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Contos por contar

Contos por contar

31
Jan21

Avô, porque tens abelhas no quintal?

Memórias doces do meu avô Manuel Saco !

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina que adorava ir à casa dos avós, em especial ao quintal que havia atrás da casa. O quintal era todo rodeado por um muro de pedra “insonsa”, ou seja, tinha sido cuidadosamente com pedras irregulares grandes e pequenas pousadas de modo a ficarem perfeitamente encaixadas e que subiam a uma altura grande sem terem mais nada a segurar.

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No quintal havia um grande cercado com as galinhas e os galos, tinha ameixieiras lá dentro, era enorme. Do outro lado havia as coelheiras construídas em madeiras, com telhado em telhas vermelhas e umas portas em rede com buracos em forma de bolas, lá havia coelhos de todos os tamanhos e cores. Havia mais de dez laranjeiras enormes, com folhas de um verde escuro e onde havia sempre laranjas. Os seus troncos eram muito grossos, até pareciam de pinheiros velhos. Os troncos e ramos das laranjeiras eram verdes, cobertos de musgo muito baixinho. Nessa zona do quintal não se conseguia ver o céu, as densas copas das laranjeiras não deixavam o sol chegar ao chão.

Lá mais para o fundo do quintal, não havia árvores e era uma zona cheia de sol, flores e colmeias de abelhas que assustavam a menina. Bastava aproximar-se daquela zona para o som das abelhas a voar a fazer ficar com medo. Havia umas tábuas que formavam uma espécie de banco onde estavam pousadas seis cascas de sobreiro que quase pareciam troncos, só que eram apenas a cortiça que antes cobria o tronco. O avô chamava-lhe cortiços e dizia-lhe que eram casas para as abelhas. A menina achava que pareciam um pouco casas porque até tinham telhas a cobrir o topo, mas não tinham janelas, havia apenas uma fenda horizontal em baixo com uma espécie de rampa para entrar.

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A menina tinha perguntado ao avô:

- Avô, porque tens abelhas no quintal? Elas podem picar-nos e são perigosas. Eu tenho muito medo delas.

O avô tinha-lhe dito que as abelhas eram as suas amigas doces. Eram elas que faziam o mel que usavam lá em casa para adoçar o café, o cacau, os bolos dos Santos e era também um ótimo remédio quando se estava constipado ou com dor de garganta. O avô levou a menina até à cozinha e mostrou-lhe o enorme frasco de vidro com uma boca bem larga e uma tampa esmerilada de vidro que até parecia das farmácias antigas. O frasco estava meio cheio de mel escuro e muito espesso. Noutro frasco mais pequeno tinham mel em favos de cera nova que também estava muito bem fechado.

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O avô tirou uma colher pequenina com o mel espesso e deu à menina, ela olhou para a cor escura que parecia caramelo, sentiu aquele cheiro doce e quente do mel “velho”, viu o granulado que parecia grãos de açúcar e fez o que o avô lhe dizia, pôs na boca como se fosse um chupa e saboreou devagar. Era muito forte o sabor! O avô disse-lhe para ir chupando devagarinho, não era para comer, era para sentir e saborear.

O avô disse-lhe que depois de ter acabado aquela guloseima estava pronta para ir ver as obreiras mais de perto. A menina disse que tinha medo, mas o avô disse que não havia nada a temer. Tinham de se aproximar das colmeias devagar, com movimentos suaves, respeitando as viagens das abelhas. A menina lá foi apertando muito a mão grossa e calejada. Sentaram-se no banco onde estavam pousados os cortiços e o avô foi mostrando como elas iam e vinham, mostrou as patinhas cheias de pólen, mostrou como elas aproveitavam as flores da avó ali do quintal para colher o néctar com que faziam o mel.

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Elas iam até às zínias, sécias, brincos de princesa e mesmo aos pampilhos e malmequeres selvagens que havia por ali. O avô mostrou também a taça larga de barro com água que ele tinha ali no banco para as abelhas terem sempre água por perto. A menina aos pouco foi ficando com menos medo, embora se mantivesse muito quieta, e estava a adorar poder ver as temíveis abelhas tão de perto e tão entretidas na sua vida que não queriam saber nem da menina, nem do avô. As abelhas eram muito ocupadas e estavam sempre com pressa a trazer néctar e pólen e a voltar de novo às flores.

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O avô disse que mais tarde ia retirar os favos de mel dos cortiços porque já estava na altura certa. A menina ficou admirada, como vais conseguir tirar os favos, lá dentro está tudo cheio de abelhas, vais incomodá-las, vão ficar zangadas e vão-te picar todo!!!

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O avô explicou que havia um truque que era usado há muitos, muitos, anos, usava-se uma engenhoca que fazia um fumo espesso que ajudava a acalmar as abelhas quando se ia mexer na colmeia. Para fazer o fumo usava-se bostas de vaca secas e ervas meio secas. O defumador tinha um fole que fazia sair mais ou menos fumo conforme a agitação das abelhas. As abelhas reagem ao fumo, não se sabe se é por reagirem à aproximação de um fogo, e se organizam para reagir ao fogo, ou se é porque o fumo as põe tontas e incapazes de ficar agressivas. O certo é que elas com o fumo não atacavam o invasor.

O avô disse à menina que ela podia ver tudo da janela da sala da casa, mas que não podia vir cá para fora porque mesmo com o fumo ia haver algumas abelhas zangadas.

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Quando chegou o dia de tirar o mel, a menina ficou com a carinha colada à janela a ver todos os passos. Viu o avô colocar o cócó de vaca seco e as ervas no defumador, acender, começar a mandar o fumo com o fole à volta do primeiro cortiço. Passado algum tempo o avô retirou as duas telhas que faziam de telhado da colmeia, e lentamente metia a mão lá dentro e cuidadosamente cortava com a navalha pedaços dos favos e colocava numa panela alta de alumínio. Ia tirando favos claros quase cor de caramelo leve, outros mais escuros e alguns quase de um tom acastanhado. Em cada cortiço o avô via cuidadosamente para não retirar o sítio onde estavam as abelhas que iam nascer e também tinha cuidado para manter a abelha-rainha dentro do cortiço no final da colheita. O avô já lhe tinha dito que nunca se retirava todo o mel, afinal ele era a reserva de alimento para as abelhas, só podiam retirar o que não lhes ia fazer falta, o resto ficava para elas poderem viver nas alturas em que não havia néctar, nem pólen para produzirem mais mel.

Quando tudo acabou, o avô trouxe a grande panela para a cozinha e ficaram a ver como os favos eram perfeitos e tinham cores bonitas. A menina viu que os favos tinham uma espécie de tampa que fechava o hexágono para o mel não sair. O avô escolheu um dos favos mais claros, de mel novo, que tinha ainda um forte cheiro e sabor a flores e cortou uns bocadinhos que pareciam rebuçados e deu à menina. Disse-lhe para pôr na boca, deixar sair o mel e chupar e depois deitar fora a cera. A menina assim fez e ficou deliciada. O avô também fez o mesmo e perguntou:

- Então meu amor, já sabes porque tenho abelhas no quintal?

A menina respondeu com um sorriso lambuzado e feliz.

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28
Jan21

O Sapo Apaixonado, a Rã e a Cobra Verdinha

Cristina Aveiro

Sapo-Matilde Aveiro.jpgDesenho da Matilde Aveiro

Era uma vez um sapo lindo, lindo, muito jovem e que todos no jardim adoravam, em especial a sua mãe. A mãe sempre lhe dissera que ele era simpático, elegante, que tinha uma graciosidade invulgar, que parecia que tudo nele era perfeito. Nem todos o viam desta maneira, ele dava pequenos pulos pois era pesado e com as suas patas curtas e o seu corpo achatado e gorducho não conseguia dar saltos verdadeiros, quando andava era desajeitado mas todos gostavam dele na mesma, era boa companhia, quer na água quer em terra, nas margens do lago.

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O sapinho vivia num jardim muito grande com colinas, um longo riacho, um lago grande e um sem número de animais onde as pessoas gostavam passear. Havia libelinhas, patos, patinhos, relas, rãs, muitos pássaros e aves. Havia melros, pegas, pardais e nem sei quantos mais!

Quando uma criança se aproximava da margem do riacho do jardim, parecia que tinha começado uma prova de salto em comprimento, só se via as relas e as rãs a saltarem para a água e a desaparecerem no meio das ervinhas verdes redondas que cobriam as águas do riacho.

As crianças ficavam todas divertidas ao verem os saltos rápidos e altos que elas conseguiam fazer. Nestas corridas e saltos quem ganhava eram as relas porque as suas pernas enormes e o seu corpo pequeno e mais leve levavam-nas mais alto.

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O sapinho quando sentia passos a aproximarem-se procurava um sítio mais escondido entre os juncos e as ervas mais altas e ficava muito quieto à espera que se afastassem. Muitas vezes ficava ali no seu cantinho sossegado a ver os saltos das suas atléticas e esguias vizinhas e a escutar enquanto coaxavam. Ele gostava muito de as escutar, as relas pareciam patos a grasnar enquanto as rãs faziam sem parar.

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O sapinho achava as rãs lindas, com a sua pele tão lisa e brilhante, sempre molhadinha daquele verde com as manchinhas escuras pelo corpo. Adorava também aqueles olhinhos esbugalhados. A boca delas também o fascinava achava que até já tinha visto os dentinhos de cima de uma delas quando lançava a língua a um mosquito. Ele não sabia, mas até começava a pensar que estava a apaixonar-se.

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Começou a tentar aproximar-se e a fazer os seus cantos mágicos, mas elas não reparavam sequer. E ele continuava a fazer bréiii, bréiii mas elas nem reparavam.  As pernas delas eram longas, fortes e muito musculadas, com os seus pezinhos delicados com cinco longos dedos unidos por membranas que as faziam deslizar velozes na água como nenhum outro bicho do lago.

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Será que elas não olhavam para ele por ter a pele rugosa com aquelas bolinhas salientes, ou seria por ser um bocado gordo e não conseguir saltar, enfim dava pulos, mas era algo desajeitado.

Tentou mostrar-se melhor erguendo-se nas quatro patas, mas nem assim elas mostraram interesse. A caminhar ele tinha sempre uns passos pesados e algo desajeitados mas era forte e sabia que ia encontrar a sua apaixonada, talvez não fosse uma rã, ia continuar a procurar e tinha a certeza que ia encontrar alguém de quem gostasse.

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Num dia foi até ao estrado de madeira onde as pessoas costumavam passar e ficou lá em baixo no espaço escuro e fresco entre as tábuas e o chão. Olhou para cima e no espaço entre duas tábuas, bem direita e a esticar-se estava uma linda cobrinha verde, muito elegante e esguia. O sapinho ficou fascinado. Como ela era bonita. Começou a andar pelas tábuas em pequenos pulos, até se atreveu a ir para a parte de cima para a ver melhor. Parecia que não controlava o que fazia, queria ir até perto dela, queria beijá-la, talvez ela fosse o amor que andava à procura. A cobrinha olhou para ele, começou a aproximar-se e já estava até a esticar a boca pensando num belo petisco, mas quando olhou melhor desistiu logo. Era um sapo, não servia para comer, se o abocanhasse ao apertar ele deitava um veneno e ela podia até morrer, livra, o melhor era ir para outro sítio porque com sapos é que ela não queria nada.

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O sapinho ao ver a cobra verdinha a afastar-se ficou triste e decidiu voltar para junto do lago. Lá foi aos pulinhos, comendo um mosquito aqui, uma aranha acolá, enfim comida não lhe faltava.

Quando chegou perto do lago, já a noite ia alta e ele sentiu vontade de cantar as suas tristezas e lá começou a coaxar a sua música. Algum tempo depois sentiu movimento atras de si. Olhou e nem queria acreditar, era uma enorme e maravilhosa sapinha, bem corpulenta, com uns bracinhos curtos e gordinhos e uns olhos cheios de ternura. Assim que os olhares se cruzaram houve encantamento e desde esse dia nunca mais se separaram. Todos os anos faziam longas linhas com os seus ovinhos negros nas folhas das plantas mesmo junto da água. Todos os anos nasciam centenas de girinos que iam crescendo e depois se transformavam em minúsculos sapinhos que eram o seu orgulho.

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Quando olhava para a sua sapinha pensava sempre como tinha sido tonto ao pensar que estava apaixonado pela rã e depois pela cobra verdinha. Só depois de sentir o verdadeiro amor é que percebia como ela era bela, como estava encantada por ele e como tanto tinham em comum.

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26
Jan21

A Senhora das Castanhas

#2 - Castanho - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

IMG_0434-692x1024.jpgFotografia de Teresa Neto in Tilmagasine.pt

 

Não há ninguém em Leiria e arredores que não conheça a Senhora das Castanhas! Novos, velhos, da cidade, das aldeias em redor e mesmo quem visita a cidade nos tempos frios.

Há mais de 50 anos que o triciclo verde, com a bilha de barro furada aquecida pelo calor forte do carvão mineral, enchem o ar do Largo do Papa e da avenida com o perfume único do fumo cinzento azulado que anuncia as castanhas a assar. Só de sentir o cheiro já se sente o conforto e aconchego do sabor doce e levemente salgado deixado pela casca crepitante e estaladiça ao descascar. Quando se agarra o cartuxo cónico de papel e se sente o calor nas mãos já há um conforto que antecipa o descascar e saborear das belas castanhas amarelinhas aninhadas no seu ninho que era castanho e que é agora uma crosta acinzentada crocante.

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Fotografia de Teresa Neto in Tilmagasine.pt

Há pessoas que só gostam de castanhas destas, das que se assam e comem na rua porque o seu sabor é especial. Mesmo quem assa em casa nunca consegue alcançar a magia que aquele carrinho mágico acrescenta.

A certeza de ver ano, após ano a Senhora das Castanhas voltar, dá aquele conforto de que a vida é e vai continuar a ser boa e tranquila como sempre foi. As meninas e os meninos crescem e voltam anos mais tarde com os seus meninos e meninas para também eles comerem as castanhas do carrinho mágico.

A Senhora das Castanhas tem o rosto vincado dos anos, mas o seu sorriso é jovem, contagia, parece que ela não quereria estar a fazer o que quer que fosse que não estar ali, a assar as castanhas para nós.

Bem-haja por tudo!

 

Texto no âmbito do Desafio Caixa de Lápis de Cor

23
Jan21

As palavras têm sangue azul marinho !

Desafio Caixa dos Lápis de Cor - Azul Marinho

Cristina Aveiro

 

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A menina já sabia desenhar bem as letras e escrevia com brio no seu caderno de duas linhas com o lápis bem afiado. Naquele dia a professora ia começar a ensinar a escrever com tinta permanente, era uma nova etapa onde os erros já não podiam ser apagados e tudo tinha que ficar bem à primeira. A menina estava cheia de entusiasmo, a caneta de tinta permanente, com o seu aparo dourado, o frasquinho com a tinta Quink da Parker que iria ficar para sempre na sua memória, as folhas de papel mata-borrão com o seu doce tom de rosa claro tudo eram novos objetos que a fascinavam. Quando a professora começou a ensinar a encher o depósito da caneta, rodando a ponta oposta ao aparo e aquele sangue azul marinho de que eram feitas as palavras que não se apagavam entrava na caneta os olhos da menina observavam bebendo cada momento.

Quando encheu a sua caneta e deixou o excesso do aparo no papel mata-borrão, ficou a contemplar o lado debaixo do aparo, era preto, cheio de estrias, parecia quase a barriga de um grilo. Tudo era muito mágico. Depois foi começar a fazer deslizar o aparo na folha de papel de linhas azuis e margens cor de rosa. Não era fácil, se carregava demasiado saia tinta de mais e mesmo com o mata-borrão ficava tudo feio e mal feito, se carregava de menos mal se via o que estava escrito e algumas letras falhavam e a menina não se atrevia a tentar passar de novo para as escrever. Passar de novo no mesmo sítio parecia ter tudo para ficar pior ainda.

Aos poucos a indomável caneta de tinta permanente foi sendo domesticada e a menina começou a deliciar-se enchendo folhas com palavras e mais palavras de bela caligrafia. Primeiro foram cópias, ditados e exercícios, mas a verdadeira magia só passou a acontecer quando a menina já sabia o suficiente para encher as folhas com as histórias que imaginava, ou com as histórias antigas que os avós lhe gostavam de contar quando estavam sentados nos bancos baixos dentro da lareira alta da casa deles. A menina também gostava de escrever sobre as coisas iam acontecendo à sua volta, sempre tentando usar mais e mais palavras novas que ia conhecendo nos livros, com a professora e com os adultos que a amavam e ensinavam mesmo sem querer.

A cor daquela tinta, aquele azul marinho espalhado suavemente no papel era ainda das suas cores preferidas, para vestir, para descansar os olhos, para ver no mar em certos dias, era uma cor de conforto e para ela seria sempre o sangue das palavras.

 

Texto no âmbito "Desfio Caixa dos Lápis de Cor"

 

 

22
Jan21

Mãe, a avó gosta de jogar!

Cristina Aveiro

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Num dia de muita chuva e vento, em que não se podia passear, nem ir à rua ao quintal ou à varanda, um menino estava em casa com a avó e estava aborrecido porque não podia ir onde queria. A avó olhou para o menino e disse-lhe:

- Hoje está um dia perfeito para jogar às cartas!

O menino perguntou:

- Que cartas? Daquelas que antigamente escreviam e vinham no correio?

A avó disse com doçura, não com as cartas de jogar, com um baralho. Sabes, há muito muito tempo na China inventaram o baralho de cartas e muitos jogos para jogar com elas, depois como era divertido e interessante, o jogo foi-se espalhando por todo o mundo e foi sendo modificado pelos diferentes povos. Os árabes juntaram às cartas chinesas as figuras que hoje conhecemos em todos os baralhos e mais tarde os franceses inventaram uns desenhos mais simples que passaram a ser usados em quase todo o mundo.

O menino ficou interessado e começou a fazer muitas perguntas. A avó disse que lhe ia contar tudo o que sabia sobre o baralho. Para começar chamava-se baralho porque para jogar tinham que se misturar todas as cartas para ficarem “baralhadas”, sem nenhuma ordem e assim poderem ser distribuídas ao acaso.

O menino disse logo que gostava do nome, estar baralhado não era agradável, mas às vezes baralhar era divertido, a avó sorriu contente com a vivacidade do seu menino.

A avó foi buscar o seu baralho favorito e começou a espalhar as cartas sobre a mesa. Perguntou ao menino o que lhe chamava mais a atenção. O menino disse que havia cartas vermelhas e cartas pretas. A avó disse que as cartas vermelhas representavam o dia e as pretas a noite, disse também que havia 52 cartas no baralho, uma por cada semana do ano.

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O menino interessado disse também que havia cartas com figuras de pessoas e outras só com desenhos. A avó disse que havia quatro grupos de cartas com o mesmo símbolo, com corações, trevos, azulejos e pontas de lança. Na verdade, a cada grupo chamava-se um naipe (antes era Naib, uma palavra árabe) e os nomes dos naipes eram copas, paus, ouros e espadas.

O menino disse espantado que não havia nenhumas espadas, nem paus, que os nomes eram estranhos. A avó explicou que, há muito tempo atrás, os desenhos eram mesmo de paus, espadas, copos e moedas de ouro, mas depois em França inventaram os desenhos mais simples que usamos hoje, mas continuamos a usar os nomes antigos por isso nada parece fazer sentido.

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A avó continuou a explicar, os quatro naipes representam as quatro estações do ano, e cada estação do ano tem treze semanas, como tal cada naipe tem treze cartas. Ouros representava a Primavera, paus o Verão, copas o Outono e espadas o Inverno.

Então o menino disse que afinal parecia que o baralho era um calendário, com as estações, as semanas, só faltavam os meses. A avó disse que havia uma carta para cada mês, eram as cartas com as figuras do rei, da rainha e do valete. O menino disse então que assim eram apenas três meses. A avó lembrou-o que havia quatro naipes diferentes, cada um com três figuras e assim fazia doze meses. Havia o mês do rei, da rainha e do valete em cada uma das estações.

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A avó disse ao menino que das cartas com os números apenas o às tem nome especial, o nome deriva da palavra em latim que significa um, porque esta é a carta número um.

O menino disse à avó que as cartas pareciam cheias de histórias, ele já começava a imaginar que as espadas e os paus eram cartas malvadas que apenas queriam lutar contra as cartas boas como as que tinham os corações. Já os ouros ele não sabia bem se eram boas ou más. Tinha gostado muito que houvesse reis e rainhas e cavaleiros parecia mesmo um reino antigo como os das histórias que lhe costumavam contar.

A avó disse que era muito fácil inventar histórias com as cartas. As pessoas inventaram e imaginaram jogos e mais jogos que se podiam fazer com as cartas.

Então o menino perguntou quando é que iam jogar e como é que se jogava. A avó disse que iam começar por um jogo simples, mas era preciso conhecer os números e entender quais eram maiores e quais eram menores. O menino disse muito contente que já sabia os números até vinte.

E lá começaram a jogar, baralharam as cartas, deram quatro a cada um e deixaram o resto num montinho bem arranjado com as costas viradas para cima. E depois foi aprender as regras, quem jogava primeiro, que tinha que se jogar uma carta do mesmo naipe, perceber qual era a carta mais forte e que fazia ganhar. Num instante o jogo tinha terminado e o menino queria saber quem tinha ganho e pronto houve que contar para ver quem tinha conseguido o melhor resultado. Tinha sido o menino! Estava aos pulos de contente, queria jogar mais e mais. Jogaram muitos jogos, uns ganhou a avó, outros o menino. Quando perdia o menino ficava um pouco triste, mas a avó dizia-lhe que ele tinha era que jogar mais para aprender todos os truques e dizia-lhe também que quando se joga é sempre assim, umas vezes ganha-se, outras vezes perde-se.

A avó explicou ao menino que gostava dos jogos do baralho porque podem jogar-se em quase todos os sítios, porque as cartas ocupam pouco espaço e são fáceis de levar, não precisam de eletricidade, podem ser jogadas por crescidos, por pequenos e podem fazer-se jogos com pessoas de várias idades. O menino escutou a avó com atenção e disse que se calhar era por serem assim que os jogos de cartas já eram jogados há tanto tempo mas ainda eram divertidos.

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Num instante o tempo passou, e como estava um dia chuvoso escureceu cedo. Quando os pais chegaram a casa ao fim do dia ele perguntou logo se tinham vindo mais cedo. Eles disseram que não, que era a hora habitual. O menino disse logo a correr:

- Mãe, a avó gosta de jogar!

 O menino começou logo a falar sobre as cartas e os jogos com a avó e a pedir para jogarem todos depois do jantar. Os pais disseram que sim, claro, mas perguntaram se o menino conseguia contar as cartas e se já conhecia todas e ele todo contente disse que sim. O menino explicou que não sabia que a avó gostava de jogar e que sabia tantas coisas sobre as cartas. O menino disse que gostava de outros jogos, mas estes de que a avó gostava também eram muito divertidos e assim podiam jogar juntos.

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Nessa noite depois de adormecer o menino sonhou com os reis e as rainhas, os paus, as espadas, os ouros que todos queriam e disputavam e com os valetes de bom coração que acalmavam todos e pediam que houvesse paz. Quando a mãe o foi ver ao quarto ele sorria com ar sonhador e ela lembrou-se do dia em que a sua mãe lhe tinha ensinado a jogar e a divertir-se com as cartas. Tinha sido um momento bom e ela estava feliz que a sua mãe também tivesse contagiado o seu filho com a magia do baralho.

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17
Jan21

A nossa menina

Desafio da Abelha - Uma história para a foto em 200 palavras

Cristina Aveiro

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Oh, meu Deus! Estou tão feliz que quase rebento!

Deixa-me contar-te tudo. Estás feliz? Está tudo bem com o bébé, cresceu bem, tem tudo no sítio certo e a funcionar bem.

 Hoje vi o perfil, tem o narizinho arrebitado mais lindo do mundo. Os lábios são desenhados, a mãozinha estava a mexer perto da boca. Pena não teres conseguido chegar a tempo, mas vais saber tudo, tenho as fotos, e conto-te. Depois do perfil e da carinha mostraram uma zona e perguntaram o que eu estava a ver e se queria saber se era menino ou menina. Eu não sabia o que dizer, olhei e disse é um menino, vejo ali a pilinha. Sorriram e disseram divertidos, isso é o cordão umbilical. Mostraram de novo e disseram:  

- É uma menina!

Vamos ter uma menina, e é linda, linda. Apetece-me gritar a toda a cidade. É a menina mais linda do mundo. É nossa!

Como se vai chamar? Qual o nome da menina linda? Não achas que é linda? A carinha é redondinha e tão perfeita!

O pai feliz e tranquilo disse:

- Vai ter o nome que tu ouvires, porque ela já falou contigo e ainda não falou comigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

https://anadedeus.blogs.sapo.pt/a-historia-desta-foto-25411

16
Jan21

Bernardo vem para a cama!

Cristina Aveiro

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O Bernardo era um menino já crescido, que ia começar a aprender a ler e a escrever no fim daquelas férias de Verão. Era alegre, turbulento às vezes, mas era atento às pessoas, prestava atenção ao que sentiam.

Era Verão e tinham viajado durante horas para uma praia cheia de sol, com mar calmo onde iam ficar com os tios, as primas e a avó. Estavam todos numa casa grande perto da praia e todos os dias apanhavam um pequeno barco para irem para a praia. Os dias eram cheios de alegria, banhos no mar, brincadeiras com as primas e o irmão, mas também com os adultos porque nas férias todos tinham mais vontade de brincar. Naquela praia a areia tinham uma enorme quantidade de conchas, em especial de vieiras perfeitas de todos os tamanhos e de várias cores. Todos adoravam passear e apanhar as bonitas conchas.

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Num destes dias felizes de sol, mar e brincadeira o telefone do tio tocou e o Bernardo estava com ele. O Bernardo viu que o tio ficou triste e preocupado, com uma cara como ele nunca tinha visto. Então o tio explicou a todos que tinha acontecido uma coisa muito triste, a sua avó Antónia tinha morrido. O Bernardo sabia que a avó do tio já era muito velhinha, tinha mais de noventa anos, mas estava boa, não estava doente.

No dia seguinte o tio e a tia não estiveram na praia, viajaram para acompanhar a avó Antónia. Quando já muito tarde os tios regressaram à casa das férias, já a mãe do Bernardo estava lá em cima nos quartos a preparar-se para contar uma história às crianças antes de dormirem. O Gonçalo, assim que sentiu que os tios tinham chegado, desceu as escadas e veio juntar-se a eles na cozinha.

A mãe procurou-o e disse-lhe: Bernardo vem para a cama! Mas o Bernardo não foi e a mãe desceu para ver o que se passava.

O Bernardo sentou-se ao pé dos tios e perguntou com uma cara séria como tinham corrido as coisas com a avó Antónia. O tio respondeu que tinha corrido normalmente, que tinha sido feito o funeral e que agora a avó era uma estrelinha no céu. O menino ouviu com atenção e disse que não entendia uma coisa. Se no funeral o corpo é enterrado como consegue subir para o céu para ser uma estrela? O tio ficou um pouco perdido antes de responder e a avó do Bernardo disse, sabes só o nosso corpo é que fica sem vida, mas a nossa alma, o que nós sentimos, o que temos no coração, não desaparece. É a nossa alma que consegue subir até ao céu e assim fica lá como uma estrela a olhar por todos. O Bernardo escutou e ficou pensativo.

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A mãe do Bernardo chega à cozinha e diz-lhe de novo, Bernardo eu disse para vires para a cama… O menino respondeu calmamente que tinha que vir conversar com o tio para saber como ele estava. A mãe ficou enternecida com a atitude do seu menino e perguntou-lhe se agora já podia ir para a cama e o Bernardo disse que sim.

 

 

16
Jan21

Jeremias, o burro pensativo

Cristina Aveiro

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Era uma vez um burro chamado Jeremias que vivia numa quinta com muitos animais. Jeremias era muito estimado e respeitado pelo seu dono, podia dizer-se que eram companheiros. Ao contrário do que era costume lá na vila o dono tinha-lhe dado um nome. Jeremias dava grande importância a que não lhe chamasse apenas burro como acontecia a tantos burros que conhecia. Nas quintas havia sempre animais com nome, como os cães, os cavalos, os gatos, as cabras e as ovelhas, mas outros animais como as galinhas, os patos, os porcos ou os burros não tinham nomes. Parecia que havia animais que mereciam respeito e ser vistos como únicos pelos donos e outros não. Jeremias sentia, pois, orgulho por ter um nome, e em ser conhecido por todos na vila pelo seu nome e não apenas como o burro do seu dono.

 Ser burro trazia logo à partida um conjunto de dificuldades à sua vida. Todos achavam que era teimoso, que não conseguia aprender as coisas. Além disso, qualquer um que se aproximasse pensava que podia começar a mandar nele e a obrigá-lo fazer o que entendesse. Jeremias, como todos os burros, não confiava na primeira pessoa que chegasse perto dele, claro que se não confiava, fazia apenas o que a ele, Jeremias, parecia ser seguro e vantajoso. Os estranhos que tentavam mandar nele ficavam zangados e tentavam forçá-lo a fazer o que ele não queria, mas sem resultado. Jeremias não mostrava a sua zanga, nem perdia a paciência como faziam os seus primos cavalos, que começavam a mexer-se e se fosse preciso levantavam-se nas patas dianteiras e disparavam desatando a fugir. Jeremias não era dado a fugas, mesmo se viessem animais tentar atacar o rebanho quando ele estava por perto, ele nunca fugia, lutava, enfrentava-os e fazia-os ir embora. Este seu lado corajoso, de enfrentar os perigos e não fugir era pouco conhecido, apenas o seu dono e a família conheciam o seu heroísmo.

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Quando insistiam demasiado com ele, lá levantava e sacudia as patas traseiras em jeito de aviso, naquilo a que habitualmente chamam um coice, isso em geral bastava para deixarem de o incomodar. Quando não bastava, então mostrava a sua enorme dentadura e fazia um arremedo de morder, tal como os seus parentes que viviam em liberdade, longe dos humanos, quando lutavam ou bulhavam uns com os outros. Os burros selvagens que viviam em grupo nunca tinham um chefe entre eles, cada um tinha que tomar as suas decisões e fazer as suas escolhas, não faziam como os cavalos que respeitavam o que eles achavam ser o mais sábio e todos lhe obedeciam.

Como Jeremias era muito paciente muitas pessoas gostavam de vir ter com ele e davam-lhe pancadinhas, ou pequenas palmadas, ou então mexiam-lhe no focinho, parecia que achavam que ele gostava, mas não podiam estar mais enganadas. O que ele gostava era que lhe esfregassem os pelos do pescoço, numa espécie de massagem como faziam os burros selvagens que roçavam os pescoços uns nos outros em sinal de carinho.

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Havia muitas pessoas que pensavam que ele era uma espécie de cavalo pequeno com orelhas enormes, pêlo mais crespo e desgrenhado e claro sem o porte elegante e a altivez do cavalo. Claro que se o achavam uma espécie de cavalo o tratavam como um cavalo, dando ordens e instruções e esperando que ele fizesse o que lhe mandavam… Não resultava, porque Jeremias só fazia o que achava seguro ou que era bom para ele, não se preocupava com a vontade das pessoas, excepto com a vontade do seu dono porque ele sabia pedir com cuidado e não o colocava em situações perigosas. Se o dono estivesse por perto e mostrasse que ele podia confiar num desconhecido, então Jeremias obedecia, mas continuava sempre atento para ver se o que queriam que fizesse era seguro.

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Como Jeremias era descendente de burros selvagens de África, ele contentava-se com pouca comida e pouca água, e a comida podia ser ervas quase secas e pouco apetecíveis para cavalos e outros animais, ele conseguia viver feliz com muito pouco. Não se pense que por ser mais pequeno que o cavalo tinha pouca força, pelo contrário, era muito robusto e musculado, não era dado a corridas, mas conseguia carregar muito, ou puxar carroças e arados. Para descobrir os melhores caminhos e trepar pela montanha não havia outro igual, havia até quem lhe chamasse engenheiro e topógrafo, tal era a sua mestria. Quando o dono fazia viagens muito longas com ele e adormecia no seu dorso no regresso a casa, nunca havia problema porque o Jeremias sabia sempre como voltar, não importava onde tivessem ido.

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Na vila havia um bando de gaiatos que gostava às vezes de o provocar e começavam a dizer-lhe:

- Olha o Jeremias, é burro todos os dias!

Depois riam e lá vinham ter com ele com aquela coisa das festas na cabeça e as pancadinhas que ele detestava. Mesmo assim, arreliado com o tratamento, ficava paciente e sem criar problemas. Se o dono os via e ouvia, lá começava a dizer-lhes com calma que se pensavam que estavam a ofender o burro, se queriam dizer que não conseguia aprender, ou que não sabia escolher o que era melhor para ele estavam enganados. Explicava que os burros são animais capazes de aprender durante toda a vida e que gostam de o fazer. O dono do Jeremias até gostava de perguntar aos miúdos se eles gostavam de aprender, e nem todos diziam que sim?!

Numa dessas vezes o dono do Jeremias convidou os pequenos para irem com ele e com o Jeremias ao moinho levar o trigo ao moleiro que gostava de chamar jerico e jumento ao Jeremias. E lá foram todos divertidos, um de cada vez nas costas do Jeremias. O dono lá foi ensinando como deviam fazer para tudo correr bem. Explicou-lhes como podiam dar “festinhas” ao Jeremias para que ele gostasse e ficasse contente com eles. Os meninos foram perguntando mil coisas, porque é que o Jeremias tinha bigodes, porque é que tinha pestanas tão grandes, porque é que a cauda parecia uma vassoura, porque é que o pêlo dele parecia sempre despenteado, … Ele lá ia explicando que o Jeremias precisava dos bigodes para se orientar como os gatos e os cães, que as pestanas eram para fazer sombra, … A dada altura, já cansado, disse que o pelo desordenado era para ter mais estilo desportivo, sim porque ele era um verdadeiro todo-o-terreno, não era frágil e preocupado com aparências como os cavalos.

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O dono do Jeremias também lhes explicou que mesmo quando estava doente, o Jeremias não se queixava, não gemia, o dono só conseguia perceber porque o Jeremias ficava um pouco menos ativo, menos alerta e interessado no que o rodeava, com menos vontade de investigar e cheirar tudo à sua volta. Os meninos acharam muito estranho que o burro ficasse quieto e inativo quando tinha dores, quando eles tinham dores queixavam-se e pediam ajuda, mas o dono explicou que não era assim que os burros faziam, eles eram estoicos. O que é isso, perguntaram as crianças. O dono do Jeremias disse que é sofrer em silêncio, sem mostrar a ninguém.

Ao fim do dia as crianças estavam encantadas com o Jeremias, tinham aprendido tanto, sentiram a sua paciência, doçura e bonomia. Aprenderam também que quando usavam a palavra burro tinham muitas ideias erradas sobre o animal e o que conseguia fazer. Os meninos passaram a respeitar os burros, em especial o Jeremias, e a admirar as suas capacidades.

O Jeremias por seu lado estava contente, tinha tido as crianças por perto e aprendera como cada um deles conseguia andar consigo e tinha recebido muitas esfregadelas no pescoço como tanto gostava.

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09
Jan21

Flecha Azul, o guarda-rios

Cristina Aveiro

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Era uma vez um rapazito que vivia numa velha azenha construída em pedra, com uma enorme roda de madeira que parecia estar suspensa sobre o rio. A sua vida girava em torno do rio, da azenha com o seu rodar infindável, cheia de ruídos constantes e com uma candência tranquilizadora, um pouco como o rio. Os sons do rio eram mais variados, podiam ser assustadores quando vinham as chuvas fortes e durante muitos dias, nessas alturas o rio parecia um trovão, um monstro indomável, terrível.

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O rapazito sentia medo do rio nesses dias, especialmente à noite quando tentava dormir. Imaginava que o rio levava a azenha e tudo o que lá havia rio abaixo até ao mar e por muito que o pai lhe dissesse que a azenha estava ali há séculos e que tinha sido sempre ocupada pela família ele não conseguia dormir nessas noites.  O rapazito gostava quando o som do rio era um doce restolhar nos seixos e o som da queda da água sobre a roda da azenha num caudal calmo e regular. No Verão o som do rio já não era tão bom de ouvir porque era fraco, quase só se escutava o fio da água na azenha, com pouca força e, adorava ficar sentado na margem do rio parado entre os juncos à espera, a ver se tinha a sorte de ver o flecha azul. A vida da família era sempre junto ao rio, onde a azenha, o moinho movido a água, era o sustento da família e moia os cereais para quase toda a aldeia.

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Para além da moagem dos cereais, também o peixe que apanhavam no rio era fundamental para alimentar a família. O moleiro desde cedo ensinou o rapazito a montar armadilhas para apanhar peixe e a andar pelas margens, silenciosamente e a ter muita paciência para saber esperar pelo momento certo.

Enquanto pescava passava imenso tempo parado, e em silêncio podia observar a vida dos animais que viviam no rio, conhecia-os e tentava entender o que faziam, como se alimentavam, onde descansavam, como criavam os filhos, … enfim tudo sobre a sua vida.

De todos os animais do rio era o Martim-pescador, ou guarda-rios o que mais o fascinava.  

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Um passarinho pequeno, com uma cabeça grande, um bico preto fino e longo, pescoço curto, com umas pernas pequenitas e quase sem cauda. Era rechonchudo, com a cabeça e o bico demasiado grandes para o pequeno corpo, mas tinha a plumagem mais bela e colorida que se podia encontrar naquele reino. As suas cores e o longo bico reto faziam lembrar o exótico beija-flor que vivia em reinos quentes e muito longínquos.

Nas suas costas as penas eram de um azul turquesa muito forte e luminoso, as asas e a cabeça estavam cobertas por penas brilhantes de um verde profundo e intenso, salpicadas pelo que pareciam estrelinhas, diamantes do azul turquesa das suas costas. A barriga volumosa e bem redondinha era coberta de lindas penas cor de mel, quase acobreado e para completar tinha debaixo de cada olho grande e negro uma pincelada desse tom mel, seguida de outra pincelada de penas brancas. Debaixo do bico e acima das penas da barriguinha também havia uma boa pincelada de penas brancas, como se fosse um pequeno babete. As suas curtas patas eram de um laranja forte com dois deditos para a frente e um para trás, que lhe permitiam agarrar-se fortemente aos ramos e a finas varas vibrantes junto à água, onde conseguia ficar pousado em equilíbrio perfeito.

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As gentes do reino ficavam fascinadas com as cores daquele passarito. A maioria dos pequenos pássaros do reino tinham cores acastanhadas, pretas, com algumas penas brancas e alguns com uma pincelada ou outra de cor, mas nada como o guarda-rios.

Quando o guarda-rios fazia o seu voo rasante junto à água entre as duas margens do rio era tão rápido como uma flecha das que usavam na caça, só que era uma flecha de um azul fulgurante. Daí que o pequeno guarda-rios fosse conhecido no reino por flecha azul em homenagem às suas cores e velocidade.

Havia um reino onde lhe chamavam o Diamante Voador por causa das pequenas estrelas em forma de diamante que tinha nas sua asas e cabeça.

As suas penas coloridas eram até exibidas nos chapéus para emprestar um pouco da sua cor às vestes sombrias das gentes do reino.

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Havia reinos distantes onde lhe chamavam Rei dos pescadores porque ele era incrivelmente eficaz, quando escolhia o peixinho que ia apanhar, fazia um voo rápido, um mergulho destemido nadando com as asas e zás, lá subia para fora da água com o peixe atravessado no bico. Os seus olhos são especiais, estando adaptados a ver com nitidez também debaixo de água. Depois pousava num ramo próximo e ia sacudindo o peixe e batendo contra o tronco até que este ficasse imóvel e então virava-o e engolia-o inteiro pelo lado da cabeça. Cada mergulho cada peixe. Ele comia muitos peixinhos por dia, tantos quanto o seu peso.

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O menino passava horas a ver o que fazia o casal de guarda-rios que vivia um pouco acima da azenha. Estavam sempre por ali. Todos os anos tinham três ou até quatro ninhadas de filhotes. Nunca paravam de tratar deles, ou a arranjar o ninho, que era bem difícil de construir, ou a apanhar comida para eles, ou a ensinar os filhotes a cuidarem da sua vida e a irem para outro lugar no rio.

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O ninho era o que mais intrigava o rapaz. Escavavam sempre um túnel enorme na parede barrenta e arenosa da margem do rio. O rapaz já tinha visto um que tinha sido desfeito pela água que tinha quase um metro de comprido. Era um trabalho de equipa escolher o sítio e ir arrastando para trás a terra para criar o túnel de passagem para a câmara onde mais tarde iam pôr e chocar os ovos.

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O menino quando chegava a casa ao fim do dia depois das suas pescarias no rio e de cumprir as tarefas na azenha gostava de contar o que tinha visto nas margens do rio, em especial tudo o que tinha visto os guarda-rios fazerem. Tentava descrever as cores e os voos impressionantes, mas não conseguia fazer os irmãos entenderem a beleza do que tinha visto. Apenas o pai, que também conhecia muito bem a vidas destes pássaros o ajudava às vezes a explicar melhor como era.

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O menino gostava de conseguir desenhar todas aquelas cores e até talvez mostrar como eles faziam aqueles movimentos, mas não sabia como podia fazer isso. Nada tinha para desenhar que não fosse uma tábua de madeira e uma pequena navalha para gravar, mas tudo o que fazia não era parecido com o que tinha visto e queria mostrar. O menino sonhava que ia conseguir um dia, mas enquanto não era capaz, levava os irmãos pela margem do rio, com muito cuidado e alerta porque o flecha-azul podia aparecer a qualquer momento. O menino ensinou todos os que conhecia, a olhar com atenção sempre que passavam na margem de um rio tranquilo, porque assim iam conseguir ver o flecha-azul de certeza.

E tu já viste o flecha-azul? Eu já o vi duas vezes e continuo sempre atenta porque gostava de o ver de novo, é pura magia! Ainda há hoje muitos meninos e meninas em todo o mundo que continuam a observar, a fotografar e filmar o guarda-rios porque não conseguem resistir à sua magia.

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Agradeço a cedencia das fotografias dos guarda-rios da autoria do contador de histórias visuais Sotéro José.

Podes ver devagarinho o nosso flecha-azul:

Este é um documentário que é o sonho de um menino que adorava ver o guarda-rios:

 

 

 

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