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Contos por contar

Contos por contar

19
Jun20

A marta trepa que se farta

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma marta que não se penteava, não se calçava, não vestia vestidos nem usava chapéus. Era muito bonita, tinha uns olhos castanhos muito meigos que estavam sempre atentos a tudo o que se passava à sua volta. A marta adorava trepar às árvores, era rápida, não tinha nenhum medo, parecia que voava. Ia de árvore em árvore a toda a velocidade, era o que mais gostava de fazer.

Todos diziam sempre que tinha uma pele muito bonita, mas ela não achava que fosse nada de especial, era parecida com a da sua mãe e do seu pai. O que ela achava mais especial na sua pele era a mancha alaranjada que tinha na parte da frente do seu pescoço, quase parecia um cachecol, mas também todas as suas amigas tinham uma parecida.

A marta passava os dias a percorrer o pinhal e a floresta onde vivia, chegava a caminhar mais de vinte quilómetros num só dia. Nestes passeios tinha o cuidado de ir deixando umas gotinhas do seu perfume por onde ia passando para que todos soubessem que era por ali que tinha passado. Gostava também de procurar outros perfumes das suas amigas para ver por onde andavam a passear e para não pôr o seu perfume junto aos delas, senão ficava tudo misturado.

No verão aproveitava estes passeios para apanhar pequenos insectos e frutos do bosque, mas às vezes também apanhava pequenos ratos e esquilos. Gostava de procurar árvores esburacadas e espreitar para os buracos, muitas vezes entrava por eles dentro e dormia uma sesta.

Havia uma zona do bosque de que a marta gostava especialmente porque tinha pinheiros enormes, muito velhos e tinham também muitos carvalhos. Aqui o bosque era tão denso que debaixo das árvores nem chegava o sol. Era o seu lugar favorito no bosque. Mas no ano anterior tinha havido um fogo enorme que destruíra todas as árvores e tinha obrigado todos os animais a fugir do calor, das chamas, daquele som terrível de tudo a arder e a estalar furiosamente. Nem se queria lembrar! Fora o momento mais assustador da sua vida. Agora a marta já não ia a essa zona porque era tudo cinzento, sem vida, e faziam-na lembrar-se do fogo. Já começavam a aparecer umas ervinhas e até algumas flores, mas até voltar a haver árvores ia demorar muito, muito tempo.

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Por algum motivo que desconhecia tinham-lhe dito que era um mamífero, tal como tantos outros animais. Na verdade agora que pensava melhor tinham dito que era por se alimentar do leite da mãe quando era muito pequenina, sim era isso. Mas a marta não tinha gostado muito daquele nome. Tinham-lhe dito que todos os mamíferos tinham pelos, e isso era coisa que não faltava à marta, por isso devia mesmo ser um mamífero.

Um destes dias tinha-se aventurado até uma estrada que passava pelo meio do bosque e quando menos esperava apareceu um carro a toda a velocidade e por muito pouco não lhe tinha batido. Que medo! Fazia tanto barulho e ia tão depressa. Será que não a tinham visto? Afinal era adulta, tinha perto de meio metro quando se erguia nas patas traseiras…

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Ficou decidido, nunca mais ia para perto da estrada, era pena porque gostava daquela parte do bosque, mas era demasiado perigoso. Decidiu que ia avisar as suas amigas para não irem para aquelas paragens. A ela nunca lhe tinham falado nos carros, mas as martas tinham que os evitar. A mãe já lhe tinha falado sobre outros perigos, mas nunca daquele. Uma das coisas que a mãe sempre lhe tinha dito era para estar atenta às pegadas grandes das botas dos caçadores, por onde eles passavam o perigo aumentava. Avisara-a também das terríveis  armadilhas de ferro que eles deixavam na floresta para apanhar todo o tipo de animais, que se fossem pisadas se fechavam como uma boca de urso e já não se voltavam a abrir.

A mãe disse-lhe ainda que às vezes os caçadores faziam uma espécie de abrigos que pareciam mais confortáveis do que os buracos das árvores, mas que também se fechavam e era difícil escapar. Destes perigos a marta sabia fugir, mas da estrada e dos carros nunca tinha ouvido falar.

 A sua avó tinha-lhe dito que os caçadores eram terríveis e queriam apanhar as martas para usarem a sua pele para fazer casacos e os seus pelos sedosos para fazer pincéis delicados para pintar aguarelas. A marta quase nem conseguia acreditar, costumava dizer que para isso teriam de a apanhar. Não conseguia pensar que pudessem tirar uma vida para ficar com a pele, mas por outro lado sabia que a avó não lhe ia mentir. Uma coisa era certa tinha que se manter bem longe dos caçadores.

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Num dia de Inverno cheio de sol, a marta estava a deslizar de ramo em ramo pelas copas das árvores à procura de alguma comida, mas não encontrava nada e de tanto trepar acima e abaixo e saltar de ramo em ramo estava mesmo esfomeada. Ao longe viu numa clareira com sol um grupo de pessoas que estavam sentadas nas ervas numa manta a comer e a rir. De vez em quando o cão da família ladrava um pouco fazendo barulho e tentando mostrar que estava a ver a marta. A marta parou muito atenta a ver se o cão subia à árvore, mas ele continuava no chão a saltitar e a fazer barulho. As crianças da família começaram a prestar atenção ao cão e tentaram ver o que se passava.

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A marta continuava no cimo da árvore inquieta, mas curiosa. Aqueles não lhe pareciam os caçadores de que a mãe lhe falara, mas nunca se podia saber se eram ou não perigosos. Conseguia sentir o cheiro dos frutos que as crianças estavam a comer e a sua barriga ainda ficava com mais fome. O menino chegou junto ao cão e abraçou-o e perguntou-lhe para onde estava a olhar. Então o menino seguiu o olhar do cão e viu a marta e ficou todo contente. Disse logo à sua irmã:

- Marta, olha para o cimo da árvore, vês aquele bichinho peludo?

A menina olhava, olhava e finalmente conseguiu ver a marta, achou-a encantadora, fofinha e com um ar muito curioso. As crianças largaram os frutos que estavam a comer e foram a correr contar aos mais muito contentes e a perguntar que animal era aquele.marta bebe.jpg

Os pequenos frutos secos caíram mesmo junto ao pinheiro onde a marta estava e ela desceu velozmente tronco abaixo, apanhou um fruto e desatou a trepar novamente para o cimo da árvore. O pai viu o que tinha acontecido e disse às crianças para ficarem quietinhas e em silêncio na manta porque a marta devia descer de novo para ir buscar mais comida. E foi o que aconteceu. Entretanto o pai já tinha começado a filmar a marta na sua nova descida e estavam todos maravilhados a ver como o seu pelo era denso e sedoso, o corpo era magro e ágil parecia desenhado para vertiginosas corridas no cimo das árvores. Puderam ver de perto a bela mancha amarela no peito, o olhar vivo, as orelhas pequenas, as patinhas felpudas, estavam deslumbrados com a elegância e beleza da marta. Ficaram durante muito tempo a ver as viagens da marta a subir e descer o pinheiro para vir buscar mais frutos. Aos pouco a marta ficou mais tranquila e parecia que se tinha esquecido que eles estavam ali. Parou no chão tranquilamente, fez uns chiados e uns bufos, parecia que estava a falar. Depois levantou a sua cabeça e ficou em pé no chão, esticando-se muito bem, com os braços pendurados na frente do corpo rodou a cabeça para ver tudo à sua volta. Quase conseguia voltar a cabeça para trás sem voltar o corpo.

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Foi um momento mágico para toda a família ver de perto aquele animal elegante, curioso e que parecia tão macio que apetecia agarrar. Nunca se iam esquecer, estavam desejosos de contar aos amigos e mostrar o que tinham visto.

A marta depois de comer, ficou a observar aquelas pessoas que continuavam a não lhe parecer perigosas, manteve-se sempre ao longe para se sentir segura, era melhor manter as distâncias para evitar perigos. Estava cansada e bem-disposta por ter comido, desatou a correr para as árvores à procura de um abrigo para fazer uma soneca.

 

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A marta consegue fazer uns chiados e uns sussurros incríveis, queres ouvir? 

Não é fácil encontrar imagens de martas na sua vida. Vê como elas são gaciosas e rápidas.

 

 

 

 

 

 

 

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