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Contos por contar

Contos por contar

14
Abr21

Camarinhas são lágrimas de rainha!

#13 - Branco - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma princesa que desde muito pequena não mostrava gosto pelos luxos da corte, pelos vestidos ou pelos banquetes. A princesa era esguia, magra, tinha um lindo rosto de expressão bondosa e um porte elegante que emanava do seu interior e não das suas vestes. O rei seu pai quisera que a princesa fosse ensinada nas letras e na história do reino e do mundo, foi ensinada nas artes da diplomacia, foi educada para ser rainha, mas de uma forma muito invulgar. O seu pai dera à filha a mesma educação para o governo de um reino como se ela fosse um filho varão.

A princesa apreciava tudo o que aprendia, era muito culta e sabia que o seu pai tinha planos para a casar com um rei de um reino com o qual quisesse fortalecer alianças. A princesa gostava muito de meditar, rezar e jejuar e se pudesse escolher o seu destino iria para um convento onde pudesse dedicar-se aos mais pobres, doentes e desprotegidos. Conformada com o seu destino aos doze anos fez-se o seu casamento com um rei de um reino distante. O pai tinha-lhe dito que o seu noivo era um jovem rei, bem parecido e muito culto, que era dado às artes da música e da poesia.

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A jovem princesa fez a longa viagem na sua liteira. No primeiro encontro com o rei seu marido, no seu novo reino, de onde era a rainha, foi recebida em grande festa e desde logo o povo mostrou apreciar a sua jovem rainha.

A princesa, agora rainha, gostou do seu rei, era ruivo de cabelo farto, olhos azuis, rosto estreito que se abria num sorriso largo mostrando uns belos dentes. O rei não era muito alto, mas emanava uma aura de força e vigor de homem saudável e enérgico.

A rainha e o rei partilhavam o gosto pelas letras, pela música e tinham grandes planos para engrandecer o reino. O rei procurou o progresso criando feiras francas, uma bolsa para os mercadores, introduzindo culturas agrícolas, secando pântanos, criando explorações de minas, … A rainha procurou apoiar e tratar dos mendigos, doentes e desprotegidos, mas a rainha foi sempre lutando pela construção de albergues e hospitais para os mais desprotegidos. Nem sempre concordavam o rei e a rainha sobre estas obras de bem-fazer, mas a coragem e perseverança da rainha foram criando obra.

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A rainha sentia orgulho por o rei ter abolido o uso do latim nos documentos reais e estes passarem a usar a língua falada no reino. Para a rainha esta era uma forma de o poder real criar uma identidade forte do reino, valorizando a língua que era única e compreensível pelas gentes.

O rei era muito dado a festas, cantares e dançares e outros folgares. Antes do casamento tinha já três filhos que a rainha acolheu aos seus cuidados como era habitual acontecer nas famílias reais. Os hábitos de vida da rainha eram de simplicidade, recato, jejuns. A rainha não apreciava os banquetes reais, sempre fartos em carnes das caçadas do seu rei. Talvez estes seus hábitos frugais fossem a causa das prolongadas ausências do rei no paço.

A rainha sentia saudade, dor e mesmo ciúme do seu rei que ela sabia ser folgazão e apaixonado pela beleza. Encantava-o a beleza das paisagens, do mar, do céu e das nuvens, e… a beleza das damas. O rei perdia-se por loiras, trigueiras, nobres, burguesas ou simples camponesas. A rainha sabia destas paixões e sofria com elas. Quando as suas aias trocavam aqueles olhares indiscretos e de pena a rainha logo sabia que algo de novo e intenso se passava.

Sempre que o rei estava no paço e não chegava à hora acostumada, a rainha por mais esforço que fizesse para se não notar, ficava inquieta, pensativa e nervosa.

Num desses dias a rainha deu ordens ao seu séquito uma ida ao pinhal que o rei lhe tinha oferecido no ido ano de 1300. A sua intuição levo-a um local rochoso junto ao mar que sabia ser das preferências do rei. Chegada perto do local, mandou parar o séquito e seguiu sozinha até ao lugar onde se encontrava o cavalo do seu rei. Perante a evidência da traição, os belos olhos da rainha deixavam sair lágrimas cristalinas, pelo rosto abaixo, perdendo-se sobre o mato.

Nessa zona do pinhal os pequenos arbustos cobriram-se de pérolas brancas redondas onde ficaram prezas as lágrimas da rainha. Com o tempo todo o pinhal passou a ter destes arbustos que no verão se cobriam e cobrem de pérolas brancas, em especial nas dunas mais próximas do mar. O povo do reino chamou-lhes camarinhas e elas continuam a crescer apenas nesse reino e nesse pinhal.

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Fotografia de Sofia Francisco

Texto no âmbito do #13 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Branco

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Este é o "novo último texto do desafio". Acredito que no futuro, de vez em quando vou encontrar novos lápis e vou pintar palavras de novo, pois este desafio ensinou-me como isso pode ser gratificante.

10
Abr21

A Princesa, o rei Rato e a Cigana

Cristina Aveiro

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Fotografia RTP

Era uma vez uma Princesa muito alta e magra, com uns olhos azuis muito pequenos e cabelos loiros longos com caracóis muito apertadinhos. A Princesa queria ser sempre a melhor em tudo, achava que sabia mais do que todos e não suportava que a contrariassem. A Princesa adorava passear no seu imponente cavalo branco que a fazia sentir-se ainda mais ufana da sua beleza e aumentava a sua altivez. A floresta do monte da Lua era um dos seus lugares preferidos, com as árvores centenárias, retorcidas e tão cerradas que de dia parecia quase noite tal era a densidade da floresta. Havia também enormes rochedos cobertos de musgo escuro erguidos aos céus que pareciam ter caído do cesto de um enorme gigante que andasse a fazer um muro no seu quintal.  Na floresta eram vulgares os mantos de neblina fechada que não deixavam ver nada senão a névoa branca e impediam as gentes de andarem. Num dia a Princesa galopava no seu passeio pela floresta quando o manto de neblina a apanhou e ela teve de parar e passar a andar lentamente a pé com o cavalo à rédea.

Andou, andou até que cansada se encostou ao abrigo de umas pedras com o cavalo e adormeceu.

Quando amanheceu, acordou com o barulho do som de cavalos de uma carruagem e depois com gritos de homens a lutar, um grande alarido e novamente cavalos a galope a fugir. A Princesa decidiu ir cautelosamente até ao lugar de onde vinham os barulhos. Esperou escondida a ver se não havia ninguém, viu a carruagem, mas os cavalos e os homens não estavam lá. Pensando que na carruagem podia haver comida foi até lá, abriu a porta e quase morreu de susto quando viu que no chão estava deitado como morto um enorme rato com ar majestático. O animal começou a abrir um olho, e depois outro e quando viu que era uma princesa e não os malfeitores que o tinham atacado e à sua comitiva levantou-se de um salto.

Apresentou-se de imediato à Princesa informando que era o rei Rato.  

O rei Rato era muito magro e tinha o rosto escuro e ressequido. Sobressaiam os seus olhos minúsculos muito escuros e encovados, bem como o seu nariz grande e adunco e os lábios tão finos que tornavam a boca quase numa linha no rosto. O rei Rato andava sempre vestido com um fraque preto, muito orgulhoso do seu porte direito e da sua elegância e majestade. O rei Rato sempre se tivera em grande conta, quer da sua graça e beleza, quer da sua suprema inteligência e sabedoria. Estivera sempre muito certo de que era irresistível e que conseguia sempre tudo o que queria. Ao rei Rato nunca lhe ocorrera que alguém pudesse pensar de outra forma. O rei era totalmente cego e surdo em relação aos que o rodeavam, nunca se preocupava com mais ninguém que não fosse ele próprio.

A Princesa olhou demoradamente para o rei Rato e pensou que não era companhia que escolhesse se houvesse outra, mas ia ter que ser, com ele tinha mais hipóteses de conseguir sair da floresta e regressar a casa. Conversaram um pouco e decidiram que iam rumo ao Norte, olhando com atenção para os troncos das árvores e vendo o lado onde o musgo era mais forte e verde. Tentaram conversar para ir passando o tempo, mas cada um só se interessava por o que dizia e não tinham vontade de se escutarem um ao outro, cada um tinha a certeza que estava certo e não escutava a opinião do outro. Felizmente ambos achavam que ir para Norte era boa ideia, senão teriam ido cada um para seu lado.

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Fotografia Net

Foram andando em silêncio, ou num diálogo de surdos debitando as suas vaidades e maravilhas pessoais sem que o outro prestasse atenção. Caminharam durante todo o dia e ao final do dia, quando começava a cair a noite viram um clarão de fogueira lá ao longe e ficaram os dois encantados. Se havia fogo havia gente, se havia gente havia comida e quem sabe um lugar para dormir. Quando chegaram perto foram com cuidado ver que lugar era aquele e quem lá estava. Podiam ser malfeitores ou inimigos. Ficaram admirados quando viram uma enorme tenda com uma fogueira alta no terreiro à frente.  De pé olhando a fogueira estava uma extraordinária mulher Cigana.

A Cigana era diferente de todas as outras, não tinha a pele morena, nem o cabelo ou os olhos escuros. Era alta, entroncada, com corpo de guerreiro viking, tinha enormes olhos azuis e uma farta cabeleira ruiva. Não podia dizer-se que era bela, mas era certamente vistosa, parecia que gostava de fazer questão de se fazer notada. As suas roupas eram muito coloridas e rebrilhava no ouro que usava ao pescoço e nos brincos. Estava a cantar alto com a sua voz nasalada e áspera.  Eles não sabiam, mas a Cigana estranha gostava de dizer a todos o que pensava e erguia a sua voz acima da dos demais para se fazer ouvir, adorava escutar-se e pensava que todos sentiam o mesmo.

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Fotografia Net

Passado algum tempo, a Princesa e o rei Rato decidiram avançar e ir ter com a Cigana esperando que ela os acolhesse. Quando os viu a Cigana gritou-lhes perguntando de onde é que tinham vindo e o que é que queriam dali. A Princesa e o rei Rato lá explicaram com calma o que tinha acontecido e a Cigana foi dizendo que se fosse com ela teria conseguido regressar a casa mesmo com a névoa, que teria mandado todos os bandidos embora e por aí fora. Estavam ali três seres tão diferentes e tão parecidos, será que se conseguiriam entender?!

A Cigana tratou de lhes dar comida e abrigo naquela noite e acompanhou-os no dia seguinte para os ajudar a regressar às suas vidas. Durante a viagem, a floresta e os seus encantos mágicos começaram a aproximar a Cigana e o rei Rato, que aos poucos começaram a falar, e depois a rir e ao fim de dois dias parecia que se conheciam desde sempre e que gostavam das mesmas coisas.

Chegados ao fim da floresta, acompanharam a princesa ao seu castelo e o rei Rato e a Cigana seguiram para o palácio do rei Rato. Como a viagem tinha sido muito longa e o rei Rato não se queria separar da Cigana pediu-lhe que ficasse ali a descansar alguns dias. A Cigana começou por ficar uns tempos numa enorme tenda que o rei Rato mandou erguer nos jardins porque a Cigana se recusava a dormir no palácio. A corte do rei achava tudo aquilo muito estranho porque agora o rei parecia só querer saber das vontades da sua amada Cigana e eles nem conseguiam entender os seus usos e costumes e muito menos as suas roupas e joias.

Ao fim de algum tempo o rei Rato encheu-se de coragem e ajoelhou-se em frente à Cigana, pegou-lhe na mão e pediu-lhe que fosse a sua rainha e ficasse com ele para sempre.

A Cigana aceitou o pedido do rei Rato, celebraram um casamento que durou mais de duas semanas, a princesa foi a madrinha e viveram felizes para sempre na sua tenda no jardim do palácio.

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Fotografia Net

08
Abr21

Carta a uma Amiga

Desafio das Cartas do Correio

Cristina Aveiro

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Foto de Madomistours

 

Querida Paula,

 

Que saudades eu tenho de ti. Os quatro anos que vivemos juntas em Coimbra nos nossos vinte anos foram inesquecíveis. O desafio de viver fora da asa dos pais, a liberdade de explorar uma nova cidade, a alegria de trilhar um caminho novo a aprender, as certezas de quem tem 20 anos. Fomos tão próximas, aquela euforia dos namoricos que se foram transformando em namoros. A casa da D. Estrela, tão frágil e idosa quanto surda e carinhosa. Lembras-te de ela nos dizer meninas parece que anda por aí passarinho novo! E nós intrigadas como é que ela teria descoberto! Só quem tem 20 anos é que não sabe que quando há passarinho novo tudo brilha de outra forma e é fácil adivinhar a quem observa. Fomos felizes naquela casa da D. Estrela, lembro-me frequentemente dela. Cada uma de nós a namorar com o seu Jorge e mais tarde a casar com eles.

Não consigo compreender porque te afastaste de nós depois de te separares do Jorge com quem te casaste. Eu e o meu Jorge continuamos juntos e continuamos a gostar muito de ti. Como fomos os três inseparáveis nesses quatro anos. Sabes que tentei muitas vezes voltar ao teu contacto, mas nunca consegui. Talvez nos vejas como parte de uma fase da tua vida que queres esquecer. Ainda assim nós podíamos viver contigo novos momentos, criar novas memórias boas. Quando as pessoas se separam não é preciso dividirem os amigos que eram de ambos. Nós temos coração grande, onde cabem o ex-teu Jorge e tu, mas se tu me desses a hipótese de escolher entre os dois, eu escolhia-te a ti. Tu apagaste-nos do teu mundo sem sequer nos dar uma hipótese de contacto.

Quero muito que tudo te corra bem e desejo-te felicidades como sempre desejei. Tenho muita pena de não saber nada de ti e de me sentir morta para ti quando estou viva e bem viva e cheia de abraços para te dar.

Abraço-te em pensamento e dou-te os beijos que eu quiser porque a isso não consegues fugir.

Da tua sempre Amiga,

 

Cristina

 

Muito eu gostaria de enviar esta carta, mas não sei o endereço!

Texto no âmbito do desafio das cartas de correio lançado pela Célia no seu ...Raios de Sol .

08
Abr21

A Vida

Desafio da Abelha - texto sem uma única letra "e", no máximo 100 palavras

Cristina Aveiro

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Como cavalgar a vida subindo as ondas, suportando caminhos duros, continuando animado? Difícil!

A vida cruzada como um canal mirrado custoso não significa nada para mim.

Ambiciono alcançar a harmonia no caminho, morar na casa risonha, passar por rios límpidos tomando banhos nas águas cristalinas.

Sonho transportar amor, sorrisos, abraços, dar a todos os amigos ou não. Sonho guardar o coração puro, infantil, risonho.

Vou continuar a procurar o caminho mais risonho, mais solar!

Vou fugir do lado lunar!

Vou continuar a amar!

Vou continuar a procurar a luz!

 

Texto escrito no âmbito dos desafios da abelha - texto sem uma única letra "e", no máximo, em 100 palavras.

07
Abr21

Vamos fazer bolo de chocolate!

#12 - Castanho Escuro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina magra, pequena, de cara redonda e cabelo aos caracóis de um tom castanho dourado. A menina adorava fazer coisas em especial na cozinha, onde podia escolher as folhas do agrião para a sopa, descascar batatas (que ficavam às vezes ainda com um pouco de pele, mas não fazia mal, a mãe ajudava), cortar cogumelos, partir ovos, … Desde muito cedo que fazer aquelas coisas com a mãe era uma espécie de brincadeira com materiais diferentes. Quando a deixaram pela primeira vez usar a máquina para espremer as laranjas ficou radiante, todos disseram que o sumo estava mesmo bom e que devia ser por causa da cozinheira. Desde esse dia, se era para fazer sumo de laranja, era a menina que o fazia.

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Era véspera do aniversário do pai e a menina e a mãe estavam a pensar que bolo iam fazer. A menina disse:

- Vamos fazer bolo de chocolate!

E a mãe perguntou qual, afinal faziam vários bolos de chocolate e a menina disse aquele que só tem a casca e depois lá dentro é molho. A mãe sorriu e concordou porque era o bolo favorito do pai.

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Começou então o ritual de fazer bolos, a mesa branca da cozinha ia-se enchendo com o livro das receitas da mãe, a forma redonda com a mola que deixava sair o fundo, a balança de plástico branco que aguentava todos os trambolhões que ia dando e depois os ingredientes. A mãe lia a receita, a menina ainda não sabia ler mas escutava com muita atenção e no fim sabia o que era preciso e ia buscar ao armário: o açúcar, a tablete do chocolate especial dos bolos e a farinha. Os ovos e a manteiga a mãe tirava do frigorifico porque a menina não chegava lá.

 

Para fazer o bolo a mãe queria sempre que se untasse a forma e a menina gostava de o fazer. Quando a mãe lhe trouxe uma forma igual à grande, com mola e tudo, mas tão pequena que até parecia de brincar a menina ficou radiante. Vamos fazer dois bolos com a mesma massa, o grande e o pequenino como tu, o que achas? Perguntou a mãe. A menina ficou tão contente que nem conseguia falar, abanou a cabeça a concordar e sorria feliz como um pássaro.

Untadas as formas, foi pesar o açúcar, partir os ovos e pôr na batedeira e esperar até o ponteiro grande do relógio da cozinha chegar até onde a mãe disse. A menina estava sempre “com as anteninhas no ar” como a mãe lhe dizia e no momento certo avisou a mãe que era para terminar de bater. Enquanto esperavam partiram o chocolate e aqueceram com muito cuidado porque ele não gostava de calores rápidos. E que bom mexer o chocolate derretido até ficar suave no seu castanho brilhante, aquele cheiro quente e delicioso ia ficar gravado na memória da menina para sempre. Tinha sempre que meter o dedinho para provar o chocolate, a massa enquanto estava amarelo claro e depois de ficar castanha quando se juntava o chocolate derretido. As cozinheiras têm de provar o que vão cozinhando, senão pode não ficar bom! A menina já tinha dito à mãe que não sabia se gostava mais do bolo antes ou depois de ir ao forno.

O momento de verter a massa nas formas era sempre emocionante, será que ia caber, será que ia sobrar um bocadinho? Oh, como era delicioso rapar a taça do bolo e ficar toda lambuzada de castanho!

No forno voltava a brincadeira de tomar conta do ponteiro grande do relógio da cozinha e avisar a mãe quando chegava ao lugar que a mãe tinha dito. Aquele cheirinho a bolo a cozer, humm era mágico, fazia crescer água na boca como se fosse uma fonte.

E pronto lá estavam os dois bolos bonitos, frágeis porque lá dentro estava tudo mole, só foram para os seus pratos depois de terem arrefecido.

Como estavam bonitos!

A menina cresceu e ainda gosta muito de bolo de chocolate. Continua a fazer este bolo em momentos especiais!

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Texto no âmbito do #12 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Castanho Escuro

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Este é em princípio o último texto do desafio mas sempre que tiver vontade de pintar palavras com um determinado lápis vou voltar a este desafio que me trouxe muitas alegrias neste 2.º confinamento. Sinto que somos o Grupo dos Lápis de Cor para sempre e pronto!

 

03
Abr21

Os três coelhinhos castanhos e os ovos da Páscoa

Os coelhos da Aunt B's Sweets & Treats foram a minha inspiração. Agradeço as fotografias dos

Cristina Aveiro

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Foto de Aunt B's Sweets & Treats

 

Era uma vez três coelhinhos que eram irmãos, viviam num enorme quintal que tinha uma horta, um jardim e uma casa lá bem ao fundo onde não se atreviam a chegar perto. Os três irmãos eram muito bonitos, de um tom castanho brilhante, com um belo pompom branco no rabiosque, grandes olhos castanhos e do que mais se orgulhavam era do cor-de-rosa das suas orelhas e do seu narizito.

A mãe tinha-lhes recomendado que ficassem pela zona junto ao bosque onde crescia boa erva e que nem pensassem em ir para a horta, para o jardim e muito menos que se aventurassem até à casa.

Aos poucos foram andando pela erva verdinha e nem notaram quando estavam mesmo ao lado da horta! Eles nunca tinham visto nada parecido, havia favas, couves, cenouras, alfaces, era um interminável festim de cores e aromas a que não conseguiam resistir.

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Fotos de Aunt B's Sweets & Treats

No dia seguinte aventuraram-se um pouco mais e foram logo para a horta, aos poucos começaram a aproximar-se da casa. Havia um grande grupo de crianças a brincar no jardim, umas levavam cestos e procuravam alguma coisa em todos os cantos, outros estavam a fazer uma corrida rolando ovos na relva e mandando-os para a frente com enormes colheres de pau.

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By The White House from Washington-DC

No telheiro da casa uma senhora ajudava as crianças a esvaziar ovos e a pintá-los de cores suaves, pareciam de flores. Iam levando os ovos aos meninos que estava à volta de uma árvore e pendurava os ovos coloridos e enfeitados, parecia mesmo uma árvore de Natal.

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Os três coelhinhos iam-se sempre aproximando um pouco mais, escondidos nos arbustos, cada vez estavam mais curiosos com toda aquela azáfama. Chegaram mais pessoas ao telheiro e houve abraços, beijos e risos, faziam muito barulho, mas parecia que estava tudo bem. As crianças começaram a ver o que havia nos cestos que tinham trazido e os três coelhinhos conseguiram esgueirar-se para uma das pontas do telheiro para verem tudo aquilo. Viram ovos castanhos de vários tamanhos que as crianças comiam com prazer. As crianças disseram muito alto: - Amêndoas! quando viram um cesto onde havia uma espécie de ovos pequeninos de muitas cores, alguns eram cor-de-rosa, azul-claro, branco, uns estavam embrulhados em prata brilhante de muitas cores, outros pareciam despenteados, aos biquinhos castanhos, havia uns brancos que pareciam ter agarrado pérolas de orvalho brancas e eram lindos.

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Drageias de Licor Confeitaria Arcádia      Amêndoa Coberta de Torre de Moncorvo-CM     Amêndoa francesa

Numa cestinha de vime claro, envoltos em pano branquinho estavam uns bolos acastanhados brilhantes com um ovo cor de mel no cimo. As crianças vieram junto da cestinha, disseram que cheirava tão bem e perguntaram se podiam ver os folares. Os três coelhinhos não sabiam o que era, mas se eram folares deviam vir das flores por isso eram bons de certeza.

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Foto de Manuela Cruz (https://tertuliadesabores.blogs.sapo.pt)

Com tanta curiosidade os coelhos foram-se esquecendo de se esconder e um dos meninos viu-os e foi ter com eles!

Os coelhos ficaram com tanto medo que nem conseguiram fugir! O menino agarrou-os com muito cuidado, porque viu que eram ainda pequenos como ele, e levou-os para mostrar às outras crianças e à sua mãe. Estavam todos encantados com a beleza deles, o seu castanho luzidio, os pompons branquinhos, as orelhas e o narizito cor-de-rosa, eram mesmo muito bonitos, nunca tinham visto nenhuns assim. O menino perguntou se seriam estes os coelhos da Páscoa e a mãe disse que não sabia. O menino ficou pensativo e disse à mãe que gostava de ficar com eles. A mãe disse que como eram pequenos a mãe deles ia certamente ficar preocupada sem saber onde estariam.

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O menino voltou para o jardim e levou os coelhos até à horta e disse-lhes:

- Gostava muito que ficassem comigo, mas sei que o melhor para vocês é voltarem para a natureza para junto da vossa mãe. Voltem com cuidado para a vossa casa!

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Foto de Aunt B's Sweets & Treats

 

01
Abr21

Mãe são para ti!

#11 - Vermelho - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Mary Stevenson Cassatt "Poppies in a field"

Era uma vez uma menina pequenina de rosto redondo, faces rosadas, pele clara e quase sempre com um sorriso doce nos lábios que se chamava Leonor. Tinha longos cabelos castanho muito claro, quase louro que terminavam em caracóis largos e que a faziam sentir-se uma princesa. Era muito doce a menina, gostava muito de brincar e gostava muito de cuidar do pequeno jardim que era só dela no meio do quintal da avó. No jardim da Leonor havia roseiras pequenas que davam rosas também pequeninas de várias cores, cor-de-rosa claro, escuro, branco, amarelas e cor de laranja, parecia um jardim de brincar por ser tudo em ponto pequeno. A Leonor adorava as suas rosas e embora tivesse muita vontade de oferecer flores à mãe e à avó não tinha coragem de apanhar as suas rosas porque eram pequeninas, eram poucas e se as apanhasse o seu jardim deixava de estar florido e bonito.

A menina sabia regar, tirar as ervas, cobrir a terra com carrascas de pinheiro para manter a humidade, era uma verdadeira jardineira. Gostava muito do seu pequeno regador com crivo que fazia uma chuva fininha sobre as roseiras. Adorava o seu carrinho de mão de metal verde que usava para ajudar a avó quando apanhavam laranjas ou nozes, quando arrancavam ervas que tinham de ser levadas para o canto do quintal e para tudo o que fosse preciso transportar. A menina sentia-se crescida ao fazer as tarefas no jardim.

O jardim da avó era muito grande e tinha sempre muitas, muitas flores e a Leonor gostava de  as colher para fazer os seus raminhos e oferecer. Apanhar flores para oferecer à mãe e à avó era irresistível para a Leonor, ela adorava flores e adorava a mãe e a avó. Foram muitas as vezes que a avó agradeceu, mas a seguir lhe disse com doçura que esta ou aquela flor ainda não estavam prontas para apanhar, ou que tinha apanhado com o pé muito curto e que não se conseguia pôr em água na jarra. A avó ficava enternecida com o gesto da menina, mas ficava um pouco triste porque tal como a Leonor gostava de ver as flores brilhar no seu jardim.

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Quando iam passear pelo campo ou pelo pinhal para respirar o ar puro, caminhar, correr, sentir a liberdade e a carícia do sol morno, a menina não conseguia parar de apanhar flores. Gostava dos malmequeres do campo, dos pampilhos, dos lírios do vale, dos lírios do campo, da flor-arlequim e tantas outras flores que nem a mãe sabia o nome. Depois de colher, arranjava-as num raminho, com uns rabos-de-gato pelo meio e mais umas verduras a compor e chegava perto da mãe, estendia o braço e dizia:

- Mãe, são para ti!

A mãe abraçava-a e agradecia e ia dizendo que as flores eram felizes no campo e que iam durar pouco tempo em casa numa jarra. Ainda assim, a menina ficava contente por ver o seu raminho na jarra pequena da janela da cozinha durante um ou dois dias, sentia que o cheiro e a beleza do campo estavam ali na sua casa.

Num desses passeios, no início da primavera a menina encontrou uma zona do campo cheia de papoilas vermelhas e achou-as maravilhosas, pareciam ter saído de um desenho, não resistiu e apanhou tantas quantas lhe cabiam nas suas mãos pequeninas e correu para as dar à mãe. Quando chegou perto da mãe e estendeu as papoilas disse com rapidez, sei que não é muito boa ideia apanhar as flores, mas eu acho-as tão bonitas que quero muito vê-las na tua jarra na nossa cozinha. A menina notou que a mãe quando recebeu as flores e lhe deu um miminho não disse nada sobre ter colhido as flores, mas pensou que era por ela ter dito que já sabia o que a mãe pensava.

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Quando começaram a regressar da caminhada a menina viu que as belas papoilas tinham começado a murchar e quando chegaram a casa estavam todas mirradas e parecia que tinham passado muitos dias depois de serem colhidas. A mãe colocou-as cuidadosamente na jarra e a menina ficou a ver o que acontecia muito esperançada que as flores voltassem a “arrebitar”. As papoilas continuaram murchas e a menina ficou triste e disse à mãe que as papoilas só podiam estar no campo, que não eram para ter em casa.

A mãe disse à Leonor que no próximo ano iam semear papoilas no jardim da menina e que então, ela as podia ter perto de casa e ver sempre enquanto estavam em flor.

A Leonor ficou radiante e pensou que a sua mãe sabia sempre tudo!

 

Texto no âmbito do #11 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Vermelho

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

 

 

28
Mar21

O teu olhar

Cristina Aveiro

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Há 24 anos era sexta-feira Santa

Chegaste depois da espera habitual

Sentia que já te conhecia

No tempo da espera comecei a aprender-te

Mal podia esperar para levantar o resto do véu

Mal podia esperar para te comtemplar completa

E quando te vi pela primeira vez

Quando nos olhamos nos olhos

Quando senti o teu olhar de azul profundo

Atento, demorado, só meu

O mundo parou, não houve tempo

Naquele momento estava todo o tempo

Naquele momento não havia tempo

Aquele momento ficou para sempre

Guardei tudo

O teu olhar, o teu cheiro, o teu rosto

O teu corpo, todo o teu ser

Nesse momento passei definitivamente a

Estar incompleta no meu corpo

Mas nesse momento passei a ser maior

Nesse momento tudo mudou para sempre.

27
Mar21

Vamos ajudar

Cristina Aveiro

Casa Chainça.jpg

Era uma vez um menino que era traquinas, sempre pronto para a brincadeira, corridas e que adorava aprender sobre tudo o que estava à sua volta. Tanto gostava de saber algumas coisas que os professores ensinavam, como gostava de saber como as outras senhoras da escola faziam os seus trabalhos, como a cozinheira tratava de fazer a comida para toda a gente na escola, ou como o senhor que consertava tudo o que não funcionava arranjava as coisas. O menino também gostava de aprender com os outros rapazes lá da escola. Interessavam-no as coisas que os mais velhos faziam, em especial os que faziam coisas diferentes e de que os adultos não gostavam. Bem cedo aprendeu a subir para o telhado do pavilhão com os mais velhos, que se esgueiravam trepando a caleira controlando quem estava a tomar conta do recreio, ou fazendo e dizendo disparates na aula para que o pusessem de castigo fora da sala e assim pudesse andar a explorar todos os cantos do enorme jardim e campos da escola sem o incomodarem.

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Tinham ficado fascinado quando um dos seus amigos crescidos tinha sido mandado de castigo para a biblioteca fazer um trabalho e fazendo de conta que estava a procurar livros, tinha passado todo o tempo a trocar os livros de lugar nas prateleiras religiosamente ordenadas com os seus número e códigos. No final o seu amigo tinha ido embora como se nada tivesse acontecido. Claro que a bibliotecária quando viu a revolução e caos que por ali havia ficou totalmente transtornada, parece até que teve um chilique e teve de ser socorrida. O menino admirava a coragem e imaginação do amigo, mas nunca seria capaz de fazer uma coisa assim, ele gostava de arriscar e até às vezes arreliar um pouco, mas não gostava de magoar as pessoas e quando fazia asneiras, desobedecia ou arreliava os adultos, assumia sempre o que tinha feito, abria a sua cara morena num sorriso largo e prontamente pedia desculpa e tinha uma atitude respeitosa. Muitas vezes quando conversavam com ele e lhe pediam que não fizesse aquelas coisas e prometesse não repetir, ele com um olhar meio triste dizia que não podia prometer porque não ia conseguir cumprir.

Casebre.jpg

Desde muito cedo o menino se habituara a ter de cuidar de muitas coisas suas e do casebre imundo onde viviam e a que chamavam casa. A sua família era diferente da dos seus amigos, sabia que tinha um pai, mas nunca o tinha visto. Vivia com a mãe e com dois cães que guardavam a entrada do pátio da casa miserável. A mãe tinha muitas dificuldades de todo o tipo, não tinha um trabalho certo, ia trabalhando aqui e ali, cultivava algumas coisas num terreno ali perto, tinham meia dúzia de galinhas e pouco mais acontecia. Nunca corria muito bem o que a mãe fazia, parecia que estava sempre na Lua, esquecia-se de regar, ou de ir para o trabalho que tinha dito que ia fazer, não reparava que a casa estava suja e não a limpava ou arrumava e tudo isto tornava a vida do menino difícil. Como viviam numa aldeia e todos se conheciam, havia sempre alguém que ia ajudando, com comida, com roupas para o menino, com uma mobília que tornasse a casa menos desconfortável e até gostariam de fazer mais, como limpar ou organizar melhor as coisas, mas a mãe do menino não autorizava porque aos olhos dela as coisas estavam como deviam estar. As pessoas da aldeia também continuavam sempre a oferecer à mãe pequenos trabalhos para ela poder ir fazer e ganhar o suficiente para viver. Sabiam que muitas vezes a mãe não conseguia fazer um trabalho como devia ser, mas preferiam pagar-lhe pelo que ela conseguia fazer do que simplesmente dar-lhe dinheiro para ajudar.

Como o menino era muito, mas muito inteligente, pronto para participar em projetos práticos e tinha aquela atitude natural de cavalheiro de sorriso do coração todos o conheciam e gostavam muito dele. Na escola conheciam as dificuldades da sua família e tentaram sempre dar-lhe o que lhe pudesse faltar no seu berço, desde coisas a afetos, conversas, conselhos e um enorme carinho. O menino sentia-se feliz e acompanhado na aldeia como na escola.

Um dia os professores estavam a organizar uma campanha de recolha de alimentos para ajudar famílias com mais necessidades e pediram a todos os alunos que pudessem para trazer de casa um alimento que não se estragasse para a recolha. Nas aulas conversaram sobre as dificuldades de algumas famílias e tinham decidido: - Vamos ajudar! Os meninos levaram até um papel para casa para darem aos pais e falarem sobre o assunto.

O menino guardou o papel para si pois a sua mãe não sabia ler e ele nem tão pouco ia falar com ela sobre a campanha. Tratou de ir ao seu mealheiro onde guardava as moedas que lhe davam quando ajudava a fazer algum pequeno trabalho aos seus vizinhos e foi à mercearia da aldeia comprar um pacote de farinha. No dia seguinte levou-o para a escola e entregou à professora. Tinha sido o único menino a trazer o alimento e notou que a professora tinha ficado estranha quando ele lhe tinha entregado a farinha. O menino perguntou então, preocupado, se não era para trazer já e a professora sossegou-o e disse que sim que ele tinha feito muito bem e que agradecia.

Logo a seguir a professora disse que tinha que ir buscar giz e saiu rapidamente da sala. Assim que os alunos já não a podiam ver as lágrimas teimosas desceram pela cara abaixo. Como é que podia ser tão verdade o que sempre tinha ouvido “quem menos tem é quem mais dá a quem precisa”.

 

 

24
Mar21

Hoje vamos à maré, quem quer vir?

#10 - Verde Claro - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez um bando de primos que adorava estar na praia com a tia Amélia, que não tinha filhos e vivia numa casa só para ela. Aquela praia aninhada no Pinhal de Leiria tinha poucas casas, era ventosa e o mar estava bravo a maior parte do tempo, mas a criançada adorava estar lá. Havia dias em que iam fazer passeios e explorar o pinhal e havia sempre jogos e coisas para fazer, coisas simples como apanhar pinhas a ver quem consegui ter mais, procurar o lugar mais escondido no meio dos medronheiros altos e densos, subir a colina onde estava o posto de vigia dos fogos e ver se os deixavam subir. Nunca se cansavam de inventar coisas para fazer e a tia escutava aquelas vontades todas de gente pequenina e ia combinando, aceitando e rejeitando projetos conseguindo que o bando aceitasse as escolhas finais que eram da tia. A tia era mais fácil de convencer a fazer coisas diferentes do que os pais deles. Havia coisas que só podiam fazer sendo muitos e mesmo as ideias que iam tendo para brincar e fazer eram mais e melhores por estarem naquele lugar e por estarem todos juntos. Quando planeavam o que queria fazer falavam muito, às vezes discutirem de forma acalorada qual era a melhor coisa que podiam fazer no dia seguinte, mas isso só tornava tudo mais divertido.

Um dia de manhã bem cedo a tia disse: - Hoje vamos à maré, quem quer vir?

A criançada ficou logo a dizer que sim com entusiasmo. Alguns não sabiam o que era ir à maré, mas queriam ir na mesma. Todos sabiam que havia a maré cheia e a maré vazia, no fundo o mar encolhia e esticava todos os dias sempre ao mesmo ritmo. Eles preferiam quando a maré estava vazia porque podiam aventurar-se um pouco mais na água. Na maré cheia, mesmo nos raros dias de bandeira verde, apenas podiam molhar os pés porque o mar ainda que manso era grande, com ondas suaves mas muito gordas e ficava fundo, não era para gente pequena.

Vamo-nos despachar a vestir e tomar o pequeno-almoço, depois, cada um agarra no seu balde de praia e leva-o consigo e a tia leva o resto das coisas. No caminho da praia foram para a zona das rochas que estavam descobertas porque a maré estava bem vazia. Estava tão vazia que até se conseguia passar até à outra praia mais a Sul. Os miúdos estavam encantados com o que iam vendo. A tia explicou que iam apanhar os mariscos das rochas, mostrou-lhes os burriés, lapas, os mexilhões, percebes e todos podiam procurar outras coisas que lhes parecessem boas para apanhar. A tia disse que depois daquela pescaria iam fazer um enorme petisco e comer o que apanhassem. Algumas crianças fixaram-se em apanhar os burriés ficando fascinadas com a quantidade de cores que tinham, desde preto, castanho, riscados de branco, … Outras tentavam apanhar os percebes, era uma tarefa mais difícil, os maiores percebes cresciam nas fendas entre duas rochas ou então nas zonas mais baixas, virados de “cabeça” para baixo. Um dos primos ia saltitando de rocha em rocha, apanhando um pouco de tudo o que encontrava.

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Para apanhar as lapas era preciso a ajuda da tia porque tinham de usar uma navalha para as descolar da rocha. Afinal não é à toa que se diz “agarrado como uma lapa”.

Quando a maré começou a subir e todos já estavam a ficar cansados a tia disse que era hora de irem embora e assim foi. Antes de regressar a casa para guardar a pescaria sentaram-se na areia da praia com os seus baldes ao centro para todos verem as pescarias de cada um. Ficaram admirados com o cada um tinha apanhado. Mas havia um balde que deixou todos de boca aberta. Um dos pequenos tinha o balde cheio de alface do mar, linda no seu verde claro, viçoso e brilhante e ele estava muito orgulhoso.

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Os primos começaram a rir e a dizer que ele não tinha percebido nada! Aquilo não era pescaria nenhuma. O menino começou a ficar triste e foi dizendo que se ia haver um petisco com coisas do mar também devia haver uma salada e ele tinha apanhado a alface para a salada. Todos riram ainda mais. Então a tia disse para pararem de ser mauzinhos, aquela não era a alface normal das saladas a que estavam habituados, era alface do mar, comestível e um bom alimento. Sentiam que tinham feito uma bela pescaria e, se a tia dizia que a alface do mar também ia brilhar no petisco é porque era verdade.

Ao chegar a casa foi toda uma azáfama a limpar os mariscos, a aprender como se cozinhava cada um e até mais tarde a aprender como se comiam. Sim, comer burriés tem que ser aprendido, não se percebe logo como se vai tirar o bichinho da concha.

Chegou a vez de lavar muito bem a alface do mar e todos estavam curiosos sobre como a iam comer. A tia explicou que quando tinha visitado os Açores tinha aprendido muitas maneiras de cozinhar aquelas alfaces e naquele dia elas iam entrar em muitos pratos, na sopa, na salada que ia acompanhar o jantar, numa bela omelete, num molho para barrar as torradas e um pouco para a caldeirada. Se houvesse mais até podiam usar para fazer uma sobremesa, mas hoje ia mesmo ser só fruta para a sobremesa! 

E tu alguma vez foste à maré? Alguma vez provaste os legumes do mar, as algas?

 

Texto no âmbito do #10 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Verde Claro

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

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