Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Contos por contar

Contos por contar

16
Jul21

O piano e a baleia

Cristina Aveiro

fiche_nat_baleine_2_irt_ceric_lamblin.jpg

Era uma vez uma ilha onde nasciam os pianos mais perfeitos e belos do mundo. Os pianos eram feitos com madeira de abeto, estrutura e cordas de metal e milhares de peças que funcionavam harmoniosamente entre si com a precisão de uma orquestra.

Japão.jpg

Um dia chegou à ilha das cerejeiras em flor, onde nasciam os pianos, um pedido para que nascesse um piano de cauda especial, com as melhores madeiras e criado pelos melhores artesãos da ilha. E foi assim que na ilha das cerejeiras em flor nasceu o belíssimo piano de cauda a que chamaram Sakura. Era magnífico, os seus sons, a sua música, encantavam todos os que a escutavam, parecia mágico.

12223-v1-490x.jpg

Do outro lado do mundo, numa pequena ilha verde, todos esperavam ansiosamente a chegada do piano. A vinda do piano de cauda para a ilha era um sonho antigo, que tinha sido muito difícil de alcançar. Tudo começara com um rapaz pequeno que estudava piano com uma professora idosa no seu pequeno piano antigo. Dizia-se que ela tinha sido uma pianista famosa que viera viver na pequena ilha verde para poder sentir a sua paz e para estar sempre a ver o mar. O menino aprendia tudo velozmente, treinava e estudava sem nunca se cansar. A professora cedo percebeu o talento enorme que o menino tinha e nunca se cansava de o ensinar, de o desafiar, enfim de o conduzir para ir sempre mais longe na sua música.

Na pequena ilha verde todos foram ficando a saber do talento do menino e iam em grupos para o jardim da pequena casa branca escutar o menino e a sua música. Cada vez havia mais pessoas a ir sentir o encanto da música e o jardim foi ficando pequeno para todos. Começaram então a sonhar com uma grande sala com paredes de vidro viradas para o mar e com um piano de cauda como os das melhores salas de concertos do mundo. Se bem sonharam, melhor fizeram e juntando esforços ao longo de anos conseguiram pedir para que nascesse Sakura na ilha onde nasciam os pianos.

fbca5d71e73dfa3c79999be5a0fc7edf.jpg

Finalmente tudo estava preparado na ilha verde e a longa viagem de Sakura, pelo oceano já começara. Os dias passavam devagar na ilha verde, onde as vacas vagarosamente pastavam livres e felizes nos campos a ver o mar, onde os ilhéus percorriam as estradas sempre contornadas de hortênsias azuis com uma calma e tranquilidade especial que existia em muito poucos lugares do mundo.

Pico_Matias_Simão,_Altares,_Angra_do_Heroísmo,_I

A bordo do navio, Sakura, o belo piano de cauda, sentia angústia por ter deixado a ilha onde tinha nascido e sentia desconforto com o frio e a humidade do ar. Quando o navio balançava ficava mais tranquilo e até conseguia sentir alguma música naquele ondular. Ao fim de muitos, muitos dias no mar, Sakura começou a ver ao longe o que lhe parecia ser umas ilhas. Havia também outros barcos, mas o que lhe prendeu toda a sua atenção foi um som forte, único, era uma canção, mas não era cantada por pessoas. O som era grave e forte, parecia triste e fazia-o sentir um friozinho na barriga, parecia que o estavam a chamar.

Boca da Baleia.jpg

Tentou perceber de onde vinha aquele som mágico e percebeu que vinha do mar. Ao longe, ao lado do navio ele viu de onde vinha o som. Oh! Como era bela! Era cinzenta, quase preta, enorme, erguia-se sobre as águas e voltava a cair no mar deixando apenas à vista a sua belíssima e singular cauda. Ele nunca vira tanta beleza, abaixo da enorme boca sorridente ela tinha o que pareciam ser teclas que se afastavam quando a boca estava cheia de água. Ouviu os marinheiros dizerem que era uma baleia. Nunca tinha visto nada tão belo, como gostaria de ter alguém que o tocasse e juntasse a sua música à maravilhosa canção da baleia. Será que ela algum dia iria escutar a sua música? Será que ela poderia sequer prestar-lhe atenção?

Baleia a saltar.jpg

No céu uma andorinha preta e branca que voava por aquelas paragens sentiu a emoção que a canção da baleia despertava no enorme piano de cauda que viajava no barco. A andorinha até conseguia sentir a música que o piano deixar sair das suas entranhas para acompanhar a melodiosa canção da baleia. Havia no ar tanta música que a andorinha deu por si a acompanhar com o seu canto aqueles dois seres enormes, vestidos de negro, com enormes sorrisos e cheios de música por dentro. Só a andorinha é que pôde ver aquele encontro mágico entre a enorme baleia e o imponente piano de cauda que acabava de chegar ao porto da ilha.

baleia no mar.jpg

Com a chegada ao porto, foi um nunca mais acabar de manobras e transportes até que finalmente colocaram o majestoso piano de cauda na sala de concertos virado para o mar. Chegou então o momento que todos pacientemente tinham aguardado, o menino sentou-se ao piano e começou a tocar. A magia das mãos do menino nas teclas do piano e a perfeição e imponência dos sons do Sakura foram avassaladoras, a música encheu a sala, abriram as janelas viradas para o mar e jorrou música como se fosse a lava de um imparável vulcão. Tudo parou na ilha, não havia qualquer outro som que não o do piano e ao longe, muito longe podia escutar-se o som da baleia que cantava com toda a alma parecendo chamar Sakura para junto de si.

Desde esse dia e durante muitos anos sempre que o piano de cauda da ilha verde era tocado via-se a baleia bater a sua cauda no mar e escutava-se o seu canto grave e profundo.

No mar cada vez mais baleias, golfinhos e todo o tipo de criaturas marinhas iam vindo até à baía próxima da sala de concertos onde Sakura, o magnifico piano de cauda apaixonado era tocado. As pessoas vinham de todas as paragens para sentir a música e ver as mais variadas criaturas do mar concentradas na baía enquanto durava a música. No meio de todos brilhava sempre a baleia que ele tinha visto quando tinha chegado à ilha verde e pela qual era profundamente apaixonado, era ela que fazia o canto mais admirável e apaixonado e que no dueto único com o seu amado atraia os seres humanos e os seres marinhos.

dancing-whales-group-of-sperm-whales-wallpaper-pre

 

 

 

10
Jul21

O menino que vivia no retângulo

Cristina Aveiro

 

IMG_0958.JPG

Era uma vez um menino que vivia num pequeno país que tinha a forma de um retângulo. Não se pense que era um país de matemáticos ou dado ao estudo sobre geometria, apenas aconteceu que com o tempo foi ficando com a forma de retângulo e os seus habitantes tinham muito orgulho na sua forma tão perfeita. Os habitantes do país tinham também muito orgulho por terem dois lados do retângulo virados para o mar. Havia o mar do lado pequeno e o mar do lado grande.

O menino vivia juntinho ao mar do lado pequeno. Nesse lado, mais a Sul, era raro fazer frio e no verão o calor apertava, mesmo à noite reinava a brisa morna e doce que parecia abraçar as pessoas. O menino tinha nascido naquele lado, e tinha ali crescido, toda a sua família vivera sempre naquele pequeno lado sul do retângulo. Os pais, os tios, primos e avós viviam do mar e do que a terra vermelha e fértil dava. Havia naquelas paragens figueiras, amendoeiras, alfarrobeiras, laranjeiras com laranjas doces como o mel e muitas hortas mais delicadas junto aos rios do barrocal.

O mar era o que mais atraia o menino. Gostava de ir com os tios nos seus barcos à pesca durante a noite com toda aquela agitação, algum friozinho na barriga que o mar sempre trazia e aquele cheiro especial que se vivia no barco.

IMG_7340.JPG

Adorava ir com os mariscadores para a ria que havia entre a terra e o mar, cheia de pequenas ilhas que pareciam canteiros num jardim feito de água pachorrenta. Aquele lugar era tão belo que até chamavam Formosa à Ria. O menino ia apanhar ameijoas, conquilhas, berbigões, lingueirões e outras delícias que trazia quando voltava para casa com o seu quinhão. Quando a mãe ia buscar a velha frigideira larga e desenhava a linha fina com o azeite, decorava com os cubinhos de alhos branco entre as linhas e levava ao lume forte começava a magia dos aromas. Depois era escutar aquele som inconfundível das cascas a baterem no metal e do azeite quente a resmungar por ser arrefecido e as conchinhas pouco a pouco a fazer aquele blac quando abriam. Nesta altura já a mãe tinha deitado carinhosamente uns pés de coentros do quintal para colorir e perfumar aquela verdadeira obra de arte que tocava todos os sentidos. Tudo eram perfumes inebriantes, desde o lavar das conhas que cheiravam a mar, ao doce cheiro morno do azeite a embalar os cubos do alho, à fusão de aromas perfeita quando chegavam as conchas e os coentros à frigideira sábia.

O menino vivia uma vida simples cheia de sol, mar e terra quente e vermelha. Na escola aprendia sobre o mundo, onde lhe afiançavam que havia países que não eram retângulos e que não se conhecia outro com uma geometria tão perfeita como o seu. Não pensem que o menino sonhava visitar e conhecer esses países de formas irregulares de outras geografias. O grande sonho do menino era conhecer todo o mar do lado grande do retângulo. Ia falando do seu sonho a todos e um dia levaram-no até a um lugar que ficava a meio do lado do mar do lado grande.

IMG_2691.JPG

O menino ficou fascinado e ao mesmo tempo perturbado. Aquele mar reinava sobre a terra, tinha um cheiro tão forte a maresia que parecia que o seu mar nem tinha cheiro. Aquele cheiro a maresia quase lhe trazia à boca o sabor do mar. As ondas deste mar não eram doces e vagarosas como as que conhecia. As ondas do mar do lado grande eram altas, cheias de espuma branca e impunham a sua voz bem alto dominando os sons da praia. Aquele mar não tinha o azul do seu, era de um azul mais cinzento, mais turvo e revolto e fazia a areia andar num desassossego veloz de trás para a frente e da frente para trás.

No regresso a casa o menino tinha a cabeça cheia com tantas coisas novas que tinha visto, estava muito feliz. Pensava como é que os dois mares podiam ser tão diferentes, o mar do lado grande nos seus modos mais bruscos e com toda a sua força lembrava-lhe um homem enorme, quase temível, mas ao mesmo tempo belo e fascinante. O seu mar, com a beleza da cor e da tranquilidade, os modos suaves e a graciosidade lembravam-lhe uma mulher carinhosa e tranquila quase tão doce como a sua mãe. O menino decidiu que quando fosse grande ia fazer uma lei em que o mar do lado pequeno passaria a ser “a mar” e que o mar do lado grande se continuaria a chamar “o mar”.

Quando em casa falou destas ideias sobre os dois mares um dos seus tios disse-lhe que havia países em que o mar era sempre tratado como “a mar” porque o mar é fonte de vida tal como todas as mães. O menino ficou feliz porque havia noutros lugares quem pensasse como ele. Desde esse dia o menino passou a olhar para o seu mar do lado pequeno e a pensar nele como “a mar”.

 

 

 

 

 

04
Jul21

A menina dos brincos-de-princesa

Cristina Aveiro

 

EDM_GARDENS-850x510.jpg

Era uma vez uma menina pequenina que adorava brincar às princesas e de se vestir com roupas brilhantes e coloridas e passear pelo seu reino com as amigas num mundo de brincadeiras sem fim. No seu reino não havia tempo e todos podiam fazer o que queriam enquanto quisessem, sem ter de ir para aqui e para ali, fazer isto e mais aquilo.

O reino da menina era o reino de brincar, de fazer o que se gosta até cansar e só então ir fazer outra coisa. Era um reino tranquilo, com gargalhadas, enganos e trapalhadas, onde se podia mais tarde tudo esclarecer e voltar a resolver porque nunca havia pressa. A princesa e as amigas enganavam-se muitas vezes a fazer as coisas que queriam, mas depois voltavam com calma a tentar, e tentar até conseguir alcançar o que tinham desejado e sonhado.

Um dia as meninas princesas do reino disseram aos reis que queriam muito ir passar tempo no campo, deixar o seu palácio e ir para o campo, para o jardim, para a floresta explorar, ver, cheirar e sentir o mundo mais verdadeiro e vivo do que o que se vivia no palácio.

Os reis pensaram e conversaram e finalmente lá decidiram que no sábado à tarde as princesas iam poder visitar os domínios da rainha-mãe, que era afinal a avó da princesa.

Oh, como ficaram felizes as princesas! Que mil planos fizeram! Como iam correr pelos campos de papoilas, perder-se no jardim das camélias, procurar os pássaros azuis que voavam sobre o rio bordejado de canas e velhas árvores preguiçosas. Um dos sonhos das princesas era encontrar um ninho e ver os ovos ou os passarinhos pequenos. A princesa conhecia um rapaz que vivia numa aldeia junto aos domínios da rainha-mãe que sabia tudo sobre pássaros, coelhos, ervas e segredos da floresta. Se ele estivesse por lá no sábado à tarde tinha a certeza de que iam ver coisas novas que nunca tinham visto e era isso que as princesas mais queriam.

E finalmente chegou o sábado à tarde e lá foram as princesas, a rainha-mãe estava radiante com a visita, tinha preparado um banquete com bolos, morangos, cerejas, bolachas de mel e todas as delícias que se podiam encontrar nos seus domínios. Foi um não acabar de conversas e gargalhadas até que as princesas pediram permissão para irem até ao seu reino de brincar. A rainha-mãe concedeu que se ausentassem e sugeriu que fossem até ao jardim e procurassem os brincos-de-princesa para ver quais os que ficavam melhor a cada uma. Disse ainda que as cerejas também davam belos brincos de princesa, e que podiam também experimentar.

fucsia-em-vaso-2.jpg

As princesas foram até ao jardim e estavam contentes porque adoravam enfeitar-se com brincos, colares e mesmo coroas. No jardim começaram a procurar os brincos, mas não encontraram nada. Havia flores, arbustos, árvores, mas não encontraram brincos. Começaram então a fazer coroas com flores para enfeitarem as suas cabeças reais e adoraram o cheirinho doce que as coroas libertavam. Depois treparam à cerejeira e apanharam cerejas enormes e bem vermelhas que deixavam a boca toda pintada. Começaram então a experimentar usar as cerejas aos pares penduradas nas orelhas como brincos e sentiram-se mais belas do que com quaisquer outros brincos que já tinham usado. Estavam a divertir-se imenso, mas ainda não tinham encontrado os brincos de que a rainha-mãe falara.

Estavam as princesas a procurar os brincos quando chegou o rapaz da aldeia ao jardim. A rainha-mãe tinha-o convidado para vir para o reino de brincar. O rapaz riu-se e disse que o difícil era escolher quais os brincos que ficavam melhor a cada princesa, encontrá-los era a coisa mais fácil do mundo, afinal elas estavam rodeadas por eles. A princesas nem estavam a acreditar, como podiam estar rodeadas de brincos e nem os ver?!

O rapaz disse, com a sabedoria de quem vive na natureza, que podemos olhar e não ver, para ver é preciso saber e conhecer. As princesas estavam cada vez mais intrigadas e ele começou a mostrar-lhes os brincos-de-princesa brancos, os rosa-claro, rosa-escuro, lilás, violeta, grandes, pequenos, singelos, dobrados, enfim uma variedade enorme que havia no jardim da rainha-mãe.

ca8fe83e99d5cc9138f62df436a2cc81.jpg

As princesas começaram a experimentar nas suas orelhinhas pequenas e estavam encantadas, não era fácil escolher os que mais gostavam. Depois de encontrarem os brincos certos para cada uma, colocaram as suas coroas de flores e foram mostrar à rainha-mãe as suas joias belas e preciosas. O rapaz estava divertido com toda aquele entusiasmo das princesas pelos brincos e coroas, enfim, coisas de meninas! Ele estava era cheio de vontade de ir ver como estava o ninho que tinha encontrado na pereira junto ao riacho e tinha esperança que elas também quisessem ir ver.

Quando o rapaz disse que queria ir atá ao riacho ver um ninho, as princesas disseram logo que queriam ir, deixaram para trás as suas joias e lá foram todos juntos a correr pelos campos fora.

blackbird-nest-blackbird-egg-nest-bird-s-nest-bird

Assim que se aproximaram da pereira, ele disse que não podiam fazer barulho, que tinham que esperar e ver se os pais do ninho não estavam lá. Se estivessem podiam ficar assustados e abandonar o ninho e isso não podia acontecer. As princesas e o rapaz ficaram escondidos atrás de umas ervas altas a observar o sítio que ele lhes mostrava ao longe, onde estava o ninho. Primeiro elas olhavam, mas não viam nada, depois com as explicações dele e com mais atenção lá viram o ninho castanho, bem redondinho encaixado numa bifurcação de ramos. Esperaram bastante até terem a certeza de que não estavam lá os pais e foram até lá ver. As princesas ficaram espantadas com a perfeição da cama redonda, acolchoada com palhinhas finas e delicadas e com os lindos ovos pequeninos azuis sarapintados. O rapaz disse que eram ovos de melro e que tinham de ir embora porque os pais podiam regressar ao ninho.

Ficaram ainda a ver ao longe, escondidos, até que o melro voltou para o ninho e se aninhou lá tão bem que quase não se via.

O sol estava a começar a esconder-se e tiveram de regressar a casa da rainha-mãe. Os reis chegaram para levar as meninas de volta ao palácio na cidade. Na viagem de regresso as meninas, todas engalanadas com as suas coroas de flores e com os seus brincos-de-princesa foram dizendo aos reis que quando crescessem não queriam viver no palácio, queriam ir viver para o campo porque lá o reino sem tempo era mais real e mais perfeito e tudo era mais verdadeiro e livre.

Os reis trocaram olhares e sorriram, eles compreendiam bem o que a sua bela princesa dizia. No futuro tinham que voltar todos e passar mais tempo no campo onde todos viviam mais genuinamente.

 

 

Hoje muitas crianças não têm tempo para gastar a brincar como bem lhes apetecer, sem atividades e mil tarefas, falta-lhes tempo de exploração livre do mundo, em especial da natureza. Este reino sem tempo, ou reino de brincar é um reino onde as temos de deixar ir mais vezes, sujarem-se, molharem-se, cheirarem as ervas, magoarem-se às vezes, ... Isso é que é ser criança de verdade!

29
Jun21

Um ano de Contos por Contar

Cristina Aveiro

Bolo Aniversario 1.jpg

Iniciei esta aventura dos Contos por Contar em 7 de junho de 2020, criando um espaço para partilhar os contos que escrevi durante o primeiro confinamento. Nada sabia de blogs, apenas sabia que existiam, já tinha espreitado alguns sobre viagens e nada mais.

Foi muito bom ir aprendendo a forma de fazer as coisas e foi bom sentir que havia alguém do outro lado.

Passados poucos dias a 26 de junho fui surpreendida por a equipa ter destacado um post que fiz sobre O passeio de todos os dias, não tinha a noção do que seria um destaque, mas imaginei que tivessem gostado (nem fiz um print do acontecido). Depois começaram as surpresas porque apareceram pessoas que me foram desafiando para escrever e eu fui aceitando os desafios que consegui, gostei particularmente de "As melhores férias da minha vida" em 100 palavras. 

Para manter a sanidade no verão escrevi muitos contos e estabeleci o propósito de todos os sábados publicar um novo conto.

Veio o Natal e surgiu um novo desafio que me encheu a alma Os nossos contos de Natal - 2020 da Isabel e nessa altura comecei a sentir que fazia parte de uma bando de sapos muito especial.

Chegados ao final do ano de 2020 todos começaram a dizer que 2020 era um ano para esquecer, como se a simples mudança de ano mandasse embora todos os problemas que a pandemia tinha trazido, ou que 2020 tivesse sido um ano em vão. Como não concordo escrevi  O estranho ano de 2020 e para grande alegria minha foi destacado pela equipa e desta vez já fiz um print para me lembrar.

Destaque -o estranho ano 2020.jpg

Depois veio o terrível janeiro de 2021 e novo confinamento. Em boa hora a Fátima Bento lançou Desafio da Caixa dos Lápis de Cor e então senti-me mesmo num sapal de gente bonita que gosta de se desafiar, de se ler e comentar, de se amparar nesta aventura que é a vida. Confesso que estar neste sapal me tornou mais feliz e deu cor a estes tempos cinzentos.

Veio o Dia mundial da Poesia, 20 de março, e a equipa desafiou-nos a celebrar, eu escolhi O Sapo de Afonso Lopes Vieira um poema para crianças do livro "Animais nossos Amigos" que me trás das melhores memórias de criança, o amor à natureza, o respeito pelos animais, ... e fiquei muito contente quando a equipa deu destaque à minha escolha e depois comentou "Obrigado, Cristina, foi uma belíssima escolha. Fica como o nosso poema honorário da plataforma  ". Belo hino aos Sapos desta vida este poema.

Destaque Sapo - Dia Mundial da Poesia - Março 202

Nos últimos tempos não tenho tido tempo para este lado feliz da vida, foi de tal forma que até me esqueci de partilhar estas reflexões em jeito de comemoração do 1.º ano.

Nunca esperei que os contos chegassem a tantas pessoas e a tantos lugares, estou muito feliz com isso!

Vamos ver o que vem a seguir!

 

10
Jun21

A Ovelha Preta

O Francisco contou e eu escrevi!

Cristina Aveiro

como-criar-ovelhas-corretamente.jpg

Era uma vez um pastor que vivia numa aldeia com casas branquinhas. Num dia de chuva o pastor saiu de casa e encontrou uma ovelha preta na aldeia.

A ovelha sentia-se muito triste porque estava sozinha, não tinha nada para fazer, não tinha nenhum amigo ao seu lado. A ovelha preta tinha-se perdido da sua família porque naquele dia de chuva a família abrigou-se numa gruta nas montanhas perto da aldeia e a ovelha preta foi a única que ficou ali, não viu a sua família a fugir.

O pastor levou a ovelha para sua casa. A ovelha viu que o pastor tinha um cão chamado Piloto. Lá fora atrás da casa a ovelha reparou que o pastor tinha muitas ovelhas. A ovelha pensou que talvez estivessem ali os seus pais e começou logo a procurar, mas não os encontrou. Todas as ovelhas do rebanho eram brancas!

9b6ee-ovelhanegra-e1543649880664.jpg

Quando era hora do jantar, a ovelha viu que havia cenouras e feno nas gamelas. Todas as ovelhas se regalaram com aquela bela refeição no enorme estábulo. Havia também uma grande pia em pedra onde caia a água fresca de uma bica e todas as ovelhas bebiam alegre e ruidosamente.

portal-agropecuario-instalacoes-criacao-cordeiro.j

No dia seguinte, o pastor e o Piloto abriram as portas do estábulo e levaram as ovelhas por um caminho estreito ladeado por muros de pedra solta. Depois de muito caminhar chegaram a uma encosta cheia de ervas, muitos trevos, pampilhos, saramagos e muita água fresca de um ribeiro que por ali passava.

black-sheep-sheep-flock-of-sheep-black-white-flock

Estavam todas a comer a erva deliciosa quando a ovelha preta viu ao longe nas montanhas um grupo grande de ovelhas pretas. A ovelha preta desatou a correr para lá e correu, correu e correu sem nunca parar. O Piloto bem correu e ladrou atrás dela, mas nada a fazia parar.

Quando a ovelha preta chegou perto do rebanho desatou aos pulos e a balir:

- Méee, mée, mé,… sem parar.

Os pais, os irmãos e os avós estavam muito, mas mesmo muito felizes por a ovelha preta ter voltado e por a família estar novamente junta.

O Piloto e o pastor ficaram a ver o reencontro e o pastor chorou de alegria.

Schweizer_Juraschaf_klein.jpg

Hoje estive com o meu sobrinho Francisco e desafiei-o a contar uma história! Esta semana na escola o Francisco ouviu o conto "A ovelhinha preta" de Elizabeth Shaw e foi inspirar-se no que escutou. Foi um momento tão bom escrever o que fomos inventando.

04
Jun21

A menina descalça

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 3

Cristina Aveiro

A menina descalça.jpg

Foto: Artur Pastor

Andava sempre descalça, como as restantes crianças da aldeia. Os seus pequenos pés estavam habituados à dureza do chão, ao calor e ao frio e pareciam nem sentir as pedras do caminho. Apenas quando ia à cidade reparava que havia pessoas que usavam tamancos ou sapatos e botas nos pés. Havia também a professora e o senhor padre que nunca tinham os pés descalços.

68848767_676717539511862_8890086036428816384_n.jpg

Foto: Artur Pastor

Um dia a sua madrinha disse-lhe que lhe ia mandar fazer uns tamancos com a pele do porco que iam ter na matança. A pequena ficou contente com a ideia de ter umas tamancas, mas o que mais a entusiasmou foi a festa da matança. Era sempre um dia especial em que havia carne fresca para todos, em que faziam as morcelas e as chouriças. Era uma festa com a família e os vizinhos, até se comprava pão branco em vez da broa que coziam sempre. Quanto às tamancas, talvez fosse bom, afinal via muitas mulheres na cidade a usá-las.

Sapateiros.jpg

Foto: Artur Pastor

Veio o dia em que teve de ir ao sapateiro para tirar as medidas para fazerem as ditas tamancas e depois mais tarde a madrinha chamou-a lá a casa para lhe entregar o presente. A menina chegou e ficou encantada com as tamancas novas. Eram de madeira clara com tachas reluzentes e a pele do porco também era clara e limpa. Eram mesmo bonitas! A madrinha disse-lhe para ir lavar os pés à bica da represa junto à casa para não as calçar com os pés sujos. A menina assim fez e depois calçou-as com todo o cuidado. Não sabia o que devia esperar porque nunca tinha calçado nada e sentiu logo os seus pés aprisionados em algo duro, muito duro. A madrinha perguntou-lhe se gostava e se estava contente. A menina disse que sim, que gostava muito. Estava convencida que devia ser por não estar habituada e com o tempo ia ficar melhor com as lindas tamancas.

unnamed.jpg

Saiu de casa da tia e ao caminhar para casa parecia que o chão do caminho tinha pedras como nunca, sentia todos os altos e baixos e tudo isso lhe magoava os pés por baixo. Na parte de cima a pele grossa do porco roçava-lhe a pele delicada que ia desaparecendo à medida que caminhava. Ainda não tinha chegado à fonte que ficava a meio do caminho e já tinha duas enormes feridas a sangrar no peito de cada pé. Os seus pés parecia que andavam aos soluços de forma desconchavada dentro das tamancas e não havia maneira de andarem em ritmo certo. A dor que sentia na planta e no peito dos pés tornavam o caminhar cada vez mais difícil, mas a menina não se atrevia a descalçar-se como tanto lhe apetecia. O que iriam dizer as gentes da aldeia, pensariam que não tinha gostado do valioso presente da madrinha. Ela não queria dar esse desgosto à madrinha e lá foi caminhando a custo até que chegou a casa.

Assim que entrou descalçou-se e disse para as tamancas:

- Não aguento mais convosco!

Ao mesmo tempo que o dizia atirou com elas para longe. A mãe e o pai que já estavam ao borralho nos bancos corridos da lareira grande ficaram admirados com a atitude da menina que não era dada a explosões. Perguntaram o que se passava, porque tinha mandado as tamancas e porque não aguentava com elas. A menina mostrou os seus pés ensanguentados e feridos e disse o quanto lhe doíam os pés e que nunca mais queria usar tal coisa. Nunca as pedras do chão a tinham magoado tanto, nem mesmo quando dava uma topada nalgum seixo mais levantado que não tivesse visto. Estava dito, não as queria mais.

Os pais tiveram pena da sua menina, ela que estava tão contente por ir ter as tamancas agora não se estava a dar com elas!

Então o pai disse-lhe que a madrinha não lhe tinha dado uns tamancos, deviam ser era umas salgadeiras como as de pôr a carne do porco porque afinal lhe tinham posto a carne à vista… A menina bem sabia que o pai estava a brincar com ela para que não levasse o assunto tão a sério, mas não achou graça nenhuma, continuava zangada com as tamancas. Então o pai voltou à carga e disse-lhe que se os seus sapatos lhe tivessem feito aquele serviço aos pés que os mandava para o lume e nunca mais os queria ver.

Ainda o pai não tinha acabado de dizer já a menina fazia voar as tamancas para o lume. O pai nunca imaginara que a menina fosse passar aos atos e muito menos com aquela rapidez. De um salto pegou na tenaz e salvou as tamancas do lume, afinal eram novas e tinham sido caras.

A menina disse para fazerem o que quisessem com elas, mas que aos seus pés nunca mais voltariam.

Mae a vender tripas na feira.jpg

Foto: Artur Pastor

Texto no âmbito do Tema 3 do Desafio dos Pássaros - 3.0 que nos dava como mote "Não aguento mais contigo! - afirmou enquanto o atirava para longe.

Este texto vive no Portugal descalço dos anos 50, onde nalgumas cidades foram criadas multas para os que lá circulassem sem calçado. Como se fosse uma questão de escolha e não de uma pobreza extrema. Queria esconder-se essa pobreza aos olhos de alguns citadinos talvez. 

 

 

21
Mai21

A menina de sua mãe

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 2

Cristina Aveiro

Menina com feixe.jpg

            Foto: Artur Pastor (?)

Na pequena casa térrea com chão de sobrado de madeira de pinho, pequenas janelas e grossas paredes caiadas, a cozinha e a lareira eram o coração da casa. A cozinha era tudo o que havia na casa para além dos dois exíguos quartos de dormir onde mal cabiam os leitos estreitos de ferro. As camas eram limpas e confortáveis com os seus colchões de camisas de milho secas, os velhos lençóis estreitos de algodão e as mantas grossas de trapo.

Viviam do que a terra dava graças ao trabalho de todos no amanho de umas quantas leiras onde cultivavam as hortas, o milho para a broa, algumas árvores de fruto, a vinha e a azeitona. Tinham uma capoeira de galinhas, meia dúzia de ovelhas e outras tantas cabras, engordavam dois bácaros por ano para terem alguma carne na salgadeira e assim iam governando a vida para que não faltasse a comida na mesa.

artur-pastor-fruta-999x1024-1.jpg

Foto: Artur Pastor

Fosse Inverno ou Verão o lume estava sempre aceso e havia que não o deixar apagar porque os fósforos eram caros, 3 tostões a caixa e nem sempre havia. Quando o lume se apagava em casa ia-se a casa de uma vizinha pedir umas brasas ou um tição aceso para atear de novo.

O fogão da casa era a lareira com as panelas de ferro de três pés, os tachos e a sertã pousados nas trempes. As tenazes (tanazes como lhes chamavam) e o abanador estavam sempre por ali.

3c3e4b9a7cd46bd6023e7f1b89b3d35b.jpg

Havia também a cafeteira de barro onde se fazia o “café” de cevada torrada e moída que ficava aconchegado ao lado dos troncos a arder. Chamavam-lhe “chicolateira” e era estimada com cuidado para não se quebrar. De manhã cedo depois do mata-bicho ficava ao lume a panela de três pernas com os feijões a cozer, aquecida por umas quantas cavacas durante horas. Mais perto da hora de comer juntariam as couves, os nabos, ou o que houvesse na horta com mais um naco de carne da salgadeira e estava “o comer” feito. Num dia mais especial lá ia um tacho para a trempe para guisar um frango, ou ia a sertã para a trempe para fritar um ovo ou umas rodelas de batatas em azeite. No Natal, o tacho também brilhava com as filhoses a fritar e um cheiro a comida mimosa que só por si já enchia a alma. Nesses dias felizes a mãe até lhes perguntava se queriam que fizesse um "galito" com a massa da filhós, e eles deliravam quando ficavam algo parecidas.

A vida da família ia correndo plena de trabalho e canseiras, mas com o suficiente para todos. Iam nascendo os filhos a cada dois anos e já eram cinco quando a tragédia levou o pai e ficou a viúva com o seu ranchinho para criar e as terras para amanhar e de lá tirar o sustento.

Da vila vinham casais com bebés pequenos procurar mocinhas na aldeia para ajudar na lida da casa e tomar conta dos filhos. A mãe lá ia recusando as ofertas destes trabalhos para a sua menina mais velha, queria-a junto de si e dos irmãos, na segurança da sua casa. As dificuldades foram ficando maiores e a mãe deixou-se convencer por um casal que lhe pareceu bondoso. Eram gente de posses, um médico e a sua esposa e queriam uma menina para ajudar na cozinha e a cuidar dos filhos. A mãe sabia o quanto a sua menina gostava de aprender a cozinhar, sabia que era essa a sua paixão, mas receava ainda assim.

Como a vila era próxima e os senhores tinham prometido que traziam a menina aos sábados e a levavam de novo aos domingos, a mãe deixou a sua menina ir como criada de servir para o palacete do casal. O que lhe custou, as lágrimas que chorou, mas tinha esperança de que a sua menina fosse estimada e a tratassem bem. Ia ser menos uma boca para sustentar e ainda lhe davam um pequeno salário pelo trabalho da filha. Pareciam ser pessoas justas pois não iam descontar os tecidos e custos de vestuário da menina ao salário.

E chegou o dia de domingo, e a menina partiu para a casa da vila. A pequena do alto dos seus 10 anos, de corpo muito franzino ia com a sua muda de roupa numa trouxa feita de pano rumo a uma nova vida. Os olhos brilhavam e deixavam cair lágrimas abundantes à medida que a sua casinha branca se deixava de avistar.

E foi uma revolução na sua vida, foi um nunca mais acabar de banho e lavagem com uma enorme quantidade de água aquecida e sabão com cheiro, cortar unhas, ajeitar cabelos, aprender a usar roupas que nunca tinha visto e andar sempre de sapatos. Na casa usava sempre a mesma roupa que as outras criadas e tinha de estar sempre mais reluzente do que a roupa de ir à missa aos domingos. Depois foram os modos de falar e de calar, de andar, de cuidar das coisas da casa, tudo foi mudado e posto ao modo do viver dos senhores do palacete. Nunca faltava a comida, mas a menina estranhava os sabores e custava-lhe muitas vezes comer do que havia. Sentia saudades da sopa da panela do lume apesar de nem gostar muito dela, mas estava mais habituada ao sabor.

Criadas.jpg

A cozinha do palacete não era o coração da casa, mas era o lugar favorito da menina. As paredes tinham azulejos brancos até ao teto, havia tachos, panelas, cafeteiras, formas de bolos, e todo o tipo de objetos que nunca tinha visto antes. Nas paredes havia louças coloridas penduradas em forma de folhas de couve, tomates, nabos, peixes tudo era colorido, limpo e cheio de luz. Havia armários cheios de louça fina para servir, bandejas, jarros de vidro para a água, xicaras delicadas como nunca tinha visto. Mas nada se comparava ao enorme, imponente e incrível fogão a lenha onde tudo era cozinhado. Não faziam o lume no chão nem usavam trempes ou panelas de três pernas! Até a lenha para o fogão era mimosa. Usavam lenha cortada em pedaços feitos ao tamanho da fornalha e vinham entregar também lenha miúda e pinhas para acender os troncos grossos. Não usavam feixes de vides, nem caruma, tudo era muito limpo e até a cinza era mais branquinha do que a que tiravam do borralho lá de casa.

À noite, na sua cama chorava, chorava muito baixinho, sentia a falta da mãe, dos irmãos e do seu viver simples e mais livre. A menina sabia que tinha de ser, que assim estava a ajudar a mãe e os irmãos e talvez com o tempo se acostumasse. Naquela primeira semana não aprendera nada sobre como cozinhavam, apenas se estava a habituar a todos aqueles novos preceitos de fazer as coisas. Queria que dissessem bem dela quando a levassem até à sua mãe.

Quando o sábado chegou e a levaram de volta a casa, a menina não conseguia parar de chorar de alegria, e a mãe e os irmãos não paravam de olhar para ela. Estava diferente no cabelo, nas mãos e nos pés, cheirava a sabão perfumado. Via-se que tinham cuidado bem dela, mas tinha os olhos tristes.

Ao borralho naquela noite foi um nunca mais acabar de contar como se tinha passado aquela semana, como era a vida no palacete, os objetos, a comida, as roupas, … Quando a menina começou a falar da cozinha e disse que afinal havia outro fogão, ficaram todos espantados. A menina contou que naquele fogão o lume ficava fechado numa fornalha e nem se via, as panelas punham-se em cima do fogão e aqueciam, tinha um depósito de lado com torneira por onde tiravam a água quente, até tinha um forno sem lume. A menina estava maravilhada com aquele fogão e aquela cozinha.

Passou o domingo e à tardinha a mãe perguntou-lhe se queria voltar para a vila, disse-lhe que sentiam muito a falta dela em casa e que se ela não quisesse ir, não ia. Tudo se havia de arranjar na mesma.

A menina ficou calada a pensar e disse à mãe para ela decidir.

 

 

Texto no âmbito do Tema 2 do Desafio dos Pássaros - 3.0 que nos dava como mote "Afinal havia outro ... Fogão.

Este texto é uma singela homenagem aos milhares de meninas dos meios rurais que tiveram de ir para a cidade trabalhar como criadas de servir, umas com apadrinhamento e carinho dos que as "criavam", outras com vidas dramáticas de exploração e abuso.

16
Mai21

O Alberto tem dor de barriga!

Desafio dos Pássaros 3.0 - Tema 1

Cristina Aveiro

83982445_812991879217760_2272409888564969472_o.jpg

Foto: Artur Pastor

 

Alberto era um rapaz do campo, levava uma vida simples entre as tarefas que os pais lhe destinavam e a escola que não o interessava quase nada. O que fascinava o rapaz era descobrir os ninhos, conhecer os pássaros, as árvores, ir pescar enguias na ribeira com um açude de pedras e um garfo como o pai lhe tinha ensinado, ensinar os rafeiros para a caça, ir caçar com o pai,...

Gostava de aproveitar para ir correr todos os caminhos da aldeia e redondezas. Sempre que o mandavam para mais longe fazer recados, ir buscar feixes de vides, erva ou mato para as camas dos animais ia sempre dar umas voltas por onde não lhe tinham mandado. Tinha que ir fazer as suas investigações, descobrir onde havia tocas de coelhos, estudar as pegadas do chão, as caganitas que os animais iam deixando na terra dos bosques e pinhais. Muitas eram as vezes em que os seus passeios eram descobertos pelos pais, ou porque não tinha ido buscar o número de feixes determinado, ou porque alguém o tinha visto onde não era suposto estar, ou até porque tinha ido apanhar maçãs ou pêssegos a campos de outros donos.

Ele sabia que estava a pisar o risco, mas para ele valia bem a pena arriscar e ir ver o seu mundo do que andar só a fazer as tarefas aborrecidas que lhe mandavam.

Claro está que para fazer as tarefas da escola também lhe era difícil ter vontade e muitas vezes só na manhã seguinte quando o acordavam para se lavar, comer e ir a pé para a escola é que ele se ficava a ralar por não ter feito os trabalhos. Nas primeiras vezes pensou que o professor talvez não reparasse que ele não tinha feito os trabalhos. Rapidamente percebeu que isso não acontecia, e nesse tempo acreditava-se que com umas reguadas nas mãos, as crianças mudavam o seu comportamento. O professor deu muitas vezes reguadas nas mãos do Alberto por ele não fazer os trabalhos, mas ele mesmo assim nem sempre os fazia.

Escola salazarista.jpg

Numa dessas manhãs, cheio de medo das reguadas que o esperavam na escola, decidiu que não ia à escola e disse à mãe que lhe doía muito a barriga e começou a gemer. A mãe ficou preocupada porque era frequente as crianças apanharem febres e doenças na barriga e disse ao pequeno que já lhe ia esfregar a barriga com um pouco de azeite para ver se ele melhorava. Deu-lhe apenas um bocadinho pequeno de miolo de broa porque disse que se lhe doía a barriga era melhor não comer muito. O Alberto lá teve de se aguentar com a fome porque aquele bocadito de broa era muito pouco, mas teve que manter as aparências.

Depois de a mãe lhe massajar a barriga, disse-lhe para ficar mais um bocado na cama enquanto ela ia para o campo. Ele esperou que a mãe saísse com o posseiro e a enxada e pouco depois abalou para o mato da charneca onde os amigos lhe tinham dito que havia um ninho de perdiz. Esquecido das horas, já o sol ia alto quando voltou em grande corrida para casa e se enfiou na cama a escorrer suor e vermelho como um tomate.

A mãe mal chegou a casa foi logo ter com o seu rapaz ao leito e ficou preocupadíssima por o encontrar tão suado e quente. Ficou a achar que era febre intestinal, tinha sido assim com o rapaz da Jacinta e ele quase tinha morrido. Saiu do quarto e sentou-se junto ao lume a chorar e a pensar no que devia fazer. Decidiu ir até casa da Jacinta e perguntar o que tinha feito para tratar o filho. O Alberto ficou um bocado ralado com a mãe quando a viu tão preocupada, mas não tinha coragem para lhe dizer a verdade e continuou enfiado na cama.

Quando a mãe chegou a casa da Jacinta e lhe disse ao que ia a mulher ficou muito admirada. Disse logo que tinha acabado de ver o Alberto a correr cheio de genica na subida para casa?! A mãe percebeu logo que era mais uma das trafulhices do pequeno, agradeceu e voltou para casa a voar.

Voltou ao quarto e começou a perguntar ao pequeno como se sentia, se não seria melhor ir ao médico, onde era a dor e mais e mais a ver se ele confessava. A dada altura ela já estava vermelha de fúria e o pequeno percebeu que não ia correr bem. Houve um passarinho que te viu a subir para casa a correr à bocadinho, disse-lhe a mãe. Levanta-te imediatamente! Vamos comer e vais passar a tarde a trabalhar ao meu lado e tens que me contar muito bem porque é que não quiseste ir à escola. Se demorares muito, pomos pés ao caminho e vou até à escola perguntar ao professor o que se passa.

O rapaz lá foi dizendo que não tinha feito os trabalhos e que ia levar reguadas. Explicou que lhe parecera melhor dizer que estava doente. A mãe disse que daquela vez passava, mas ia fazer todos os trabalhos da escola quando voltassem do campo e que ficava de castigo sem poder ir a lado nenhum sem ser acompanhado enquanto não se emendasse.

O rapaz ficou aliviado, mas triste por não poder andar pela aldeia à vontade com o resto da rapaziada, jogar ao pião, caçar com a fisga, …

João Martins.jpg

Foto: João Martins

Durante uns tempos o Alberto conseguiu cumprir as suas obrigações sem tropelias, mas ele já começava a sentir que talvez não conseguisse ser sempre assim. Quem ia saber? Talvez conseguisse.

 

 

Texto no âmbito do Tema 1 do Desafio dos Pássaros - 3.0 que nos dava como mote "Foi o que ouvi", de modo implícito, mas sem mencionar directamente. 

Este texto procura retratar aqueles rapazes do campo com "a fisga no bolso de trás" e as muitas histórias de tropelias que escutei quando criança sobre um familiar muito próximo.

 

08
Mai21

A Liberdade

Cristina Aveiro

Porque eu posso.JPG

A Liberdade

 

A liberdade é andar nua e descalça.

Nadar no mar e mergulhar.

A liberdade é abraçar quem se ama

Com força e com todo o corpo.

A liberdade é dizer e pensar o que se bem entende,

Defender as causas que se entendem justas sem respeitos tolos.

A liberdade é dizer que o rei vai nu

Quando todos sorriem e fazem vénias de cobardia.

A liberdade é branca como as gaivotas que morrem aprisionadas

Precisa de espaço, luz, campo, praia, mar.

A liberdade é sonhar, escolher, fazer por si e por todos

Porque se quer, para trilhar o caminho escolhido.

A liberdade permite-nos ignorar o que pensam e dizem de nós

Pensem e digam o que quiserem porque nós Somos.

A liberdade está nas pequenas e nas grandes coisas,

É grandiosa e ao mesmo tempo atenta à pequenez.

A liberdade também é Abril, os cravos, o povo

Mas há tanto de Abril que se esfumou em livres bolsos.

A liberdade de Abril devia ser mais exigente com quem nos representa

Devia haver rostos com quem cada voto pudesse falar a pedir contas.

A liberdade precisa de justiça justa, eficaz, rápida, transparente

A opacidade surda da justiça dos ricos e da justiça dos pobres corrói.

Acredito na Liberdade, no Amor, na Paz, no Respeito pelas Gentes e pela Natureza!

Sou talvez crédula, mas sou livre de o ser.

 

 

Fui desafiada pela MJP do blog  liberdade aos 42  para escrever sobre o que é a Liberdade para mim e é assim que a vejo hoje.

 

14
Abr21

Camarinhas são lágrimas de rainha!

#13 - Branco - Desafio da Caixa dos Lápis de Cor

Cristina Aveiro

Corema_album_berries.jpg

Era uma vez uma princesa que desde muito pequena não mostrava gosto pelos luxos da corte, pelos vestidos ou pelos banquetes. A princesa era esguia, magra, tinha um lindo rosto de expressão bondosa e um porte elegante que emanava do seu interior e não das suas vestes. O rei seu pai quisera que a princesa fosse ensinada nas letras e na história do reino e do mundo, foi ensinada nas artes da diplomacia, foi educada para ser rainha, mas de uma forma muito invulgar. O seu pai dera à filha a mesma educação para o governo de um reino como se ela fosse um filho varão.

A princesa apreciava tudo o que aprendia, era muito culta e sabia que o seu pai tinha planos para a casar com um rei de um reino com o qual quisesse fortalecer alianças. A princesa gostava muito de meditar, rezar e jejuar e se pudesse escolher o seu destino iria para um convento onde pudesse dedicar-se aos mais pobres, doentes e desprotegidos. Conformada com o seu destino aos doze anos fez-se o seu casamento com um rei de um reino distante. O pai tinha-lhe dito que o seu noivo era um jovem rei, bem parecido e muito culto, que era dado às artes da música e da poesia.

Rainha Isabel.jpg

A jovem princesa fez a longa viagem na sua liteira. No primeiro encontro com o rei seu marido, no seu novo reino, de onde era a rainha, foi recebida em grande festa e desde logo o povo mostrou apreciar a sua jovem rainha.

A princesa, agora rainha, gostou do seu rei, era ruivo de cabelo farto, olhos azuis, rosto estreito que se abria num sorriso largo mostrando uns belos dentes. O rei não era muito alto, mas emanava uma aura de força e vigor de homem saudável e enérgico.

A rainha e o rei partilhavam o gosto pelas letras, pela música e tinham grandes planos para engrandecer o reino. O rei procurou o progresso criando feiras francas, uma bolsa para os mercadores, introduzindo culturas agrícolas, secando pântanos, criando explorações de minas, … A rainha procurou apoiar e tratar dos mendigos, doentes e desprotegidos, mas a rainha foi sempre lutando pela construção de albergues e hospitais para os mais desprotegidos. Nem sempre concordavam o rei e a rainha sobre estas obras de bem-fazer, mas a coragem e perseverança da rainha foram criando obra.

Isabel_Dinis_de_Portugal_.jpg

A rainha sentia orgulho por o rei ter abolido o uso do latim nos documentos reais e estes passarem a usar a língua falada no reino. Para a rainha esta era uma forma de o poder real criar uma identidade forte do reino, valorizando a língua que era única e compreensível pelas gentes.

O rei era muito dado a festas, cantares e dançares e outros folgares. Antes do casamento tinha já três filhos que a rainha acolheu aos seus cuidados como era habitual acontecer nas famílias reais. Os hábitos de vida da rainha eram de simplicidade, recato, jejuns. A rainha não apreciava os banquetes reais, sempre fartos em carnes das caçadas do seu rei. Talvez estes seus hábitos frugais fossem a causa das prolongadas ausências do rei no paço.

A rainha sentia saudade, dor e mesmo ciúme do seu rei que ela sabia ser folgazão e apaixonado pela beleza. Encantava-o a beleza das paisagens, do mar, do céu e das nuvens, e… a beleza das damas. O rei perdia-se por loiras, trigueiras, nobres, burguesas ou simples camponesas. A rainha sabia destas paixões e sofria com elas. Quando as suas aias trocavam aqueles olhares indiscretos e de pena a rainha logo sabia que algo de novo e intenso se passava.

Sempre que o rei estava no paço e não chegava à hora acostumada, a rainha por mais esforço que fizesse para se não notar, ficava inquieta, pensativa e nervosa.

Num desses dias a rainha deu ordens ao seu séquito uma ida ao pinhal que o rei lhe tinha oferecido no ido ano de 1300. A sua intuição levo-a um local rochoso junto ao mar que sabia ser das preferências do rei. Chegada perto do local, mandou parar o séquito e seguiu sozinha até ao lugar onde se encontrava o cavalo do seu rei. Perante a evidência da traição, os belos olhos da rainha deixavam sair lágrimas cristalinas, pelo rosto abaixo, perdendo-se sobre o mato.

Nessa zona do pinhal os pequenos arbustos cobriram-se de pérolas brancas redondas onde ficaram prezas as lágrimas da rainha. Com o tempo todo o pinhal passou a ter destes arbustos que no verão se cobriam e cobrem de pérolas brancas, em especial nas dunas mais próximas do mar. O povo do reino chamou-lhes camarinhas e elas continuam a crescer apenas nesse reino e nesse pinhal.

Sofia Francisco.jpg

Fotografia de Sofia Francisco

Texto no âmbito do #13 Desafio da Caixa dos Lápis de Cor - Branco

Neste desafio, que eu saiba, participo eu, a Oh da guarda peixe frito, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Fátima Bento, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, o José da Xâ,  a Rute Justino, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, João-Afonso Machado, A Marquesa da Marvila e a bii yue.

Este é o "novo último texto do desafio". Acredito que no futuro, de vez em quando vou encontrar novos lápis e vou pintar palavras de novo, pois este desafio ensinou-me como isso pode ser gratificante.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Desafio Caixa dos Lápis de Cor

desafio com moldura selo.png

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub