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Contos por contar

Contos por contar

31
Out20

O Morango do Mar gosta de brincar

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma anémona vermelha muito bonita que vivia numa praia perto de nós, agarrada a uma rocha, cheia de vida. Era um Morango-do-Mar porque quando estava feliz e mergulhada na água soltava os seus pequenos tentáculos que pareciam cabelos e estavam sempre a baloiçar ao sabor dos movimentos da água do mar.  As rochas onde o Morango-do-Mar vivia ficavam descobertas quando a maré ficava vazia e ficavam debaixo de água na maré cheia. Durante as mudanças da maré as ondas batiam nas rochas desfazendo-se em espuma branquinha, cheia de pequenas algas invisíveis que serviam de alimento a todos os habitantes desta zona fascinante da praia.

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Os morangos-do-mar preferiam as zonas mais baixas das rochas junto à areia e do lado oposto às ondas porque as ondas eram demasiado agitadas e as anémonas preferiam águas mais tranquilas. Quando a maré ficava muito vazia os morangos-do-mar recolhiam os seus tentáculos e encolhiam-se o mais que podiam, ficavam mesmo a parecer um morango já mole e gelatinoso com um buraco no meio. Bem havia uma grande diferença, as anémonas estavam muito bem agarradas à rocha e nada as fazia sair dali e os morangos ficavam pendurados nas plantas por uns finos fios verdes.

Nas rochas havia mexilhões azuis, tufos de percebes de todos os tamanhos, lapas grandes, pequenas, caranguejos pequeninos das rochas todos malhados que nem se conseguiam distinguir da rocha. As rochas tinham alfaces do mar agarradas do lado onde batiam as ondas, nas zonas mais afastadas e do lado oposto às ondas as algas eram diferentes, chamavam-lhes bodelha, eram de um verde-escuro, com uma espécie de dedos finos e curtos cheios com umas bolsinhas ocas cheias de ar que ficam a flutuar na maré cheia.

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Há muito tempo nestas rochas também havia outros animais que eram os burriés, os caracóis do mar que com as suas formas bem enroladas, pretas, castanhas e riscadas tornavam ainda mais perfeito aquele cantinho mágico das rochas da praia.

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Durante o verão vinham muitas pessoas brincar nas poças de água deixadas pela maré entre as rochas, vinham as famílias com as crianças e era vê-los a procurar os caranguejos, e tentar brincar com as franjinhas dos Morangos-do-Mar e a vê-las encolherem e desaparecerem dentro do corpo da anémona. Muitas pessoas tiravam fotografias e filmavam as poças cheias de vida que faziam as crianças sonhar com aventuras como as que viam nos desenhos animados. Às vezes vinham algumas pessoas com vontade a arrancar os percebes, ou os mexilhões, as lapas, enfim levavam embora alguns dos amigos do morango-do-mar, o que o deixava sempre triste. Felizmente nas rochas estavam sempre a nascer novos mexilhões, lapas e percebes e claro Morangos-do-Mar, alfaces e bodelhas que cresciam tranquilas durante o Inverno.

E tu já brincaste com os Morangos-do-Mar?

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Vê como o Marango-do-Mar brinca...

 

                         

22
Out20

Bocas, o caranguejo violinista

Cristina Aveiro

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Era uma vez um caranguejo que vivia na Ria Formosa numa parte plana da ria que ficava descoberta quando a maré ficava vazia. À medida que a água recuava, deixava à vista a areia escura, lodosa que dava comida a inúmeros animais, esta zona da ria estava cheia de tocas de caranguejos escavadas na areia. Era esta a casa do Bocas. Ele era um caranguejo violinista, não porque tocasse violino, mas porque ele tinha uma das suas pinças enorme, quase do tamanho do seu corpo que se mexie parecendo que estava a tocar violino sempre que pinça pequena se movia.

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Não pensem que esta pinça grande era perigosa ou que servia para ele se alimentar, esta pinça era muito importante para ele. Quando era pequeno não tinha a pinça especial, só depois de ser adulto é que ela ganhara tamanho e lhe permitia mostrar bem à distância que era um macho adulto, com a sua cor esbranquiçada que se via muito bem sobre a areia escura da ria. O Bocas fazia movimentos com a sua pinça especial que pareciam um músico a tocar violino quando queria fazer uma dança especial para atrair as suas namoradas. A pinça especial era também muito usada nas lutas com os outros machos para verem qual era o mais forte, isto é o que conseguia virar o outro ao contrário. Às vezes lutavam quando os dois queriam ficar com a mesma toca. Para se alimentar usava a pinça minúscula que era igual às das suas namoradas. Ele era rápido a retirar algas e outros petiscos do lodo numa atividade quase frenética.

O Bocas também se orgulhava muito dos seus olhos, eles tinham um mecanismo que permitia que subissem muito alto fora da carapaça, quase pareciam pousados numas antenas, para verem tudo à sua volta, mas também podiam ficar recolhidos para ele poder entrar nas suas tocas.

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Os caranguejos seus amigos eram de muitas cores, podiam ser cinzentos como ele, mas tinha amigos violeta escuro, vermelho escuro, laranja e até amarelo. Quando a maré estava vazia a areia ficava coberta com os caranguejos e as grandes pinças brancas sempre em movimento marcavam a toda a extensão da areia lodosa. Quando uma ave ou outro animal se aproxima eles fogem rapidamente e todos ao mesmo tempo para dentro das tocas, num movimento tão organizado que parece quase uma dança feita por todos.

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O Bocas estava sempre muito atento às aves que se aproximavam e também quando vinham uns gigantes com umas redes, ou uns sacos. Ele sabia que as aves podiam comer os caranguejos e eram temidas por todos. Quanto aos gigantes o que ele sabia é que eles eram muito cruéis, arrancavam as pinças especiais aos caranguejos e comiam-nas, depois mandavam os pobres caranguejos sem as pinças especiais de novo para a ria. O Bocas morria de pensar que lhe podia acontecer isso, a sua pinça era a sua arma, era afinal o que mostrava ao mundo que ele era um caranguejo adulto, forte, bonito, completo. Sem a sua pinça nunca mais ia ter namoradas. Sem a sua pinça os outros machos nem iam perceber o que é que ele era, seria uma fêmea, seria um jovem, como é que ele iria lutar pela sua toca. Como é que ele podia voltar a ser violinista?

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O Bocas sempre que via os gigantes aproximarem-se enfiava-se na toca, nem que ficasse com fome, nada o fazia sair. Quando a maré subia ficava um pouco mais descansado porque os gigantes só costumavam aparecer na maré vazia.

 

 

 

 

Perigos que o Caranguejo violinista enfrenta

https://www.publico.pt/2000/02/20/jornal/uma-vida-sexual-dificil-140211

 

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