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Contos por contar

Contos por contar

18
Jun22

Então como está a correr a escola?

Cristina Aveiro

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Era uma vez uma menina que nasceu muito rosadinha, de pele clara, sorriso pronto e olhos cor de mel.  Era doce e sorridente, sempre pronta para abraços, brincadeiras com as coisas dos adultos e com uma ternura imensa pelos animais. Todos os animais a interessavam, mesmo as galinhas já adultas ela gostava de mimar.

A vida de criança corria leve e alegre, cheia do amor dos que a rodeavam e a menina era muito feliz. O tempo foi passando, a menina cresceu, veio o tempo de ir para a escola. A menina há muito esperava esse momento porque já conhecia o lugar e gostava de lá ir ter com as outras crianças. Nesses primeiros anos em que a brincadeira, os contos, os desenhos e as pinturas eram o que enchia os dias, e em que se ia aprendendo sem se dar conta disso, a menina sentia-se feliz. Nas alturas em que as regras eram mais rígidas e todos tinham de fazer isto ou aquilo ao mesmo tempo e durante um tempo determinado a menina não gostava, ela queria fazer quando sentia vontade e gostava de parar ou de continuar quando quisesse. Nesses dias ela vinha menos alegre para casa.

A menina viu que os meninos crescidos passavam muito tempo parados nas salas, que depois, em casa, continuavam parados durante muito tempo como se continuassem na escola, com os seus lápis, cadernos e livros. Achava estranho como ficavam tanto tempo a fazer a mesma coisa sem se aborrecerem ou cansarem, mas imaginava que era por serem mais crescidos.

Quando a menina e os seus amigos foram para as salas dos crescidos, onde se aprendia a ler e a fazer outras coisas importantes foi cheia de vontade, afinal iam passar a fazer mais coisas sozinhos e iam certamente ter mais liberdade para fazer o que queriam porque já eram mais capazes de tomar conta de si.

Quando começaram as tarefas de conhecer as letras, de saber como se formavam palavras, quando tinham que repetir muitas vezes o desenho das letras e dos números, e quando o professor falava, falava, tanto tempo que parecia uma melodia a encher o ar, a menina saia daquele lugar e ia para bem longe no seu pensamento. Ao princípio ninguém reparava, mas com o tempo o professor começou a notar que a menina, embora parecesse estar atenta e a fazer o que o lhe pediam, parecia que não estava lá na sala.

O professor chamava o seu nome e trazia-a de novo para as tarefas. A menina nunca se portava mal, nem se distraia em conversas, ao contrário dos seus colegas. Pensava que todos os meninos se cansavam assim das tarefas e de escutar o professor e que vagueavam nos seus pensamentos tal como ela.

Em casa, quando era a hora de fazer as tarefas da escola, tudo se passava da mesma forma e ela rapidamente se cansava, ficava no mesmo lugar, mas a viajar nos seus pensamentos. Demorava muito tempo até acabar tudo aquilo e cansava os adultos com a sua lentidão. Eles não compreendiam, a menina era muito inteligente, mas parecia que não queria trabalhar e os adultos ficavam arreliados com isso. Muitas vezes lhe diziam que se ela tivesse dificuldades em compreender, ou em lembrar-se do que aprendia eles podiam compreender, mas não querer fazer as coisas, isso não podia ser, ela tinha que fazer as tarefas.

A menina não queria que ninguém se arreliasse ou ficasse triste, tentava mais e mais fazer as coisas durante aquele tempo imenso que demoravam ao seu melhor ritmo, mas era mais forte do que ela. Tinha que parar muitas vezes, deixar o seu pensamento descansar e passear por outras coisas, senão não conseguia pensar em nada.

Diziam-lhe que se não parasse ia terminar mais cedo e podia brincar mais tempo, ela bem queria conseguir isso, mas era-lhe impossível.

Passou a observar como faziam os seus amigos e viu que muitos conseguiam ficar muito tempo sem parar a fazer as coisas e conseguiam melhores resultados. Ela também queria ter os bons resultados e procurava forçar-se mais e mais a estar mais tempo nas tarefas, mas…

Então a menina começou a sentir que era diferente, que o seu pensamento não era como o dos outros e que tinha algum defeito.

Todos procuraram ajudar, foi conversar com pessoas que sabiam muito sobre crianças e sobre como elas aprendem, fizeram testes e houve muitas e muitas conversas, mas na verdade não pareciam afinal saber assim tanto, porque não trouxeram nada de novo. A menina continuou a sentir as mesmas dificuldades e a lutar contras elas.

Muitas vezes a menina estranhava que os adultos tomassem a escola como o mais importante da vida de uma criança. Perguntavam sempre como corria a escola, o que andava a aprender, … Nunca perguntavam se tinha muitos amigos, se conseguia ajudar as pessoas, se andava a divertir-se muito, se já conseguia cozinhar, ou se compreendia melhor como vivem e sentem os gatos ou os cães. Parecia que a infinidade de coisas que ela tanto gostava e que a faziam mais feliz não eram importantes para os adultos.

A menina sempre guardou tempo e atenção para os que tinham dificuldades em aprender as coisas da escola, ou que não tinham jeito para resolver as coisas da vida que era preciso. Sempre conseguiu levar um pouco de alegria aos que estavam mais tristes, dar atenção aos mais tímidos.

Os anos passaram, a menina cresceu, percebeu que era diferente da maioria das pessoas na forma de aprender, de trabalhar e talvez até de extravasar as suas emoções. Aceitou que isso não era bom, nem mau, era apenas assim. Percebeu que o seu olhar conseguia chegar muito longe quando observava as pessoas e que lhes conseguia levar calor e alegria, que chegava facilmente ao seu sentir e que esse dom lhe trazia, também a ela, muita alegria.

Sempre que vinham crianças ao seu caminho conversava com elas sobre tudo e mais alguma coisa, mas nunca sobre a escola. Se as crianças falassem sobre a escola, claro que estava lá para as escutar, mas sempre procurando que os seus mundos não se confinassem nela.

17
Jun22

A Casa dos Anjos

Cristina Aveiro

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Paul Klee 1939

Naquela encosta batida do vento, mesmo frente ao mar bravo lá ao longe no desabrigo da praia do Norte, só os caniços conseguiam crescer. Não era o lugar onde a maioria gostaria de viver. Sem o abrigo do promontório que guardava a praia amada e admirada, sem a vista do alto do céu das casas do Sítio, protegidas e abençoadas pelo manto de Nossa Senhora da Nazaré, aquele lugar tinha a magia dos lugares de poucos, daqueles que eram verdadeiramente os adoradores do mar.

Foto: Artur Pastor

A menina que ali vivia, na casa que tinha sido sempre dos seus, pais, avós e dos que tinham vindo antes deles olhou com curiosidade aquelas pessoas que chegavam para as casas que tinham nascido ali há pouco tempo. Eram muito altos, magros com cabelos claros e olhos azuis. Dizia-se que vinham dos países do Norte, onde nevava, fazia muito frio e havia pouco sol. Sempre que podia a menina ia ver a casa e tentar vê-los. Quando os via dava-lhe os bons dias e sorria. Eles sorriam e faziam uns sons estranhos, graves na sua língua que os fazia parecer zangados. Com o tempo foram-se habituando à curiosidade mútua e a menina foi-se aproximando. Mais tarde, vieram as crianças e a menina ainda ficou mais próxima e juntava-se nos cuidados e brincadeiras. As gentes da terra já se tinham acostumado aqueles novos vizinhos, que eram muito diferentes deles, mas que partilhavam o amor por aquele lugar.

Foto: Federico Patellani

A língua já ia sendo mais partilhada, os forasteiros estudavam em livros e esforçavam-se por aprender palavras e frases e alegravam-se quando as palavras substituíam os gestos que inicialmente eram a única forma de se entenderem.

A menina e os seus gostavam de partilhar o que tinham com aqueles vizinhos da casa diferente. Muitas vezes a menina pensava que sendo eles gente de posses, não tinham uma casa rica, mas uma casa ampla, cheia de janelas grandes, com varandas grandes e onde a cozinha e a sala estavam em cima e os quartos em baixo. Aquela casa passara a ter sempre a porta aberta para ela. Ela gostava de ver os muitos livros que lá havia, os quadros, em especial os dos anjos. Eram anjos como ela nunca tinha visto. Não eram rosados com caras bonitas e cheios de caracóis e sorrisos num céu azul cheio de estrelas. O senhor explicara-lhe que um era o Anjo Triste, o outro o Anjo Esquecido, o Anjo Esperança e o Anjo do Guizo. A menina adorava-os. Sentia que com o pedaço de papel e lápis que lhe estendiam podia desenhar amigos para aquele bando de anjos com tristezas e alegrias, imperfeitos, mas belos, simples e com corações cheios de sentimentos.

Os anos passaram a menina cresceu, os vizinhos envelheceram e um dia resolveram regressar à sua terra e encontrar novos donos para a casa dos Anjos como a menina lhe chamava.

Oh! Como ela gostaria de poder ser ela a habitar aquela casa tão singular, desenhada como um templo para adorar o sol e o mar. Não ia ser assim, iria continuar na sua casa de sempre.

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No dia da partida, com a promessa de visitas futuras, os vizinhos vieram a casa da menina com um embrulho grande que lhe entregaram. Enquanto a menina abria o pacote, comoveu-se ao ver os Anjos. Então eles disseram-lhe que os anjos gostam de espaços especiais e que sabiam que a menina ia encontrar o espaço certo para eles e assim aconteceu.

 

 

  

22
Mai22

A porta aberta

Cristina Aveiro

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Foto:Welcome Beyond

Eram dezoito anos de alegria de viver e crescer no ninho que os seus pais tinham construído. Acabara de conseguir convencê-los a deixá-la ir trabalhar para a Cruz Vermelha onde queria ajudar pessoas, conseguir tornar o mundo um lugar melhor para os que precisam de ajuda. Eram dias felizes estes dos primeiros voos com as suas asas ainda que sob o olhar atento dos seus pais, qual ave juvenil em treino para largar asas para novos mundos.

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Nesta primavera tranquila irrompeu o vento tremendo do inimaginável. Um acidente de viação levou-lhe os seus pais de uma assentada. Ficou perdida na casa grande e vazia, o seu trabalho era mais ainda o que lhe dava propósito e força para avançar. E pouco tempo depois, a vida trouxe-lhe ao encontro três irmãos muito pequenos, um bebé, um menino de dois anos e uma menina de três que tal como ela tinham perdido os pais muito recentemente. Ela viu neles o sinal e o sentido para avançar e viver.

Aos dezoito anos, sozinha, com alguns meios, adotou os três irmãos que encheram a casa grande de vida e tornaram a sua vida mais completa e feliz. Houve desafios imensos, dificuldades de compreensão de muitos que lhe estavam próximos e de outros no lugar onde trabalhava e vivia. Ela nunca duvidou que passara a ser mãe para sempre, mas havia quem pensasse que sendo tão jovem não medira bem o passo que dera e quem sabe talvez fosse uma fase da sua vida em que iria apoiar aquelas crianças e que depois teria de desistir e “avançar com a vida” como se dizia.

O tempo passou e a sua beleza e energia de jovem atraiu os olhares e atenções de muitos, mas aquele mocetão alentejano de olhar doce que gostava de a procurar para conversar sempre que podia começou a ter um lugar muito especial na sua vida. O namoro avançava, os laços apertavam-se e começavam ambos a sonhar com um ninho comum.

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Eram tempos distantes, de outro século, o passado, e os sonhos de ambos tinham uma divergência profunda, os seus filhos. Ele não conseguia imaginar a vida com filhos que não eram dele, e ela não podia imaginar a vida sem os seus filhos, embora muito quisesse que juntos criassem o ninho comum.

Ela esclareceu de forma irredutível:

- A minha porta está aberta, tu podes sempre vir porque eu te quero, mas os meus filhos jamais podem ir para que tu venhas.

A porta permaneceu aberta, mas ele afastou-se e partiu. Os anos passaram as crianças iam crescendo, um dia, passados seis anos, voltaram a encontrar-se noutra cidade. Falaram e recomeçaram a encontrar-se, a conversar, a continuar o que tinha ficado interrompido e que nunca deixara de existir.

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Foto: Gerárd Castello-Lopes

O jovem alentejano de olhar doce tinha crescido, compreendido melhor as coisas importantes que temos na vida. Um dia voltou a pedir-lhe para ficarem juntos e construírem uma família, mas logo esclareceu que:

- Peço-te que me aceites como pai dos teus filhos, serão meus do fundo do coração e para sempre, e se nascerem mais filhos serão tão nossos como os que já temos.

Aquela jovem de imensa generosidade, de porta aberta e coração feliz aceitou o seu alentejano doce. Nasceu uma menina e ainda hoje vivem felizes na sólida e bela família de seis que juntos construíram.

 

 

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Foto: Gerárd Castello-Lopes

PS- Estou a contar-vos a história que tive a felicidade de escutar da Dona São, a partir da sua janela onde conversamos como faziam os namorados de outros tempos. Comovi-me, sorri, senti-me inspirada porque esta é uma história verdadeira de gente de hoje que continua as suas vidas no meio de nós, e senti que tinha de partilhar convosco.

25
Abr22

Em Coz há um lugar de magia na Adega das Monjas!

Cristina Aveiro

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Ia em deambulação por terras de Cister, procurando ver e sentir por fora o Mosteiro de Cós (Mosteiro de Santa Maria de Cós), com o projeto de voltar para visita mais demorada de descoberta do seu interior. Parei mesmo ao lado em contemplação quando senti vida no espaço do outro lado do largo, a porta convidava a entrar e observar. Foi o que fiz e desde que entrei não parei de admirar e sorrir.

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O espaço cheio de magia secular, a vida e o som do tear a bater o junco fazendo uma nova obra nascer embalado no sorriso imenso do tecelão, o sorriso doce da senhora que escolhia o junco seco, rejeitando os escuros que não podiam ser usados e o olhar brilhante e feliz de Eurico Leonardo que me ia encaminhando na descoberta do projeto Coz Art e das obras.

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O tradicional e as novas interpretações desta arte, integradas na moda, decoração e descoberta de novas utilidades, mochilas, floreiras, ecopontos, cestas do pão ou revestimento para garrafas e garrafões. Este pulsar de sangue novo veio também do contributo dos alunos da Escola Superior de Artes de Caldas da Rainha que em trabalho conjunto com os artesãos fizeram nascer novas interpretações.

Uma bela "ceira" veio comigo, cheia de modernidade e vida como mala de verão, vieram também as maçãs Fugi de sequeiro cheias de perfume doce da terra. Ficou-me a enorme vontade de voltar, experimentar o tear, se me deixarem… e contemplar com tempo o belíssimo Mosteiro cumprindo um sonho antigo, mas agora ainda com mais vontade de regressar.  IMG_9308.jpg

Fiquei também feliz por saber que podemos encontrar estas belezas no Castelo de São Jorge em Lisboa!

 

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22
Abr22

Os meninos do Pinhal do Rei

Cristina Aveiro

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O Pilado era uma pequena aldeia de lavradores pobres encravada a meio do lado de onde nasce o sol no enorme retângulo reticulado que era a Mata Nacional, o Pinhal do Rei, ou como se diz agora o Pinhal de Leiria. Lá bem ao longe, em linha reta ao longo do Aceiro G, percorrendo 17 talhões chegava-se ao mar. O Pinhal do Rei era um belo retângulo encostado ao mar, que o separava das terras de cultivo magras e pouco férteis nas suas franjas. Tudo naquele lugar recordava o trabalho imenso, ao longo de dezenas de gerações, para conter as areias das dunas no seu constante caminhar para terra. Tantas coisas tinham sido feitas, as cercas móveis junto ao mar, o plantio e constante cuidado e estudo do majestoso pinhal, o esforço para drenar lagoas e pântanos com a abertura de longas valas profundas, a criação de aceiros (caminhos perpendiculares ao mar, com dez metros de largura, identificados por letras de A a T, de Norte para Sul) e arrifes (caminhos paralelos ao mar, com cinco metros de largura, identificados por números, entre 0 e 22, de Este para Oeste) criando um reticulado de perfeita ordem e organização da floresta, com trezentos e quarenta e dois talhões numerados. A grelha de caminhos fora criada para se circular na floresta, para semear, cuidar, cortar e transportar a madeira, prevenir e ajudar a controlar os fogos que sempre iam aparecendo.

A Mata era o sustento de todos os que viviam à sua volta. Os terrenos que circundavam o pinhal eram arenosos, fracos e estéreis, só os adubos naturais extraídos do pinhal permitiam que as terras fossem produtivas. Das matas vinham os fetos e a caruma seca, ou melhor ainda o rapão e o piorno que se encontrava nos lugares mais húmidos e sombrios, uma crusta balofa sobre a terra, com os resíduos caiam das árvores e iam apodrecendo. Era também com os fetos e caruma, enfim com o mato, que eram feitas as camas dos animais, vacas e porcos, e que depois mais tarde iriam também ser usados como estrume preparação das sementeiras.

As vacas e bois com os seus carros eram a força de trabalho para os “carreiros”, lavradores pobres, que conduziam a madeira para junto de determinadas casas dos guardas do pinhal. As carradas eram revistadas pelos guardas, eram rachadas e por ano mais de doze mil carradas seguiam para a fábrica dos vidros.

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As moças novas e algumas mulheres também encontravam trabalho na Mata, era a elas que cabia a recolha das pinhas, a secagem nas enormes eiras e depois a recolha e tratamento do “penisco”, a preciosa semente do pinheiro, para fazer nascer as novas árvores nos talhões onde tinham sido feitos os abates.

A riqueza do Pinhal do Rei sempre fora cobiçada e para a proteger, havia uma enorme vala (com um metro e meio de largura e dois de profundidade) que circundava todo o pinhal, com apenas quatro passagens onde as entradas e saídas eram controladas por guardas, a passagem da Cova do Lobo, no aceiro “I” era a mais próxima da aldeia do Pilado.

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A meados do século XIX começou a produzir-se carvão com a lenha do pinhal, a carbonização era feita dentro do pinhal, apenas nos meses frios. Mais tarde, passou a ser feita pelas gentes dos lugares da orla do pinhal, em Água Formosa, Carvide e, principalmente, no Pilado, onde chegou a haver sessenta fornos. Era uma vida de grande labuta e de algum risco, a necessidade de recolher a lenha obrigava a entrar na Mata num dos pontos de controlo da guarda, onde era feita a revista aos carros de bois à entrada e à saída, como numa fronteira. Eram as mulheres e as crianças que faziam as recolhas na Mata. Ora eram as carradas de caruma e mato bem altas que traziam para as suas casas, eram sempre revistadas na saída do pinhal pelos guardas de serviço que faziam atravessar a carrada por varas enormes com espetos na ponta para se certificarem que não iam lenha escondida no meio do mato, ora eram carradas de lenhos secos que depois eram usados no fabrico do carvão.

Os lenhos secos podiam ser derrubados dos pinheiros, mas nunca por nunca podiam derrubar lenhos verdes e muito menos cortar ou derrubar pinheiros. Tudo era difícil naquela jornada pois os lenhos que davam o melhor carvão eram os verdes e a necessidade aguçava o engenho para os poder trazer. As crianças aprendiam desde cedo que se alguém viesse junto delas, nomeadamente os guardas-florestais, nunca podiam falar de lenha verde como sendo sua ou de sua mãe pois sabiam que a posse dessa lenha acarretava problemas imensos, desde multas ao impedimento de ir à mata recolher os bens de que tanto precisavam para subsistir.

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Dos dias de maior preocupação era quando iam recolher a lenha para o carvão e tinham de construir uma carga no carro dos bois com toda a arte de empilhamento, em que faziam uma parede a toda a volta com lenha seca e no meio da carrada vinha a preciosa lenha verde para ser usada no fabrico do carvão. No fim de encher o meio da carrada havia que a cobrir com lenha seca e passar com a maior tranquilidade possível no ponto de controlo onde o guarda inspecionava a carrada. Só depois de chegar a casa todos respiravam de alívio!

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Chegados a casa e descarregado o carro havia que começar a fazer o “forno do carvão”. Tudo começava numa pequena cova onde eram colocados dois longos barrotes, deixando um canal para o ar, cobria-se com uma camada de caruma e a lenha trazida da Mata era empilhada até à altura de um metro. Depois cobria-se tudo com mais caruma ou mato e, finalmente, com areia. A seguir lançava-se o fogo por uma das entradas do canal debaixo da pilha, e, de imediato, tapava-se deixando o outro lado aberto para respiro do forno enquanto ia ardendo. A lenha ardia devagar, asfixiada pela falta de oxigénio e queimava durante 4 dias. Nesses dias a vigilância do forno nunca parava, o forno não se podia apagar, e tinham de cobrir as fendas que aparecessem, senão o ar entrava e toda a lenha ardia como em fogo aberto, desaparecendo todo o carvão. Quando acabava a combustão retirava-se a areia, recolhia-se e ensacava-se o carvão. Uma parte era usado em casa e o restante era vendido nas povoações mais próximas sendo uma fonte de rendimento importante para a família.

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Nas idas à Mata com a mãe, e o carro de bois, os dois irmãos pequenos encarregavam-se de ir trazendo até junto do carro as braças que a mãe ia derrubando com uma enorme vara com gancho na ponta. Numa das idas e vindas até ao carro, os pequenos avistaram um dos guardas-florestais a aproximar-se e ficaram tomados de um enorme medo, desde logo pela figura imponente e algo assustadora e também porque sabiam que tudo podia correr mal. Eles bem sabiam que tinham trazido braças secas e também lenha verde. Havia dois montes separados junto ao carro para depois cuidadosamente ser construída a carga com todos os preceitos, de modo que a lenha verde ficasse bem escondida. O guarda aproximava-se e já não havia forma de desaparecerem ou se esconderem sem que as coisas ficassem ainda piores, assim os dois petizes ficaram bem juntos e aguardaram. O guarda cumprimentou-os e perguntou com voz grossa de quem era aquela lenha. Os miúdos responderam com firmeza que não era deles. Então o guarda perguntou, e a corda que está junto da lenha? As crianças, talvez com receio de que lhes fosse retirada a corda (bem precioso naqueles tempos) disseram confiantes, a corda é nossa. O guarda perguntou-lhes então com quem estavam, ao que responderam que estavam com a mãe, e interrogados sobre onde se encontrava, desataram a correr ao seu encontro aflitos.

O guarda ao chegar junto da mãe com ar sério disse-lhe:

- Muito bem! Trazes os teus filhos muito bem-ensinados.

 As crianças nem sabiam se deviam respirar de alívio ou ficar com mais receio ainda. O guarda continuou, com que então, a lenha não é vossa, mas a corda pertence-vos…

A mãe estava estranhamente tranquila, as crianças percebiam que o guarda sabia que a lenha era deles, mas… parecia não acontecer nada. Para maior surpresa das crianças, a mãe comentou com o guarda que estava quase na hora de comer, ao que o guarda lhe disse que ia comer com os colegas a um dos lugares mais junto ao mar.

Assim que o guarda virou costas, a cara da mãe abriu-se num enorme sorriso e disse aos meninos que tinham que aproveitar, nem era preciso estar a compor a carrada com lenha seca ao redor, porque os guardas não iam estar no posto de controlo durante o almoço e assim podiam levar quanta lenha quisessem. As crianças ajudaram e juntos levaram para casa uma enorme e valiosa carga.

Em casa, uma vez completadas as tarefas e já ao lume do borralho da cozinha os pequenos perguntaram à mãe como é que tudo tinha corrido tão bem. Porque é que o guarda não os tinha multado. Porque é que o guarda tinha dito que ia estar a comer com os outros guardas.

Então a mãe, exausta e feliz, explicou-lhes que também havia guardas que compreendiam as dificuldades que as famílias passavam, e talvez nem concordassem com as regras que tinham que aplicar, que também eles tinham famílias para alimentar e tinham as suas dificuldades. Ainda sem tudo compreenderem as crianças continuaram a perguntar, então mãe quer dizer que há guardas com coração e que conseguem esquecer um pouco todas aquelas regras duras e que há outros que não as conseguem esquecer…

A mãe puxou os dois para dentro do seu regaço e respondeu apenas com um sorriso doce.

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Foto de J.M. Gonçalves

O Pinhal do Rei sempre foi para mim um lugar mágico. Recentemente encontrei uma menina que na sua infância ajudava a mãe a fazer carvão e o Pinhal trouxe-me mais uma surpresa que desconhecia.

As imagens e a técnica de fazer o carvão usada no Pilado estão descritas em "Lemos, Paula, Vidas de Carvão – As Carvoeiras do Pinhal do Rei, Leiria: Imagens & Letras, 2012".

As restantes imagens pertencem ao Blog sobre o Pinhal do Rei de J.M.Gonçalves que recomendo para quem gosta de saber mais e onde recolhi informação para este conto. Este blog é um verdadeiro museu do Pinhal do Rei e que muito bom seria se esse museu existisse com Centro Interpretativo do Pinhal. Esta Mata é/foi uma obra prima de silvicultura e tem o saber acumulado de gerações.

03
Mar22

No Reino da Felicidade

Desafio do Triptofano

Cristina Aveiro

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Naquele reino longínquo todos os súbditos tinham que estar sempre alegres, sorridentes, bonitos e esplendorosos durante todo o tempo e em todos os lugares. Havia severas leis para punir quem se atrevesse a não cumprir o regulamento da felicidade. O rei acreditava que com estas leis firmes conseguia que todos os seus súbditos fossem sempre felizes durante todo o tempo e isso era tudo o que ele queria, que fossem felizes. 

Quando as pessoas se sentiam tristes tinham que esconder o que sentiam, ou procurar lugares onde não pudessem ser vistos pelos guardas da felicidade que estavam por todos os lugares do reino, muitas vezes quase não se podiam ver, mas todos sabiam que eles andavam por todo o lado.

Naquele dia o ator do teatro principal da capital do reino estava a viver a suprema dor de perder o seu filho. O regulamento da felicidade não admitia exceções, mesmo nos casos de tragédias, doenças, catástrofes ou cataclismos. 

O pai destroçado escondeu-se do mundo, não por temer as leis do reino, mas por ser impelido a rumar às montanhas e aos lugares onde tinha vivido momentos preciosos e felizes com o seu filho. Naqueles lugares, onde tinha sido verdadeiramente feliz, gritou, chorou, correu, deixou-se cair. A dor no peito quase o impedia de respirar, de viver. No chão, exausto, olhou o céu, a floresta, os animais e tudo continuava como sempre estivera. Como podia tudo manter-se como antes? Ele não era o mesmo, aquela tristeza e dor que sentia extravasavam, para continuar vivo tinha que partilhar a sua dor com o mundo.

Regressou ao seu lugar, à sua vida e subiu ao palco do grande teatro, assim que os espetadores que enchiam a sala o viram houve um som de espanto e desconforto. O pai dançava em silêncio, todos os seus movimentos e expressões eram impelidos por tudo o que sentia.

Um silêncio espesso cobriu a sala e a dor derramada no palco contagiou todos, houve choro, abraços, mãos apertadas com força. Os guardas da felicidade choraram.

Chegou ao conhecimento do rei o que tinha acontecido no teatro e no palácio todos estavam muito apreensivos, embora mantivessem as suas máscaras de alegria. O rei foi até ao jardim do palácio pensar. O Rei estava perplexo, acreditava que as suas leis e a guarda da felicidade fariam o seu povo feliz. Tudo o que queria era garantir a felicidade do seu povo. O rei compreendeu que partilhar a tristeza, a dor e todos os sentimentos era necessário. 

Regressado ao seu conselho eliminou a lei da felicidade e desmobilizou a guarda. O Rei continuou a procurar novas formas de ajudar o seu povo a ser feliz. Passou a escutar o seu povo que se exprimia agora livremente e dava o seu contributo.

Vitória, vitória, acabou-se a estória!

 

Descubram também os textos da Marta - o meu canto, do Bruno, da Ana D., da Ana de Deus e da Maria. Querem participar? Vejam aqui como!

 
 
26
Fev22

A Dona Ilda e o Senhor Silva

Amizades do coração

Cristina Aveiro

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Estavam sempre ali, na casa ao lado, a minha era alta e a deles mais baixa. Da janela do quarto dos meus pais via a D. Ilda atarefada na sua amada cozinha e falava com ela, ou ia apenas ver se ela lá estava e se podia ir até à sua casa. 

Não podiam ser mais diferentes e ao mesmo tempo mais semelhantes. Ele era um leitor ávido, ancorando o seu saber em livros, e entendidos nas matérias. As bibliotecas públicas e as pessoas com recurso a livros e saberes eram sempre fontes de conhecimento onde satisfazia a sua sede de saber. Ela nunca tinha aprendido a ler, nem a fazer as contas como nós fazíamos, mas a sua capacidade de fazer e aplicar os seus saberes era tão grande que nunca sentiu interesse em gastar o seu tempo a aprender a ler ou fazer as contas e gerir como faziam outros.

Ela foi a primeira chef gourmet que conheci. A ida à praça (o mercado da cidade) era um ritual cheio de exigência, a escolha dos legumes e frutas, a exigência na escolha do peixe fresco... Ah como a pescada graúda era inspecionada, desde a consistência, à cor da guelra, ao cheiro, ao estado da escama! A D. Ilda foi a primeira pessoa que vi ir devolver uma enorme pescada à peixeira porque não estava em condições e para isso teve de regressar no autocarro, demorar bastante tempo, e acima de tudo desestabilizar o seu ritmo de rituais cuidadosamente repetidos para que à hora do almoço tudo estivesse no ponto, nem antes, nem depois. Fiquei espantada quando ela explicou que descompôs a peixeira e que ela teve de lhe devolver o dinheiro.

Quando ela fazia os seus lendários rissóis da dita pescada fresca, da que dá boas lascas eu adorava ver, ler-lhe algum pormenor da receita que ela apesar de saber de cor, por vezes queria ouvir, ou então talvez gostasse apenas de me dar o prazer de lhe ler. Deixava-me sempre ajudar nas tarefas, do estender da massa, colocar a bolinha de recheio com uma colher, panar antes da fritura... Eu adorava estar envolvida em todo aquele processo de rigor profissional. Depois era ir para o anexo encostado à cozinha onde estava o fogareiro a petróleo para fritar os rissóis. O mais curioso de tudo era que por muito que eu tentasse e provasse, não conseguia gostar dos ditos, mas adorava estar ali.

Casa da Ilda e do Silva.jpgDo outro lado do anexo, na zona mais aberta à luz havia outra zona onde a magia acontecia, a mesa de marceneiro do Senhor Silva. Ali era um não acabar de ferramentas, plainas (a plaina corre ligeira, afaga a madeira...), as serras, os serrotes, o formão a grosa, as limas, a pua, os produtos desconhecidos, o verniz, o diluente, o viochene, ... Também ali eu nunca me cansava de escutar, perguntar e aprender e a paciência e vontade de explicar e ensinar do Senhor Silva nunca se esgotava. 

Quando me ofereceu o livro "Adeus quinze anos" nos meus quinze anos, ou quando me apresentou os livros de Lobsang Rampa sobre a sua vida no Tibete, abriu-me portas de mundos que eu desconhecia e fez-me sentir especial.   O que aprendi com ele sobre cinema fascinou-me, ele tinha acumulado durante muitos anos a tarefa de arrumador de sala no cinema para além do emprego como escriturário (Oh como era veloz a escrever à máquina, aquele som nunca se esquece) e dos trabalhos como marceneiro e restaurador de móveis. Foi naquele trabalho que ganhou o hábito de ver cinema, muitos anos depois, continuava a ir semanalmente assistir a filmes. Era a única pessoa que conhecia que o fazia.

A D. Ilda e o Senhor Silva foram enormes amigos do coração, a diferença de idades não foi nunca um obstáculo ao desenvolvimento desta profunda amizade. Hoje que nos observam lá do alto, estou certa que estão contentes por partilhar convosco este meu sentir.

IMG_1868.JPG

 

Texto escrito no âmbito do desafio 52 semanas de 2022 da Ana de Deus em que também participam:

A Ana de Deus
A Introvertida
Ana do Green Ideas
Anita Não se Cansa disto
Bruno no Fumo do seu Cigarro

Carlos Palmito
Di a Mulher
Fátima Bento
Isabel M Silva
João-Afonso Machado
José da Xã
Maria Araújo
Maria do Abrigo das Letras
Purpurina
Sam ao Luar

 

26
Fev22

Sabe sempre tão bem quando gostam do que escrevemos...

Cristina Aveiro

Venho partilhar convosco a satisfação pelo destaque que a equipa da sapo deu ao conto  No Reino Encantado dos Sapos Verdes.

Destaque - No Reino Encantado dos Sapos Verdes-26-

Sapinho.jpg

                                                                                                                                                                                                                                                     Desenho da Matilde Aveiro


24
Fev22

O banquete interrompido

Desafio do Triptofano

Cristina Aveiro

Desafio de Escrita do Triptofano-n5.jpg

Estavam felizes e celebravam a vida e os seus marcos numa festa de batizado em família. Eram pessoas de poucas posses, na sua casa humilde junto à fronteira do país vizinho do qual também falavam a língua que consideravam também sua. Viviam da agricultura e de empregos de serviços básicos aos seus compatriotas. Eram devotos e apesar de a tensão entre os dois países estar em crescendo desde há alguns anos e num ritmo mais frenético nos últimos meses queriam acreditar que tudo iria acalmar e que as razões maiores de paz e segurança iam vencer. Assim organizaram o banquete caseiro onde participaram a família e os amigos e conseguiriam brindar, cantar e dançar celebrando a vida e o batismo de mais uma criança da família. Nem as notícias da concentração de tropas nos dias anteriores os demoveram do propósito de comemorar e ter esperança na paz.

A meio da refeição o ruído dos morteiros a atingir a aldeia vizinha terminou com a festa, tudo foi deixado para trás. Apressaram-se para o abrigo subterrâneo da aldeia deixando para trás a alegria, a esperança e tudo o mais que tinham preparado.

No refúgio rezavam, abraçavam-se e continuavam a suplicar ao mundo e a Deus pela paz. O mundo assistia a tudo isto em direto. Sentados nas suas salas quentes e saboreando uma boa refeição sentiam solidariedade com aquele povo, interrogavam-se sobre o seu próprio futuro, sofriam de impotência face aos acontecimentos que os ultrapassavam.

A História repete-se e o Homem e o Mundo não aprendem!

Descubram também os textos da Marta - o meu canto, do Bruno, da Ana D., da Ana de Deus e da Maria. Querem participar? Vejam aqui como!

 
20
Fev22

No reino encantado dos Sapos Verdes

Cristina Aveiro

IMG_7176.jpg

Há muito muito tempo, agora mesmo e para sempre havia um reino diferente de todos os outros, um reino encantado, o Reino dos Sapos Verdes. Todos os habitantes do reino tinham chegado de outros lugares e reinos.

As portas do reino estavam sempre abertas para todos, os que chegavam e iam ficando, para os que iam de visita apreciar as criações e construções dos habitantes do reino.

Naquele reino distante e ao mesmo tempo visível da nossa janela, mesmo ali ao lado, os sapos eram todos diferentes, grandes, enormes, pequenos, verdes muito verdes, castanhos, amarelos, era um verdadeiro arco-íris. Havia sapos sempre a transbordar de energia, quais formiguinhas laboriosas que estavam sempre a criar e a desafiar os seus vizinhos para se lançarem em aventuras sem fim, navegarem por mares nunca antes navegados, irem a lugares onde nunca tinham ido, dentro e fora do reino, dentro e fora deles mesmo.

Havia sapos mais tranquilos, quase preguiçosos mas que com o canto e incentivo dos outros habitantes do reino ganhavam energia renovada e desabrochavam em criações magnificas que todos admiravam.

Naquele reino cada sapo era rei e podia usar  a coroa que desejasse, ou então outro qualquer adereço que melhor lhe assentasse consoante o seu sentir do momento ou a sua identidade mais permanente.

O poder de reinar levava os sapos a sentir uma liberdade enorme para criar, partilhar, desafiar, desabafar, ... enfim para encontrar mundos que tantas vezes nem sabiam que tinham dentro de si. A coragem de partilhar as suas descobertas ia aparecendo à medida que caminhavam e que o tempo ia correndo. À medida que iam partilhando e mostrando as suas criações recebiam a atenção dos outros sapos do reino e sentiam alegrias novas nunca antes sentidas. Umas vezes aplausos, outras encorajamento e consolo, e outras silêncios que também existem e têm a sua função. Com o tempo, e com a atenção recebida iam percebendo a importância que tinha para si e davam também a sua atenção aos restantes e retribuíam o que iam recebendo, chamavam abraços a este modo especial de viver no reino.

Podem pensar que um lugar assim não existe, não é real.

Posso garantir que este lugar existe, pode ser difícil de encontrar, mas existe. Para encontrar este lugar é preciso procurar dentro e fora de nós de coração aberto e agarrando aquele pedaço de coragem que é preciso para sair do lugar onde sempre estivemos.

  

 

 

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