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Contos por contar

Contos por contar

13
Mar21

O Livro Esquecido

Vamos proteger uma espécie em vias de extinção - "leitores leituras"

Cristina Aveiro

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Era uma vez um livro pequeno, aí com umas 20 páginas, pouco alto e pouco grosso e já tinha muitos anos. Talvez pensem que é esquecido por não se lembrar das coisas já que é um pouco velho, mas não é nada disso. Ele lembra-se de tudo, desde quando foi feito na máquina de impressão, aos tempos que passou na prateleira daquela livraria grande, majestosa e ao mesmo tempo colorida e cheia de vida. Ele até tinha ouvido dizer que agora as pessoas iam lá só para ver a beleza da livraria, mas não sabia se era verdade.

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Então as pessoas não iam às livrarias para admirar e comprar os livros que liam? Ele pensava que sim, mas já não tinha a certeza. Os tempos eram outros quando ele lá tinha estado na prateleira. Depois de muitas vezes ser admirado, folheado, lido aos bocadinhos, de ter sido pedido de presente aos pais pelas crianças que iam à livraria, lá chegou o grande dia. Ia finalmente ter o seu lar definitivo. chegou uma senhora jovem e foi à seção de livros infantis e juvenis e passou um dia inteiro a escolher e a colocar em enormes pilhas. Foi nesse dia que saiu da prateleira da livraria para não voltar. Adorou o lugar onde foi viver, era uma sala luminosa, cheia de livros, muitas e muitas estantes cheias de prateleiras repletas de livros de todas as cores tamanhos e feitios.

Era uma biblioteca! Mas era uma biblioteca de uma enorme casa que tinha umas vinte salas enormes. O livro estava feliz, tinha um lugar de destaque nos novos livros para crianças e a horas certas elas enchiam a biblioteca e desfolhavam os livros, tentavam ler, outras liam para os amigos, às vezes levavam livros para as salas grandes e outras vezes levavam mesmo os livros para casa para lerem e contarem às suas famílias. Oh, como eram tempos felizes, andar de mão em mão e na companhia dos outros livros seus amigos. Frequentemente as crianças disputavam quem é que o ia ler ou levar para casa. Sentia-se amado e querido, sentia que tinha um propósito, uma missão mesmo.

Mais tarde começaram a vir menos crianças à biblioteca e vinham muitas vezes ver filmes, ver os computadores, e agora até usavam muito os seus pequenos telemóveis e parecia que já nem olhavam para os belos livros nas prateleiras. O pequeno livro até já tinha ouvido dizer que os leitores eram uma espécie em vias de extinção, já quase só havia leitores muito velhos.

O livro pequeno e outrora colorido com cores intensas e felizes, tinha as cores esbatidas e sentia que tinha sido esquecido. Estava para ali como um velho que não servia para nada, numa prateleira a apanhar pó.

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Um dia chegou uma menina diferente à biblioteca, ela já era crescida e parecia saber muito bem o que ia fazer. Vinha vestida com roupas de Capuchinho Vermelho, uma história que era contada em vários livros seus amigos. A menina trazia um cesto muito bem decorado e um pouco grande que começou a encher com livros. Os livros estavam todos contentes, afinal iam até algum lado, iam arejar. Bem precisavam! Depois de encher o cesto a menina foi a uma das salas grandes e pediu ao professor se podia trazer algumas surpresas para os meninos. Ele disse que sim de imediato. Então a menina tirou um e outro livro e leu bocadinhos ao acaso de cada um deles. As crianças pediam que contasse o resto, mas a menina disse que não era essa a sua missão. Algumas fatias de livro mais tarde, os meninos já estavam com o bichinho da curiosidade aguçado e a menina explicou que se queriam saber o resto das histórias iam ter de ler e que ela podia emprestar alguns livros, mas avisava já que não havia livros para todos. Ao dizer estas palavras piscou o olho ao professor que a observava divertido. E os meninos lá foram pedindo os livros que queriam e quando a euforia terminou, o Lourenço disse admirado:

- Afinal há livros para todos! Não faltam para ninguém e ainda tem mais no cesto.

A menina “Capuchinho Vermelho” sorriu e disse que estavam com sorte, mas só tinham os livros com eles até à próxima semana porque os livros tinham que ir viajar de novo na sua cestinha.

O livro passou uma semana em beleza a ser lido e contado a todos da família do menino e depois mesmo na sala grande com o professor. Até tinham feito desenhos com a sua história, estava mesmo feliz. Mal tinha sido posto de novo no seu lugar da prateleira da biblioteca chegou um rapaz com uma roupa diferente, ele achava que também era de uma história, ele não tinha a certeza, mas aquele rapaz de óculos redondos, capa preta, sempre com uma varinha na mão fazia-lhe lembrar o personagem de uma história. Achava que se chamava Harry e era de uma coleção de livros recentes. O rapaz chegou à biblioteca e começou a encher caixotes e caixotes de madeira bonitos, que pareciam antigos, dos que antes de haver plástico serviam para levar as frutas ao mercado.

Os livros todos ficaram num frenesim de curiosidade, para onde iriam desta vez? Que aventura os iria agora arrancar de novo ao tédio das prateleiras esquecidas e quase mortas?

Quando já havia uma enorme pilha de caixotes, o tal rapaz levou-os para o recreio, um espaço enorme cheio de crianças alegres a correr, saltar, gritar, enfim, a ser crianças.

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Aproximou-se de uma zona abrigada onde já estavam montada três barraquinhas de feira, todas bonitas e onde o rapaz e a menina vestida de Capuchinho Vermelho começaram a colocar os livros de uma forma quase irresistível, estava tão bonito que só de olhar apetecia levar tudo para casa. As crianças foram-se aproximando curiosas e à medida que os livros iam enchendo as bancadas todas começaram a querer mexer, ver, ler um pouco, como quem escolhe e prova a fruta antes de comprar.

Quando tudo ficou pronto colocaram um enorme cartaz que dizia:

- Aluguer de livros – 1 semana por um desenho sobre a história!

A notícia caiu como uma bomba. Então os livros que eram da biblioteca agora eram para alugar? Todos tinham o direito de os levar e não tinham que pagar nada por isso. Houve logo um grupo de crianças que disse que não queria alugar, nem pagar, mas que gostava muito de fazer desenhos e queriam levar um livro cada um. O Harry e a menina Capuchinho Vermelho explicaram que o pagamento do aluguer era mesmo o desenho e que claro que podiam levar os livros.

O nosso livro esquecido estava numa zona de livros de contos infantis mais antigos e começou a pensar que as crianças iam preferir os livros novos mais coloridos, mas estava contente só de estar ali a ver toda aquela agitação e alegria.

Quando já estavam a começar a arrumar a banca, veio uma das senhoras que trabalhava na escola e perguntou se também podia alugar o livro e trazer um desenho da sua sobrinha a quem ia ler a história. Claro que o Harry e a Capuchinho disseram logo que sim, que escolhesse. A senhora foi para a zona dos livros mais antigos e disse, vou levar este, adoro-o, já a minha mãe mo leu quando eu era pequenina, depois lio eu aos meus filhos e agora vai ser à minha sobrinha, adoro contar histórias, faz-me sentir feliz e sinto que faço as crianças felizes.

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O Harry e a Capuchinho ficaram comovidos, sentiram que tinha valido a pena e iam continuar a trazer os livros da biblioteca cá para fora, para virem até às pessoas, eles iam salvá-los de serem esquecidos.

 

12
Mar21

O que queres no Natal? - Ilustrações

Ilustrações de José Raimundo 2021

Cristina Aveiro

Estou muito feliz por o José Raimundo ter aceite o desafio de ilustrar o meu conto "O que queres no Natal?".

Gostava de ver as ilustrações do José e perto do Natal atrevi-me a perguntar se gostaria de ilustrar o conto que tinha acabado de escrever.

Em 2 de Janeiro recebi os primeiros esboços

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E perante as hipóteses gostei mais do segundo do lado esquerdo.

Em 16 de Fevereiro chegou a primeira ilustração, o Fernandinho com o seu presente final, eu amei

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Ilustração de José Raimundo

Hoje chegou a ilustração da Francisca e estou maravilhada.

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Ilustração de José Raimundo

O conto de Natal que fez nascer estas ilustrações foi o "O que queres no Natal?"

Para conhecer outros trabalhos do José vale a pena visitar:

https://www.facebook.com/Jos.illustrator

10
Mar21

A bailarina maléfica

#8 - Cor-de-Rosa - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Desenho da Matilde Aveiro 2006

Era uma vez uma menina que adorava ir para a praia, sempre que o tempo era de Sol, lá ia a família até à praia, tanto no Inverno como no Verão.

No Inverno eram as brincadeiras na areia, as corridas praia fora, aquela liberdade de ter toda a praia para si e para a sua irmã deixavam-nas felizes como pássaros fora da gaiola. No Verão era tudo, praia por inteiro, as infindáveis brincadeiras na areia e o mar, molhar os pés, brincar com a água até mais não poder e o melhor de tudo eram os banhos. A água era fria, o mar assanhado, muitos dias cheio de ondas grandes e perigosas, mas depois havia aqueles poucos dias por ano em que a bandeira verde saia da caixa, estava sempre como nova, ao contrário da vermelha que estava descorada e envelhecida de tanto ser usada. Os dias de bandeira verde eram o pináculo da alegria na praia, eram banhos e banhos até o frio da água levar a melhor. Saiam da água  e deitavam-se ao sol até ficarem de novo prontas para ir de novo ao banho. Aquele mar tinha ondas brincalhonas, era muito irrequieto mesmo nos dias de mar calmo, mas era um não parar de brincadeira na água, nunca se estava a fazer a mesma coisa. Furavam as ondas, faziam carreirinhas, iam com os pais lá para a frente, enfim, a menina nesses dias chegava ao pôr do sol, à hora das gaivotas cansada a ponto de adormecer, mas tão feliz quanto se podia ser.

Naquele ano os pais disseram que iam conhecer praia novas, diferentes da sua praia. A menina perguntou como é que as praias podiam ser diferentes, havia mar, havia areia e isso era uma praia. Os pais então perguntaram se gostaria de ir para uma praia onde o mar fosse muito mansinho, a água quentinha e estivesse sempre sol e calor. A menina sorriu e perguntou do alto da sua pequenez de estavam a brincar com ela. Isso seria a praia dos seus sonhos, mas não acreditava que houvesse uma praia assim.

E o Verão chegou, e finalmente chegaram as férias. Foram horas e horas de viagem, durante a qual as pequenas perguntaram vezes sem conta: Estamos a chegar? Por fim chegaram, fazia calor, até a brisa era morna, as meninas ficaram encantadas. Foram logo ver a praia e nem conseguiam acreditar, o mar era de um azul-turquesa transparente e com pequeninas ondas bebé como disse a menina. Molharam os pés e quiseram logo ir ao banho, a água era deliciosamente quentinha comparada com a da sua praia.

Naquelas férias quase não passaram tempo na areia, os banhos e brincadeiras na água do mar ocuparam quase o tempo todo. Muitas vezes os pequenos peixinhos cor de areia vinham junto a eles mordiscar nas pernas, ao princípio era um pouco assustador, mas depois todos achavam divertido. Usavam os óculos para mergulhar a cabeça na água e ver os peixes que andavam por ali junto das pessoas.

Tudo corria bem e estavam a ser as férias de sonho, todos estavam felizes. Naquela tarde estavam todos lá bem dentro do mar numa zona do lado da praia que tinha uma parede de rochas, e onde havia algas e ainda mais peixes para observar, estavam a ver mais peixes do que nunca. De repente a menina viu uma espécie de bola com pernas a dançar. Era transparente como gelatina de um cor-de-rosa escuro e nadava como se fosse uma bailarina. A menina adorava o ballet, as roupas cor-de-rosa e as saias de tule e o bichinho parecia a bailarina perfeita, era apenas um pouco mais escura do que as suas roupas de dança.

A menina estava encantada a ver aquele pequeno bichinho, quando sentiu uma enorme picada no pé. Foi uma dor enorme, gritou bem alto, não sabia o que estava a acontecer. Os pais vieram de imediato, pegaram na menina ao colo e todos saíram da água. Foi tempo de a menina ficar a saber que nas águas mais quentes há uns bichinhos maléficos chamados alforrecas. Os pais explicaram que eram de vários tamanhos e cores, transparentes e que se aproximavam sempre do lado de onde soprava o vento. Os bichinhos eram malvados porque tinham um veneno nos seus tentáculos que quando tocava na nossa pele “picava” e fazia uma dor enorme.

A menina chorava e olhava para o seu pezinho todo vermelho e que lhe doía tanto e dizia que não ia voltar mais para o mar. A zona picada foi tratada com creme e massagens de mimos mágicos.

Aos poucos foi acalmando e a mãe disse-lhe para fazer um desenho com a alforreca maléfica, afinal ninguém gosta que o desenhem com cara de mau. E foi o que a menina fez.

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Os banhos no mar continuaram, mas agora sempre bem atentos para ver se não havia maléficas por ali.

No fim das férias a menina disse aos pais que aquelas praias eram quase perfeitas, mas tinham as maléficas alforrecas e não tinham o cheiro a mar da praia deles. A menina tinha gostado muito de ir ali, mas a sua praia favorita era mesmo a deles.

 

 

Texto no âmbito do #8 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Cor-de-Rosa

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

08
Mar21

Desafio "Sonhamos ir por aí!" - Resultados do Sonho

Cristina Aveiro

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Olá sapinhos viajantes, para melhor podermos usufruir dos sonhos de todos fiz a compilação dos sonhos de vadiagem:

 

- Braga - "Vá para fora cá dentro de ... casaMaria Araújo

- Cabo Espichel - "Uma história" Concha

- Costa da Caparica - Ana Mestre

- Espinho - "Roteiro" - O último

- Ericeira - "O meu sitio, o meu cantoIsabel

- Estrada Atlântica - "Estrada Atlântica até à Zambujeira do MarBii yue

- Farol da Barra - "Carta a meu neto" Ana D.

- Ilha da Madeira - "Prometo-te o Céu!Luísa de Sousa

- Leiria - "Mãe quero ir passear, por favor!" Cristina Aveiro

- Mafra - "O sonho de Ofélia" Maria

- Mafra - "Mafra Tapada (Con)vento: era uma vez uma vila assombrada..." Marta

- Serra da Estrela - "Passeio pela aldeia!José da Chã

- Serra de Montejunto - "Sonho num dia de InvernoCharneca em flor

- Oleiros - "Terras encantadoras da Beira Baixa" Célia

- Nagasaki - "Vá para fora dentro de casa" Ana de Deus

- Seixal - "Por este Seixal a fora à boleia da vontade" Fátima Bento

 

Sinto que me faltam textos, mas não consegui apanhar com a tag de pesquisa :(

Peço que ajudem enviando o link nos comentários. Gostava muito que estivessem todos, quero fazer o roteiro.

Obrigada a todos por terem aceite este desafio.

 

Oh da guarda peixe fritoConcha, A 3ª Face, Maria AraújoFátima BentoImsilvaLuísa De Sousa, Maria, José da XâRute JustinoAna D., CéliaCharneca Em Flor,  Gorduchita, Miss LollipopAna MestreAna de Deus, e bii yue.

08
Mar21

Porque eu posso!

Desafio comemorativo dos 7 anos do blog porque eu posso, da Sapo claro! What else?

Cristina Aveiro

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Quero continuar a escrever contos, receitas de cozinha, pensamentos alegres, tristes, sérios, tolos, o que me apetecer, porque eu posso.

A escrever sinto uma liberdade total, não tenho chefe, prazo, tutela, o que seja! Eu escrevo porque eu posso e como eu quero. Posso não escrever bem, mas isso que importa se ainda assim eu tiver prazer nisso? Posso tentar escrever mais e melhor, ou então escrever pouco e devagar.

Quero escrever coisas que ainda não sei, coisas que vão acontecer e que me vão levar a imaginar outras, num rodopio imparável que é a vida a acontecer, e o indomável e veloz pensamento a galopar. Vou regalar-me a inventar fantasias de mundos imaginados onde tudo é possível, desde prédios que andam, a vacas que voam, a pássaros que vêm da lua e a peixes que andam pelos bosques, e tudo isto porque eu posso. Que ninguém se atreva a impor regras, muros ou portas nesta vontade de fazer diferente do que há e do que está à nossa volta. De repente, pode não haver gravidade e passamos a levitar e não há peso, ou as pessoas começam a mudar de cor quando andam por aí como os camaleões.

Quero escrever sobre as pessoas, o que sentem, o que fazem, ou faziam no passado. Não quero agora escrever sobre pessoas que não sejam boas, neste mundo das letras não quero que haja maldade, e vai ser assim, porque eu posso!

Quero escrever sobre as perguntas do como e do porquê que me enchiam a cabeça quando era pequenina. Queria saber como eram feitas as coisas, como funcionavam os motores, as fábricas, a eletricidade, os aviões e como viviam os animais e as plantas aqui e em lugares distantes. Vou escrever sobre estas coisas, vou falar do que aprendi e aprender mais, porque eu posso.

Vou escrever para as crianças, para usar as histórias como forma de lhes transmitir valores de amor à Terra, às pessoas e aos animais.

Quero usar a escrita para deixar o Mundo um pouco melhor do que o encontrei, porque eu posso.

 

Texto escrito para a comemoração dos 7 anos do "porqueeuposso.blogs.sapo.pt" Sorteio dos 7 livros

 

06
Mar21

O Pedro e a vela

Cristina Aveiro

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Era uma vez um menino chamado Pedro que vivia na Praia da Barra. Pedro não tinha irmãos, nem irmãs e gostava muito das suas duas primas. Estava sempre à espera das férias de Verão para estarem todos juntos durante mais tempo.

Naquele Verão os três primos foram para a escola de vela, era um sonho da tia do Pedro que quando era pequenina gostava de ter aprendido a velejar. Pedro e as primas iam de manhã bem cedo para as aulas, equipavam-se com os fatos de surfista pretos justos ao corpo para não terem frio, com os coletes salva-vidas vermelhos e lá iam pôr os pequenos barcos na ria. Os barcos eram optimist, pequenos barquinhos onde apenas cabia uma criança, pareciam quase umas banheiras grandes.

Todos os dias aprendiam coisas novas, era uma aventura fascinante conduzir o barco. Às vezes quando havia mais vento e o barco se inclinava muito fazia um pouco de medo, mas era um desafio controlar o barco e manobrar com rapidez. Aprenderam a virar o barco e depois a voltar a pô-lo de novo sobre a água. A prima mais nova não gostava nada de fazer estes exercícios, dizia sempre que não queria que o barco se virasse, por isso não tinha nenhuma vontade de o virar de propósito. O professor que os acompanhava explicava que tinham que aprender a virar de novo o barco porque ele podia virar-se e eles tinham de ser capazes de resolver o problema lá no meio da ria sem estar à espera de ajuda.

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Ao final do dia tinham que tirar os barcos da água, lavá-los e arrumá-los para o dia seguinte. Quando tudo acabava, às vezes ainda iam a mais um banho na ria. A seguir, tinham que ir comer, estavam sempre esfomeados e muito cansados, mas felizes.

Passou a primeira semana e como tinham gostado tanto, ficaram mais outra semana e cada vez iam mais longe, conseguiam aguentar vento mais forte e já eram capazes de participar nas regatas entre os alunos. Havia alunos que já faziam cursos há muito tempo e que conseguiam andar com mais velocidade e ser mais certeiros nas manobras com o barco, mas os três primos conseguiam fazer os percursos e todos diziam que eles tinham feito enormes progressos.

As férias acabaram e as primas foram embora, mas o Pedro queria aprender mais, gostava que o Verão e aulas de vela não acabassem. O bichinho da vela tinha entrado nos seus sonhos, ele gostava de andar de bicicleta, de jogar futebol, mas a vela tinha-lhe dado momentos muito especiais.

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Foi então que os seus pais lhe perguntaram se ele queria continuar durante todo o ano. O Pedro ficou muito contente e disse logo que sim. Nesse ano todos os fins-de-semana lá ia ele todo satisfeito para a ria. No Inverno era mais duro, fazia frio, o vento era mais forte, a ria estava muito mais agitada e as correntes eram muito fortes, o desfio era maior, mas estar ao leme do pequeno barco, dominar a vela e tentar ultrapassar os amigos da vela eram os melhores momentos da semana.

Voltou o Verão, e as primas regressaram para novo curso com o Pedro, e voltaram a ir os três, mas que diferença, o Pedro já parecia um professor, ia com os mais velhos, os que faziam vela o ano inteiro. Quando estavam os três era o Pedro que dava conselhos e ensinava técnicas para entrar melhor na doca, ou vencer a corrente mais facilmente. Quando o Pedro fez anos, teve uma surpresa que o encheu de orgulho, recebeu o seu primeiro barco e não cabia em si de contente, adorava-o. Se numa saída para a água fazia um pequeno risco, ou se uma peça se partia, ficava todo triste, aquele seu barquinho era o seu orgulho.

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Começou a ir a regatas a sério em várias cidades, a ir ver regatas com os barcos da ria e outras com barcos sofisticados.

O Pedro foi crescendo e depois já não cabia nos barcos pequenos. Foi o tempo de se despedir do seu barquinho adorado. Uma nova aventura começava, agora passou a andar num 420, um barco maior que era tripulado por duas pessoas, o Pedro e um grande amigo seu, que formavam uma equipa. Era um barco grande com três velas, com um mastro enorme que fazia parecer o casco minúsculo. Os desafios foram sendo cada vez maiores, foi a muitas regatas e continuava a adorar velejar, agora já ia para o mar aberto, para os grandes portos e cruzava com navios de carga enormes.

Pedro sonhava com barcos maiores, com equipas com muitas pessoas, sonhava mesmo pilotar barcos grandes a motor em viagens à volta do mundo,… Quem sabe, tudo pode acontecer quando queremos muito e nos esforçamos por conseguir. Nunca podemos saber até onde o sonho e a vela nos podem levar.

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03
Mar21

O berço de todos

#7 - Azul Céu - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Foi há mais de cinquenta anos que a avó comprou aquele singelo berço com pés em vime e alcofa em entrançado de folhas de palmeira. Era um berço grande porque a avó tinha poucos recursos e queria que o seu bebé coubesse nele durante alguns meses. A alcofa também permitia transportar o bebé porque nessa altura não havia cadeirinhas especiais e carrinhos para passear o bebé. Carrinhos para passear até havia, com belas alcofas, mas essas a avó não podia comprar.

Com todo o cuidado e sabedoria de costureira vestiu aquela estrutura e aquela alcofa tornando-as dignas de um rei, criou um verdadeiro berço de ouro.

Começou por escolher um piquê de algodão com relevos arredondados em azul-celeste, assim estaria perfeito quer nascesse um menino ou uma menina. A alcofa tinha dois folhos longos rematados por um singelo bordado branco que acentuava a delicadeza e pureza que a alcofa transmitia. As pegas da alcofa foram revestidas com tiras de tecido da mesma cor e tudo parecia fazer parte daquele cantinho de céu azul. A forra à volta da caminha tinha um enchimento de esponja para tudo ser fofo e suave para o bebé, e de novo o azul recobria aquela macieza. No final o berço estava lindo, era requintado e singelo, confortável e diferente dos berços que a avó fazia para as pessoas abastadas que usavam tecidos luxuosos, mas também diferente dos singelos berços de madeira que eram mais habituais entre os vizinhos e familiares.

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E nasceu a menina que estreou o berço, depois outra menina e ainda outra. Todas usaram o berço e foram-se afeiçoando a ele ao vê-lo ser usado pelas irmãs.

Passaram trinta anos desde que tinha sido feito e quando a primeira menina estava para ser mãe quis aquele berço para o seu bebé. Tudo foi arranjado e limpo, mas a roupa do berço estava como se tivesse sido acabada de fazer. E nasceu uma menina, e depois outra e as três irmãs e a avó deliciaram-se a vê-las no bercinho que todas sentiam como seu.

Anos mais tarde a irmã do meio voltou ao sótão da avó para ir buscar de novo o berço. E nasceu uma menina, e depois outra e as três irmãs, a avó e as netas deliciaram-se a vê-las no seu berço.

E o tempo nunca para e aquelas irmãs todas sonhavam ser mães e foi a vez de a menina mais nova ir buscar o berço. Tinha passado muito tempo desde que o berço tinha sido criado e desta vez todos ficaram a saber que vinham aí dois belos meninos de uma só vez. E foi tempo de a avó inventar um berço novo “irmão” do berço de todos. Jazendo jus à diferença entre os dois meninos, a avó comprou de novo tecido de algodão azul-celeste e usou bordado branco, mas este novo berço não ia ser igual ao antigo. A avó fez um berço que combinava na perfeição com o antigo mas que era um pouco diferente. Quando nasceram os dois meninos todos ficaram maravilhados com os belos bebés perfeitamente emoldurados pelos berços azul-celeste. A avó maravilhava-se com os seus meninos, as suas primeiras meninas e as suas queridas netas e pensava que o berço provavelmente não iria receber outro bebé nós próximos anos.

Quando veio a notícia de que vinha lá um irmãozinho para os gémeos a avó nem conseguia acreditar, quase rebentava de alegria.

Agora o berço é a casa do bebé que já nasceu nestes tempos estranhos e o berço de todos continua a embalar como se fosse um céu azul.

Quem será que ele vai acolher ainda?

 

Texto no âmbito do #7 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Azul Céu

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

28
Fev21

Mãe quero ir passear, por favor!

Desafio Sonhamos ir por aí! Vá para fora cá dentro... de casa!

Cristina Aveiro

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Naquele dia o rapaz estava cansado de estar em casa, já tinham passado muitos dias e continuavam a não sair. Faziam coisas divertidas em casa, mas ele sentia mesmo a falta de ir ver a rua, de andar lá fora, de ir ver outros lugares. Antes costumavam passear, ir ver cidades, sítios distantes no campo e agora, nada.

Foi ter com a mãe e disse:

- Mãe quero ir passear, por favor!

Ele sabia que tinham que ficar em casa, mas talvez a mãe conseguisse acalmar aquela vontade, afinal as mães sabem sempre tudo, certo?

A mãe disse logo, então vamos! Vamos lá planear o nosso passeio. O que queres fazer, o que queres ir ver?

O menino ficou pensativo e perguntou como é que iam se tinham que ficar em casa. A mãe explicou que sonhando e pensando podemos sempre ir onde quisermos e que esse passeio eles podiam fazer juntos. O menino perguntou então se podiam fazer o que quisessem, mesmo que fossem coisas que não pudessem acontecer na realidade, coisas imaginadas. A mãe disse que sim e começaram juntos a planear a viagem.

O rapaz queria muito andar sobre a água e fazer coisas diferentes. Queria refastelar-se num sofá, fazer um piquenique, andar num baloiço e rodar num pião gigante como no parque infantil, queria sentar-se num banco alto de um bar, queria subir a uma colina e ver tudo à volta…

A mãe perguntou se não estava com demasiadas ideias estranhas, será que ainda queria fazer mais coisas em cima da água. Ele respondeu que sim, queira subir e descer, fazer abanar o mundo, sentir-se num conto de fadas, queria trepar a um relógio alto e agora não se estava a lembrar de mais nada, mas já tinha uma carinha mais animada.

A mãe disse que também queria fazer tudo o que ele tinha vontade, ela também adorava água e fazer tudo aquilo parecia-lhe fantástico. Assim que pudessem sair de casa ficava combinado, iam fazer tudo o que ele tinha pensado.

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O menino olhou para a mãe e perguntou como é que iam fazer aquilo, afinal não havia sofás, colinas, subidas e descidas ou baloiços sobre a água. A mãe sorriu e disse:

- Há uma cidade onde podes fazer tudo o que disseste! Tem um rio, sobre o rio há muitas pontes e penso que podemos fazer o que querias. O menino abriu muito os olhos e perguntou:

- A sério? Cá em Portugal? Onde?

A mãe foi dizendo que sim, era Leiria! Havia a ponte sofá, lá podiam refastelar-se. Havia uma ponte com mesas de piquenique e relva, outra com um relógio alto e magrinho a meio, uma ponte bar com bancos e tudo.

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O menino disse:

- Mas subir e descer? Brincar no baloiço? Isso não pode haver.

Há sim meu amor. Há a ponde D. Dinis, que sobe muito sobre o rio, parece uma colina com paredes de vidro de onde se pode ver o castelo do rei mesmo de frente, há a ponte ondulada que sobe e desce e onde pudemos pular e tudo fica a abanar na sua estrutura metálica flexível, há uma ponte que é um parque infantil e há mais pontes onde podemos inventar mais coisas para fazer.

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O menino e a mãe continuaram a planear aquele passeio, ambos se sentiam mais livres e até parecia que já tinham passeado.

Agora era só esperar para irem mesmo ver e viver as pontes a sério.

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Texto no âmbito do desafio "Sonhamos ir por aí"

Neste desafio participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, e a bii yue e quem mais quis.

27
Fev21

O gafanhoto com dor de barriga

Cristina Aveiro

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Era uma vez um jovem gafanhoto que era muito traquinas e maroto e estava sempre a dar dores de cabeça à sua mãe.

A mãe gafanhota sentira desde sempre que aquele seu filho era diferente. Quando fizera a postura de cem ovos da sua última ninhada, ao enterrar a barriga na terra para depositar aquele ovo tinha sentido um friozinho estranho. Quando fechara aquele ninho fora especialmente difícil colocar o tampão que protege o ovo até parecia que o ovo não queria ficar fechado. Ao contrário dos irmãos, aquele seu filho não demorara os 100 dias habituais a passar de ovo para ninfa e depois para imago. Foi a primeira ninfa a sair da toca, era lindo, parecia já um gafanhoto adulto mas claro, ainda não tinha asas. A seguir, antes de nada trocara o seu exoesqueleto e passara a imago, um jovem gafanhoto já com asas e tudo. A mãe ao ver como ele era diferente até chegou a recear que do ovo saísse uma lagarta e quem sabe ele se transformasse depois em borboleta, mas tudo aconteceu como o previsto só que mais depressa do que os restantes.

Gafanhoto-Foto-Thanakorn Hongphan - Shutterstock-c

A mãe era muito orgulhosa de todos os seus filhotes, todos belos e elegantes. A mãe não se cansava de olhar para as suas cabeças coroadas por duas antenas curtas, o seu tronco de onde partia o primeiro par de pequenas patas viradas para a frente, da sua bela e longa barriginha saiam mais dois pares de patas viradas para trás. As patas que a mãe mais apreciava eram as maiores, as que ficavam mais atrás, eram enormes, elevavam-se bem acimas das asas, na primeira parte eram muito gordinhas e musculadas e abaixo do joelho passavam a ser fininhas e tinham uma espécie de pequenos espinhos que eram fundamentais para controlar o ar quando saltavam e planavam. Claro que os dois pares de asas sobrepostas, as de fora mais fortes e compactas e as que ficavam escondidas por baixo e só se viam quando eles saltavam e até parecia que estavam a voar com a sua transparência e delicadeza até lhe pareciam as asas de uma libelinha, ou aos seus olhos de mãe pareciam ainda mais bonitas.

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Aquele seu filho andava sempre a explorar novos lugares, a provar tudo quanto encontrava, a tentar conhecer outros gafanhotos, joaninhas, libelinhas e um sem número de outros insetos. O que mais preocupava a mãe é que ele também queria ficar amigo das aves e dos pássaros e por mais que a mãe lhe dissesse para se manter afastado de outros animais, mesmo até de gafanhotos ele não obedecia.

Naquele dia o jovem gafanhoto foi ter com a mãe e mal saltava, até os seus cinco olhos estavam tristes. Sim os cinco olhos, os dois gigantes dos lados da cabeça que funcionavam como um conjunto de centenas de pequenas câmaras e lhe permitiam ver quase em todas as direções e os três pequenos olhos na frente da cabeça que lhe permitiam distinguir o claro do escuro.

Quando chegou junto à mãe começou a dizer que estava cheiinho de  dores de barriga, eram fortes, enormes e ele quase não se conseguia mexer-se. Enquanto explicava o que se passava as suas dobrinhas da barriga estavam sempre a esticar e a encolher, pareciam um acordeão a tocar. A mãe ficou deveras preocupada! Perguntou o que é que ele tinha andado a comer. Perguntou se ele tinha ido para junto dos campos das pessoas e se tinha andado por lá a provar os legumes. Ele começou por dizer que não, mas à medida que a mãe ia perguntando e explicando que era muito importante dizer toda a verdade para o poder tratar. Ele lá foi dizendo que sim, que não tinha resistido àquelas belas alfaces e também às nabiças, mas que tinha sentido um sabor muito amargo e comera muito pouco. A mãe sabia bem o que tinha acontecido, o agricultor devia ter usado aqueles venenos para os insetos não comeram os seus legumes.

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Ficou muito, muito aflita. Deu logo ao pequeno gafanhoto uma erva muito amarga e oleosa que ele não queria comer porque dizia que sabia muito mal. A mãe disse que nem queira ouvir nada, era comer e calar. Nem um minuto depois de comer a erva horrível lá estava ele a vomitar por todos os lados, parecia um jacto de uma mangueira dos bombeiros. Saia uma gosma verde sem fim. Ele estava de rastos, agora estava na mesma com a dor de barriga anterior, aos soluços, enjoado como nunca tinha estado e com novas dores de barriga provocadas por ter estado a vomitar como um vulcão. A mãe explicou-lhe que ainda ia ficar pior antes de ficar melhor. Ele ficou aterrado. Como era possível ficar ainda pior? Oh, céus!

A mãe com muito jeitinho começou a dizer-lhe que ia ter de levar um supositório. O pequeno não sabia o que era. Então a mãe foi procurar uma baga escura de uma planta que ele não conhecia, era negra, arredondada pareceu-lhe uma espécie de pinhão preto. Assim que a mãe lhe explicou o que ia acontecer a seguir o pequeno gafanhoto entrou em pânico, tentava saltar e fugir dali, mas os seus saltos eram minúsculos. A mãe foi conversando, disse-lhe que não era nada do tamanho de um pinhão, que ele tinha que ficar sossegado para tudo ser mais fácil, mas nada. Ele esperneava, desviava-se, virava-se de barriga para cima e depois para baixo, torcia-se e retorcia-se de dores, de medo puro e com a energia que o medo empresta. Tudo no seu corpo lhe dizia para fugir para longe, ele sabia que a mãe não lhe ia fazer nada de mal, que queria trata-lo, mas isto? Que ideia aterradora, como é que aquilo podia ajudar? Por mais que a mãe explicasse o seu cérebro não escutava, os ouvidos apenas ouviam, mas o seu cérebro só gritava fogeeee.

Vieram reforços para resolver a situação, os seus super olhos captavam imagens de um rebanho de gafanhotos a rodeá-lo, a agarrar em todo o lado, pernas, cabeça, barriga, tudo! Por muito que quisesse escapar, pumba, aconteceu. A maléfica semente entrou e aquela sua barriga estava ainda mais enlouquecida. Parecia que tudo estava a saltar lá dentro e que se começava a formar uma onda gigantesca nas suas  entranhas. E a onda crescia, e doía, doía e parecia aproximar-se do fim do seu corpo. Não, não era possível, será que ele nem se ia poder afastar para resolver aquilo? Porque é que todos se estava a afastar rapidamente? Será que o estavam a abandonar? Ele não conseguia conter-se mais, ia começar a sair, nunca imaginou que a sua barriga estivesse tão cheia, parecia novamente que ele estava a deitar um jacto, a barriga continuava a encolher e a esticar-se como um acordeão e ele estava a esguichar para a frente e para trás, parecia quase uma fonte luminosa com dois repuxos. Ele não sabia quanto tempo aquilo ia durar, mas parecia que não ia ter fim.

Toda a família do gafanhoto estava bem perto a ver como ele reagia ao tratamento. Felizmente estava a resultar porque os terríveis venenos estavam a sair e todos estavam com esperança que ele ficasse bem.

Aos poucos o pequeno gafanhoto foi acalmando e começou a sentir-se melhor. A mãe tinha razão, tinha ficado bem pior antes de ficar melhor! A mãe também tinha razão quando lhe dizia para não ir para sítios perigosos e provar tudo o que lhe dava vontade.

O pequeno gafanhoto decidiu que ia passar a escutar e usar os conselhos da mãe, mas sabia que ia ser difícil. Será que ele vai conseguir, ou será que vai voltar a correr riscos desnecessários?

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24
Fev21

Mãe o que é o almoço?

#6 - Laranja - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina que queria sempre saber o que ia ser o almoço e a mãe às vezes aborrecia-se com a pergunta. De vez em quando a mãe dizia “Cascas de tremoço e o jantar são bordas de alguidar”, a menina ria-se e insistia, mas não ficava a saber nada mais.

Naquele sábado a menina perguntou de novo o que era o almoço e a mãe prontamente disse que ia ser uma Sinfonia Laranja, a menina ficou admirada e perguntou o que era isso. A mãe disse que não podia dizer mais nada, ela teria de adivinhar.

Há muito tempo que a mãe andava a imaginar a Sinfonia Laranja e hoje era o dia.

Para começar a mãe tinha feito um creme de abóbora suave e delicado de um laranja intenso. Seguiu-se um salmão no forno com batata doce cor de laranja, cenouras e pedacinhos de pimento laranja, tudo muito bem regado com azeite e ervas aromáticas.

Para sobremesa era um não acabar de delícias. Um enorme prato com fruta laminada, laranja, tangerina, toranja, manga, papaia, pêssego, damasco e fisális para completar. Um enorme prato coberto de fatias finas de dióspiro duro polvilhado de canela que parecia saído de uma receita conventual. Para além da fruta havia uma deliciosa torta húmida de laranja e um cremoso sorvete de clementina.

Para beber havia um enorme jarro de sumo de laranja acabado de espremer e uma bela sangria de champanhe de pêssego para os adultos.

A mãe não tinha a certeza se todos iam gostar da sinfonia, mas tinha a certeza absoluta que iam ficar de boca aberta! Quem é que se ia lembrar de servir apenas delícias cor de laranja?!

Ela, claro! Adorava desafios e tinha-se desafiado a si própria a fazer um belo menu todo cor de laranja. Estava tudo lindo e fazia crescer água na boca.

Quando tudo estava pronto a mãe chamou para virem por a mesa com os pratos brancos mais bonitos e os copos de festa. Todos queriam ir à cozinha ver o que cheirava tão bem, mas a mãe não deixou ninguém ir espreitar à cozinha.

Só quando todos estavam sentados é que a mãe começou a trazer a Sinfonia.

E tudo foi num crescendo até aos retumbantes acordes finais da sobremesa.

A mãe ficou feliz com os sorrisos que foi recebendo do melhor público do mundo.

Um destes dias ia tocar outra sinfonia…

 

Texto no âmbito do #6 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Laranja

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, e a bii yue.

Todas as quartas-feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós :)

 

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