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Contos por contar

Contos por contar

28
Jun20

Um passeio pelo centro da cidade

Cristina Aveiro

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Com o ritmo do fim de semana houve tempo para deambular pelas ruas da cidade e fiz o mesmo exercício de olhar para elas através da câmara do telemóvel. O olhar fica mais atento, nem sempre conseguimos a foto que imaginámos. Há uma inexplicavel teia de fios e sinais que assassinam qualquer postal que se pretenda... O tempo farrusco não ajudou, mas ainda há algumas imagens interessantes.

O clique foi o brinco-de-princesa enorme, florido, fantástico, acordou a câmara e já não parou.

Há uma evolução grande na antiga judiaria de Leiria, já não há só prédios em ruinas como dentes podres num sorriso. Há ainda muito a fazer, mas já se consegue antecipar um caminho e algum resultado. Se tudo estivesse recuperado, e com a recente descoberta do conceito de esplanada (por força da Covid), este seria um espaço muito procurado para passear e nos perdermos numa viagem até outros tempos ao nível da arquitetura e do urbanismo com uma linguagem digna de ser vista.

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26
Jun20

Os meus novos amigos!

Cristina Aveiro

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Quando a vida esteve em pausa, com todos fechados, eu não sabia mais o que fazer, como me ocupar. Já nem ler, nem ver televisão, cozinhar até à inconsciência, ... eram ocupações elegíveis. Alguém em boa hora me pediu para colaborar num projeto de Eco-Contos para serem lidos e apresentados em vídeo. Foi um desafio que eu abracei entusiasticamente, e que pode avançar porque ao contrário do costume eu tinha tempo.

Gosto dos meus novos amigos: a lontra Lola, a aranha Baganha, o pririlampo perdido, a marta trepa que se farta, a raposa corajosa, a cegonha baralhada, ... e acredito que mais virão.

Escrever estes contos tem sido uma viagem rápida até a um mundo sonhado, mais perfeito, com a companhia das crianças que imagino a ouvir os Contos por Contar! Se calhar as crianças ainda não vieram, mas eu já estou feliz em antecipação.

 

 

 

 

 

 

 

 

26
Jun20

A Cegonha Baralhada

Cristina Aveiro

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Há muito, muito tempo, antes dos nossos avós terem nascido viveu um menino chamado Francisco numa quinta com muitos animais. Era um rapaz curioso que fazia muitas perguntas sobre tudo o que estava à sua volta. Na quinta havia muitas enxadas, podões, foices, gadanhas, ancinhos e um sem fim de instrumentos para cuidar da terra e das culturas. Também havia algumas maquinetas para atrelar às vacas e arar a terra, outra para debulhar o milho, uma prensa com uma pedra gigante a fazer peso no lagar para espremer as uvas da vindima. Enfim havia mil e uma coisas para descobrir todos os dias. Na quinta nunca havia dois dias iguais, em cada altura do ano havia tarefas diferentes como semear na primavera, colher os frutos no final da primavera ou no verão, vindimar no fim do verão, apanhar a azeitona, a castanha e as nozes no outono, … e nunca parava.

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O Francisco já sabia ler, escrever e fazer contas, tinha aprendido na escola. Ele gostava de ler sempre que encontrava algum jornal e os livros que havia lá em casa. Mas o Francisco já tinha lido todos os livros que havia em casa para a sua idade, e ele achava que eram muito poucos. Muitos dos seus amigos não tinham nenhum livro em casa senão os livros da escola, e muitos dos pais dos seus amigos nem sabiam ler como os pais do Francisco. A mãe do Francisco cuidava dos animais da quinta e organizava os produtos para vender no mercado na cidade todas as semanas. Francisco gostava muito de a ajudar nessas tarefas e estava sempre pronto para ir buscar os ovos com um cesto em verga, ir com um balde em madeira dar água e milho e trigo às galinhas, aos patos, aos perús, … Também gostava muito de ajudar a mãe a fazer os queijos com o leite das cabras e das ovelhas, era muito bom passar aquele tempo com a mãe enquanto espremiam a massa do queijo para dentro das forminhas pequenas de alumínio a que chamavam francelas. Francisco aproveitava estes momentos tranquilos com a mãe para lhe perguntar coisas que lhe tinham estado a bulir na cabeça como ele gostava de dizer.

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Num desses dias o Francisco decidiu perguntar de onde vinham os bébés porque o seu amigo Manuel tinha-lhe dito que ia chegar um bébé a casa dele para ele ter um irmão ou uma irmã. A mãe do Francisco deu-lhe a resposta que todos os pais nesses tempos davam aos seus filhos.

A mãe disse:

- O bébé vem de Paris num cesto pendurado no bico de uma cegonha!

O Francisco perguntou:

- Onde é Paris?

A mãe respondeu-lhe:

- Paris é a capital de França. É uma cidade muito, muito grande e muito longe daqui.

O Francisco ficou pensativo e parou de fazer perguntas por um bocado, o que a mãe estranhou.

Desde essa altura que o Francisco passou a olhar com muita atenção sempre que via uma cegonha e começou a tentar ver como viviam e construíam os seus ninhos. Felizmente havia um ninho de cegonhas no topo de uma chaminé de uma casa velha que já não era habitada junto ao regato da aldeia.

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O Francisco viu que durante o inverno o ninho estava vazio, mas quando estava mesmo a começar a primavera chegou uma cegonha, e algum tempo depois outra. Passavam o tempo todo a arranjar o ninho, iam buscar novos paus, colocavam ervas e palhas fofinhas no meio, arranjavam tudo muito bem com os seus longos bicos avermelhados. O Francisco também viu que elas, ao contrário das outras aves não cantavam. Mas não era por isso que não se faziam ouvir! Passavam muito tempo a mandar a cabeça para trás deixando cair o seu longo pescoço sobre as costas e ao mesmo tempo batiam com os seus bicos sem parar fazendo um barulho que parecia castanholas, bem ritmado e elas pareciam estar muito contentes.

O Francisco viu que tal como ele pensava não traziam no bico nada mais do que paus ou ervas e palhas, não acreditava que pudessem trazer cestos ou bébés. Mas então porque teria a sua mãe dito que elas traziam? Ele decidiu continuar a ver o que faziam as cegonhas porque podia haver alguma coisa que ele não tivesse visto bem.

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O tempo foi passando e o Francisco sempre que podia ia para o cimo de uma colina perto da casa com o ninho e ficava a olhar para as cegonhas. A dada altura uma delas deixou de andar por ali e ficava todo o tempo no ninho, era a outra que lhe trazia a comida. Passado algum tempo, lá estavam três cegonhas pequeninas no ninho. Eram tão engraçadas, muito desajeitadas com a sua penugem cinzenta e desde logo também batiam os seus pequenos bicos escuros e mandavam os pescoços e a cabeça para trás sobre as suas costas.

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A mãe notou que o Francisco pedia muitas vezes para ir dar um passeio até ao riacho e que se demorava no passeio. Quando a mãe lhe perguntou o que é que ele ia fazer nesses passeios e com quem ia, ele disse-lhe que andava a observar um casal de cegonhas que estavam no ninho da chaminé da casa velha. A mãe que conseguia adivinhar os seus pensamentos ficou a pensar que este interesse por aquelas aves devia vir da conversa que tinham tido sobre o bébé do seu amigo Manuel.

A mãe começou por perguntar ao Francisco como eram as cegonhas, o que faziam enquanto ele as tinha estado a ver, o que transportavam no bico, … E o menino falou da elegância das cegonhas, de como eram grandes, especialmente enquanto voavam com as asas bem abertas e o pescoço bem esticado e as patas, do cuidado com que preparam o ninho e das pequenas cegonhas que entretanto tinham nascido. O Francisco não teve coragem de dizer à mãe que não acreditava que a cegonha pudesse carregar com um bébé, mas os seus olhinhos diziam à mãe o que o estava a intrigar.

A mãe perguntou ao Francisco como tinham aparecido as cegonhas pequenas e ele disse que não tinha conseguido ver os ovos, mas que como elas eram aves, deviam ter posto ovos, até porque uma das cegonhas tinha estado muito tempo sempre no ninho tal como as galinhas quando ficavam a chocar os ovos antes de nascerem os pintainhos. E claro, os outros pássaros todos que o Francisco conhecia: os pombos, os melros, os pintassilgos, … faziam os ninhos e punham os ovos antes de nascerem os passarinhos, por isso com as cegonhas devia ser o mesmo. A mãe concordou com o Francisco e disse-lhe para ele observar bem a natureza porque ia encontrar muitas respostas.

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O Francisco ficou novamente a pensar no que a mãe lhe tinha dito e se era certo que os bébés das aves nasciam de ovos, também era certo que os de outros animais não. O Francisco sabia que nos outros animais, as mães ficavam com uma barriga muito grande antes de nascerem os seus filhos. Era assim com a gata, com a porca, a ovelha, na vaca não tinha bem a certeza porque a barriga dela era sempre grande, mas ele achava que sim. Depois de nascerem a barriga das mães voltava ao normal… Logo parecia muito claro, os bébés tinham que vir de lá.

O Francisco continuava a não perceber porque é que a mãe lhe tinha falado nas cegonhas, mas quando lhe disse para observar a natureza ela também lhe estava a dar uma pista para descobrir por si.

Continuou a ir ver a família da cegonhas sempre que tinha tempo livre e gostou muito de ver crescer os filhotes, de ver os pais a alimentarem-nos com peixes, rãs, insectos e minhocas. Pareciam que os pequenos nunca deixavam de ter fome. Estavam sempre prontos para comer. Aos poucos as pequenas aves começavam a tentar voar e estavam sempre a bater as asas como se estivessem a treinar.

Um dia ao final da tarde o Manuel chegou a correr a casa do Francisco e disse-lhe:

- Sabes, já chegou o bébé, mas afinal são dois! São dois meninos muito pequeninos, rosados e com o cabelo escuro.

O Francisco ficou muito feliz e abraçou o amigo, quis logo ir ver os irmãos do Manuel, mas não sabia se podia ir. Foi perguntar à mãe e ela disse que sim que podia, mas que ele tinha de pedir licença aos pais do Manuel. Lá foram os dois amigos muito contentes até à casa do Manuel. O Francisco pode ver os bébés e achou-os demasiado pequeninos mas muito bonitos.

Quando voltou para casa foi logo conversar com a mãe sobre os bébés e a alegria de todos na casa do Manuel.  O Francisco aproveitou este momento para fazer mais uma pergunta à mãe, embora ele já tivesse encontrado as suas respostas. Ele queria ver o que é que a cara e corpo da mãe lhe iam dizer quando ele fizesse a pergunta. Pois ele já previa que a mãe continuasse a falar-lhe da cegonha, mas ele também já sabia “ler” o que a cara da mãe dizia.

Então o Francisco disse:

- Mãe, a cegonha que foi à casa do Manuel devia ser muito baralhada, não achas?

A mãe manteve um ar sorridente e tranquilo e respondeu:

- Porque é que dizes isso? Tu viste a cegonha?

O Francisco respondeu:

- Não, não vi mas devia ser baralhada porque deixou dois bébés na casa do Manuel portanto deve haver outra casa onde estão à espera de um bébé e ela não vai ter nenhum para levar para lá!

A mãe continuou a sorrir, ficou em silêncio e abraçou o seu filho com muita ternura.  Sentia-se feliz com o seu menino, era inteligente, observador e mostrava já sentido de humor.

A mãe penso para consigo, pois sim, devia ser mesmo uma cegonha muito baralhada.

 

 

Para veres as cegonhas brancas e os seus filhotes, vê este vídeo!

 

25
Jun20

O passeio de todos os dias

Cristina Aveiro

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Às vezes por estarmos habituados às coisas belas que nos rodeiam, os nossos olhos e o nosso sentir ficam cegos a essa beleza.

Hoje, num dia cinzento de verão com morrinha usei o telemóvel para me ajudar a ver a beleza do rio, da ponde ondulada como lhe chamo, da ponte açude, dos plátanos centenários, da mata do monte de São Miguel...

Sinto que agora vejo melhor como há tanta beleza a rodear-me. Espero ficar mais inspirada para  escrever a história que o meu sobrinho Francisco me pediu, sobre cegonhas!

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23
Jun20

A Raposa Corajosa

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma raposa vermelha que tinha acabado de ser mãe de três raposinhos pequeninos. A raposa e o pai dos raposinhos tinham preparado uma bela toca, às vezes chamava-lhe covil, antes dos raposinhos nascerem para poderem estar bem confortáveis. Primeiro procuraram um bom buraco numa colina para terem uma boa vista sobre tudo o que se passava à volta e poderem ver quem se aproximava. Escolheram um buraco grande junto à raiz de uma árvore velha muito grande.

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Escavaram o buraco e construíram uma toca muito comprida, nalgumas zonas tinha mais de dois metros de túnel. Escavaram também mais duas entradas para que nunca ficassem encurralados se algum intruso entrasse pela porta. Se algum animal viesse e não pudessem escapar por uma porta saiam por outro lado e ficavam a salvo.

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Normalmente as raposas não precisam de tocas, dormem bem enroscadinhas, cobertas com a sua cauda felpuda, escondidas debaixo de um arbusto ou de ervas densas durante todo o dia. Mas nesta altura do ano tudo tinha que ser especial, tinham que cuidar bem dos seus filhotes. Tudo começara no meio do inverno quando conhecera o seu companheiro, e no início da primavera tinham nascido os pequenotes.

Nos primeiros tempos era o pai que ia procurar e trazer comida porque a raposa nunca saía do covil. A raposa ficava o tempo todo a cuidar daquelas bolinhas de pelo macio e escuro que ainda não conseguiam ver, nem ouvir, nem tinham dentes e precisavam a todo o tempo do cuidado da mãe. Um mês depois de nascerem os raposinhos já começavam a andar e a explorar um pouco o terreno junto à entrada da toca e a mãe raposa e o pai durante a noite iam caçar e procurar comida para os seus filhotes. Os raposinhos só conseguiriam viver e caçar sozinhos no início do outono. Faltava ainda muito tempo para isso, até essa altura a raposa tinha que lhes ensinar tudo sobre como viver sozinho, afastar-se dos perigos, encontrar comida, enfim tudo o que uma raposa tinha que saber.

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A zona onde a família de raposas vivia era uma mata perto de quintas e da cidade. Antigamente a mata era muito maior, havia apenas uma quinta, e não havia casas, mas agora havia muitas casas com jardins, pessoas que às vezes vinham passear pela mata, traziam cães e nos jardins às vezes também andavam gatos a passear por ali. Quando a raposa via os cães ao longe na mata desatava a gritar e a ladrar para avisar as outras raposas e todas se afastavam.

Quando via os gatos e os cães ao longe escondida pelas ervas altas e pelos arbustos a raposa ficava intrigada, no corpo ela até era parecida com alguns cães, mas por outro lado, os seus olhos pareciam de um gato, tinham a pupila vertical e só ficava redonda quando andava no escuro, que era a maior parte do tempo. E mais, os seus olhos à noite brilhavam da mesma maneira que os dos gatos, devia ser porque também eles gostavam de andar no escuro.

A raposa era muito bonita, tinha um focinho pontiagudo que conseguia entrar em qualquer buraco que quisesse farejar, tinha uns bigodes enormes que eram verdadeiras antenas sempre a detetar o que se passava em volta, as orelhas eram triangulares, sempre levantadas e alerta. Os seus olhos cor de âmbar estavam na parte da frente do focinho, como os olhos das pessoas e dos gatos e não um de cada lado do focinho como os cães ou os esquilos. Por ter assim os olhos, conseguia ter uma visão muito alargada e podia ver em profundidade, medido as distâncias. Tinha um pelo muito bonito de um tom castanho avermelhado, com pelos brancos debaixo do pescoço, no peito e num tufo na ponta da sua grande, espessa e felpuda cauda. Nas pernas magras os pelos eram castanho escuros, tal como a maior parte dos pelos da cauda.

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À medida que os filhos iam crescendo era preciso levar-lhes cada vez mais comida e embora houvesse muitas larvas, bagas silvestres e pequenos ovos de aves, a raposa não estava a conseguir encontrar comida nas proximidades da toca em quantidade suficiente. A mãe raposa e o pai começaram a afastar-se cada vez mais da árvore grande onde estava a toca e começavam mesmo a sair da zona da mata. A mãe raposa começava a sair cada vez mais cedo, mesmo quando ainda havia luz ao final do dia, e só voltava quando já começava a despontar o dia. Quando se afastava mais da mata começava a ver as casas e os seus jardins, aproximava-se sempre devagar, em passos silenciosos, escutando com muita atenção. A raposa até conseguia ouvir as toupeiras e os ratos a escavarem e a caminharem nos seus pequenos túneis subterrâneos. Mesmo à distância conseguia sentir o cheiro muito apetecível que vinha do lado das casas. Estava muito tentada a aproximar-se mais, e ia observando e caminhando até estar mesmo na relva do jardim de uma casa de tijolos vermelhos. Escondida ao máximo nos arbustos olhava em todas a direcções, cheirava e escutava sempre alerta. Viu uns pedaços de carne numa taça e correu à pressa para os agarrar e fugiu para a sebe onde comeu. O que a raposa não viu foi um senhor já velhinho que a observava com toda a atenção a partir da janela. O senhor estava fascinado com a beleza da raposa, com a sua graciosidade nos movimentos e a sua atenção a tudo o que se passava à sua volta.

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A raposa voltou a aproximar-se devagarinho, sempre a cheirar e levou mais um pedaço de comida. O senhor abriu a porta da casa para o jardim devagar, com muito cuidado e saiu. A raposa afastou-se imediatamente para o fundo do jardim e como o senhor se mexeu um bocadinho ela desatou a correr para a mata muito assustada. Quando estava a chegar à toca viu um vulto estranho a mexer-se e desatou a ladrar e a gritar para avisar os seus raposinhos que de imediato começaram a chorar sem parar. Só quando entrou na toca e deu a comida que tinha trazido a família voltou a acalmar e pode descansar.

Nos dias seguintes a raposa continuou a ir até ao jardim da casa no final da tarde e lá encontrava sempre comida. Começou a habituar-se à presença do senhor velhinho e como ele nunca tinha sido ameaçador, ela começava a sentir-se mais segura naquele sítio. Bem, não se sentia segura, apenas sentia menos medo do que antes e só se aproximava mais para recolher a comida.

O senhor começou a fazer um som quando a raposa chegava, parecia que a estava a chamar e a raposa estranhamente começou a gostar daquele som.

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Houve uns dias em que encontrou comida na mata e não precisou de se afastar tanto nem de ir até às casas. O senhor continuou a ir ao jardim esperar pela raposa mas ela não aparecia e ele sentia a sua falta. Aquele encontro estava a tornar os seus dias mais felizes. Ele imaginava como seria a vida da raposa quando não estava ali. Pensava como ela era graciosa e tinha a coragem de se aproximar da casa e dele e nunca ela tinha sido ameaçadora ou perigosa, parecia sim que estava com medo e fome e que a comida era mesmo o que ela ali procurava. O senhor pensava que quando era criança e lhe contavam contos e fábulas as raposas eram sempre matreiras, traiçoeiras e em geral personagens de quem nos devíamos afastar. Esta raposa verdadeira parecia-lhe muito inteligente, curiosa, rápida a afastar-se de perigos, esforçada a procurar comida, o senhor achava que ela precisava de muita comida, mas ainda assim ela era muito magra. Claro que o senhor não podia saber que a raposa estava a levar comida para os seus raposinhos e que quando conseguia que sobrasse comida ela a guardava enterrada na despensa da toca.

Sempre que a raposa voltava ao jardim sabia que ia encontrar comida e também o senhor velhinho. Este encontro passou a fazer parte da maioria dos dias da raposa e do senhor velhinho. Quando chegou o inverno a raposa continuou a aparecer no jardim, com a mesma ânsia por comida de sempre e com cada vez menos receio do seu amigo.

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Ouve os sons que as raposas conseguem fazer.

Raposa a ir ao jardim pedir comida.

Raposas bébés!

 

 

20
Jun20

Quero um Cão!

Cristina Aveiro

Era uma vez uma menina pequenina chamada Matilde, tinha uma carinha redonda e fofa de pele branca e bochechas rosadinhas. A Matilde era muito alegre e divertida, gostava de brincar e de falar com toda a gente.

A Matilde tinha um sonho… queria ter um cão só seu. Ela queria muito ter um amigo especial que seria só dela e ela iria cuidar dele. Nos seus sonhos o seu cão seguia-a para todo o lado, fazia tudo o que ela queria e ia tornar as suas brincadeiras com os amigos ainda mais divertidas e animadas.

Na verdade a Matilde vivia numa bela casa junto ao rio da sua cidade, mas a casa era num prédio, não tinha quintal. Junto à casa da Matilde havia belos jardins e bons sítios para passear e explorar com os seus amigos e claro, nos seus sonhos, com o seu cão.

Outro sítio que a Matilde adorava era a casa da avó que tinha um belo quintal com horta, flores, uma casinha de madeira para brincar e baloiços.

Quando fazia anos ou estava para chegar o Natal e lhe perguntavam qual era a prenda que queria receber, a Matilde dizia: Um cão.

O primeiro cão que recebeu era um cão preto e branco, com patas com rodas e uma cauda que abanava. No nariz vermelho havia uma luz que piscava quando o cão andava. A Matilde gostou muito do presente que recebeu mas explicou a todos que não queria um cão de brincar, queria mesmo um cão a sério! Vivo! Pequenino para crescer com ela.

Os pais foram explicando que como viviam num prédio e a casa não tinha jardim não podiam ter um cão porque ele ia ficar triste fechado em casa quando todos saiam para ir para a escola ou para ir trabalhar. A Matilde ficava a pensar no que lhe tinham dito, mas… continuava a ter muita vontade de ter o seu cão.

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Fez anos de novo e voltou a ser Natal. Perguntavam sempre qual o presente que queria e continuava a responder a mesma coisa: Quero um cão!

Chegou o verão e passar alguns dias na praia. A Matilde, os pais e a irmã adoravam a areia fina e dourada e o mar. Eram dias felizes a sentir o cheirinho a ar puro do mar, a brincar na areia e tomar banhos. Davam grandes passeios e iam à biblioteca da praia ver os livros e ouvir histórias lidas pelo pai ou pela mãe.

Um dia estava na esplanada da biblioteca estava um senhor já velhinho, alto, grande, com belos olhos muito azuis cheios de brilho, um grande sorriso e um cão muito bonito. Os seus cabelos eram parecidos com o pelo do seu cão. O cão era pequeno, muito lindo com pelos brancos e olhar muito meigo. A Matilde ficou logo encantada e foi ter com o cão. Perguntou ao senhor se podia fazer festas e brincar com ele.

O senhor disse que podia brincar à vontade porque a Cookie não fazia mal a ninguém e adorava crianças. A cadelinha era encantadora e mesmo a irmã da Matilde que tinha medo de cães gostou dela.

Todos os dias, naquelas férias havia tempo de brincadeiras com a Cookie. Todos começaram a gostar da cadelinha, a admirar o seu bom comportamento, simpatia e elegância. Sim, a Cookie era vaidosa e andava sempre muito direita, de cabeça erguida, cauda levantada e a abanar levemente, com passos pequeninos e sempre ao mesmo ritmo.

No fim das férias os sonhos da Matilde continuavam, mas agora o seu sonho não era ter um cão, era ter um cão lindo e amigo como a Cookie.

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Ao voltar a casa e regressar à escola contou aos amigos e à professora sobre o cão que tinha conhecido no verão e explicou o quanto era bem comportado, bonito e meigo. Perguntou aos amigos se conheciam alguém que tivesse um cão como a Cookie, mas ninguém conhecia.

De novo a Matilde fez anos e pediu um cão como a Cookie mas não recebeu. A Matilde continuava a falar da Cookie e a mostrar às tias e aos tios como era bonita. Sem dizerem nada à Matilde todos começaram a procurar alguém que tivesse um cão assim.

Um dia, o tio Filipe encontrou uma senhora que tinha uma ninhada de cães pequeninos parecidos com a Cookie, mas não eram brancos, eram da cor do mel. Os pais e o tio combinaram e decidiram fazer uma grande surpresa à Matilde.

Nas férias de Natal, num dia muito frio de dezembro os pais levaram a Matilde a um passeio a um lugar onde ela nunca tinha ido. Não disseram o que iam fazer, e a Matilde pensou que iam simplesmente dar um passeio. Chegaram a uma casa velha junto a uma estação de comboio, subiram as escadas e bateram à porta. Quando a porta se abriu apareceu uma senhora, atrás dela o chão do pequeno hall de entrada estava coberto de … cães, grandes e pequenos bebés, todos a mexer e a tentar ver tudo, muito bonitos.

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A Matilde estava encantada com os cães e começou a imaginar como seria ter um daqueles lindos cães. Os seus olhos estavam a brilhar e a sua carinha redonda estava rosada só de pensar nisso.

Os pais disseram à Matilde que tinham vindo para levar um dos cães para casa para ser seu. A Matilde nem queria acreditar, tinha o coração a bater a toda a velocidade, tudo parecia um sonho, se calhar não tinha percebido bem… Então a senhora disse que a Matilde podia escolher o que mais gostasse. Foi tão difícil, eram todos lindos! Havia um com muito pelo preto e zonas de pelo cor de mel que ela adorou, mas havia também uma pequenina toda cor de mel só com uns pelinhos pretos na cauda e no focinho que era encantadora… e foi especial quando a menina a agarrou. Era uma bolinha de pelo que lhe cabia na mão, era tudo o que a Matilde tinha sonhado e nesse momento a Matilde soube que era aquela.

No regresso a casa a Matilde trouxe a sua pequena cadelinha ao colo. De vez em quando caiam-lhe lágrimas de alegria. Foi um momento que nunca mais ia esquecer, aquele ser pequenino e doce dependia agora de si.

Toda uma nova aventura começava para as duas, a Matilde tinha de cuidar, ensinar e amar a pequenina e estava radiante com o sonho tornado realidade.

A Matilde pensou, nem acredito! Agora tenho o meu cão! Ela é linda! Vamos viver muitas aventuras juntas ...

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19
Jun20

A Lontra Lola

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma lontra chamada Lola que vivia num rio chamado Lis. Era ainda jovem, só tinha um ano e meio, já só faltava meio ano para ser adulta! Sim, as lontras ficam adultas quando fazem dois anos e ela já sabia viver sozinha, sem precisar de ajuda da mãe.

Quando ela era muito pequenina, nem sequer sabia como andar na água, foi a sua mãe que lhe ensinou a nadar. Bem, nos primeiros tempos estava sempre na toca com as irmãs e irmãos, eram cinco e regalavam-se a mamar. A mãe tinha muita paciência e estava sempre a cuidar do seu pelo para ficar bem limpo.

Agora ela já sabia assobiar, chiar e guinchar. Era muito divertido porque assim conseguia que os seus irmãos a ouvissem e por vezes viessem nadar com ela. Gostava muito de nadar, era rápida e conseguia ficar muito tempo debaixo da água. Sempre que mergulhava, os seus ouvidos e as narinas fechavam-se, tal como a sua boca, assim não entrava água nenhuma para incomodar.

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A Lola estava muito orgulhosa das suas patas que eram mesmo especiais… tinham umas membranas entre os dedos que ajudavam a nadar a toda a velocidade.

O seu corpo era muito esguio, com uma bela cauda o que lhe permitia deslizar rapidamente pela água.

O seu pelo era também mesmo especial, tinha duas camadas. A camada mais junto à pele deixava-a sempre quentinha, mesmo na água gelada do Inverno. Tinha outra camada de pelo maior que era um verdadeiro impermeável e permitia que o seu corpo ficasse sempre seco, mesmo debaixo de água, parecia magia.

Durante o dia ela geralmente ficava na sua bela toca. Era um recanto na margem do rio com uma abertura no fundo que dava para entrar logo debaixo de água para o rio, e tinha também uma bela chaminé no topo para entrar o ar fresco. Todo o dia era aproveitado para …dormir! É verdade, durante a noite é que aproveitava para nadar, brincar com as suas amigas e mesmo procurar comida. Gostava muito de pequenos peixes do rio e como vivia junto da nascente onde as águas eram muito puras e cristalinas havia muitos peixes e plantas do rio.

Ela gostava de se passear pelo rio e de aprender com as lontras já muito velhinhas, as que já tinham 6 ou 8 anos. Do que ela mais gostava que lhe ensinassem era sobre sítios escondidos no rio e num lago que ficava muito longe, onde ela nunca tinha ido.

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Estava um dia cinzento e chovia muito, o rio começou a ficar com muita água, havia muito barulho da água a bater nas pedras a toda a velocidade. A Lola saiu da sua toca pela abertura debaixo da água e decidiu aproveitar para descer o rio e ver se chegava até ao grande lago de que falavam as lontras velhinhas.

De repente começou a amanhecer e Lola olhou à volta porque as águas estavam mais calmas. Era uma zona estranha, tinha pontes feitas de pedras, muitas casas e grandes construções com chaminés enormes. Como estava cansada aproximou-se de um regato estreito para procurar um abrigo. Assim que entrou no regato viu que a água era escura, tinha espuma e cheira muito mal. Lola nunca tinha visto nada assim. Procurou peixes porque já estava com fome, mas … não encontrou nem um. Começou a ficar maldisposta, com dor de barriga e de cabeça, sentia-se doente, sem forças e sem conseguir nadar. Parecia que tinha adormecido, não se lembrava de nada e viu que tinha voltado para o rio.

Lá a água era mais limpa, não tanto como na zona da nascente, mas ainda assim era boa para beber. Aqui já conseguia respirar, não havia mau cheiro, que alívio. Estava exausta e encontrou uma zona na margem aconchegada onde finalmente conseguiu deitar-se e dormir. Sim finalmente, já era dia há muito tempo e eram mais do que horas de ir dormir.

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Depois de dormir muito acordou já a noite estava bem escura e a Lua gorda, branca e bem redonda. Foi procurar algo para comer e ficou toda contente porque viu outra lontra ao longe. Nem queria acreditar, ele nadava super bem, Começou a aproximar-se e achou mesmo que ele era lindo e começou a guinchar baixinho para ver se ele a via. Então ele aproximou-se e disse que se chamava Leo. Ele desatou a fazer piruetas, e mostrou-lhe onde podiam ir pescar.

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O Leo tinha nascido num lago e gostava de subir rio acima de vez em quando. O seu sonho era ver a nascente do rio mas devia ser muito longe porque ainda nunca tinha conseguido lá chegar. A Lola quando o ouviu a falar da nascente disse-lhe que era lá que ela vivia. Contou-lhe como a água era limpa e cristalina e como à volta do rio havia arbustos, árvores e montes de pequenas ervas. Tudo era verde, não era como ali naquela zona do rio.

Estavam a Lola e o Leo a descançar e guinchar quando se aproximou um animal com uma rede e o Leo desatou a correr, mas a Lola ficou parada, cheia de medo.

O animal era um caçador que tinha visto os dois e os tinha achado  muito fofos e quis apanha-los. Só apanhou a Lola, e … levou-a para casa porque ia oferece-la à sua filha. A menina achou a Lola bonita, gosta de a ver correr no chão do seu quarto e a dormir durante o dia num cobertor. Duas vezes por dia dava-lhe peixe para a alimentar.

Rapidamente a menina ao olhar com atenção para os olhos da Lola viu que ela não era feliz na sua casa. A menina fica triste e tenta fazer coisas para a Lola estar mais contente, mas … nada resulta. A menina continua a tentar, põe a Lola na banheira a pensar que ela vai ficar feliz, mas os olha da Lola ficam ainda mais tristes e ela nem tenta nadar.

Neste momento a menina percebe que a sua casa não é a casa da Lola! A menina vai a correr chamar o pai. Diz ao pai que gosta muito, muito da Lola e que vai ter muita pena de não a ter, mas que o que quer é que a Lola seja feliz. Então a menina pede ao pai para irem juntos ao sítio onde o pai tinha apanhado a Lola para a deixarem ir em liberdade para a sua casa na natureza.

Quando a Lola se viu na margem do rio nem queria acreditar! Parece que tinha voltado a viver. Desatou a correr para a água, a chiar e a guinchar com esperança de encontrar o Leo para juntos irem para longe. Talvez para a nascente do rio ou para o lago grande. Não demorou muito a que o Leo chegasse ao pé da Lola e todos felizes desataram a nadar rumo à sua casa.

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Agora podes ouvir esta história!

                 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

19
Jun20

A Aranha Baganha

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma aranha que se chamava Baganha. A aranha Baganha tinha oito patas longas e um corpo pequenino e magrinho. Ela não tinha antenas como as borboletas e outros insectos, claro que não! As aranhas não são insectos, logo não têm antenas. A aranha Baganha passava o tempo a fazer obras maravilhosas, as suas teias. Nem sempre corria bem a sua tarefa, às vezes mal começava a prender os primeiros fios para criar a estrutura e… ups, lá vinha o vento, ou algum animal a passar e pronto. Caia tudo por terra.

A aranha Baganha vivia no jardim de uma casa muito grande, cheia de crianças pequenas que adoravam brincar no jardim. Estes meninos pequenos não gostavam dos trabalhos que a Baganha ia deixando por todo o jardim, as suas maravilhosas teias, ou os fios que também gostava de deixar quando descia das árvores ou das roseiras. Baganha gostava de tornar mais bonitos os cantos das janelas da casa que davam para o jardim e fazia bonitas teias que quase pareciam cortinados. Baganha gostava muito de ver como ficavam depois de cair uma chuva suave que deixava pequenas gotas nas teias e as tornavam bem visíveis para todos.

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Mas por algum motivo estranho todas as semanas ia uma senhora com uma grande vassoura e destruía todas as teias. Baganha que era uma orgulhosa tecedeira nessas alturas ficava toda agitada, não conseguia controlar as suas longas pernas, ficava cheia de tremedeira, tinha vontade de gritar e gritava mas parece que a senhora não ouvia nada do que ela dizia. Mas estranhamente, quando ela gritava as outras aranhas do jardim vinham para perto dela e ficavam a olhar com muito espanto do alto dos seus quatro olhos… Elas também já estavam habituadas a ver destruídas as suas belas teias e não sabiam o que fazer.

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Eram todas aranhas bondosas que gostavam de fazer em silêncio e meticulosamente as suas teias. Do seu corpo saia um fio finíssimo, branquinho, suave e elástico. O fio era muito resistente, mas também era flexível e conseguia ser muito comprido. Todas começavam por lançar os fios que faziam uma espécie de estrela, todos a partir do centro, em geral faziam estrelas com vinte pernas. A seguir começavam a andar à volta do centro prendendo o fio nas linhas das pernas da estrela e era aí nessa magia que cada aranha mostrava as suas artes e aquilo de que era capaz. Nunca havia duas teias iguais. Elas inventavam sempre novas formas e desenhos com os fios.

Quando as crianças andavam no jardim, às vezes gritavam com medo das aranhas, Baganha pensava que era por terem muitas pernas e talvez por andarem de uma forma desajeitada. Quase todas detestavam as teias e sempre que podiam passavam as mãos com força e rebentavam os fios e pronto, lá ficava tudo estragado. Havia um menino que era diferente, que gostava muito de ficar parado no jardim a ver os pequenos animais. Ele sentava-se com um caderninho e olhava com atenção a ver tudo o que se passava. De vez em quando desenhava os bichinhos e as suas casas.

 

Um dia o menino estava sentado junto a uma das janelas no jardim e viu a aranha Baganha que tinha começado a fazer uma bela teia quase redonda. Ela primeiro nem o viu, estava ocupada a tecer, mas ele aproximou-se mais e ela ficou totalmente parada, congelada, cheia de medo e de tremedeira. Baganha esperava o pior, ele estava tão perto que ela nunca conseguiria fugir… Baganha gritou a pedir ajuda às suas amigas do jardim e também a ver se assustava o menino. O menino continuou a olhar, mas não aconteceu nada. Baganha começou a acalmar! Até tinha ficado com suores frios. Devia estar com péssimo aspeto, toda transpirada, logo ela que era vaidosa e gostava sempre de estar bem limpa e arranjada. Aos poucos Baganha foi acalmando e começou a ganhar coragem e decidiu que ia continuar a fazer a sua teia, que sabe, talvez o menino gostasse do que ela fazia. Baganha teceu com afinco e o menino continuou a vê-la e até começou a desenhar no seu caderninho.

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Já a tarde estava a chegar ao fim quando a mãe do menino o chamou para jantar. A mãe chegou ao pé do menino e perguntou-lhe o que estava a fazer e porque é que estava sozinho. Ele começou por dizer que estava a ver o que as aranhas faziam e como os outros meninos não gostavam de aranhas não queriam estar ali. Então ele mostrou à mãe a bonita teia que a aranha Baganha tinha estado a fazer durante a tarde e mostrou também o seu desenho que tinha a teia muito bem desenhada e a aranha Baganha deitada, repinpada, no centro da sua teia. A mãe disse-lhe que o desenho estava muito bonito e que devia mostra-lo às outras crianças. O menino disse também que os outros meninos não deviam ter medo das aranhas porque elas quando os viam tentavam apenas fugir e nem se aproximavam deles, só queriam ir à sua vida.

A mãe concordou com o menino e disse-lhe que era assim com quase todos os outros animais, devemos vê-los e deixá-los ir à sua vida, eles não querem nada connosco.

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19
Jun20

O Pirilampo Perdido

Cristina Aveiro

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Era uma vez um pirilampo que ainda não era crescido, mas já não era pequenino. Vivia com os seus pais e irmãos e muitos outros pirilampos num bosque que tinha um ribeirinho e uma grande clareira de relva. Era um lugar bonito, de que as pessoas gostavam muito e que se chamava o Campo dos pirilampos. Nas noites quentes de verão faziam corridas de obstáculos e contornavam as árvores em voltas graciosas e por todo o lado se viam as suas luzes a acender e apagar. Já não havia muitos lugares assim, agora era difícil encontrar pirilampos…

O pirilampo andava muito contente na escola de voo com o professor Asas que era alegre e bem disposto e ensinava todos os pirilampos jovens a voar em segurança. Claro que os primeiros voos tinham sido ou com o pai e com a mãe, mas com o professor Asas e os colegas de escola faziam desafios muito mais complicados e voavam para sítios mais afastados do campo dos pirilampos.

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Agora que era um jovem já sabia alimentar-se sozinho procurando nas flores o néctar e o pólen que lhe davam muita energia para poder voar. Os seus pais ensinavam-lhe como beber sozinho a água do regato, como procurar comida e como encontrar abrigo para dormir durante o dia.

Para falar com os outros pirilampos usava a bela luz que tinham na cauda e as conversas dependiam do tempo que acendiam e apagavam as luzes, tal e qual como as pessoas quando fazem sons para conversar.

O pirilampo estava muito feliz com a sua barriguinha luminosa, era maior que a dos seus amigos e dava uma luz muito forte. Claro que tinha amigos com umas asas maiores e mais fortes que ele também gostaria de ter. O professor Asas tinha-lhe dito que cada um tem algumas coisas em que é mais forte e que ninguém é o mais forte em todas as coisas!

Um dia depois das aulas de voo e quando a noite estava a acabar e ele se preparava para ir dormir começou a ouvir um som forte que ele não conhecia e as árvores começaram a abanar muito… ele sentiu medo e tentou voar mais depressa, mas o vento empurrou-o muito depressa e para muito alto. Então ele tentou sempre ficar no ar e voou, voou, voou. Quando o vento acalmou ele pode parar numa árvore que não conhecia e começou a olhar em volta mas tudo o que via era novo. Não via mais nenhum pirilampo. Estava muito cansado, procurou um esconderijo e foi dormir.

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Assim que voltou a cair a noite o pirilampo começou a voar para tentar voltar para sua casa. Primeiro chegou a um lugar onde havia um grande lago como ele nunca tinha visto e ficou maravilhado a olhar para a água e viu que a sua luz aparecia na superfície do lago. Ficou fascinado, mas o que ele queria mesmo era voltar para casa.

Ao olhar para longe viu muitas luzes e pensou… ali há muitos pirilampos. Vou até lá.

Quando chegou perto das luzes achou estranho porque estavam sempre no mesmo lugar e não acendiam e apagavam… Afinal eram as luzes de uma cidade! Ele nunca tinha visto nada assim. Estava um pouco assustado e sentia-se perdido.

De repente ouviu um som estranho e pousou numas folhas para se esconder. Era uma menina, a Matilde, que ficou encantada por ver o pirilampo. Nunca tinha visto nenhum! Fez uma birra e quis levar o pirilampo para sua casa.

Apanhou-o com cuidado e guardou-o num frasco. Ao chegar ao quarto queria soltar o pirilampo, mas… ela tinha um animal estranho com  muito pelo e uma boca grande que estava a brincar e parecia querer comer o pirilampo. O animal não tinha nenhuma luz no seu corpo, apenas fazia um barulho muito estranho, nada como o som das asas ou das árvores. O som do animal parecia um grito como miau, miau e nunca mais parava.

A mãe da Matilde disse que não podiam ficar com o pirilampo, nem o podiam soltar no quarto. Explicou que o melhor era levarem-no para um campo que a mãe conhecia onde havia muitos pirilampos e aí é que o podiam soltar.

Vê como os pirilampos são bonitos a voar e a piscar!

Agora podes ouvir a história.

 

Publicado por Cristina Aveiro em Sábado, 13 de junho de 2020

 

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