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Contos por contar

Contos por contar

31
Dez21

Avó, o Pai Natal já se foi embora?

Os nossos contos de Natal 2021

Cristina Aveiro

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Era véspera de Ano Novo e a Margarida brincava alegre na casa da avó Miló. A pequena Margarida adorava estar em casa da avó.  Lá ela era a única criança da casa, havia o Bolinhas que era um gatinho pequenino que tinha chegado há pouco tempo e a acompanhava nas brincadeiras.

A menina passava o tempo a brincar tranquilamente com os novos brinquedos que tinha recebido de presente no Natal. Naquela tarde solarenga, junto à varanda da sala, a menina parou de brincar e foi até junto da avó Miló e perguntou com muita curiosidade:

- Avó, o Pai Natal já se foi embora?

A avó Miló parou o que estava a fazer e olhou para a menina com atenção e sorriu. Calmamente pensou no que seria uma boa resposta, não querendo desfazer sonhos e alegrias.

Minha querida é claro que o Pai Natal ainda não se foi embora, apesar de já ter entregue os presentes às crianças há ainda muitas coisas que ele quer ver como estão a acontecer. Quer perceber se as crianças gostaram dos presentes que receberam, quer ter a certeza de que todas as crianças receberam alguns brinquedos, quer saber se todos fizeram a reciclagem das embalagens e dos embrulhos, …

Antes que a avó Miló pudesse continuar a pequena Margarida perguntou muito despachada:

- O Pai Natal quer saber da reciclagem? Ele já é muito velhinho e quando ele era pequeno de certeza que não se preocupavam com isso!

A avó sorridente e orgulhosa da sua pequenina foi-lhe dizendo que embora o Pai Natal seja velhinho ele continua a aprender coisas como todas as pessoas e também ele está preocupado com a reciclagem e agora já escolhe brinquedos que sejam mais resistentes, feitos em materiais amigos do planeta Terra. O Pai Natal também tinha decidido que não valia a pena dar a cada criança muitos, muitos brinquedos, bastavam poucos, mas que fossem importantes e de que as crianças gostassem muito.

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Nessa altura a avó levantou-se, foi a um armário envidraçado da sala e retirou um brinquedo de madeira. Mostrou o brinquedo à menina e explicou-lhe que aquele brinquedo tinha sido da sua mãe e que ela o adorava. Era um brinquedo feito em madeira, muito resistente e que se movia sem usar pilhas ou baterias, apenas baseado em coisas simples e que podemos sempre usar.

A menina segurou o brinquedo, mas insistiu de novo sobre o Pai Natal:

- Avó achas que conseguimos ver o Pai Natal agora, mesmo depois de ele já não estar sentado onde o costumávamos ver antes do Natal?

A avó disse à menina que pensava que sim. Pensava que agora ele não estava a usar as suas roupas vermelhas e usava roupas parecidas com as das pessoas. Quando fossem passear iam estar muito atentas e olhar para os senhores mais velhinhos, sorrir-lhes porque só assim podiam ver no olhar deles se eles seriam ou não o Pai Natal.

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A avó disse ainda que sempre que olhassem com carinho e sorrissem para um senhor mais velhinho ele ia sentir um calor no coração e isso ia-o fazer feliz. Mesmo que o senhor não fosse o Pai Natal, o Pai Natal ia saber daquele sorriso  e ia ficar muito contente.

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Foto: Marco Santos

 

Este texto foi criado desafio "Os nossos contos de Natal 2021" lançado pela  Imsilva do Pessoas e Coisas da Vida e em que participam muitos bloguers deste maravilhoso sapal.

25
Dez21

E foi Natal!

"Os nossos contos de Natal 2021"

Cristina Aveiro

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Naquele tempo viviam-se receios de um terrível micróbio que tinha mudado a forma de viver de todos em todo o mundo.

No estranho ano de 2020 todos tinham ficado fechados em casa durante largos períodos e quando chegou o Natal não foi possível juntar toda a família em casa dos avós. Tinha sido assim com todas as famílias e com todas as crianças. Durante todo o ano foram dizendo que com as vacinas, testes e outros medicamentos, no ano seguinte tudo ia voltar ao que fora antes. Mas 2021 continuou a ser um ano estranho, com muitas máscaras e cuidados, tempos de isolamento em casa devido a amigos, professores ou outras pessoas que tinham ficado doentes e para não espalhar a doença recolher em casa era a melhor forma de travar o micróbio.

Ainda assim durante o tempo quente houve menos doença, pode haver férias de praia e de mar, pode haver aniversários com toda a família junta, tudo parecia começar a ser um pouco como antes. Com a chegada do frio no final do outono e início do inverno tudo começou a ficar mais complicado, mas ainda assim os meninos continuaram a acreditar que o Natal ia ser com todos juntos como eles tanto gostavam.

Lá no alto, naquela casa alta, no oitavo andar de um prédio na cidade grande os dois irmãos estavam ansiosos pela chegada as férias de Natal.

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Durante as férias de Natal iam sempre passar uns dias a casa dos avós. Os avós viviam numa casa enorme, com salas, terraços, sótão, uma lareira com fogueira a sério, jardim e um quintal com árvores e animais. Aquela casa era um lugar onde os rapazes podiam viver com grande liberdade, podiam fazer barulho à vontade, trepar às árvores, construir casas com enormes caixotes de cartão no jardim, ir apanhar laranjas, tangerinas, limões, …

Gostavam de ir ao capoeiro das galinhas buscar os ovos ao ninho, claro que às vezes havia acidentes no transporte porque afinal os ovos não vinham naquelas embalagens do supermercado e eram muito frágeis, mas ninguém se zangava quando se partiam. Havia uma enorme quantidade de histórias em que quase todos já tinha tido os seus acidentes, deixado cair das mãos, do cestinho, ou então como uma vez a tia tinha feito quando era pequenina. Tinha muitos ovos e decidiu colocar no bolso do casaco e depois se esquecera, a seguir fora abrir a porta e encostara-se e todos os ovos que estavam no bolso se tinham partido dentro do bolso do casaco de tricot azul, tinha sido gemada por toda a roupa e cascas partidinhas no bolso durante bastante tempo apesar das lavagens sucessivas.

Os rapazes desejavam sempre não chovesse para poderem passar muito tempo no quintal e no jardim e andar de bicicleta à vontade nas ruas tranquilas perto da casa da avó.

Havia também a casa da tia e das primas que era bem perto e onde havia um sótão enorme cheio de brinquedos, um móvel enorme cheio de legos, jogos e um nunca mais acabar de coisas diferentes das que tinham na sua casa da cidade grande.

Aquela liberdade, os preparativos do Natal na casa da avó e claro a expectativa daquela confusão alegre da troca de prendas deixavam-nos ansiosos por ir.

Na última semana de aulas, tal como já tinha acontecido várias vezes naquele ano, um dos colegas da escola ficou infetado com o maldito Covid e novamente tiveram de ficar em isolamento em casa, sim, isso mesmo, ficar sem poder sair de casa durante muitos dias.

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Os rapazes ficaram muito tristes, mesmo desolados porque assim, tal como no estranho ano de 2020 todos iam ter de ficar em casa no Natal e não iam poder estar com as tias, os tios e as primas. Nunca tinham imaginado que fosse acontecer de novo, mas tinha acontecido.

Nos primeiros dias em casa até se divertiram bastante, continuavam a ter aulas e trabalhos de casa, mas sobrava muito mais tempo porque não tinham que andar nas enormes filas de transito da cidade do mês do Natal. Passavam mais tempo a brincar, a ler, a conversar com o pai e com a mãe, a brincar com a gata, … Estavam a ter dias muito tranquilos, mas quanto mais se aproximava o dia 24 mas difícil era lembrar que não iam para casa dos avós e que não iam passar o Natal com "toda a gente" como eles costumavam dizer.

No dia 24, depois de terem jantado ouviram tocar a campainha e ficaram todos admirados. A mãe foi abrir a porta devagarinho, mas não estava lá ninguém. Os rapazes e a gata também vieram logo ver o quem era e viram logo o enorme saco de serapilheira muito cheio e um monte de envelopes coloridos em cima do saco. Pareciam postais de Natal.

Foi uma alegria levar tudo para dentro de casa, começar e ler os postais e o que estava dentro do saco.

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Mal tinham levado tudo para junto da árvore de Natal e do presépio quando o telefone tocou. O pai atendeu e disse que tinham de vestir os casacos grossos e ir todos para a varanda.

Lá foram todos e começaram a olhar para baixo tal como o pai tinha dito.

Que surpresa!

Estavam lá todos, os avós, os tios e as tias, os primos e as primas e foi pura magia de Natal vê-los e ouvi-los a cantar: Feliz Natal, Feliz Natal, que seja um bom Natal para toodos nóós!

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Este texto foi criado desafio "Os nossos contos de Natal 2021" lançado pela  Imsilva do Pessoas e Coisas da Vida e em que participam muitos bloguers deste maravilhoso sapal.

16
Dez21

E hoje foi Natal

Coletânea dos Contos de Natal de 2020 dos blogs do nosso Sapal encantado

Cristina Aveiro

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Chegaram hoje os livros com os Contos de Natal que um grupo bem animado de sapos blogueiros escreveu no Natal 2020. Foi bom escrever, ler e ver aos poucos nascer este belo livro que junta estes contos companheiros de nascimento.

Fazer nascer o livro nunca seria possível sem o empenho do José da Xã, da Isabel e da  Olga Cardoso Silva que criou a bonita ilustração da capa.

Conhecer estas pessoas tão especiais foi um presente do estranho ano de 2020, das melhores coisas que me aconteceram nesse ano difícil. Sou muito grata por me sentir parte deste Sapal Encantado onde nascem coisas belas e que nos fazem sorrir.

Feliz Natal para todos!

 

Os blogs dos Autores

A Caracol   Para Sempre Totó   Alice Alfazema   Diário de Fuga    Busy as a Bee on a rainy day    Aqui Há Coração   Desabafamento   4Reizinhos   Livros de Cabeceira e Outras Histórias  Cheia  O Sítio do Corvo  Contos por Contar  Dona Redonda  Folhas de Luar  Pessoas e Coisas da Vida  Fugas do Meu tinteiro   José da Xã   Uma Pepita de Sucesso  Malik  Sabores da Minha Cozinha  Cantinho da Casa   Mar Azul   Educar(com)Vida  Livrologia  Cidade dos Leões  O Último Fecha a Porta   Oh Da Guarda Peixe Frito  Linhas Mestras    Crónicas Sílabas à Solta   Sarín    Por Detrás das Palavras   Classe à Parte   Notas à Margem

 

11
Dez21

Recordações do Pinheiro de Natal e do Presépio

Cristina Aveiro

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Quando chegava Dezembro e começava o Advento as crianças começavam a fazer planos para o presépio e para o pinheiro de Natal. Perguntavam quando é que iam ao pinhal escolher a árvore e apanhar o musgo para fazer o presépio e insistiam na esperança de apressar os pais. Os pais iam dizendo que ainda faltava muito tempo, mas as crianças estavam ansiosas por voltar a ver aqueles objetos mágicos que só estavam presentes naqueles poucos dias do ano.

Ir ao sótão buscar a caixa de cartão onde descansavam durante todo o ano as figuras do presépio, os enfeites, as fitas e luzes da árvore de Natal era um momento de imensa alegria. Tudo parecia novo e ainda mais bonito do que se lembravam. Aquela velha caixa encerrava pedacinhos da magia do Natal que se espalhavam e enchiam a casa assim que as crianças voltavam a ver o que estava lá dentro. Todos os anos pediam mais algumas figuras para o presépio e queriam ir ao mercado com os pais para verem o que havia de novo, talvez um pescador, um marceneiro, um anjo, ou mesmo outro pastor com ovelhinhas. Quando a mãe concordava em comprar mais uma e outra figura eles ficavam contentes, mas queriam sempre mais e ficava combinado: para o ano há mais, não podemos levar todas agora!

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Foto: Olhar Viana do Castelo

E finalmente chegava o dia de ir ao pinhal procurar um pinheiro jovem que tivesse nascido junto a outros e que não tivesse espaço para crescer bem. Procuravam também o que tivesse os ramos mais fartos e bem ordenados. A seguir iam com a enorme bacia procurar o musgo. À medida que iam andando pelo pinhal e pisavam a caruma e a terra fofa libertava-se um aroma puro a floresta, madeira e ervas silvestres que tornavam esta busca inesquecível. De repente viam um enorme arbusto de gisbardeira e pediam logo para apanhar uns belos ramos para pôr no presépio, ou para a jarra da sala.

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Mais à frente as cores de Natal voltavam a brilhar num enorme pilriteiro, repleto de bagas vermelhas a que as crianças chamavam peras do menino Jesus e as quais gostavam de comer. De novo queriam também levar para casa uns ramos deste arbusto para ajudar a trazer o ambiente natalício para casa. Quanto ao musgo era toda uma variedade, do mais envelhecido e compacto, ao mais viçoso e delicado, procurando variedade de cores e texturas. Quando a bacia ficava cheia, ainda queriam continuar a busca, parecia que não queriam que aquela tarefa feliz acabasse.

Em casa era uma azáfama a colocar o pinheiro num vaso, colocar pedras e areia para fazer peso. Começavam então a pendurar os bugalhos pintados de dourado, os sinos e as estrelas feitas de cartão grosso e embrulhadas nas pratas dos chocolates para brilharem festivamente. Penduravam também uns pequenos pais natais vestidos de vermelho em chocolate que eram uma verdadeira tentação, mas que não podiam comer senão a árvore ficava despida.

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Havia também umas grinaldas prateadas e douradas que as crianças adoravam. Costumavam também pôr bolinhas de algodão branco para parecer neve. Depois de tudo estar no seu lugar as crianças olhavam contentes para o seu pinheiro, mas ficavam sempre a pensar como o poderiam tornar perfeito como aqueles que apareciam nos postais, ou nos desenhos das histórias. Os pinheiros de Natal que enfeitavam eram sempre meio escangalhados com as braças muito espaçadas e erguidas ao céu, não tinham as braças simétricas a descer graciosamente como um véu como nas árvores de Natal perfeitas dos livros e da televisão. Sonhavam também com belas bolas de vidro vermelhas grandes e brilhantes e mesmo com luzes, mas isso eram sonhos. Afinal o pinheiro de Natal estava muito bonito e enchia a casa com o seu cheiro a resina e a chocolates.

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O presépio começava com o espalhar do musgo criando vales e montes, montando as pedras que encaixavam para formar a gruta do menino, traçando os caminhos com serradura, deixando correr os rios com as pratas dos chocolates guardadas ao longo do ano, pondo ramos e pinhas fechadas a fazer de árvores e florestas com neve, … e havia sempre novos planos e acrescentos. A alegria que era colocar as figuras, as casinhas, as pontes, a lavadeira, os pastores, o anjo e claro a magia dentro da gruta. Quantas vezes iriam ajeitar o menino, a Senhora e São José durante aqueles dias especiais em que a casa tinha o seu presépio. Nestas andanças havia sempre algumas figuras que não estariam no ano seguinte, mas a alegria de sentir e poder mexer no seu presépio era imensa e ficava para sempre.

As crianças cresceram, continuaram sempre a gostar de fazer o presépio e a árvore de Natal. Agora tinham árvores “perfeitas”, ideais para pendurar os enfeites, sem zonas peladas e vazias, mas estas árvores não tinham aquele cheiro a resina, a caruma verdinha como tinha a árvore de Natal da infância que afinal era imperfeitamente perfeita.

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08
Dez21

No Natal eu queria ...

Texto de Matilde Aveiro então com 8 anos

Cristina Aveiro

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Eu queria o amor de toda a gente dentro do coração, que não haja mais guerras, que não haja mais pessoas a morrer com doenças, dar casas a quem não tem, dar roupa a quem tem frio, abrigar os outros quando precisam, não ser egoísta, ser bom com os outros, fazer o bem, ajudar quem precisa, eram estas as minhas prendas de Natal. Tudo o que eu queria era isto, um Mundo bom, feliz, que não fosse cruel, o Mundo amigo que eu sonhava. Era bom que o meu sonho fosse realidade, eu quero ter um Mundo bom, puro, em que não haja guerras.

Era a minha melhor prenda de Natal, a melhor de todas as que já recebi na minha vida, adorava mesmo que isto fosse realidade.

 

PS- No meio das caixas das decorações de Natal tenho uma cópia deste texto da minha filha e quando fui montar a árvore veio-me de novo às mãos. Este ano decidi partilhar convosco este pedaço da infância da minha menina que me comove sempre como se fosse a primeira vez que o lesse. Estas também seriam as minhas prendas de Natal, talvez juntasse o fim da fome e da pobreza no Mundo, mas de alguma forma está implícito.

 

 

 

22
Out21

Afinal quem foi Artur Pastor? Como podemos não saber?

Centenário em 2022

Cristina Aveiro

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Se procurarmos quem são os maiores fotógrafos portugueses do século XX facilmente não nos aparece Artur Pastor… Como? 

Nas décadas de 50 e 60 retratou de forma poética, intensa, cheia de humanidade e respeito e a raiar a perfeição a vida das gentes simples e pobres dos meios urbano e rural. Houve espaço também para fixar imagens dos lugares com beleza e intensidade, mas tocam-me a alma as das gentes.

O “poeta da fotografia”, “o homem da Rolleiflex”, viveu num tempo em que a fotografia era vista como uma arte menor, ou mesmo como não sendo uma arte. Nas suas palavras “(…) no limite preto branco, extorquir beleza, materializar uma ideia, surgida de motivos simples, aparentemente desaparecidos e impessoais, é sem dúvida fazer Arte.» mostra estar muito à frente na forma de encarar a sua Arte.

Procurei compreender a razão do “apagamento” de Artur Pastor da história da fotografia portuguesa do século XX e só o posso compreender à luz da mesquinhez e falta de análise imparcial do seu trabalho e do contexto. Aparentemente tudo se explica por ser visto como um “fotógrafo do regime”. Da análise do seu trabalho nunca se observam patrões, pessoas “importantes” ou outro tipo de vinculação a causas do dito.

Artur Pastor fotografou o trabalho, a dureza da forma de viver das gentes simples, a pobreza sem miserabilismo, a beleza de um país parado no tempo.

Foi disruptivo, o seu estúdio era a rua, o campo, a praia, … Lutou por partilhar o “seu olhar”.

Sou grata por poder ver o que me contaram os meus avós e pais através das suas fotografias ímpares.

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Vale a pena ver as fotos que nos deixou, podemos espreitar aqui, ou ali, e em tantos sítios mais.

 

15
Set21

Gente da areia e do mar

1.ª semana do desafio Arte & Inspiração lançado pela Fátima Bento.

Cristina Aveiro

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Foto: Artur Pastor

O ar estava pesado e opressivo, as nuvens de trovoada carregavam o céu, mas o mar embora picado mostrava alguma indulgência e os homens decidiram ir ao mar. Já lá iam mais de quatro dias sem poderem fazer-se ao mar e começava a faltar sustento em algumas casas. Naquela terra de casas branquinhas todas as ruas se alinhavam com o promontório e desciam bem alinhadas direitinhas à praia e ao mar. Todos viviam do mar, do vento, do sol, da vida de trabalho duro baseada na lide daquele imenso ser a que todos tinham respeito. O mar era todo-poderoso, tudo dava e tudo levava! Oh! Quantas mulheres viúvas e quantos meninos sem pai. Aquela gente tinha-lhe respeito e sabia que as suas vidas estavam nas mãos daquele senhor de estranhas iras e acalmias, tempestades e bonanças!

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Foto: Artur Pastor

Lá saíram para o mar dali da praia, enfrentando as ondas a rebentar sobre o pequeno barco e todos, homens e mulheres, ajudavam a levar o barco até ao mar e empurravam-no no momento certo entre as ondas. Depois, depois era esperar. Sentadas na areia da praia, bem perto do mar as mulheres faziam a sua espera sem tirar os olhos do barco no mar, as suas bocas enchiam-se de orações devotas se chegava a aflição, ou então de conversas da espuma dos dias se o mar estava de bons humores. O bando de crianças andava pela praia a correr e brincar quando não pairavam nuvens de angústia ruidosa sobre as mães, tias, avós, vizinhas, …

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Foto: Artur Pastor

Naquele dia o mar foi crescendo à medida que o pequeno barco se afastava, as ondas foram-se agigantando, as nuvens deixaram cair chuva imensa que parecia fazer fumo tal era a sua fúria, o vento bufava furioso como um touro enraivecido e os corações das mulheres da praia mirravam perante o que os seus olhos viam. O bando de crianças e os homens da praia juntaram-se ao grupo das mulheres pousadas na areia, quais gaivotas em dia de tempestade. Com chuva ou sol era sempre assim, ninguém arredava pé enquanto “os nossos estavam no mar”.

O pequeno barco diminuía no meio das vagas enormes, espumando de branco, as mulheres ora o viam ora ele desaparecia e um murmúrio de desespero fazia o grupo tremer. Depois uma criança dizia “ali, ali, já estou a vê-lo” e havia um momento de alívio, para a seguir se repetir tudo de novo.

A espera durou horas e o tempo não amainava, a esperança e o desespero mantiveram as mãos dadas. Aos poucos o barco começou a voltar para a praia, devagar, com água a entrar e a sair, e os homens a lutar à força de remos e braços.

Todos sabiam que eles eram fortes e iam conseguir vir até ao bom porto, o medo que os atormentava agora era “sair do mar”. Com aquelas ondas iradas, nunca se sabiam o que ia acontecer, todos lá estariam para ajudar, mas só quando o barco estivesse na areia é que podiam de novo respirar com o peito todo e soltar os abraços da festa. Neste momento era o medo dos abraços da dor que os atormentava!

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Foto: Arquivo do Diário de Notícias

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Foto: Arquivo do Diário de Notícias

No desafio Arte & Inspiração da Fátima Bento, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca Em Flor,  ConchaCristina AveiroGorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJosé da XãJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas e Fátima Bento.

 

Para referencia, esta foi a obra que serviu de inspiração aos textos desta semana 

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"A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

14
Set21

Uma experiência triste

#9 - Desafio 30 dias de escrita da Ana de Deus

Cristina Aveiro

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Era Outubro e já há muito tempo que se falava nesse dia tão importante. Já era uma menina crescida e finalmente ia para a escola. Ia deixar os dias doces passados em casa com a mãe e a irmã pequenina com que tanto tinha sonhado. O desconhecido sempre a assustara! Apenas tinham passado por fora da escola enorme para onde ia, para lhe mostrarem como era, nunca tinha entrado lá dentro e tudo era grande e algo assustador.

Escutara com desmedida atenção o que os pais lhe tinham explicado que devia fazer. Ia ficar lá todo o dia, na sua sala com a Senhora Professora, almoçava, acompanhava sempre os meninos do seu grupo e a professora e quando acabassem as aulas lá pelas quatro horas ia apanhar “o autocarro” para regressar a casa. Não precisava de se preocupar porque bastava dar a senha ao Sr. Faustino e pedir para avisar que saía na Guimarota.

Pronto, estava tudo esclarecido era só fazer como lhe tinham dito! Foi difícil ficar na escola de manhã, não conhecia ninguém. Ao longo do dia tudo foi acontecendo de forma tranquila tal como os pais lhe tinham explicado.

No final das aulas, pelas quatro horas, a professora disse que podiam sair e que os meninos que iam para a carrinha deviam ir para o recreio de cima onde ela já estava (era um enorme autocarro azul e branco). A menina foi e observou, mas o pai tinha-lhe dito para ir no autocarro e a menina sabia bem que era o número três que ia para o seu destino, além do mais a carrinha claramente não era um autocarro, tinha forma e cores bem diferentes. Tratou de tentar procurar a paragem de autocarro que tinha visto junto à escola quando chegaram de manhã. Foi para a paragem, sentou-se e ficou à espera. Passou um autocarro, mas era da linha um e a menina não entrou, passou muito tempo e passou novo autocarro da linha um, e passaram mais uns tantos até que a menina desatou a chorar porque nunca mais passava o seu autocarro e ela estava cheia de vontade de ir para casa, para a sua mãe e certamente que já estavam preocupados por ela não estar a chegar à paragem onde a mãe estava à espera.

As pessoas da paragem começaram a tentar consolar a menina e a tentar perceber o que se passava e porque estava ali sozinha. No meio dos soluços e com pouca voz de tanto chorar lá foi explicando e alguém a levou de novo para dentro da escola e a entregou aos responsáveis. Consolaram a menina e disseram-lhe que devia ter ido na carrinha da escola, a tal azul e branca, mas para não se preocupar porque às sete horas a carrinha voltava a ir levar meninos de novo.

A menina estava inconsolável, não havia telefone em sua casa e não sabia como é que a sua mãe ia saber que só iria chegar às sete horas.

A mãe telefonou para a escola a perguntar pela menina e explicaram-lhe que tinha perdido a carrinha e que só iria na das sete horas.

Aquele tempo de espera foi interminável, tentava parar de chorar, mas só conseguia por pouco tempo.

Quando finalmente saiu da carrinha na sua paragem e pode abraçar a sua mãe é que o seu coração sossegou. Aquele primeiro dia de escola ficou-lhe gravado profundamente na memória.

 

 Texto escrito no âmbito do desafio 30 dias de escrita lançado pela Ana de Deus, e em que participam Ana de Deusbii yueJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioJosé da XãMaria Araújo  e eu.

 

 

13
Set21

Um ritual de passagem

#8 - Desafio 30 dias de escrita da Ana de Deus

Cristina Aveiro

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Na noite de consoada o cheiro das filhoses a fritar tem que encher a casa! Há um aconchego e uma magia da noite de Natal que este aroma traz e reforça.

A minha avó fritava filhoses nessa noite ao lume, num tacho de ferro em azeite. Eram filhoses de massa de farinha de trigo com abóbora cozida e que levedava num enorme alguidar de barro vidrado de verde. A massa era aconchegada e envolta numa manta junto ao calor suave. Depois, contava-me a minha mãe, à hora de fritar, o meu avô trazia a lenha cortada cuidadosamente para poder dar um “lume certinho” nem demasiado forte, nem que enfraquecesse facilmente. As crianças estavam ali com a mãe e passavam as filhoses ao de leve pelo açúcar com canela. Quando começavam a ficar cansadas a minha avó perguntava-lhes se queriam que lhes fizesse filhoses com formas especiais, “um galito”, “um pião”, … para os manter animados com a tarefa.

Quando eu era criança a minha mãe repetia em nossa casa o ritual de amassar e fritar as filhoses, já em óleo, num fogão a gás e num espesso tacho de alumínio. Eu adorava ver a massa ir levedar e ver como ficava no fim. Mais tarde começaram a surgir novas receitas, menos trabalhosas e eu comecei a participar mais ativamente. Após várias alterações ficou a receita datilografada como a versão oficial das filhoses. Foi datilografada por um bom amigo cuja esposa participou na afinação da receita (como sinto saudades da D. Ilda e do Sr. Silva).

Todos os Natais sou eu que faço as filhoses e frito enquanto outros vão tratando da ceia. Adoro fazer as filhoses no Natal!

 

 Texto escrito no âmbito do desafio 30 dias de escrita lançado pela Ana de Deus, e em que participam Ana de Deusbii yueJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioJosé da XãMaria Araújo  e eu.

 

 

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