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Contos por contar

Contos por contar

09
Nov22

A Princesa Pequenina

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma princesa muito bonita que deixava todos encantados no reino com a beleza dos seus olhos verdes que pareciam azuis e com os seus caracolinhos loiros. Tinha uma pele branquinha com bochechas rosadas e estava sempre a sorrir.

Como era a única filha do rei e da rainha iria ser ela que um dia iria governar o reino.

A menina ia crescendo e mantinha o seu sorriso alegre e luminoso e os seus caracóis foram crescendo e formando uma farta cabeleira que parecia uma chama amarela a saltitar por onde a menina passava. A menina adorava divertir-se e rir, todos conheciam as suas sonoras gargalhadas que eram contagiantes.

Os anos foram passando e a menina foi crescendo, mas continuava pequenina, já era quase adulta, mas continuava a ser baixinha, elegante e pouco corpulenta. As pessoas começavam a preocupar-se pois sendo ela assim franzina, será que seria suficientemente forte para tomar conta do reino? Os reis costumavam ser homens fortes e altos, e ela ia ser rainha e era baixinha e elegante.

A menina nada sabia destas preocupações porque ainda se ocupava apenas a aprender, a ler, a compreender as contas do reino, a escrever e explicar as suas ideias para grupos grandes de pessoas, enfim tudo aquilo que os crescidos têm de fazer, em especial se tiverem de tomar conta de um reino.

O que a menina mais gostava de fazer era vestir-se de forma simples, levar comida para o caminho e passar o dia a caminhar pelos vales e montes do reino. Com ela iam sempre as suas damas de companhia e alguns guardas. Quando a menina começou com estas caminhadas as damas e os guardas quase não conseguiam acompanhar o passo rápido da princesa, mas com o tempo todos se tornaram fortes e não havia caminho que lhes metesse medo. Não importava se subiam altas montanhas, se tinham de ir visitar grutas e buracas, se iam ver as nascentes dos rios, as cascatas, os lagos e diz-se que até foram junto ao mar. A princesa seguia sempre na frente cheia de entusiasmo com as descobertas que fazia.

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Aos poucos, no reino começou a saber-se que a princesa palmilhava todo o reino, conhecia aldeias e lugares e que mesmo as montanhas e vales sem gentes ela já tinha visitado. As gentes do reino admiravam-se por a princesa não andar montada no seu belo cavalo e preferir pisar o chão do reino com os seus pés, mas ela ia fazendo saber que só assim, mais devagar podia verdadeiramente ficar a conhecer os lugares e que também era importante saber o esforço que as gentes faziam quando percorriam a pé estes trilhos e caminhos.

A menina gostava de conversar com as gentes que encontrava no caminho, aprender sobre as suas vidas, os seus sonhos e os seus receios. Quando chegava a uma aldeia ou vila começava logo a correr a notícia de que a princesa tinha chegado e as pessoas vinham ter com ela trazendo flores, frutos, e procurando vê-la e conversar com ela.

Com o tempo a princesa ficou a conhecer tão bem o reino e as pessoas que nele viviam que até o rei lhe pedia conselhos sobre questões importantes que os governantes não sabiam, pois viviam o tempo todo em palácios.

No palácio a princesa gostava muito de cuidar das suas flores especiais que tinham vindo de um reino distante e eram frágeis e delicadas, adorava contemplar a Lua e as suas mudanças de tamanho, de forma e de cor. Trovão, o seu cão, era a sua companhia favorita e adorava falar com ele sobre tudo o que tinha aprendido em cada dia. Sem falar, mas escutando atentamente, Trovão parecia tudo compreender e o seu olhar e o seu “sorriso” bastavam para que a princesa pudesse sentir-se reconfortada.

 

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O rei continua a reinar, cheio de força e saúde, mas todos no reino agora sabem que quando chegar o tempo da princesa reinar tudo irá correr bem porque mesmo sendo pequenina, a princesa é também forte e poderosa e está mais sábia a cada dia que passa.

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08
Out22

Menina, senhora, fada, bruxa, princesa ou rainha???

Desafio Arte e Inspiração 2.0 - semana #4

Cristina Aveiro

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The Lady off Shalott de John William Waterhouse

Há muito, muito tempo, quando as noites eram escuras como breu porque apenas havia archotes para andar na escuridão, as gentes e a natureza ainda estavam unidas e tudo era muito diferente.

Nesses tempos quando o sol se ia deitar e escurecia, quase todos recolhiam às suas casas pequenas e simples, onde havia uma fogueira para dar luz, calor e cozinhar o que houvesse para a ceia. Quase todas as pessoas viviam em pequenos lugares, com apenas algumas casas, mas distantes umas das outras porque à volta das casas estavam os campos onde as pessoas cultivavam os seus alimentos. Nesse tempo distante não havia lojas ou lugares onde comprar. As pessoas trocavam entre si as coisas que precisavam, se tinham ovos podiam trocar por um pouco de leite com o vizinho que tinha cabras ou vacas, ou se tinham lã podiam trocar por sementes ou outra coisa que precisassem.

Numa dessas casas de pedra, perto do rio e da floresta, vivia uma família com seis rapazes e duas meninas e os seus pais. Tinham animais, três vacas, onze galinhas, dez cabras, sete ovelhas, dois porcos e um burro. Havia sempre muito trabalho para todos, a sua vida era passada a cultivar os campos, a tratar dos animais, enfim a manter o suficiente para poderem comer e aquecer-se todos os dias. As crianças mais velhas tomavam conta das mais novas e ajudam em todas as tarefas.

Os banhos e a lavagem das poucas roupas que tinham fazia-se no rio, fosse verão ou inverno. Os pequenos gostavam de ir ao rio a banhos, era um momento em que havia sempre brincadeiras, risos e gargalhadas. Quando iam secando ao sol e ao vento dois dos irmãos gostavam de se afastar um pouco caminhando ao longo das margens, procuravam uma zona de lagoa onde o rio era mais tranquilo, mas que ficava longe. Eles pensavam que esse lugar existia, mas não tinham a certeza, afinal tinham apenas escutado os irmãos mais velhos e falar sobre a lagoa, mas por vezes eles pregavam-lhes partidas e falavam de coisas que não existiam.

Sempre que podiam iam-se afastando um pouco mais, e mais, até que num dia se afastaram tanto que começou a escurecer e como o rio se tinha separado em dois já nem sabiam bem como regressar a casa.

Aninharam-se debaixo de uns arbustos grandes e espinhosos para ficarem protegidos quando viesse a noite e decidiram descansar. Os sons da floresta eram seus conhecidos, mas começaram a escutar um som diferente, parecia algo a deslizar nas águas do rio, que naquela zona já eram calmas. Começou por aparecer a ponta de um barco grande e preto com uma forma dourada no cimo, depois viram velas pousadas sobre o barco, lindas, perfeitas, brancas. Aos poucos foram aparecendo as mantas mais belas e coloridas que jamais tinham visto, pareciam pintadas com as papoilas e os malmequeres do campo. Por fim apareceu a menina, ou senhora, ou fada, bruxa, princesa ou rainha, mais luminosa e bela que alguma vez podiam ter imaginado. Vestia de branco com vestes longas, tinha cabelos longos e soltos de uma cor quase vermelha e tinha bordados brilhantes e dourados nas suas roupas.

Os rapazes nem respiravam, nem se mexiam, estavam cheios de medo, e ao mesmo tempo com uma enorme vontade de ver tudo o que estava à sua frente e que nunca tinham visto. O barco continuou rio abaixo e a mulher continuou a olhar o rio de frente, bem direita e só, a navegar o barco.

Quando desapareceu, os rapazes ainda ficaram um bocado sem se mexer nem falar, parecia que tinham ficado transformados em estátuas. Aos poucos começaram a falar baixinho um com o outro, a partilhar o que tinham sentido, o medo, o encanto, o espanto…

Veio a noite e ali dormiram, no dia seguinte retomaram o caminho para regressar a casa. Ainda estavam como que enfeitiçados pelo que tinham visto, não conseguiam falar de outra coisa. Estavam preocupados porque sabiam que os pais iam estar zangados com eles por se terem afastado. Estavam também sem saber o que fazer sobre o que tinham visto, se deviam contar (mas talvez ninguém fosse acreditar), se deviam guardar para eles (mas os pais acabavam sempre por descobrir tudo o que eles queriam esconder).

Todo o caminho pensaram e repensaram, e continuaram sem saber o que fazer.

E tu, como farias?

 

Todas as quartas-feiras eu e a Fátima Bento, a Ana D., a Ana de Deus, a Ana Mestre, a bii yue, a Célia, a Charneca Em Flor, , a Imsilva, o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Luísa De Sousa, a Maria, a Maria Araújo, a Mia, a Olga, a Peixe Frito, a Sam ao Luar, e SetePartidas publicamos um texto relativo ao quadro da semana, que é apresentado todas as sextas de manhã.

 

  

28
Set22

A menina que cantava!

Desafio Arte e Inspiração 2.0 - semana #3

Cristina Aveiro

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Tinha nascido em casa dos avós num bairro de ruas estreitas e inclinadas sobre o rio. Era um bairro de gente simples, com poucas posses, mas onde sempre que havia ocasião se cantava e todos se juntavam nas pracetas, pois as casas eram pequenas e a rua era parte das suas casas.

Os pais ficaram a viver algum tempo com os avós, mas depois regressaram à sua casa na aldeia procurando melhor ganha-pão. A menina foi ficando com os avós e acabou por crescer com eles. Na cidade a escola ficava mais perto e os avós ajudavam no seu sustento.

A menina cresceu feliz nas ruas do bairro e desde muito pequena sempre que podia ia escutar as cantadeiras e os homens que tocavam guitarra para as acompanhar. Quando não podia ir para junto das tabernas onde cantavam por já ser tarde e os avós não deixarem, ia pôr-se ao varandim a escutar as cantigas. A música fazia-a sentir-se bem, havia uma mistura de tristeza e gargalhadas no meio das cantorias.

Sem dar por isso, começou a cantar as cantigas que escutava àquelas mulheres altas, esbeltas e lindas, nos seus cabelos longos e faces rosadas. A menina sentia que eram mulheres poderosas, mulheres que faziam com que todos se virassem à sua passagem, eram os seus ídolos.

No bairro todos começaram a reparar na miúda que cantava como as fadistas, ficavam impressionados com a sua voz, e com a forma como cantava canções que falavam de emoções de adulto, mas que ela reproduzia como se já as tivesse experienciado.

Aos poucos todos começaram a pedir que cantasse, nas tardes de domingo, nos Santos Populares, nas marchas, … Um dia a menina disse aos avós que queria ir cantar como as mulheres crescidas que cantavam o fado. Os avós disseram que nem pensasse em tal coisa. Podia cantar numa festa ou outra, mas nos lugares do fado nem pensar.

A menina cedo deixou a escola para trabalhar a vender peixe na rua de modo a ajudar no sustento da casa. As vendas corriam-lhe bem pois os seus pregões cantados com voz de fadista traziam as gentes à sua canastra.

A menina cresceu, nunca deixou de cantar, tornou-se uma fadista requisitada. Na sua casa pobre e pequena havia sempre guitarras e cantigas, gente boémia e uma alegria estouvada. Tornara-se uma bela mulher morena, magra, de olhos escuros e longos cabelos negros que enfeitava com lenços de seda de ramagens. Agora também se voltavam quando a viam passar! Amava a sua música, mas percebia agora os receios dos seus avós.

 

Todas as quartas-feiras eu e a Fátima Bento, a Ana D., a Ana de Deus, a Ana Mestre, a bii yue, a Célia, a Charneca Em Flor, , a Imsilva, o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Luísa De Sousa, a Maria, a Maria Araújo, a Mia, a Olga, a Peixe Frito, a Sam ao Luar, e SetePartidas publicamos um texto relativo ao quadro da semana, que é apresentado todas as sextas de manhã.

 

21
Set22

A menina de sua Mãe!

Desafio Arte e Inspiração 2.0 - semana #2

Cristina Aveiro

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Sempre fora assim, tinham-se uma à outra, parecia que eram quase um único ser. A menina adorava a sua mãe, os dias eram passados com ela em pleno. Quando a mãe cuidava da casa a menina seguia os seus passos, quando ia lavar a roupa ao rio acompanhava a mãe, no início ficava sentada numa bacia de zinco, depois já ficava sentada na margem, ou a chapinhar no rio quando era Verão. Quando já era mais crescida até gostava de tentar apanhar peixinhos que depois levava para casa, mas que para surpresa sua acabavam por morrer, tal como a mãe já antes tinha vaticinado, mas que a menina não conseguia acreditar.

O pai adorava a menina e a mãe, mas estava pouco tempo em casa, tinha sempre de ir a muitos sítios no seu carro verde cheio de tecidos e outras coisas para vender às pessoas que precisavam. Assim, a maior parte do tempo da menina passava-se na companhia da sua mãe.

A menina adorava o tempo que a mãe passava naquele lugar da casa a que chamavam casa da costura, onde havia uma bela máquina Singer, onde a mãe costurava longas horas sacas do pão, a partir de tecidos cortados que cheiravam muito bem, cheiravam a algodão, num cheiro quente e intenso que quase parecia o do pão quente que iriam albergar.

A menina gostava de tudo naquele ritual, desde o som ritmado da máquina de costura a galope tranquilo, ao cheiro doce das sacas que pareciam já ter o pão lá dentro, até às tarefas que lhe deixavam fazer. A menina podia virar do avesso as sacas depois de terem sido cozidas uma primeira vez. A mãe dizia sempre que ela tinha ajudado muito e que se notava como estava crescida. Mais tarde, quando já conseguia controlar melhor os movimentos, a mãe deixava-a colocar a fita de nastro nas sacas usando um alfinete de ama, que empurrado e puxando fazia a fita chegar ao outro lado e depois dava o nó para ficar fechada a fita.

Quando começava a ficar cansada, a menina deitava-se sobre o monte das sacas já feitas e a mãe continuava a cozer sem parar e a menina, embalada pelo som amigo e tranquilo da máquina de costura começava a fechar um pouco os olhos e quando dava conta já tinha adormecido.

Acordava quando o som da máquina parava e ficava tonta e estremunhada, procurando a mãe e resmungando porque o sol já se tinha ido embora e a menina não o tinha visto partir.

Oh! Como a casa da costura era um lugar mágico! Oh! Como nada de mal podia acontecer por ali! Durante o resto da sua vida, a menina, sempre que se sentia em água turbulentas regressava à casa da costura e ali ficava com a sua mãe e nada no mundo era mau, perigoso ou triste. Ali tudo era calmo, cheio de amor e tranquilidade para todo o sempre!

 

 

PS: Quando vi esta pintura pela primeira vez no MOMA, nem sabia que tinha havido impressionistas americanos, tinha ido lá para ver os nossos mestres europeus. Tive de trazer um poster do quadro para oferecer à minha mãe. Muitos anos mais tarde, a minha mãe pode ir ver o mesmo quadro ao MOMA e trouxe três reproduções deste quadro e ofereceu uma a cada uma das suas três filhas. A máquina de costura e costurar sempre foram uma companhia da minha mãe e das meninas que foram nascendo e mesmo os rapazes (netos) sentem algum fascínio por costurar com a avó.

 

Todas as quartas-feiras eu e a Fátima Bento, a Ana D., a Ana de Deus, a Ana Mestre, a bii yue, a Célia, a Charneca Em Flor, , a Imsilva, o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Luísa De Sousa, a Maria, a Maria Araújo, a Mia, a Olga, a Peixe Frito, a Sam ao Luar, e SetePartidas publicamos um texto relativo ao quadro da semana, que é apresentado todas as sextas de manhã.

Se se quiser juntar a nós, esteja à vontade, diga apenas que o vai fazer!

(o desafio termina na última semana de novembro )

18
Set22

"partilha palavras de sabedoria que alguém te disse um dia"

52 semanas de 2022 | tema 32

Cristina Aveiro

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A menina Emília, uma senhora  idosa, sábia e com uma enorme capacidade de viver de forma feliz, não se casara e vivia com as irmãs também solteiras e com o irmão. Eram uma família harmoniosa, ativa na sociedade, sendo os irmãos agricultores e ela contínua muito respeitada de uma grande escola secundária da cidade.

Já os conheci quando viviam a fase final das suas vidas, gostava muito de conversar com a menina Emília. Gostava também de lhe fazer pequenas provocações dentro dos limites do respeito e educação. Numa dessas conversas algo provocatórias eu defendia que ser mais jovem correspondia sempre a uma situação de vantagem face aos idosos. O jovens eram mais belos, até as pessoas feias quando jovens eram mais bem parecidas, eram, em geral mais saudáveis, podiam fazer mais coisas, enfim... A menina Emília escutou-me com atenção e quando eu esgotei os argumentos ela disse-me serenamente:

- Há uma enorme vantagem dos idosos face aos jovens. Os idosos têm a garantia da vida vivida, enquanto que os jovens têm uma enorme incerteza relativamente ao que virá a ser a sua.

Matutei bastante tempo sobre esta forma de pensar, aliás ainda hoje penso nela. É um pouco como "mais vale um pássaro na mão que dois a voar". Quando a passagem do tempo me trás alguma contrariedade em termos físicos, vem-me sempre à mente que esse é o preço a pagar por já ter vivido, e que isso foi muito bom.

 

Texto no âmbito do desafio 52 semanas de 2022 lançado pela Ana de Deus no seu blog busy as a bee on a rainy day.

 




14
Set22

O que é o tempo?

Desafio Arte e Inspiração 2.0 - semana #1

Cristina Aveiro

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A persistência da memória, de Salvador Dali.

O menino estava com esta pergunta dentro da cabeça já há algum tempo… Mas afinal o que é o tempo perguntava-se.

Ele já tinha entendido que o tempo era algo que corria num sentido único e que nunca voltava atrás, um pouco como a água de um rio que corre da nascente até ao mar, sem nunca regressar onde partiu. Já tinha compreendido que o ritmo do tempo era marcado pela luz do sol, que ora estava lá, ora chegava a noite, mas será que era isso o tempo?

Os adultos eram estranhos quando falavam do tempo, tão depressa desejavam regressar a tempos do passado que nunca mais voltariam, como apenas sonhavam com os tempos que estavam para vir e parecia que não tinham interesse pelo que estava a acontecer agora, mas o menino não sabia bem se o agora também fazia parte do tempo!

Decidiu ir conversar com o avô para perceber melhor. Afinal o avô nunca tinha pressa e gostava de falar com ele, os pais diziam que ele tinha tempo, como que dizendo que ele era muito rico. Afinal o tempo talvez fosse riqueza e os pais fossem mais pobres que o avô!

Sentou-se ao lado do avô e explicou-lhe que gostava de saber o que era o tempo, porque parecia ser algo difícil de entender, embora todas as pessoas estivessem sempre a dizer que não tinham tempo, ou que demorava muito tempo, ou que passava num instante…

O avô para começar, e em jeito de brincadeira perguntou ao pequeno:

- Tens muito ou pouco tempo para conversar?

- O menino disse que ia estar com o avô até à hora de jantar.

Vamos lá ver, afinal tu até já sabes como medimos o tempo, medimos em horas, dias, com relógios, calendários e tudo. O que é que queres saber mais?

-Avô, quero saber mesmo o que é o tempo. Se não se vê, não se toca, nada, então porque é tão importante?

O avô ficou pensativo e demorou algum tempo a começar a falar. A sua voz era calma, pausada e tranquila, as suas mãos eram grandes com dedos grossos e calejados, mas sabiam dar mimos delicados e abraços que faziam o menino sentir-se seguro e preparado para todas as tempestades que viessem.

O tempo não se pode ver, mas conseguimos ver o que acontece porque ele passou. As sementes tornam-se plantas e árvores, crescem, dão frutos e morrem. As gentes e os animais nascem, crescem, envelhecem e morrem, tudo porque o tempo passa.

A Terra está em constante movimento à volta de si e do sol, e isso faz com que haja dia e noite sucessivamente. O Homem desde sempre usou o dia como forma de contar o tempo. Os dias variam de tamanho ao longo do ano, há dias longos de luz com noites curtas e dias curtos com noites longas. O Homem viu que isto se repetia regularmente. Notou ainda que a natureza acompanhava esta mudança e que havia tempos em que tudo renascia, depois dava fruto, a seguir começava a perder energia e as plantas perdiam as folhas e os animais ficavam menos ativos até que tudo parecia ficar um pouco parado, sem vida até tudo recomeçar de novo. E foi assim que o homem começou a contar o tempo de uma forma mais longa, usando o que chamamos agora as estações do ano. Durante muito tempo o homem também contou o tempo com base no aspeto da Lua e verificou que a cada 28 dias ela voltava a ter o mesmo aspeto e povos como os Índios usavam essa forma de contar o tempo.

O menino escutou, pensou e disse:

- Compreendo então que o tempo resulta do movimento da Terra. O que ainda não entendo é porque razão quando estou à espera que a mãe chegue, ou que vamos a algum lugar o tempo parece parar e ao mesmo tempo, quando estamos todos juntos a festejar, ou na praia a divertir-nos o dia corre e num instante o sol já está a enterrar-se no mar e o dia acaba.

O avô com a calma de quem já viveu muito, foi dizendo que o tempo de que ele estava a falar era o tempo de sentir, esse era um tempo que não consegue medir, nada tem a ver com o tempo dos astros do céu. Esse é o tempo do coração e da alma é menos previsível. Não há máquinas que possam medir o que sentimos, sentir é algo muito especial que só os animais e as pessoas conseguem. As pessoas têm muitas formas diferentes de sentir e que são próprias de cada pessoa e do momento que estão a viver.

O menino escutou, e disse que pensava que estava a perceber melhor o que era o tempo, mas ainda havia uma coisa que não entendia.

-  Avô porque é que tu tens mais tempo para conversar comigo do que os meus pais?

 

Todas as quartas-feiras eu e a Fátima Bento, a Ana D., a Ana de Deus, a Ana Mestre, a bii yue, a Célia, a Charneca Em Flor, , a Imsilva, o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Luísa De Sousa, a Maria, a Maria Araújo, a Mia, a Olga, a Peixe Frito, a Sam ao Luar, e SetePartidas publicamos um texto relativo ao quadro da semana, que é apresentado todas as sextas de manhã.

Se se quiser juntar a nós, esteja à vontade, diga apenas que o vai fazer!

(o desafio termina na última semana de novembro )

 

 

 

 

 

04
Ago22

O homem que desenhava gatos!

“A Vida Eletrizante de Louis Wain”

Cristina Aveiro

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Desde muito cedo que percebeu que era diferente das outras crianças, aquele seu lábio estranho, as coisas que interessavam aos outros rapazes na escola e que nada lhe diziam e mesmo em família percebia as suas diferenças. Ter ido tardiamente para a escola (por conselho médico) não terá ajudado a que se sentisse mais confortável nela.

Tinha interesse por observar tudo o que havia na natureza, nos lugares com pessoas nas suas vidas. Muitas vezes não ia à escola para deambular pelas ruas de Londres a observar, a absorver e a desenhar freneticamente tudo.

A sua energia e arte permitiam-lhe pintar com as duas mãos ao mesmo tempo numa velocidade alucinante e com resultados espantosos. Na West London School of Art destacou-se e foi professor por um período curto. Não tinha interesse em ensinar, queria desenhar, criar e pensar em invenções que lhe enchiam a mente. Desenhava para revistas e jornais sem preocupações de ordem prática da vida quotidiana quando a morte do pai o transforma, aos 20 anos, no homem da família, com a mãe e as irmãs a seu cargo.

Esta não era de todo uma missão que a sua mente criativa, frenética, quiçá febril e desorganizada conseguia desempenhar. O lado económico da existência, a ordem das contas e essas tarefas correntes eram algo que a sua mente, que navegava nos altos céus da criatividade, não alcançava. Tão pouco assimilava as normas e convenções sociais rígidas de estratificação por classes que à sua época eram dogmas.

Neste cenário apaixona-se e casa-se com a perceptora das suas irmãs o que manchou o bom nome da família, mas lhe trouxe uma forma de ver o mundo com uma beleza que não conhecia. O seu amor foi feliz, nada lhe importaram as questões sociais, ou a rejeição da sua família, contudo a doença fatal da sua esposa mudou o seu mundo de novo, mergulhando-o em imenso sofrimento. Nesta altura, lutando contra a doença, encontram um pequeno gato perdido no meio de uma tempestade que trouxeram para casa e cuidaram. O Peter, como lhe chamaram, passou a ser o companheiro e a alegria dos dois nestes tempos de doença de Emily. Louis desenhou Peter de forma quase compulsiva e Emily quando viu esses desenhos percebeu ele captara a essência da alma felina. Insistiu para que apresentasse os seus novos desenhos aos jornais e revistas, ao que ele acedeu com pouco entusiasmo.

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A primeira ilustração de Louis com gatos com comportamento humano tinha 150 gatos em 11 cenas e teve destaque na edição de Natal de um jornal londrino importante.

Emily morreu pouco tempo depois, pediu-lhe que continuasse a levar alegria à vida das pessoas através da sua arte e que partilhasse o seu amor pelos gatos.

À época os gatos não eram vistos com bons olhos, eram meras criaturas da noite, serviam para caçar ratos, e segundo Louis:

“Quando comecei a esboçar e pintar gatos, eles eram vistos como criaturas detestáveis, vistos como pragas pelos caçadores.”

Pintar e criar, com alegria e humor foram ao longo de toda a sua vida o lugar onde apaziguava a sua dor. O seu amor pelos gatos esteve sempre presente, mesmo nos tempos mais sombrios de perda e afastamento do mundo. A morte do seu amado Peter foi dramática para Louis porque de algum modo era o companheiro que lhe restava da sua vida com Emily.

Desenhou sempre e pintou até ao fim, experimentando novas formas abstratas, psicadélicas, sempre cheias de rigor, cor e com enorme paixão. A sua dor e fragilidade levaram a que passasse os últimos anos em asilos para doentes mentais, mas mesmo aí continuou sempre a pintar imparavelmente.

Muito mais havia para contar sobre o homem que desenhava gatos, mas contemplar os seus gatos parece-me a melhor forma de o dar a conhecer e homenagear!

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“A Vida Eletrizante de Louis Wain” foi o filme de que me deu a conhecer este homem notável, para além da sua arte marcou-me a sua coragem (haverá quem lhe chame loucura) em romper com preconceitos, em viver o seu caminho, mesmo contra tudo e contra todos se fosse preciso. O estigma sobre a saúde mental foi, é e será uma enorme barreira para que muitas pessoas possam ser felizes e que lhes seja permitido darem o seu pleno contributo à sociedade. Foi também este aspeto da vida e obra de Louis Wain que me tocou profundamente.

 

 

03
Ago22

Os Sapos do Meu Coração!

2 anos de Contos por Contar

Cristina Aveiro

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Esta família do sapal é algo que nunca esperei ter... Pensava sempre que só podemos sentir carinho, partilha e amizade quando nos conhecemos cara a cara, quando nos abraçamos com os braços e estamos juntos fisicamente. Neste lugar, que considero o Reino Encantado dos Sapos Verdes sinto tranquilidade, carinho e alegria, é por isso que cá venho sempre que posso.

Este tem sido um ano de caminhada muito diferente para mim, e as musas estiveram mais afastadas, mas o sapal continuou a ser o meu lugar.

Há um ano comemorando o primeiro aniversário fiz um balanço que agora reli! Acreditem que não tinha presente a quantidade de aventuras que vivemos juntos nesse ano. 

Neste ano escrevi e li pouco, mas houve dois momentos que mereceram a atenção do governo do Reino.

Destaque - No Reino Encantado dos Sapos Verdes-26-

Contos por Contar - Pag Principal do Sapo-Abril 20

Soube bem receber a atenção quando partilhei o que senti em Coz no lugar de magia da Adega das Monjas, mas mais do que tudo foi receber a vossa atenção e presença, sentir que estavam aí mesmo quando estive mais longe.

Sou muito grata por vos ter!

Sabem que mais, a pintura do Louis Wain fez-me sonhar com um grande encontro dos sapos do reino, numa praia de areia dourada a jogar um jogo qualquer, a conversar, brincar, fazer maluquices, sei lá! Ser criança, ser sapo, ser feliz convosco! Conhecer as vossas caras, os vossos abraços, a voz, as gargalhadas e suspiros, ...

 

 

 

02
Ago22

Quando a saudade não cabe no peito ...

Cristina Aveiro

Quando o coração e o peito ficam apertadinhos de saudades viajo na memória de quando as minhas meninas eram todas minhas…

Não há longe nem distância disse alguém! Mas eu digo que quando os nossos amores estão longe e distantes há um peso no nosso peito que nos abafa e rouba por vezes a energia e a luz.

Talvez sinta saudades de tudo o que vivemos enquanto cresciam. Hoje pousei o olhar na Maria com o pequeno passarinho na mão e na Matilde de olhar tranquilo e doce. Só de contemplar estas imagens viajo ao momento vivido, parece que sinto os cheiros e o calor desses dias longos de Verão e sem querer sinto o meu sorriso a aparecer.

Talvez por ser Verão, por estar calor, por ter ido ao quintal encantado da avó ainda há bocadinho, talvez por tudo isso senti ainda mais a saudade dos abraços e beijos e de estarmos todos juntos.

Talvez por não conseguir guardar toda esta saudade em mim tive de a partilhar convosco!

 

 

26
Jul22

Os meus avós inspiram-me e trazem-me sempre um sorriso ao rosto!

Cristina Aveiro

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O amor do meu avô Manuel pela sua Maria sempre me fez desejar ser amada assim. O carinho, os abraços, as palavras calmas e a voz paciente do meu avô ficaram comigo para sempre, a minha avó, mais enérgica, menos paciente para abraços ou coisas que a demorassem e atrasassem o objetivo que tinha destinado escapava-se dos carinhos dele, mas sempre de um modo brincalhão e no fundo, parecia-me feliz com a atenção que recebia.

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Foram sempre construtores da sua família, vencendo os desafios da vida que foram muitos e custosos, mas nunca perderam a alegria do que iam conseguindo.

As netas e o neto sempre foram enormes fontes de alegria, preenchida de momentos vividos em conjunto, de plantar cebolas, a apanhar erva, ou ver como se retirava o mel dos cortiços. Havia sempre coisas a ensinar e havia sempre tempo para me escutarem e tomarem a sério, o que não acontecia com muitos adultos à época.

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Souberam acolher as mudanças que o tempo lhes foi trazendo à vida e acompanharam-nos em viagens, aventuras nas praias próximas e mesmo nas praias distantes, sempre com bonomia e gratidão.

IMG_1731.JPGTiveram sempre um enorme entusiasmo pelos netos, desde a primeira (eu) à última que chegou 17 anos mais tarde, a minha irmã mais nova.

O meu avô dizia com convicção que devia haver em todas as casas sempre uma criança com menos de três anos, porque elas eram a fonte da mais pura alegria.

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Os meus avós deixaram-me tanta riqueza que não consigo descrever tudo o que sinto e me enche e aquece o coração.

Sei que lá onde estão continuam a olhar por nós com a mesma ternura e enlevo que sempre mostraram.

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