta em pergunta sem ficar satisfeito com as respostas.

A senhora estava  admirada por o menino ter parado as suas corridas e brincadeiras durante tanto tempo, estava surpreendida por o menino, na sua velocidade e turbulência, ter sentido o que lhe ia na alma e ela tanto queria guardar só para si.

Quando menino perguntou o que é que apetecia à senhora, ela respondeu calmamente: “Apetece-me ir para o deserto!” em jeito de suspiro. Pensava que ele ia ficar satisfeito com a resposta e que ia voltar às suas brincadeiras já com a curiosidade satisfeita. Mas o menino continuou com as perguntas, quis saber porque é que a senhora queria ir para o deserto, ao que ela respondeu que era para estar sozinha. O menino parou um pouco a pensar e pediu para ir buscar um papel para fazer um desenho. A senhora disse que sim, ficando cada vez mais admirada por ele preferir desenhar a estar nas correrias e brincadeiras. Quando voltou para junto dela começou a desenhar um deserto com catos e uma senhora. Quando ela lhe perguntou quem era, ele respondeu prontamente: - És tu!

O menino continuou a desenhar, desenhou-se a si também no deserto, a senhora perguntou porque é que ele também estava no deserto. O menino respondeu que era para estar com ela e assim ninguém estava sozinho.

A senhora estava comovida, mas para disfarçar perguntou se não havia mais nada no deserto e o menino desenhou um passarinho e continuou a desenhar. Desta vez desenhou um avião com duas pessoas lá dentro, muito parecidas com a senhora e o menino. A seguir desenhou pequenas setas a ligar as imagens deles no deserto às imagens deles no avião. A senhora estava deslumbrada com o que o pequeno ia fazendo e perguntou-lhe então o que era tudo aquilo, o avião, as pessoas no avião e as setas. Disse-lhe que já não estava a perceber o desenho porque queria ouvir o que o menino tinha para dizer.

O menino explicou com calma, as pessoas no avião “és tu e eu” e as setas querem dizer que deixámos o deserto e que vamos embora no avião. Finalizou dizendo: - Toma, o desenho é para ti! E largou a correr juntando-se de novo ao bando.

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Ao agarrar o desenho a senhora estava a sorrir e sentia um calor enorme no coração. Como é que aquele pequeno diabrete vira o que ela queria esconder, como é que ele estivera parado tanto tempo a escutar, a acompanhar e finalmente como desejara que juntos saíssem do lugar triste. Como é que ele era tão sábio? Claro que era! Ele era uma criança, um diabrete com asas de anjo.

 

18
Mar21

Os rapazes da mina

#9 - Amarelo - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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À tarde depois da escola os rapazes que viviam no largo vale, do Liz, na zona onde de um lado do rio é São Romão e do outro Guimarota, antes de regressar a casa subiam a ruela estreita e íngreme que os levava aos campos em volta da mina. A entrada da mina era quase no topo da encosta e à sua volta o imenso campo de despejo dos restos de minério que não serviam para vender era o paraíso de brincadeiras dos rapazes. Nas zonas em volta desse campo havia ainda pinhais que completavam o cenário para que a zona de aventuras dos rapazes fosse perfeita.

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O trabalho na mina para extrair a lenhite, um carvão de fraca qualidade, era muito difícil, os túneis ficavam facilmente alagados e os abates de túneis eram muito frequentes. As entranhas daquele vale pareciam um bolo de bolacha, havia zonas rochosas ladeadas de zonas de solos móveis e maleáveis e o aparecimento de água na mina era uma constante. A mina da Guimarota, tal como tantas outras tinha bolsas de metano que se revelava mortal. Os mineiros andavam sempre com as suas lanternas de mineiro que eram verdadeiros salva- vidas porque detetavam a presença de gases perigosos e mesmo a diminuição do oxigénio que obrigava à saída dos túneis. A criançada gostava de observar os mineiros quando entravam e saiam da mina e olhava -os como heróis.

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Como a lenhite tinha pouco valor e a exploração da mina era difícil, havia cada vez menos mineiros e até já se dizia que iria fechar.

Quando brincavam por cima dos montes de material da mina viam muitas vezes bichos presos no carvão: conhas, escamas, pedaços de ossos ou “pedras” com formas de plantas. Admiravam estes pedaços de carvão por uns momentos, mas depois voltavam aos seus jogos e às aventuras de explorar tudo à volta por ali.

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Houve um ano em que os rapazes começaram a ter como companhia nos montes dos lixos da mina dois homens de fora, que estavam muito interessados em ver todos os pedaços de “pedras” que por ali havia. No princípio, os rapazes desconfiaram daqueles adultos que se interessavam pelos montes de lixo. Assim que os viam, os rapazes afastavam-se e ficavam à distância a ver o que faziam e a escutar as conversas deles que os fascinavam por parecer quase um conjunto de roncos zangados.

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À medida que os foram observando viram que viviam na casa amarela de primeiro andar logo no início da rua estreita e íngreme que levava à mina, foram percebendo que falavam com alguns homens da mina e que aparentemente estavam a fazer um qualquer trabalho que não entendiam. Como os rapazes e aqueles homens partilhavam os territórios que exploravam, começaram a aproximar-se. Com o tempo ficaram a saber que o homem mais velho se chamava Kühne e o mais jovem Krebs. Um homem da mina explicou-lhe que eram alemães e estavam interessados nas “pedras” com os bichos. Disseram aos rapazes para mostrarem os sítios onde havia mais “pedras” com bichos.

A alegria e entusiasmo que os rapazes viam naqueles dois homens espantava-os.  Os homens pareciam ter achado um tesouro, era mesmo como se tivessem encontrado ouro e não pedras diferentes num monte de entulho.

Estava formado um grupo de exploradores improvável, homens sábios e rapazes conhecedores do terreno. Os rapazes sem entender bem o que se passava sentiam-se importantes porque sabiam coisas que os senhores estrangeiros queriam muito saber. As aventuras do costume tinham evoluído para um novo patamar.

Um dia, o homem mais jovem encontrou um pedaço de carvão com uma espécie de cabeça de “rato” e levou-o ao mais homem mais velho. Ficaram loucos de entusiasmo. Parecia que tinham encontrado o que procuravam, fosse lá isso o que fosse, porque para os rapazes era uma pedra como tantas outras que já lhes tinham mostrado.

Vieram então mais e mais alemães, reabriram a mina que, entretanto, tinha deixado de ser explorada.  Contrataram mulheres para passar a “pente fino” os montes de detritos que havia na zona à volta da mina e os que iam de novo saindo da mina.

O campo de brincadeiras dos rapazes foi passado cuidadosamente por peneiros e observado detalhadamente à procura das tais “pedras preciosas”.

Os rapazes cresceram e deixaram os seus jogos e brincadeiras. Apenas um dos rapazes continuou a acompanhar o trabalho de pesquisa na mina. Tinha aprendido a falar com os investigadores, compreendia agora a importância do que ali tinham encontrado e sabia o que acreditavam que podiam vir a encontrar.

Os investigadores estavam desde o início à procura de mamíferos do tempo dos dinossauros, mamíferos de há mais de 145 milhões de anos. Não tinham a certeza se os mamíferos e os dinossauros tinham vivido na mesma época, mas acreditavam que sim.

Esse jovem que continuou a acompanhar as pesquisas, estava ao lado da rapariga que partia e a selecionava o carvão, como tantas outras naquela missão imensa, quando apareceu um pedaço de carvão com um esqueleto completo. Estava ali o fóssil de um mamífero completo e incrivelmente bem preservado como acontecia com os todos os fósseis encontrados na mina.

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Houve logo euforia, foram feitos estudos e mais estudos, era uma descoberta ímpar. Foi-lhe dado o nome científico henkelotherium guimarotae. Estava encontrado o primeiro esqueleto completo de um mamífero do Jurássico no mundo! Este pequeno mamífero media cerca de 7 centímetros, vivia nas árvores e comia insetos e é provavelmente o leiriense mais conhecido no mundo. Os paleontólogos continuam a estudar as maravilhas saídas das entranhas das minas da Guimarota. A Guimarota é um dos sítios notáveis no Mundo para o estudo do Jurássico pela sua riqueza e incrível preservação dos exemplares encontrados.

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As fotos antigas de geoleiria.blogspot.com 

 

Texto no âmbito do #9 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Amarelo

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

13
Mar21

O Livro Esquecido

Vamos proteger uma espécie em vias de extinção - "leitores leituras"

Cristina Aveiro

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Era uma vez um livro pequeno, aí com umas 20 páginas, pouco alto e pouco grosso e já tinha muitos anos. Talvez pensem que é esquecido por não se lembrar das coisas já que é um pouco velho, mas não é nada disso. Ele lembra-se de tudo, desde quando foi feito na máquina de impressão, aos tempos que passou na prateleira daquela livraria grande, majestosa e ao mesmo tempo colorida e cheia de vida. Ele até tinha ouvido dizer que agora as pessoas iam lá só para ver a beleza da livraria, mas não sabia se era verdade.

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Então as pessoas não iam às livrarias para admirar e comprar os livros que liam? Ele pensava que sim, mas já não tinha a certeza. Os tempos eram outros quando ele lá tinha estado na prateleira. Depois de muitas vezes ser admirado, folheado, lido aos bocadinhos, de ter sido pedido de presente aos pais pelas crianças que iam à livraria, lá chegou o grande dia. Ia finalmente ter o seu lar definitivo. chegou uma senhora jovem e foi à seção de livros infantis e juvenis e passou um dia inteiro a escolher e a colocar em enormes pilhas. Foi nesse dia que saiu da prateleira da livraria para não voltar. Adorou o lugar onde foi viver, era uma sala luminosa, cheia de livros, muitas e muitas estantes cheias de prateleiras repletas de livros de todas as cores tamanhos e feitios.

Era uma biblioteca! Mas era uma biblioteca de uma enorme casa que tinha umas vinte salas enormes. O livro estava feliz, tinha um lugar de destaque nos novos livros para crianças e a horas certas elas enchiam a biblioteca e desfolhavam os livros, tentavam ler, outras liam para os amigos, às vezes levavam livros para as salas grandes e outras vezes levavam mesmo os livros para casa para lerem e contarem às suas famílias. Oh, como eram tempos felizes, andar de mão em mão e na companhia dos outros livros seus amigos. Frequentemente as crianças disputavam quem é que o ia ler ou levar para casa. Sentia-se amado e querido, sentia que tinha um propósito, uma missão mesmo.

Mais tarde começaram a vir menos crianças à biblioteca e vinham muitas vezes ver filmes, ver os computadores, e agora até usavam muito os seus pequenos telemóveis e parecia que já nem olhavam para os belos livros nas prateleiras. O pequeno livro até já tinha ouvido dizer que os leitores eram uma espécie em vias de extinção, já quase só havia leitores muito velhos.

O livro pequeno e outrora colorido com cores intensas e felizes, tinha as cores esbatidas e sentia que tinha sido esquecido. Estava para ali como um velho que não servia para nada, numa prateleira a apanhar pó.

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Um dia chegou uma menina diferente à biblioteca, ela já era crescida e parecia saber muito bem o que ia fazer. Vinha vestida com roupas de Capuchinho Vermelho, uma história que era contada em vários livros seus amigos. A menina trazia um cesto muito bem decorado e um pouco grande que começou a encher com livros. Os livros estavam todos contentes, afinal iam até algum lado, iam arejar. Bem precisavam! Depois de encher o cesto a menina foi a uma das salas grandes e pediu ao professor se podia trazer algumas surpresas para os meninos. Ele disse que sim de imediato. Então a menina tirou um e outro livro e leu bocadinhos ao acaso de cada um deles. As crianças pediam que contasse o resto, mas a menina disse que não era essa a sua missão. Algumas fatias de livro mais tarde, os meninos já estavam com o bichinho da curiosidade aguçado e a menina explicou que se queriam saber o resto das histórias iam ter de ler e que ela podia emprestar alguns livros, mas avisava já que não havia livros para todos. Ao dizer estas palavras piscou o olho ao professor que a observava divertido. E os meninos lá foram pedindo os livros que queriam e quando a euforia terminou, o Lourenço disse admirado:

- Afinal há livros para todos! Não faltam para ninguém e ainda tem mais no cesto.

A menina “Capuchinho Vermelho” sorriu e disse que estavam com sorte, mas só tinham os livros com eles até à próxima semana porque os livros tinham que ir viajar de novo na sua cestinha.

O livro passou uma semana em beleza a ser lido e contado a todos da família do menino e depois mesmo na sala grande com o professor. Até tinham feito desenhos com a sua história, estava mesmo feliz. Mal tinha sido posto de novo no seu lugar da prateleira da biblioteca chegou um rapaz com uma roupa diferente, ele achava que também era de uma história, ele não tinha a certeza, mas aquele rapaz de óculos redondos, capa preta, sempre com uma varinha na mão fazia-lhe lembrar o personagem de uma história. Achava que se chamava Harry e era de uma coleção de livros recentes. O rapaz chegou à biblioteca e começou a encher caixotes e caixotes de madeira bonitos, que pareciam antigos, dos que antes de haver plástico serviam para levar as frutas ao mercado.

Os livros todos ficaram num frenesim de curiosidade, para onde iriam desta vez? Que aventura os iria agora arrancar de novo ao tédio das prateleiras esquecidas e quase mortas?

Quando já havia uma enorme pilha de caixotes, o tal rapaz levou-os para o recreio, um espaço enorme cheio de crianças alegres a correr, saltar, gritar, enfim, a ser crianças.

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Aproximou-se de uma zona abrigada onde já estavam montada três barraquinhas de feira, todas bonitas e onde o rapaz e a menina vestida de Capuchinho Vermelho começaram a colocar os livros de uma forma quase irresistível, estava tão bonito que só de olhar apetecia levar tudo para casa. As crianças foram-se aproximando curiosas e à medida que os livros iam enchendo as bancadas todas começaram a querer mexer, ver, ler um pouco, como quem escolhe e prova a fruta antes de comprar.

Quando tudo ficou pronto colocaram um enorme cartaz que dizia:

- Aluguer de livros – 1 semana por um desenho sobre a história!

A notícia caiu como uma bomba. Então os livros que eram da biblioteca agora eram para alugar? Todos tinham o direito de os levar e não tinham que pagar nada por isso. Houve logo um grupo de crianças que disse que não queria alugar, nem pagar, mas que gostava muito de fazer desenhos e queriam levar um livro cada um. O Harry e a menina Capuchinho Vermelho explicaram que o pagamento do aluguer era mesmo o desenho e que claro que podiam levar os livros.

O nosso livro esquecido estava numa zona de livros de contos infantis mais antigos e começou a pensar que as crianças iam preferir os livros novos mais coloridos, mas estava contente só de estar ali a ver toda aquela agitação e alegria.

Quando já estavam a começar a arrumar a banca, veio uma das senhoras que trabalhava na escola e perguntou se também podia alugar o livro e trazer um desenho da sua sobrinha a quem ia ler a história. Claro que o Harry e a Capuchinho disseram logo que sim, que escolhesse. A senhora foi para a zona dos livros mais antigos e disse, vou levar este, adoro-o, já a minha mãe mo leu quando eu era pequenina, depois lio eu aos meus filhos e agora vai ser à minha sobrinha, adoro contar histórias, faz-me sentir feliz e sinto que faço as crianças felizes.

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O Harry e a Capuchinho ficaram comovidos, sentiram que tinha valido a pena e iam continuar a trazer os livros da biblioteca cá para fora, para virem até às pessoas, eles iam salvá-los de serem esquecidos.

 

12
Mar21

O que queres no Natal? - Ilustrações

Ilustrações de José Raimundo 2021

Cristina Aveiro

Estou muito feliz por o José Raimundo ter aceite o desafio de ilustrar o meu conto "O que queres no Natal?".

Gostava de ver as ilustrações do José e perto do Natal atrevi-me a perguntar se gostaria de ilustrar o conto que tinha acabado de escrever.

Em 2 de Janeiro recebi os primeiros esboços

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E perante as hipóteses gostei mais do segundo do lado esquerdo.

Em 16 de Fevereiro chegou a primeira ilustração, o Fernandinho com o seu presente final, eu amei

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Ilustração de José Raimundo

Hoje chegou a ilustração da Francisca e estou maravilhada.

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Ilustração de José Raimundo

O conto de Natal que fez nascer estas ilustrações foi o "O que queres no Natal?"

Para conhecer outros trabalhos do José vale a pena visitar:

https://www.facebook.com/Jos.illustrator

10
Mar21

A bailarina maléfica

#8 - Cor-de-Rosa - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Desenho da Matilde Aveiro 2006

Era uma vez uma menina que adorava ir para a praia, sempre que o tempo era de Sol, lá ia a família até à praia, tanto no Inverno como no Verão.

No Inverno eram as brincadeiras na areia, as corridas praia fora, aquela liberdade de ter toda a praia para si e para a sua irmã deixavam-nas felizes como pássaros fora da gaiola. No Verão era tudo, praia por inteiro, as infindáveis brincadeiras na areia e o mar, molhar os pés, brincar com a água até mais não poder e o melhor de tudo eram os banhos. A água era fria, o mar assanhado, muitos dias cheio de ondas grandes e perigosas, mas depois havia aqueles poucos dias por ano em que a bandeira verde saia da caixa, estava sempre como nova, ao contrário da vermelha que estava descorada e envelhecida de tanto ser usada. Os dias de bandeira verde eram o pináculo da alegria na praia, eram banhos e banhos até o frio da água levar a melhor. Saiam da água  e deitavam-se ao sol até ficarem de novo prontas para ir de novo ao banho. Aquele mar tinha ondas brincalhonas, era muito irrequieto mesmo nos dias de mar calmo, mas era um não parar de brincadeira na água, nunca se estava a fazer a mesma coisa. Furavam as ondas, faziam carreirinhas, iam com os pais lá para a frente, enfim, a menina nesses dias chegava ao pôr do sol, à hora das gaivotas cansada a ponto de adormecer, mas tão feliz quanto se podia ser.

Naquele ano os pais disseram que iam conhecer praia novas, diferentes da sua praia. A menina perguntou como é que as praias podiam ser diferentes, havia mar, havia areia e isso era uma praia. Os pais então perguntaram se gostaria de ir para uma praia onde o mar fosse muito mansinho, a água quentinha e estivesse sempre sol e calor. A menina sorriu e perguntou do alto da sua pequenez de estavam a brincar com ela. Isso seria a praia dos seus sonhos, mas não acreditava que houvesse uma praia assim.

E o Verão chegou, e finalmente chegaram as férias. Foram horas e horas de viagem, durante a qual as pequenas perguntaram vezes sem conta: Estamos a chegar? Por fim chegaram, fazia calor, até a brisa era morna, as meninas ficaram encantadas. Foram logo ver a praia e nem conseguiam acreditar, o mar era de um azul-turquesa transparente e com pequeninas ondas bebé como disse a menina. Molharam os pés e quiseram logo ir ao banho, a água era deliciosamente quentinha comparada com a da sua praia.

Naquelas férias quase não passaram tempo na areia, os banhos e brincadeiras na água do mar ocuparam quase o tempo todo. Muitas vezes os pequenos peixinhos cor de areia vinham junto a eles mordiscar nas pernas, ao princípio era um pouco assustador, mas depois todos achavam divertido. Usavam os óculos para mergulhar a cabeça na água e ver os peixes que andavam por ali junto das pessoas.

Tudo corria bem e estavam a ser as férias de sonho, todos estavam felizes. Naquela tarde estavam todos lá bem dentro do mar numa zona do lado da praia que tinha uma parede de rochas, e onde havia algas e ainda mais peixes para observar, estavam a ver mais peixes do que nunca. De repente a menina viu uma espécie de bola com pernas a dançar. Era transparente como gelatina de um cor-de-rosa escuro e nadava como se fosse uma bailarina. A menina adorava o ballet, as roupas cor-de-rosa e as saias de tule e o bichinho parecia a bailarina perfeita, era apenas um pouco mais escura do que as suas roupas de dança.

A menina estava encantada a ver aquele pequeno bichinho, quando sentiu uma enorme picada no pé. Foi uma dor enorme, gritou bem alto, não sabia o que estava a acontecer. Os pais vieram de imediato, pegaram na menina ao colo e todos saíram da água. Foi tempo de a menina ficar a saber que nas águas mais quentes há uns bichinhos maléficos chamados alforrecas. Os pais explicaram que eram de vários tamanhos e cores, transparentes e que se aproximavam sempre do lado de onde soprava o vento. Os bichinhos eram malvados porque tinham um veneno nos seus tentáculos que quando tocava na nossa pele “picava” e fazia uma dor enorme.

A menina chorava e olhava para o seu pezinho todo vermelho e que lhe doía tanto e dizia que não ia voltar mais para o mar. A zona picada foi tratada com creme e massagens de mimos mágicos.

Aos poucos foi acalmando e a mãe disse-lhe para fazer um desenho com a alforreca maléfica, afinal ninguém gosta que o desenhem com cara de mau. E foi o que a menina fez.

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Os banhos no mar continuaram, mas agora sempre bem atentos para ver se não havia maléficas por ali.

No fim das férias a menina disse aos pais que aquelas praias eram quase perfeitas, mas tinham as maléficas alforrecas e não tinham o cheiro a mar da praia deles. A menina tinha gostado muito de ir ali, mas a sua praia favorita era mesmo a deles.

 

 

Texto no âmbito do #8 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Cor-de-Rosa

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

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